CAPITULO XIII
.
.
.
Não importava quão longe se aventurasse Edward nos bosques, a lembrança do doce e fresco aroma da Isabella o atraía ao claro. Tinha seguido Kellan e a sua esposa em seu passeio, suas patas de lobo tinham sido silenciosas sobre o chão florestal. Mascarou seu aroma de tal modo que nem sequer Kellan se deu conta de que Edward estava perto.
Seu lobo tinha desejado dar-se a conhecer, esfregar-se contra seu anjo e permitir que todos seus sentidos de lobo tivessem a oportunidade de deleitar-se com sua presença. Revelou-se só para descobrir que Isabella se sentia aterrorizada de sua besta. Sua presença tinha levado lágrimas aos olhos da Isabella e não por algo bom.
Tinha forçado a seu lobo a fugir, em vez de arriscar-se a assustá-la até mais, ou pior, delatar-se a ela. Ele não podia permitir-se compartilhar os segredos de sua raça com Isabella.
Além disso, supunha-se que estava caçando. Não porque necessitassem a carne; já que podiam chegar a seu torreão antes do anoitecer se cavalgassem comprido e tendido, mas não o fariam esse dia.
Sua delicada noiva necessitava tempo para sanar antes de montar a cavalo. Ontem à noite se tinha entrado nas águas termais com propriedades reconstituintes. E tinha deixado instruções com o Kellan para que se assegurasse de que ela fizesse o mesmo hoje, mas Edward não podia estar seguro de que foi suficiente.
Se tivesse que escolher entre chegar a casa esta noite e ter a uma esposa muito dolorida para fazer o amor ou ficar um dia mais na cova das águas termais, ele escolheria o tempo extra longe de seu clã.
A única outra oportunidade em que tinha passado voluntariamente um tempo longe das pessoas que tinha a responsabilidade de liderar foi quando tinha seguido a sua irmã e a Elena à ilha do Salvatore. Nesse então, a segurança da Alice tinha tido prioridade. Agora não tinha nenhuma dessas preocupações, mas isso não o tinha detido ao ordenar que passassem uma segunda noite nas covas.
Rechaçou considerar quão aberrante era que tivesse feito tal eleição. Tampouco tinha nenhum interesse em contemplar por que tinha tomado semelhante decisão.
Só sabia que seu lobo estava em total acordo e isso bastava para ele.
Pensando que ao menos deveria fazer algum esforço por caçar, escondeu-se e cheirou uma pequena pilha de folhas. Definitivamente havia algo ali, mas não era uma presa. Não da variedade animal de todos os modos.
O aroma não era o de seus guerreiros e com segurança não era a tentadora fragrância de sua nova esposa. Esta era muita fresca para ter mais de uma hora. O qual significava que alguém que não devia estar ali o tinha estado.
Ele levantou a cabeça, tomando a imagem monocromática dos arredores que captava em sua forma de lobo. Definitivamente ainda estava em suas terras, recém dadas a ele pelo rei de Escócia. Um grunhido retumbou em seu peito lupino quando apanhou outra vez a essência da terra que o rodeava. Seis rastros distintos, dois Chrechte e quatro humanos. Todos machos.
Uma partida de caça? Um engano? Ou um desafio à propriedade Cullen pelo território outorgado por seu rei?
O laird Donegal estava envelhecendo sem um claro sucessor. Ele presidia a um dos clãs mais pequenos e sua respectiva manada Chrechte dentro dela, a qual era só um mero punhado de troca formas. Inclusive sem a intervenção do rei, outro laird teria terminado por entregar a terra ao clã muito maior do Edward e sua manada Chrechte e ambos sabiam.
Nunca um extenso grupo tinha perdido tanto na guerra como o clã Donegal. O filho do laird tinha morrido nas mãos dos mesmos bastardos ingleses responsáveis pela morte do pai do Edward. O jovem guerreiro tinha estado no lugar equivocado no momento errôneo, patrulhando suas fronteiras com um pequeno grupo de soldados quando o contingente inglês que se dirigia a roubar o Tesouro Real Cullen tinha cruzado as terras Donegal.
Essa era a razão pela que Edward ainda não tinha apurado sua reclamação sobre o território disputado. Seu pai tinha sido o responsável por trazer para a traidora rameira inglesa às Highlands. Edward não negava as consequências dessa ação.
