Capítulo 14 – Presente.
O HÓSPEDE
Assim que entrei em meu quarto, joguei a mochila no chão e caí na cama de cara no colchão. Raiva, frustração, confusão era o que eu estava sentindo naquele momento. E Patch era o único culpado de desencadear todos esses sentimentos em mim.
Geralmente eu sou considerada uma pessoa tranquila e calma, gostava de ficar convivendo em minha zona de conforto onde eu não sentia nenhuma preocupação, onde tudo era muito mais fácil. Mas de uns tempos para cá, tudo havia desandado. Eu andava mais agitada que o normal, havia gente desconhecida me perseguindo nas ruas, gente me mandando recado anônimo pelo celular. E aquilo estava me assustando e me preocupando, pois isso nunca havia me acontecido antes. E sem deixar de lado o maior causador de meus conflitos internos, Patch.
Parecia que ele havia roubado toda a minha atenção para ele. E mesmo zangada por seu comportamento ordinário e chantagista, eu havia gostado de certa forma da ideia de ir para a escola com ele, e eu me odiava por aquilo.
Patch era o tipo de cara que todos os pais repudiavam em ter como genro, e de alguma forma meu pai o adorava. Eu não entendia esse fenômeno estranho, não sabia o que Patch fizera para enfeitiçá-lo ao ponto dele o adorar tanto.
Suspirei, virando-me de barriga para cima, comecei a fitar o teto. Não sei quanto tempo eu fiquei assim, naquela posição, pois foi bastante tempo até escutar duas batidas na porta, e a cabeça de papai apareceu na fresta aberta.
— Filha?
Sentei-me na cama rapidamente, e o fitei.
— Oi, pai.
— Eu trouxe dois pratos feitos do restaurante para podermos almoçar. - ele diz com o seu tom de voz calma.
— Ah. - levantei-me num salto. - Só me dê um minuto para tomar um banho e trocar de roupa.
— Só não demore muito, se não a comida esfria.
— Tudo bem.
Ele fechou a porta antes de sair.
Depois e tomar um banho rápido e ter colocado uma roupa mais confortável, entrei na cozinha onde papai fazia um suco de abacaxi. Almoçamos, e conversamos banalidades e alguns assuntos do restaurante, que estava com uma movimentação lenta, para a felicidade de alguns garçons.
E por falar em garçom, Patch mais uma vez não tinha se juntado na mesa para uma refeição, o que só me deixava mais intrigada, pois eu nunca o vira se ajuntar a nós para comer. Mas papai logo explicou a sua ausência. Ele tinha mandado Patch pegar algumas encomendas para ele numa distribuidora de bebidas em Portland, naquela hora que ele havia o chamado e que eu pude escapar.
Depois de almoçarmos papai desceu para o restaurante e eu fiquei ali em cima arrumando algumas coisas que estavam bagunçadas. Coloquei algumas roupas sujas na máquina de lavar, e a deixei fazer o seu trabalho enquanto eu lavava alguns pratos sujos. Depois de algum tempo e de ter arrumado tudo, caminhei rumo para o meu quarto estudar um pouco quando o telefone da sala tocou.
— Alô...
Não deu nem tempo de terminar de falar, pois a voz de Vee soou em meus ouvidos:
— Sabia que eu fiquei quase uma hora ligando para seu celular que nem uma louca enquanto eu te xingava dos piores nomes por que você não atendia? — Vee deu uma pausa e depois riu sem graça. — Só depois que eu percebi que você não tem mais celular.
- Por que eu não estou impressionada com isso? - falei lembrando-me do jeito esquecido de Vee, enquanto eu caminhava para meu quarto, fechando a porta em seguida.
— Você precisa comprar um celular novo. Sabe, fica complicado te ligar no residencial. O Erick fica no telefone do quarto da minha mãe escutando nossa conversa. Sabe onde eu estou? No corredor me certificando que ele não vai entrar no quarto para nos espionar mais uma vez.
