Somente eles entendem a si mesmos,

Como somente Almas entendem Almas.

-Walt Whitman

Estavam de pé perante Voldemort. Não era a costumeira sala com a longa mesa que ele usava para as reuniões; aquele aposento era mais parecido com um salão real sombrio, empoeirado e simples, onde havia somente uma poltrona alta encostada na parede oposta à porta e um tapete gasto no chão; a luz fraca do local provinha de um candelabro adornado no teto. Apesar de a casa ficar em campo aberto e o sol forte do verão ainda radiar no céu lá fora, as janelas jamais eram abertas, fazendo tudo ficar abafado e quente. Valkiria brilhava em gotículas de suor que volta e meia escorriam por sua fronte e sua nuca sob respirações descompassadas, visão que Augustus evitava a todo custo. Não só seria impertinente deixar emanar os tipos de sensações provocadas por aquela visão na frente do Lorde das Trevas, como há algumas semanas o irlandês fazia exatamente aquilo que mais detestava, mas era a única saída para tentar apaziguar um pouco a mente: ele fugia, tal qual a loira costumava fazer.

- Vocês estão fazendo um bom trabalho, pelo que vejo. – O homem viperino falou finalmente de sua poltrona, depois de analisar as páginas do Profeta Diário que listavam algumas resoluções recentes do ministro Bagman em relação à guerra, todas obviamente "sugeridas" pelos seus Comensais.

- É uma honra, milorde...

- Não chamei vocês aqui para elogiar, Valkiria, a menos que prefira receber o que lhe é devido em palavras. – Ele a interrompeu, porém a loira permaneceu firme, despertando um sorriso torto e quase imperceptível nos lábios finos de Voldemort, que prosseguiu: - Tenho uma missão um pouco mais complexa para vocês: Hogwarts.

Rookwood dirigiu o olhar por um ínfimo momento para ela, que permanecia impassível e rígida, sem esboçar reação alguma. Logo a voz fria e controlada do Lorde se fez ser ouvida novamente, cortante:

- Existem alguns decretos que podem ser abertos para que o ministro exerça sua autoridade sobre a do diretor, acredito?

- Existem, mas seria necessário ter um bom pretexto para não levantar suspeita. – Valkiria respondeu, respeitosa. – Um ataque, talvez...

- Um ataque dá pretexto para encher Hogwarts de aurores, Adler. – Augustus falou, enquanto refletia, conquistando o primeiro olhar da loira naquele dia. - Seria necessário abalar a credibilidade de Dumbledore para podermos intervir politicamente.

- O que a senhorita sabe sobre a derrota de Grindelwald, Adler? – Voldemort pôs-se de pé e se aproximou dela, olhando-a fixamente nos olhos, que continuaram inexpressivos. Parecia ter conduzido a conversa até então para chegar exatamente naquele ponto. – Seu avô e seu tio foram os maiores patrocinadores dele na época, não estavam ao seu lado quando aquilo aconteceu? Não há nada que possa ser usado contra Dumbledore?

- Perdão, milorde, mas apenas sei o que Korbinian compartilhou comigo, e deve ser o mesmo que ele já contou detalhadamente para o Senhor.

- Korbinian sim... – os dedos longos e brancos de Voldemort se esticaram até o ombro dela, de onde ele puxou um longo fio de cabelo loiro que parecia andar observando há mais tempo. Valkiria permaneceu impassível, enquanto ele se afastava com o fio na mão. – Koloman não. Sabe, Valkiria, você é muito parecida com a sua mãe, o mesmo cabelo, os mesmos olhos...

- Klarissa era mais bonita. O sorriso dela era mais sincero que o meu, dizem. – A loira admitiu, ainda assim estranhando o rumo pessoal que a reunião tomava.

- Se Valeria tivesse sobrevivido, talvez hoje ela fosse a herdeira desse gênio tão delicioso que sua mãe tinha. O gênio, o talento... você nunca se perguntou como seriam as coisas hoje se a sua família não tivesse sido destruída?

Rookwood olhava agora temerariamente para Valkiria, intrigado em presenciar aquilo. Ela engoliu em seco, a única reação humana que tivera desde que aparatara com ele no exterior da casa para o encontro. Voldemort, que retornara à sua poltrona, agora fazia o fio de cabelo dela levitar perante ele e se multiplicar, logo tendo uma mecha perfeita de cabelos loiros-avermelhados, ondulados, cheirando tão forte a lavanda que o irlandês podia sentir de onde estava.