Tinha chegado ao ponto de oferecer o uso dos mananciais aos Chrechte do clã Donegal para suas cerimônias de emparelhamento e para o uso curativo do clã, deixando muito claro que as necessidades dos membros do clã Cullen tinham prioridade. Entretanto, não toleraria que o clã Donegal caçasse em terra Cullen recém reclamada. Nem em forma humana, nem lupina.
O laird Donegal tinha aceito a generosidade do Edward assim como sua estipulação quanto à caça.
Assim, que demônios faziam seis estranhos em suas terras? Seriam do clã Donegal? Nenhum dos Chrechte levava o aroma do laird. Edward o teria reconhecido.
Não importava de onde fossem, não pertenciam aqui e estava decidido a que soubessem.
Ele seguiu seu rastro até que se fez claro que os quatro humanos e os dois Chrechte se dirigiam em direção às águas termais. Para sua esposa. O passo quadrúpede do Edward aumentou de velocidade até que voava através da paisagem.
Ele elevou a cabeça para uivar uma mensagem de alerta a seus guerreiros. Aqueles que tinham ido caçar com ele se dirigiriam de retorno ao claro, se é que não estavam já ali, e os que tinha designado para proteger a sua esposa estariam preparados.
O reconhecimento de que seus guerreiros poderiam não ter chegado já ao claro, fez que Edward se obrigasse a ir mais rápido. O corpo de seu enorme lobo tomou tal velocidade que os arbustos e as árvores que deixava atrás tinham um aspecto impreciso de sombras em negro e cinza.
Ele irrompeu no claro de forma inoportuna, os penetrantes sentidos de seu lobo lhe diziam que os intrusos em efeito estavam diante dele. Ele se deslizou ao frear detrás de seis guerreiros jovens vestidos com o plaid do clã Donegal, suas posturas eram de desafio.
Kellan e Airril tinham tomado a posição diante da entrada da cova. Não pareciam excessivamente preocupados, mas claramente estavam preparados para lutar se fosse necessário.
Não havia rastro dos outros membros de sua partida de caça.
Edward desejou que surgisse sua forma humana e uns segundos mais tarde o ar brilhou ao redor dele quando se converteu em homem outra vez. Soltou um grunhido subsônico de advertência que fez que dois jovens se girassem para estar frente a ele.
Maldição, nenhum poderia ter mais de dezesseis verões. O jovem da esquerda mostrou mais inteligência que seu companheiro porque a cor se esfumou de seu rosto e ofereceu seu pescoço em imediata submissão.
Os quatro humanos só se moveram depois de dar-se conta de que seus companheiros assim o tinham feito. Não pareciam capazes de decidir-se quem expor a maior ameaça, assim inclinaram seus corpos. Com guerreiros com mais experiência, tal manobra poderia ter sido benéfica, mas com estes quase meninos, tudo o que fazia era voltá-los mais vulneráveis.
Edward dirigiu um olhar cheio de aguda desaprovação. Os soldados Donegal necessitavam um adequado treinamento. Mau.
O outro jovem Chrechte que não tinha o bom sentido de ver-se assustado, fulminou com o olhar aos membros de seu próprio clã antes de encarar desafiante ao Edward.
— Estas águas pertencem ao clã Donegal. Não podem tê-las.
— O rei diz o contrário.
O moço fez um som de repugnância.
— Ele leva o fedor dos sassenach e imita seus costumes.
— Não rende homenagem a seu rei?
— Sigo as leis Chrechte. Lutamos pelo que é nosso.
— Desafia-me pelo direito a esta terra? — perguntou Edward.
— Faço-o. — A voz do moço tremeu, mas sua postura de desafio não vacilou.
Edward não pôde menos que respeitar a coragem do menino embora não sua sabedoria.
— O que está passando? — Isabella olhou às escondidas desde em meio dos dois guerreiros Cullen que bloqueavam seu caminho fora da cova. Seu cabelo úmido e pele acesa indicavam que tinha estado banhando-se quando os impetuosos jovens Donegal tinham chegado. Embora não acreditava que essa fora a razão do rubor em seu adorável rosto.
Ela contemplava seu corpo nu de uma forma que logo faria efeito em sua virilidade.
— Sempre anda nu pelo bosque, Edward?