Erick era o irmão mais novo de Vee. Ele tem oito anos, e é uma fofura. Mas aquela fofura toda era ocultada na peste que ele era. Lembro-me de quando Vee e eu estávamos no residencial ano passado, nós estávamos falando de uma garota na escola, a Jéssica, que tinha ido para cama com dois caras. Um assunto pouco nojento, mas Erick estava ouvindo sem nós duas perceber. E na hora do jantar, quando o pai e a mãe de Vee estavam reunidos, Erick soltou aquela bomba, deixando Vee em maus lençóis.
— Não tenho dinheiro para comprar outro celular. - me joguei na cama. - E meu pai nem sabe que eu estou sem o meu. Ele vai ficar falando no meu ouvido por uma semana. Aquele celular é novo.
— Novo? Você o tem desde o começo do ano. Já está ultrapassado.
— O seu é do ano passado, e garanto que o meu era mais novo que o seu. – falei, olhando minhas unhas que estavam descascando.
— Não precisa jogar na minha cara que eu tenho coisas ultrapassadas que nem ladrão quer. — revirei os olhos e ela continuou: - Mas acontece que não é de mim que estamos falando, e sim de você, e do fato de você conseguir um aparelho urgentemente por que você sabe que não é seguro falarmos pelo telefone de casa.
— Sinto muito Vee, mas não sei quando vou ter outro.
— Tudo bem. Vou tentar fazer uma vaquinha, e você poderia passar a mendigar nas ruas e conseguir um dinheirinho. Vi uma vez num episódio de Os Simpsons quando o Homer ganhou dinheiro o suficiente para comprar um par de brincos de diamante para a Marge, só com dinheiro de esmolas.
Meu Deus, me dê paciência.
— Quero nem questionar o que você acabou de falar.
— É sério — ela disse, como se sua ideia de jerico fosse à ideia do século. —, eu também estou pensando em apelar para esse meio. Sabe, é um meio de conseguir uma graninha a mais.
— Fala sério, Vee.
— Tá legal, vamos mudar de assunto. Agora eu quero saber aonde a senhorita se meteu na hora da saída por que eu não a vi. E como você não foi para escola comigo, eu queria saber como você voltou para casa. Pois todo mundo sabe que você odeia caminhar, e estranhei por que você não me esperou para pegar a carona.
Umedeci meus lábios e deitada, apoiei minha panturrilha esquerda no meu joelho direito.
— Eu voltei para casa com Patch.
— O QUÊ? — a voz dela aumentou um décimo. — Você foi de carona com o Patch Gostosão naquela moto irada? Conta como foi? Estou curiosa. Conta. Conta.
Revirei os olhos, enquanto suspirava profundamente. Novamente eu era arrebatada pelas lembranças de nós dois na moto. Do meu corpo colado em suas costas. E sem perceber eu mordia o lábio.
— Ei, e ainda estou aqui! Não vai me contar? — a voz de Vee me tirou de meus devaneios.
— Eu vi você e o Scott juntos na hora da saída. - joguei um assunto diferente em cima do que era abordado. Não estava afim de falar de Patch. - Por que você não conta como foi?
Aquilo foi como um tampão para fazer Vee se calar. Sorri, pois sabia que eu tinha tocado num assunto delicado para ela.
— Por que os garotos são tão idiotas? — ela questionou de repente.
— Eu não sei. Eu não sou um garoto.
Ouvi Vee suspirar do outro lado da linha, e eu podia jurar que ela estaria revirando os olhos naquele momento.
— Naquela hora quando eu saí do refeitório — ela começou —, não deu nem alguns minutos e o vi vindo atrás de mim. Eu comecei a gritar e dizer um monte de coisas. Eu estava com tanta raiva dele, até que ele...
Sua frase morreu. Franzi meu cenho, pois eu sabia que alguma coisa havia acontecido.
— Até que ele o quê? - a incentivei. Eu tinha que admitir que estava muito curiosa.
Ela hesitou um pouco antes de dizer:
— O Scott me beijou.
— O quê? - sentei-me na cama de supetão. - Scott Parnell te beijou? Agora pode contar os detalhes.
Vee suspirou do outro lado da linha.
— Ele me agarrou, e... e nós nos beijamos.
— E depois?