- Às vezes a destruição é necessária, milorde. Cria espaço para as pessoas reconstruírem as coisas da maneira correta. - Ela conseguiu responder com firmeza, fazendo Augustus sorrir disfarçadamente. A loira não poderia traduzir melhor as ideias dele, que também tivera a família dizimada.

- Eu não acho que o seu avô iria gostar de ouvir você falando isso... – Voldemort tocou levemente mecha na própria face, cheirando-a como se fosse uma flor, antes de fazê-la desaparecer e voltar a falar, com o mesmo tom estranho e pessoal: - Eu gostaria de ter conhecido Klarissa melhor. Pessoa encantadora, ela era.

Valkiria se remexeu de forma desconfortável e procurou o olhar de Rookwood por um momento, que respondeu com a sobrancelha erguida, a intriga prevalecendo.

- Você irá tirar do seu avô tudo o que ele sabe, Valkiria. Sei que você é especialista nesses ardis... – Voldemort olhou de maneira significativa para ela. - Falando nisso, desfaça o que você lançou em Rookwood, eu sei que a senhorita já tirou tudo o queria dele, não entendo por que mantém a ligação feita e, especialmente, não aprecio a personalidade dele assim.

Augustus cerrou o punho, então ela realmente havia feito algo com ele, e tirado algo dele, algo que ele não tinha ideia do que poderia ser.

- Ora vamos, Rookwood! Acha que alguém te ofereceria algo tão gratuitamente sem querer algo em troca? Especialmente uma mulher! – Voldemort riu, sabendo perfeitamente o que o homem pensara. - Ande, Valkiria! Faça isso logo, temos mais a conversar!

A loira caminhou para frente de Augustus com simplicidade, levantando a mão direita e pressionando os dedos indicador e médio entre seus olhos, enquanto a mão esquerda repetiu o gesto abaixo, bem no meio de seu esterno; era magia cerimonial, fora feita e seria desfeita sem varinha. Aqueles toques provocaram um frio em sua barriga, apesar de estar racionalmente com raiva da mulher, o prazer que aquela proximidade provocava era demasiado. Ela murmurou com a voz aveludada, atenciosa:

- Olhe nos meus olhos.

Ele obedeceu prontamente, tendo que segurar a vontade de abraçá-la, mantê-la perto de si. Que diabos era aquilo? Os olhos azuis invadiam os seus castanhos, de forma apreensiva, como se estivesse adentrando em terreno hostil.

- Sophrosyne.– Ela falou por fim com firmeza, a palavra parecendo reverberar várias vezes na mente dele.

Foi pior do que mantê-lo intoxicado. Rookwood sentiu a respiração falhar, a pressão sanguínea cair drasticamente, a visão turvar até que a imagem de Valkiria se tornasse uma mancha colorida indefinida perante seus olhos, e então tudo ficou negro.

.

Não acreditou quando abriu os olhos pela terceira vez e conseguiu definir a imagem que estava à sua frente: o dossel da cama da mansão Rookwood. Ou Adler. Ou Reiniger, não sabia ao certo; não sabia de absolutamente mais nada. Sentia-se completamente vazio por dentro, todo o êxtase que pesava seu coração e toda a paixão que fervia seu sangue havia se esvaído com a palavra mágica proferida por Valkiria. Nem mesmo ódio por ela conseguia sentir, naquele momento em que apenas luzes azuladas velozes invadiam o quarto vez ou outra através da janela de cortinas revoltosas, noite de ventania.

Lembrou-se de que a mansão ficava relativamente perto da costa, e quando era pequeno, costumava ser levado pela avó para ver o mar que dividia a Irlanda do País de Gales e da Inglaterra. Ela explicou-lhe que para pessoas como eles, aquela distância não significava nada: chegaria o dia em que, de pé sobre aquelas mesmas rochas, ele apenas fecharia os olhos e construiria a imagem mental de estar onde quer que desejasse estar, como Londres, e no segundo seguinte estaria exatamente onde imaginara. Tempo e espaço podiam ser facilmente controlado pelos bruxos. Augustus queria estar naquelas rochas, sentindo a liberdade e a onipotência que a avó lhe convencia que tinha, perante o ar salgado do mar batendo violentamente contra seu corpo.

