SAVE ME
Capítulo 14. Fuga?!
Tenso, Kai viu Yune inclinando-se para tirar a corrente de seu tornozelo, a chave em sua mão. Era a hora, sua oportunidade, talvez a única.
A bandeja ainda estava ali, ao seu lado, bem ao seu alcance.
"Única chance, Yutaka. Você precisa fazer isso."
Em um movimento rápido, aproveitando a distração de seu algoz, fechou a mão no utensílio e sem pensar muito puxou o objeto, golpeando-o com toda a sua força. Uma exclamação de dor e surpresa deixou os lábios do homem, antes que este fosse ao chão, inconsciente.
"Céus! Será que eu o matei?" perguntou a si mesmo ao perceber um pouco de sangue no rosto de Yune, por causa de seu golpe.
Trêmulo, deixou cair a bandeja, que foi ao chão num barulho alto e o tirou do transe em que estava. Com dificuldades, encontrou a chave para soltar seu tornozelo, mas não conseguia controlar as mãos que tremiam. Quando o fez, sua preocupação foi procurar algo mais nos bolsos de Yune, e com isso percebeu que ele estava apenas desmaiado. Seria apenas uma questão de tempo até que acordasse. Precisava correr e assim o fez.
Quase tropeçando nas próprias pernas, desacostumadas àquele exercício, subiu as escadas mantendo um precário equilíbrio. Alcançou o corredor estreito, tateando as paredes, como se não pudesse enxergar, e os outros degraus que o levariam até o alçapão.
Velocidade, pressa. Yutaka não tinha tempo para pensar em planos de fuga. Não tinha tempo hábil e nem cabeça. Seu único ato foi o de trancar a segunda porta e fechar bruscamente a passagem para a sala.
"A porta!" quase gritou para si mesmo, correndo até ela e puxando a maçaneta para abri-la. Não conseguiu. Trancada.
Seus olhos percorreram rapidamente o lugar, em busca de qualquer canto onde pudesse haver chaves. O tempo que demorou para fazer isso lhe pareceu incrivelmente longo, embora não mais que alguns segundos. As mãos trêmulas agarraram um chaveiro onde havia uma única chave, mas seus olhos pairaram sobre um pequeno painel preto com letras verdes.
Sistema de segurança, uma cerca elétrica.
Uma cerca elétrica? Se fosse verdade, jamais conseguiria sair dali!
As mãos trêmulas tentaram digitar qualquer coisa, na esperança de que o aparelho lhe desse qualquer tipo de instrução sobre o que fazer.
"Digite sua senha", dizia as letras que apareceram no visor. Oito pequenas lacunas, oito números. Suas chances de fuga, todas naquele visor de letras verdes.
Oito números. Poderia ser qualquer coisa. Uma combinação aleatória, uma seqüência de loteria... uma data.
"Datas!", pensou Kai, desesperado. Só podia ser isso!
E sem saber muito que fazer, tentou se lembrar de tudo que podia saber sobre Yune. Tinha de haver alguma coisa, afinal passaram muito da vida juntos. E sua mente era boa no que dizia respeito a datas. Dificilmente esquecia o aniversário de alguém.
"Aniversários..."
Seus dedos fizeram todas as combinações possíveis e imagináveis a serem elaboradas em quinze segundos. Tinha de ser rápido, não podia perder tempo. Era uma questão de segundos. Yune podia já ter acordado, podia já estar nas escadas e certamente a porta não lhe seria um obstáculo por muito tempo.
Precisava de todos os segundos que pudesse conseguir.
Não, não eram aniversários, nem números de documentos. Era outra data, tinha de ser outra data! Tinha de ser algo que pudessem ter em comum.
Dia de mudança para Tóquio... primeiro dia de aula na Universidade... o surgimento da banda... não era nenhuma delas.
"O que pode ser?! Pense, Yutaka! Pense!" quase gritava para si mesmo.
Uma provável resposta veio no que mais pareceu ser um lampejo de luz. Era sua única alternativa.
O dia em que se conheceram, quando se tornaram vizinhos.
Números digitados, combinação aceita.
Um sorriso quase chegou ao seu rosto. Quase. Não havia tempo pra isso. Simplesmente pegou o chaveiro que encontrou e abriu a porta, deparando-se com um grande obstáculo para qualquer plano que tivesse.
Frio, neve, vento.
Não tinha roupas para enfrentar aquele clima. Vestia apenas o que parecia ser um pijama, de tecido fino.
Recuou alguns passos, assustado e disposto a procurar algo que pudesse levar, um casaco talvez... mas olhando ao seu redor, não encontrou nada.
Barulho... passos ou algo parecido. Yune.