— Depois eu comecei a bater nele novamente, depois que nos separamos, mas ele me agarrou de novo. — sua voz estava pouco alterada. - Nora, foram dois beijos. Dois beijos!
— E aí? Você gostou? - perguntei, sentindo a euforia de ver que Scott havia tomado uma decisão, pois isso só consta que ele tem algum sentimento pela minha amiga.
— Sei lá... eu acho que sim... mas eu não quero me iludir e nem ficar pensando muito. — ela deu uma pausa. — E nós duas sabemos que Scott é um verdadeiro galinha. E não podemos deixar de mencionar que ele estava com a Mercie antes de nós entrarmos de féria. Cara, a Mercie! Isso é difícil para meu estômago digerir, sabe que eu odeio aquela garota.
- Mas você também deveria considerar a hipótese dele está gostando de você. - mencionei. - Ele foi atrás de você depois que brigaram no refeitório. Isso pode dizer alguma coisa.
— Eu sei... que dizer... eu não sei de mais nada. — ela bufou. — Vamos mudar de assunto, eu já estou ficando com dor de cabeça.
— Então vamos falar da escola.
— Você está de zoa, né? - sua voz saiu quase que incrédula. — A última coisa que eu falaria é da escola, sabe que eu odeio aquele lugar.
Ficamos ainda mais algum tempo no telefone até eu dizer que eu tinha que desligar por que eu iria estudar para o teste de inglês que eu teria amanhã. Passei o resto da tarde e à noite estudando. Respondi alguns exercícios de biologia que entregaria amanhã e voltei a estudar de novo para inglês. O tempo havia passado rápido, pelo menos para mim que estava concentrada no que eu estava fazendo, até escutar pela segunda vez naquele dia alguém bater na minha porta.
Ergui meus olhos para cima, podendo ver papai entrando em meu quarto.
Que horas são? Será que era tão tarde assim? Dei uma olhada rápida para meu relógio ao lado da minha cama. 9hs e 10 min. O tempo realmente havia passado rápido demais.
— Filha?
Ele parou a um metro longe da minha cama, enquanto me olhava sentada na cama rodeada de cadernos, folhas e livros espalhados ao me redor.
— Estudando? - ele quis saber.
— Amanhã eu tenho teste de inglês.
— Hm. - ele assentiu. - Você já comeu?
— Estou sem fome. - ele franziu o cenho levemente. - Mas eu comerei algo na cozinha antes de me deitar.
— Assim é melhor. - ele sorriu. - Bom, eu vou dar uma saída. O Ecanus está na cidade, ele foi transferido para o departamento policial de Coldwater.
— O meu padrinho está na cidade? - perguntei, sentindo um misto de alegria.
Ecanus Basso era melhor amigo de papai, e meu padrinho. Eu o adorava, não sabia distinguir o carinho enorme que eu sentia por ele, era quase comparado ao sentimento que eu tinha pelo meu pai. Ele é detetive e morava em Oregon. Tinha um tempo que eu não o via, excepcionalmente quase um ano.
— Sim. Vou me encontrar com ele num bar aqui perto. - explicou papai.
— Que saudade que eu tenho dele.
— Nós marcaremos algo aqui, e você poderá vê-lo. - sugeriu papai.
— Seria bom. - sorri.
— Não vou demorar muito, acho que antes da meia noite estarei de volta...
— Pai - o interrompi. -, não se preocupe, eu já estou grandinha para ficar sozinha em casa.
Papai sorriu enquanto balançava a cabeça.
— Tem razão. Às vezes eu penso que você é aquela menininha de dez anos.
Apenas sorri, enquanto lembranças de minha infância me vinham à cabeça.
— Então eu vou indo, e não fique muito tarde acordada, sabe que amanhã tem aula.
— Eu sei.
Ele se virou, indo até a porta e a abrindo mais do que já estava, mas virou novamente para mim.
— Patch me comunicou que dará carona para você até a escola a partir de amanhã. - ele disse. Senti meu corpo rígido. - Eu achei uma ótima ideia, já que vocês dois vão para o mesmo lugar. E você não vai mais precisar de sempre ficar pedindo para Vee vim até aqui te buscar.