Sentou-se na cama, não sentia nenhum incômodo físico. Por que fora levado para lá, como se estivesse aos cuidados da alemã, se sentia-se completamente são – apenas vazio, mas são? Pôs-se de pé, estava exatamente com a mesma roupa que estava antes de perder a consciência, só que sem os sapatos. Riu pensando na loira retirando-os como uma mulher submissa, como queria estar acordado para ver aquilo, e percebeu, então, que não estava tão vazio. Caminhou até a janela aberta, havia algumas nuvens no céu sendo riscadas por raios e aquilo só aumentava sua vontade de ir até o mar, ver de perto as águas revoltando-se pelo temporal. Passou a procurar os sapatos para sair logo dali quando Ziggy aparatou no quarto de repente, equilibrando um vidro de poção com uma taça sobre uma bandeja de prata. O elfo olhou rapidamente para o hóspede e logo depositou a carga sobre o criado-mudo.

- Onde está sua senhora? – Rookwood perguntou, porém recebeu apenas mais um olhar rápido como resposta, antes do elfo desaparatar com um estalo.

- Ziggy não fala. – Valkiria, que parecera aparatar no quarto no exato momento em que o elfo saíra, falou anunciando a própria presença. – Não perca seu tempo lhe fazendo perguntas.

Não estava com um vestido tão fino e vulgar quanto da primeira vez em que a vira ali, nem com as capas pesadas que costumava vestir no dia a dia ou os elaborados trajes de gala que usava em ocasiões. Estava simples, com um longo penhoar azul marinho e leve amarrado na cintura. Pela primeira vez parecia morar ali, estava à vontade, ao natural.

- A senhorita deve guardar muitos segredos aqui para ter um elfo mudo. – Augustus sorriu debochado, aparentemente voltando ao normal.

- Eu não gosto de ficar ouvindo lamúrias e aporrinhações élficas, só isso. – Ela respondeu, calmamente.

A mulher caminhou até a bandeja que acabara de ser deixada sobre o móvel e serviu cuidadosamente um pouco da poção na taça, o braço direito tremendo levemente perante o peso do frasco enquanto ela observava o líquido caindo e parando quando atingiu a medida correta. Aproximou-se dele com a taça na mão, colocando-se de frente, próxima novamente, e pousou a mão livre inteira em sua testa, como uma enfermeira medindo a temperatura.

- O que está fazendo? – Ele segurou a mão dela pelo pulso, afastando-a de si, mas sem soltá-la. Lançou um olhar questionador, não a deixaria fazer nada sem explicar o propósito primeiro. Tentaria, ao menos.

- O Lorde ordenou que eu te trouxesse ao normal, é isso que estou fazendo. Beba. – Ela esticou a taça para ele com a mão livre.

- E como eu vou saber se posso confiar em você agora?

- O Lorde das Trevas foi bastante enfático em relação a isso, Rookwood, eu não irei fazer nada para desagradá-lo.

Ele observou-a com desconfiança, enquanto ela permanecia com a taça estendida para ele, firme e sem titubear. Augustus largou seu pulso e pegou, por fim, o objeto de sua mão, obedecendo, bebendo o conteúdo, que por incrível que parecesse, era extremamente doce e agradável.

- Que poção é essa? – A desconfiança dele aumentou perante o gosto.

- Ela não é muito popular na Bretanha, Rookwood, nós chamamos de Água de Urdar, é apenas um tônico que ajuda a proteger os corpos etéreos da influência externa. Eu estive te manipulando por muito tempo, vai precisar tomar isso até se fechar completamente.

A normalidade com a qual ela falava aquilo quase o convencia de que o assunto era casual. Quem diabos ela pensava que era? Seria um pouco mais enfático também, apesar da calmaria contínua em seu peito. Novamente a pegou pelo pulso, dessa vez com um pouco mais de força, fazendo seu corpo pequeno se chocar contra o dele, o cheiro de lavanda invadir-lhe os pulmões.

- Agora você vai me explicar direitinho tudo o que você fez. Eu tenho o direito de saber, não é mesmo?