Não havia mais tempo, precisava arriscar.
"Vá!" foi essa a ordem que obedeceu, sua própria voz ecoando em sua mente. Sua pernas obedeceram a ela.
Correu, apenas isso. Não havia mais nada a ser feito. Apenas correr.
Porão
Dor. Foi o que sentiu assim que abriu os olhos. Descobriu-se jogado no chão, aos pés da cama. Uma bandeja estava caída ao seu lado, justamente aquela que usava para levar as refeições para Yutaka.
"Yutaka..."
Levantou-se rapidamente, e descobriu a corrente solta, e a cama vazia.
Sentiu algo escorrendo na lateral de sua cabeça. Sangue, seu sangue. Nada que o assustasse. A dor existia, mas não era suficiente para impedi-lo de levantar e fazer o que deveria ser feito.
Subiu os degraus, encontrando a porta do porão aberta, mas não era o caso da segunda.
"Trancada..."
Sequer fez esforços para arrombá-la. Apenas retirou uma outra chave escondida dentro do tênis. Uma garantia em caso de emergência. Uma precaução que não foi descabida.
Chegou até o alçapão e de lá até a sala, descobrindo a porta aberta e a neve entrando no cômodo devido o vento forte. Indo até o monitor do sistema de segurança, descobriu que a cerca elétrica fora desarmada.
"Muito esperto" pensou, quase orgulhoso ao notar que não houve sinal de estragos ou sabotagem. "Não é tão distraído quanto dizem".
Correndo até o quarto, buscou seu sobretudo e uma manta felpuda. Estava congelando lá fora e certamente Kai estava apenas com a roupa do corpo.
Precisava encontrá-lo logo, ou ele poderia morrer por causa do frio. Não sabia por quanto tempo esteve inconsciente, mas sabia que o moreno não devia estar muito longe. Os sedativos já deveriam estar fazendo efeito.
Pegou as chaves de seu carro, também escondidas e foi até a garagem. Fosse como fosse, estava sempre um passo a frente. As pegadas o levariam até ele.
Lá fora...
Branco, tudo branco. Branco, cinza e negro. Era tudo que Kai conseguia enxergar.
Neve, vento e frio. Estava congelando. Sentia a pele queimando em contato com o gelo, assim como suas roupas já úmidas. Primeiras percepções da liberdade, mas não se permitia qualquer espécie de desfrute ou reclamação.
Apenas corria, nem que fosse aos tropeções, ignorando todos os indícios de mal estar. Seu único pensamento era correr, mas suas forças diminuíam à medida que não sabia onde estava ou que direção deveria seguir para chegar a algum lugar.
Não havia nada ao seu redor. Nem casa, cabana, estradinha ou bar. Não havia nada. Apenas neve e árvores de galhos quase mortos.
Suas pernas queimavam, pesando o que mais parecia ser uma tonelada. O mesmo poderia dizer sobre sua respiração. Ofegante, dolorosa. Algo que parecia piorar a cada passo.
Seu coração batia forte e rápido. Seu corpo estava no estado máximo de alerta, pronto para reagir a qualquer coisa embora o medo fosse sua fonte de força para continuar a corrida frente a obstáculos que pareciam ser muito maiores.
Fraqueza, tontura, respiração difícil. O ar queimava em seus pulmões, fazendo-o gemer de dor apenas por inalar.
Fome. Seu estômago estava vazio. Náusea, a bile queimando em sua garganta. Os olhos ardendo pelas lágrimas que riscavam sua face. Desespero crescente: sabia que não ia agüentar muito tempo.
Sentiu as pernas perderem as forças, o corpo desabando sobre a neve, maculando o branco que lhe era típico com o marrom da terra. Um soluço de desespero deixou seus lábios enquanto tentava engatinhar, continuar a caminhada, levar aquela fuga a diante mesmo sabendo que não ia conseguir. O instinto falando mais alto, ultrapassando qualquer certeza.
"Você não pode parar, Kai! Não pode ficar aqui!" sua própria voz ecoava em sua mente, aos gritos, tentando intimidar a si mesmo, convencer-se a ultrapassar os próprios limites e levantar-se.
Tentou reerguer-se, mas seus braços não suportaram a tentativa, fazendo-o cair. Sem alternativas, porém não estava disposto a ceder: rastejou, num ato que durou apenas alguns segundos.
Soluços de choro e ofegos desesperados deixaram seus lábios. Deitado, olhou para o céu, sentindo os flocos de neve caindo em seu rosto, sentindo tudo a sua volta parecendo entorpecer. Em seus pensamentos, apenas as certezas imediatas, a media em que tudo parecia nublar.
Tudo ia acabar, de uma forma ou de outra.
ooOOoo