— A Vee não se incomoda de me pegar. - disse, medindo o tom de minha voz.
— Eu sei filha, mas ás vezes fica chato. - ele suspirou. - O restaurante está dando bons lucros, e dá para ajuntar um dinheiro e comprar um carro para você mais para frente.
Senti meus olhos brilharem naquele momento. Um carro? Para mim?
— Você... você está falando sério? - perguntei, não conseguindo esconder o sorriso que se abria em meu rosto, enquanto eu levantava da cama e parava em sua frente que nem uma criança que está preste a ganha um brinquedo.
— Sim. - papai riu com o meu jeito totalmente infantil, enquanto eu o abraçava forte, explodindo de animação.
— Um carro? - ergui meus olhos para cima me sentindo afobada. - Quando?
— Calma filha, eu estou ajuntando o dinheiro ainda. Quero comprar à vista. Vai ser um usado que esteja conservado.
— Não importa que seja usado - falei enquanto se separava dele. -, o importante é que é meu.
Eu não podia escutar notícia melhor. Desde que eu tirei minha carteira ano passado, eu sonhava no dia em que eu teria meu próprio carro. Às vezes eu tinha o prazer de dirigir o carro de papai, e de vez em quando o Neon de Vee, mas nada era melhor do que está atrás do volante de seu próprio carro.
— Tá certo. Daqui a uns dois meses eu terei dinheiro para te dar um.
Dois meses?
Dois meses era muito tempo. Eram oito semanas, sessenta dias e mil quatrocentas e quarenta horas. As minhas economias que eu havia juntado de minha mesada nos últimos três anos, eu havia gastado quase tudo na viagem. Eu estava completamente lisa, sem grana alguma. Bom, não tão lisa assim, só tinha quinze dólares guardado na gaveta dos meus suéteres.
— Tudo bem. - disse, minha voz saindo um pouco triste. - Eu espero esses dois meses.
— Dois meses passa rápido.
— Na velocidade de uma lesma. - murmurei.
Ele riu enquanto passava a mão no topo de minha cabeça e bagunçava meus cabelos, gesto que ele fazia desde quando eu era criança. Em seguida ele saiu do quarto fechando a porta.
Suspirei, olhando para a porta fechada. Um sorriso se alargou aos poucos em meu rosto. Eu iria ganhar um carro. Um carro! Reprimi um gritinho de felicidade, enquanto dava pulinhos pelo quarto e sentei-me na cama.
Eu estava euforia, enquanto olhava para os cadernos e livros que estavam espalhados pela minha cama, percebendo que eu tinha perdido minha vontade de estudar. A notícia de que eu iria ter um carro só para mim me fez perder toda a concentração. E eu sabia que se eu fosse tentar estudar agora eu não iria prestar atenção.
— Que saber? Eu vou procurar os preços dos carros usados na internet.
Saí da cama e fui até minha escrivaninha, onde meu notebook estava. Desconectei do cabo enquanto eu ligava, e foi nessa hora que bateram na minha porta novamente.
— Pode entrar, pai. - disse sem olhar para trás, enquanto eu ouvia a porta sendo aberta. Peguei o notebook e me virei para ir até minha cama quando eu dou de cara com ninguém mais e ninguém menos do que Patch.
Paralisei na mesma hora, enquanto o fitava.
— Acho que eu não tenho cara para ser o seu pai. - ele estava parado na porta do meu quarto, enquanto olhava para mim com um pequeno sorriso torto e debochado nos lábios.
Seu olhar felino me mediu de cima a baixo demorando um pouco o olhar nas minhas pernas descoberta, pois eu só estava com um short de algodão e uma regata branca.
Senti minhas bochechas ficarem vermelhas por seu olhar avaliador, enquanto eu me segurava para não soltar o notebook no chão.
— O que você quer? - com muito esforço eu consegui fazer minha voz sair sem tremer, e caminhei até a cama, depositando o notebook no meio da bagunça, num modo casual. Virei-me para ele
— Estudando? - ele perguntou, desviando os olhos de mim para minha cama bagunçada.