- E o que você pensa que te dá esse direito? – Ela o questionou com uma calma cínica, olhando-o atrevidamente nos olhos, próxima demais.

- Você não acha que as coisas que eu sei sobre a senhorita me dão algumas prerrogativas interessantes? – O sorriso canalha brotou em seus lábios, e ele passou a mão livre pelo queixo dela em um carinho tão cínico quanto a calma dela.

- O senhor está blefando... – ela falou, porém desviou o olhar para baixo por milésimos de segundo, respirando fundo. Não estava mais tão segura.

- Vem cá, Valkiria... – o sorriso se abriu mais, abraçando-a, aproveitando-se do sinal que ela dera. A loira não evitou o toque, mas também não retribuiu, e continuava desviando o olhar compulsivamente. Augustus embrenhou a mão pelos cabelos dela, prosseguindo com uma ternura cafajeste: – Eu estava pensando em ver o mar antes de você chegar, por que não vem comigo e a gente conversa? Seria um evento miraculoso, não? Eu e você conversando... – ele riu sozinho com a visão.

- É uma péssima ideia ficar perto do mar no seu estado, tem muita Ondina[1], você sabe o que elas fazem...

- É noite de ventania, Adler, as Sílfides[1] estão varrendo o ar afora até as águas. Ademais, duvido que você não saiba como controlar elementais. Hum? – Ele procurou o olhar dela, com uma expressão suplicante.

Valkiria suspirou. Ele estava tentando jogar com ela, mas ainda assim... ela mirou-o com firmeza agora, e sem falar nenhuma palavra, aparatou com ele até a costa. O meio de transporte dessa vez causou alguma tontura em Rookwood, no entanto, quando viu sua sugestão realizada, ele soltou-a e sorriu, olhando em volta, admirando como tudo ali sempre estava igual, exatamente igual há mais de vinte anos. A alemã precavida começou a traçar um círculo com a varinha em volta deles e murmurar alguns feitiços de proteção enquanto o homem se deslumbrava com o ambiente, observando o vento atiçar o mar revoltoso.

- E então, Rookwood? – A voz dela ressoou atrás dele, apesar da leve petulância, ela estava mais dócil do que o normal.

E mais bonita do que o normal, os cabelos soltos também revoltosos contra o vento, o penhoar colando em seu corpo, delimitando-o de maneira sutil, deixando entrever parte das pernas ao levantar-se. A cor do traje misturava-se com o da noite azulada; o brilho noturno parecia fazer seus olhos escurecerem, aprofundarem. Estava tão sensual aos olhos dele que o irlandês não resistiu aproximar-se e tomá-la nos braços de um modo diferente, o modo que sua alma, parecendo inspirar-lhe tão próxima aos ouvidos, pedia.

- O que está fazendo? – Ela não resistiu, mas olhava-o como se fosse um louco.

- Dançando, Adler! – Ele conduzia-a em silêncio e com certa maestria, parecendo divertir-se, com aquele sorriso nos lábios enquanto girava-a em seus braços e levava-a consigo.

- Mas não tem música, não... você não queria conversar? – Apesar de sucumbir ao sorriso, ao magnetismo tentador do homem, todas as suas ações desde que despertara estavam confundindo a cabeça dela. Será que ela lhe causou algum dano sem perceber?

- Pare de tentar raciocinar só um pouquinho, tudo bem? E então poderemos ter uma conversa decente, sincera... – ele firmou o corpo dela no seu, sentindo-a encostar a cabeça no peito dele, talvez tentando ceder ao pedido.

Augustus guiava-a com leveza, seguindo os sons do mar e dos trovões como se fossem uma sinfonia lenta e grave, mansamente sentindo as formas firmes do corpo dela apertadas contra o dele, seus movimentos, seu calor, seu cheiro. Sorriu com mais calma agora - tudo estava mais calmo agora, e apesar do surrealismo da situação e da impossibilidade de sua repetição, ele estava realmente grato. Podia senti-la sem desespero e sim, desejava senti-la. Desejava poder conversar com ela em paz afinal. Sabia que deveria estar sentindo raiva, deveria detestá-la, crucificá-la, manter-se longe de todas as formas, mais de uma vez ela manipulara-o, invadira sua mente e sua alma, seu orgulho, sua casa, com o ardil de uma serpente. Mas naquele momento aquilo apenas era intrigante, apreciável, um mistério a ser dominado e compreendido. Se Valkiria tivesse pedido licença para tudo jamais teria sido tão interessante.