— Amanhã tem teste. - ele me fitou. - Você deveria fazer o mesmo. Agora parando para pensar nunca vi você com um caderno ou um livro na mão.
Ele me ignorou, não parecia nada abalado com a minha alfinetada.
— Vim só confirmar que amanhã te levarei para escola.
Umedeci meus lábios, apoiando todo o peso do meu corpo para minha perna esquerda, enquanto cruzava os braços. Um gesto comum, mas eu estava uma pilha de nervosismo por dentro, e para completar, meu coração estúpido estava batendo na velocidade de uma britadeira.
— Eu já estou ciente disso. - falei como a minha voz desgostosa. - Esqueceu que você declarou isso sem me consultar?
Ele me ignorou novamente.
— Também comuniquei com seu pai isso também, sabe, para não houver algum mal-entendido.
— Ele já me falou sobre isso. - falei rapidamente.
— Eu imagino.
O silêncio reinou no quarto. Os olhos de Patch não deixavam os meus, o que fazia meu estômago dar cambalhotas. Meu quarto estava sendo impregnado com o cheio masculino e amadeirado de seu perfume, me deixando tonta e extasiada.
Permiti-me estudar seu perfil e só aí eu percebi que ele estava com roupas de dormir. Uma camiseta preta sem mangas e decotada, deixando seus braços definidos à mostra e ele segurava uma sacola de plástico de uma loja que havia no shopping. Usava também uma calça de moletom cinza escuro que deveria estar pendida abaixo dos quadris, e sem nada nos pés. Deveria ter tomado banho, pois seus cabelos estavam molhados e mais rebeldes que o normal, como se ele não tivesse o penteado. Sem perceber eu mordia o lábio, enquanto sentia minha respiração falhar com aquilo tudo que era o hóspede de meu pai.
O canto da boca de Patch novamente se ergueu para cima num sorriso convencido. Ele havia percebido que eu o avaliava, ele deveria estar se sentindo por causa disso, e me sentir uma idiota. Desviei meus olhos dele para o chão, sentindo-me encabulada.
— Era só isso que tinha para me falar?
Não ergui meu olhar e escutei uma pequena risada nasal vindo dele. Ele havia achado graça do meu comportamento avaliador.
Porcaria.
— Também vim te dar isso. - sua voz me fez erguer o olhar para a sacola de plástico que ele erguia para mim.
Franzi o cenho e o fitei. Ele tentava reprimir uma risada.
— O que é isso?
— Pega e verá.
Olhei para a sacola estendida e depois para ele, pegando a sacola de sua mão. Nossos dedos se tocaram, causando um formigamento em minha pele. Resolvi ignorar e desviei minha atenção para dentro da sacola e...
— Minha nossa... - minha voz morreu enquanto fechava a sacola e olhava para ele. - O que significa isso?
Ele arqueou as sobrancelhas.
— Um celular?
Meu coração deu um salto.
— Eu sei que é um celular. - falei, sentindo minha respiração ficar presa. - Só não entendo por que disso?
— Você está sem. E esse é para você. - ele disse como se eu fosse débil.
Olhei para a sacola em minhas mãos, e depois a estendi para ele.
— Muito obrigada, mas eu não posso aceitar.
Seu cenho franziu, enquanto avançava um passo até mim.
— E por que não? - seus olhos ficaram mais escuros.
Senti minha boca secar.
— Por que esse celular é caro demais.
— Não seja tola Nora, aceite. É um presente.
Neguei com a cabeça e ergui meu braço mais uma vez.
— Simplesmente não posso.
— Me dê um motivo? - ele desafiou, dando mais um passo para frente. Dei um passo para trás, sentindo o lastro da minha cama atrás de mim.
Engoli em seco. Eu não tinha um motivo. Eu precisava de um celular, Vee até me sugeriu que mendigasse na rua para conseguir uns trocados. Aquele celular estava vindo em boa hora, mas...
— Eu...
Ele ergueu as sobrancelhas.
— Você não tem um motivo. - ele concluiu, sorrindo vitorioso.
— Bom... Não que eu não tenha um motivo, mas o fato é que eu não posso aceitar.
Ele avançou mais dois passos, e pude senti-lo pertinho de mim. Perto demais.
— Eu comprei para você. - senti seu hálito de pasta de dente bater em meu rosto. - Não tem serventia nenhuma para mim.
— Você... - soltei um pouco a respiração que eu prendia sem perceber. - Você está invadindo meu espaço pessoal.
Todo o meu corpo borbulhava com uma chama quente que subia pelas minhas veias. Só o fato de Patch está com o rosto a centímetros do meu me impedia de pensar direito. Aliás, eu não estava pensando direito, apenas fitava seus olhos negros, que me olhava numa intensidade absurda.
Sem conseguir manter meus olhos nos dele, os desviei para o chão, sentindo-me encabulada. Se eu continuasse presa em seu olhar era bem capaz de eu quebrar todos os meus conceitos de não me envolver com aquele quase estranho e o agarrar ali mesmo.
Patch afastou-se um pouco para trás, dando uns dois passos, mas ainda estava perto.
— Tudo bem. – murmurei, me dando por vencida. - Você venceu. Eu aceito o seu presente.
Ergui meu olhar para cima, a tempo de ver um sorriso satisfeito se abrir em seus lábios bem desenhados.
— Não vai abrir?
Tirei a pequena caixa retangular da Apple de dentro da sacola, percebendo que a caixa já estava violada. Franzi o cenho, mas Patch percebendo minha confusão explicou:
— Eu abri, e coloquei um chip novo e o configurei. - ergui meus olhos para ele e assenti.
Abri a caixa tirando o Iphone branco e moderno.
— Nossa. - disse impressionada com o celular moderno em minhas mãos. Olhei para ele. - Deve ter custado uma fortuna.
— Nem tanto. - ele me avaliava todos os meus movimentos.
— Obrigada. - murmurei, olhando o aparelho e depois para ele que parecia satisfeito. - De verdade. Não precisava ter feito isso, eu daria um jeito de conseguir um novo. Mas mesmo assim, obrigada de novo.
Eu me sentia um pouco péssima por sempre pensar o pior dele, e no final ele me surpreende com um aparelho de celular novinho, quando eu mais precisava de um.
— Você não gostou do modelo? - ele perguntou, me olhando.
— O quê? Não, eu adorei. - sorri um pouco sem jeito, afinal eu estava sem jeito.
— Bom, eu vou indo para o meu quarto.
Assenti com a cabeça, e ele saiu, me deixando ali sozinha olhando a porta fechada. Desviei meu olhar para o celular em minhas mãos.
O que eu iria fazer agora?
Se Vee estivesse aqui ela fararia que eu me lasquei com um celular novo. Só com o pensamento me fez ri e balançar a cabeça. Só hoje eu recebi a notícia que eu teria um carro novo, e agora um celular novinho. Isso era sorte? Eu acho que sim.
Liguei o aparelho, e percebi que ele estava mesmo configurado. Abri o aplicativo da mensagem e mandei um para Vee.
Esse é meu número novo. É só salvar.
Não deu nem dois segundos e o celular vibrou na minha mão, e quase o soltei no chão. Era o número de Vee. Sentei-me na cama e abri a mensagem.
Quem é?
Digitei uma mensagem rápida.
Nora.
O celular vibrou novamente.
Você está de celular novo? Como assim? Assaltou um banco ou mendigou como eu falei? Eu disse que esse negócio de mendigar dava certo, acho que vou fazer o mesmo. Minha nossa!
Ri com a mensagem dela. Só essa coisa para pensar que mendigar iria longe com alguma coisa.
Eu ganhei, sua cabeçuda.
Abri a lista para colocar o número dela gravado, mas vi um número salvo ali. E meu sangue correu mais rápido quando eu li o que estava escrito. Jev.
Céus, Patch havia colocado seu número gravado no celular, e ainda por cima com o seu nome verdadeiro. Fiquei sem reação, e o celular vibrou de novo.
De quem?
Fiquei olhando a mensagem de Vee. De quem? Do cara que está me deixando redondamente louca.