- Nós temos gostos muito semelhantes, não é mesmo? – A voz dela ressoou de forma vaga, como um pensamento alto. – Mesmo com o seu hedonismo, você gosta de desafios tanto quanto eu.

- Foi por isso que você me manipulou tantas vezes? – Ele encostou a cabeça na dela calmamente, cerrando o abraço, agora permanecendo apenas de pé com ela sobre a rocha, movimentando-se levemente para lá e pra cá. Aquilo havia deixado de ser um jogo há algum tempo. – Você tentou me dominar, me controlar... não consegue conviver com alguém tão parecido, não é mesmo? – Ele riu com um deboche leve, mais como um contentamento por aquilo.

- Você sempre fez o mesmo comigo, só que de maneira menos... invasiva. – ela também sorriu, pela primeira vez na noite, e ao perceber isso, Augustus inesperadamente girou-a e deixou seu corpo pender e quase chegar ao chão, amparado, no entanto, pelo braço firme dele.

- Seríamos uma dupla e tanto, não acha? – Ele a manteve ali, com os olhos fixos no dela, vendo a surpresa inicial se tornar confiança aos poucos.

- Já somos. Os melhores estrategistas entre os Comensais... – ela esboçou um sorriso, tão simples que Augustus lembrou-se da conversa que presenciou há algumas horas sobre a família dela. De fato, se ela sorrisse mais daquela maneira, como supostamente sua mãe sorria, as pessoas veriam como podia ser bela.

- Posso deitá-la, com todo o respeito, Srta. Adler?

Ela estava leve nos braços dele, o céu que se abria além, com pesadas nuvens cinzentas descarregando-se sobre o mar, era tão sem limites que ela se sentia um pouquinho daquela maneira também. Fez que sim num gesto simples com a cabeça, e ele deixou seu corpo tocar a grama úmida, deitando-a completamente antes de se deitar um pouco mais bruscamente ao lado dela.

Os dois permaneceram em silêncio por longos momentos, os olhares perdidos no céu acima, e o único som que se ouvia era das águas que agora repousavam numa trégua dada pelo vento. A mão de Valkiria procurou com naturalidade a mão dele, entrelaçando seus dedos e apertando-os com força. O gesto singelo, ainda assim significativo, gerou um arrepio na espinha de Augustus. A alemã murmurou depois de algum tempo, quebrando o momento contemplativo:

- Está frio...

- Venha cá. – Ele se virou e tomou o corpo dela, fazendo-a deitar-se sobre ele, protegendo-a do contato com o chão.

Seus olhares se encontraram e se fixaram, o cabelo dela tocando-lhe de leve o rosto sem incomodá-lo, porém. Não conseguia se afastar, não conseguia deixar de querer aquele calor, aquela sensação, o maldito cheiro tão virginal de lavanda... supostamente ela desfez o que o havia deixado louco nas últimas semanas, no entanto o sentimento estranho sobre ela prevalecia.

- O que você fez comigo, Valkiria? Não foi nenhuma forma de magia comum, eu sei, eu teria percebido... nem Amortentia ou alguma outra poção do amor, definitivamente, eu...

Os olhos azuis pareceram exigir silêncio de repente, e ele cessou a fala automaticamente.

- A maneira como você se sentiu não foi um fim, foi uma consequência. A... relação carnal, Augustus, abre muitos canais entre as pessoas, a maioria ignora, até mesmo os bruxos, o que é uma vergonha. Quem sabe se aproveitar disso faz o que quiser com o outro... – ela suspirou e desviou o olhar, percorrendo com a mão no peito dele, já prevendo a próxima pergunta:

- E o que exatamente você fez comigo? O que você tirou de mim, que o Lorde comentou?

- Eu posso te explicar como eu operei, mas não posso te falar o que eu consegui. Voto Perpétuo, sinto muito.

A mão dele envolveu a dela e trouxe-a até os lábios, depositando um beijo singelo nas pontas de seus dedos. Valkiria interpretou aquilo como um sinal de compreensão, apesar de ter considerado algo muito fácil. Nada naquela noite fazia sentido, de todo jeito.

- Deixe-me adivinhar... você se aproveitou do sono, não foi? Adentrou os campos astrais e operou diretamente deles, como se fizesse um Imperius e um Legilimens direto no meu subconsciente, por meio de um sonho ou algo assim... engenhoso, mocinha, engenhoso... nunca pensou em usar isso como arma?

- Claro que já, mas é mais efetivo quando há... bem, eu não sou uma prostituta, não faça uma ideia errada, não em relação a isso, apesar de Scrimgeour. Eu jamais faria nada com ele, nem poderia, acho que ele não iria gostar de ver algumas marcas que possuo...

- Não faço ideia alguma, não se preocupe. – Ele falou uma meia verdade, enquanto manteve a mão dela na dele, próxima ao rosto, a outra vagando pelos cabelos loiros bagunçados. Claro que detestava o auror e tinha vontade de socá-lo sempre que via ou ouvia algum comentário sobre os dois juntos. Apesar de tudo, aquilo era quase uma confissão de fidelidade, desnecessária, mas muito bem vinda. – Escute... sobre o que eu senti, você também...

- Atração, simpatia... – ela respondeu, novamente sem deixar que ele terminasse a pergunta. – Temos muita coisa em comum, sim, muita coisa compatível, eu vi em seu inconsciente. Às vezes é difícil de ser ignorado. Isso te deixou tão fora de si porque você estava completamente aberto a mim, gerou uma espécie de húbris, paixão... por isso ficou tão visível. Agora está moderado, o que você sente agora, da maneira como sente agora, é talvez o mais sincero, o mais próximo do real. – Ela concluiu, e ele não pôde deixar de notar que ela enrubescera, como se estivesse se dando conta de algo novo e embaraçoso.

- E você? – O homem insistiu.

- Eu sempre fui senhora e responsável por tudo o que eu senti e fiz, Augustus. – Os olhos de Valkiria percorreram seu rosto por um momento, antes dela se inclinar e beijar os lábios dele, com calma, sem pressa, fazendo uma sensação de fato bem diferente do desespero fluir entre eles. Pesadas gotas de água gelada começaram a açoitá-los sem que pudessem separá-los, pelo contrário, só faziam seus corpos se juntarem com mais força, como se pudessem proteger um ao outro para prolongar o momento.

E era bom.

.

Estava agarrado a algo muito quente, macio, delicioso, com um cheiro terrivelmente bom. Apertou-se um pouco mais naquilo, não queria acordar, não queria se soltar, jamais queria ir embora. Valkiria se remexeu em seus braços, que quase sufocavam-na, fazendo-a despertar um pouco mais decidida do que ele, mas não menos morosa. Depois de alguns movimentos mansos sob os lençóis, a voz da alemã ressoou rouca e tranquila sob o dossel, obrigando-o a sair do estado letárgico também:

- Guten morgen[2]... – ela se virou parcialmente, a mão esquerda subindo e procurando-o, embrenhando-se de leve em seus cabelos bagunçados, trazendo-o para si para depositar um beijo ocioso em seu rosto.

As feições dela estavam amenas, avermelhadas pelo sono, os olhos cerrados pela luz e pela falta de foco. Estava linda para ele, a camisola desmazelada, os cabelos desordenados, e ainda assim parecia bem, feliz, carinhosa. Merlin, ele se regozijava por ela estar sorrindo sinceramente! Não seria algo fácil de aceitar para si mesmo, mas naquele momento ele era um poço de tranquilidade.

- Bom dia, pirralha! – Augustus respondeu, com a voz ainda mais rouca, trazendo a mão dela para os lábios, beijando-a inúmeras vezes e fazendo-a roçar em sua barba por fazer. Valkiria riu e se deixou ficar ali, em moleza matinal.

Os olhos dele perceberam que seus braços esquerdos estavam juntos; voltadas para ele estavam as duas Marcas Negras, idênticas e unidas. Aquilo selava algo tão importante que sequer esboçou nenhuma reação, não queria ter que transformar em palavras a sensação caso ela perguntasse. Por mais que ele tivesse motivos para detestá-la e desconfiar dela a cada momento, Valkiria havia dado a ele algo que há muitos anos não possuía: cumplicidade, liberdade; ele pôde ser quem era de fato, e foi muito bem aceito. Quando a tempestade começou a cair mais pesado eles voltaram para a mansão e conversaram longamente durante a noite sobre vida e morte; guerra e paz; quadribol e leprechauns. Entre a alegria do encaixe ideológico, o físico se realizava com naturalidade e Augustus riu com ela tão sinceramente quanto jamais rira numa mesa de jogo, ainda que falasse e risse demais. A mulher, que cansava de ostentar aqueles dentes brancos e perfeitos em sorrisos políticos, dera a ele a visão de várias expressões de real contentamento. E na manhã seguinte ela não o estava repelindo, nem manipulando-o ou alterando sua memória. Estava, sim, ronronando de preguiça em seus braços.

Ele ainda poderia estar sonhando, ou poderia ter alucinando desde que desmaiara na presença de Voldemort, sim, era uma boa explicação. Estava sendo punido por algo, logo a mulher se transformaria em um dragão e lhe devoraria vivo. Valkiria se espreguiçou finalmente e sentou-se na cama, esticando-se para alcançar algo, o que fez Augustus ficar em alerta, sentar-se com ela e visualizar onde estava a própria varinha. No entanto, ela só fez colocar os óculos no rosto e levantar-se levemente cambaleante.

- Que horas são? – Ela saiu tateando os móveis do enorme quarto como se ainda não enxergasse direito.

Percebendo que precisava de um relógio, Augustus levantou-se e caminhou até as próprias roupas, pegando seu relógio de bolso e aproveitando para manter a varinha a postos, em todo caso.

- Está cedo ainda, falta cinco minutos para as sete... – ele falou incrédulo, queria voltar para a cama e dormir o tempo que restava até o horário de estar no Ministério. Ela, no entanto, pareceu levemente preocupada.

Estava acontecendo, ela ia se transformar a qualquer momento.

- Bem... acho que ainda dá tempo de fazer o desjejum e tomar um banho rápido... oras, Augustus! – Ela exclamou perante o olhar contrariado que ele lançou a ela. - Você não vai para o Ministério sem isso, ande!

Muito a contragosto tomou um banho inocente, muito a contragosto comeu junto com ela o café da manhã que Ziggy deixou no quarto e tomara mais uma dose da poção adocicada. Mas ele não podia realmente reclamar, estava recebendo mais do que imaginara, vindo de uma loira, a priori, azeda. Ela parecia tomar conta dele, dava-lhe atenção, outra coisa que há muito Augustus não sabia o que era.

Quando estavam perante a lareira, ela se aproximou e pendurou-se em seus ombros, sendo correspondida com um abraço e um beijo leve, nos lábios. Os olhos azuis fitaram os seus com uma preocupação mais doce agora, e ele pôde enfim concluir que ela não lhe mataria nem nada parecido - apesar de admitir que, Merlin, até o eterno suspense daquilo era excitante -, respirou fundo e se deixou enternecer pela pequena brincadeira de marido e mulher que faziam, acordando e indo para o trabalho juntos, ou quase. Nesse momento, Valkiria desviou o olhar e meneou a cabeça levemente.

– Estamos em uma guerra, cada um de nós tem um papel, não podemos botar nada em risco por causa dessas coisas... vis... há algo muito maior do que nós em jogo, Rookwood, então espero que saiba que essas coisas não se repetirão com frequência, não podem.

Ele suspirou, mas compreendeu. Sentia-se imensamente compreensível, e não conseguira ainda definir se aquilo era bom ou ruim.

- Contanto que você não volte a ser uma pirralha irritante... – ele deu de ombros e sorriu cafajeste, antes dos lábios dela alcançarem os dele mais uma vez.

Valkiria não sabia como deveria se sentir além do que seu coração sentia de fato, não estava acostumada com aqueles tipos de relações que em outras circunstâncias consideraria odiosamente melosa, mas com Augustus era simplesmente... bom. Entre todos os poréns, era bom.

Nem tudo havia sido desfeito.


[1] Ondinas e Sílfides são elementais. Tal qual Gnomos estão para a Terra e Salamandras estão para o Fogo, Ondinas estão para a Água e Sílfides para o Ar.

[2] "Bom dia...".