— Estava caçando.
— Assim me informaram. — Ela se esclareceu garganta e fechou os olhos durante um segundo, só para abri-los outra vez quase imediatamente — Não era consciente de que os escoceses caçassem nus. Vestia um plaid quando retornou da caça a noite prévia a nossas bodas — disse ela quase de modo acusador.
— Tem muito que aprender de nossos costumes.
Ela suspirou, fazendo-o ostensivamente.
— Suponho que o farei. Acredito que tenho que aprender algo destas, agora por que estão aqui estes meninos.
— Somos homens — insistiu o guerreiro Chrechte mais valente.
Isabella, para seu crédito, não o contradisse, mas sim simplesmente olhou com expectativa para o Edward. Obviamente, sua esposa esperava uma explicação. Só que não sabia se gostaria de ouvi-la.
— Estes guerreiros não cederão o direito sobre estas terras ou águas termais ao clã Cullen. — Concedeu-lhes o respeito de chamá-los guerreiros. Guerreiros mais experimentados de seu clã não tinham ousado desafiar a reclamação do Edward.
Se o tivessem feito, Edward era o suficientemente honesto consigo mesmo para saber que não teria sido tão clemente. Homens com mais experiência que tivessem o estômago para lhe desafiar já estariam mortos.
— Desafiam-lhe? — perguntou Isabella confusa — Não respeitam os desejos de seu rei?
— Aye.
— Já vejo. — Ela observou ao jovem Donegal, estudando a cada um com seu suave olhar castanha. Então ela sacudiu a cabeça — Valente, mas tolo.
Suas palavras refletiam tão estreitamente seus próprios pensamentos que Edward encontrou que seus lábios quase se curvavam em um sorriso antes de refrear-se.
Mostrando o primeiro clarão de sabedoria até o momento, o moço Chrechte permaneceu silencioso ante a observação da Isabella. Parecia que seus camaradas já se estavam questionando a inteligência de suas ações, mas nenhum parecia preparado para tornar-se atrás.
Outra vez, ele poderia respeitar isso.
— Vais aceitar o desafio? — perguntou sua esposa depois de um momento de silêncio.
— Aye.
Cinco dos seis soldados jovens se estremeceram, mas o audaz jovem Chrechte simplesmente pareceu mais decidido.
Isabella cruzou os braços e assentiu.
— Bem.
— Passa-o? — perguntou surpreso.
Ele teria pensado que sua gentil algema era muito compassiva para afastar do comportamento de seu até agora civilizado mundo.
— É óbvio que a honra deste moço… homem demanda que ganhe as terras.
Ele cabeceou, ainda pasmado pela fácil aceitação de sua esposa, sem contar sua perspicácia com os costumes de seus povos.
— Além disso, não o matará. — Ela não estava perguntando.
— Não o farei?
Só lhe olhou.
Incomodou-lhe que parecesse capaz de ler suas intenções tão claramente, mas tinha razão. Ele não faria que o custo pela audácia destes jovens fosse suas vidas.
Antes que pudesse dizer algo mais, sua partida de caça retornou. Embora não sabia de onde, a fragrância de carne assada lhe dizia que tinham estado de volta no claro ao menos uma vez.
— Foram capazes de encontrar algo? — perguntou-lhes Isabella.
Ambos os homens lhe olharam por instrução, respondendo a seu uivo de advertência.
— Minha esposa lhes enviou a uma diligência?
— Aye — respondeu Kellan por eles — Queria verduras e bagos para o jantar.
— E encontraram algumas?
Os dois homens assentiram.
— Suficientes? — perguntou ele.
Ambos os homens pareciam inseguros, observando a sua esposa com algo entre o respeito e a apreensão.
Kellan riu entre dentes, o som oxidado pelo desuso.
— Parece que a sua esposa gosta das verduras.
Edward cabeceou.
— Então vão e encontrem mais, Earc. Fionn, ficará para fazer frente ao desafio que estes jovens guerreiros têm feito em nome de seu clã pelo direito a esta terra.
Não faria que os jovens se enfrentassem ao Kellan. Nenhum exceto o ousado Chrechte seria capaz de fazê-lo sem urinar-se sobre si mesmo e Edward tinha a intenção de enfrentar a este pessoalmente.
Ambos os homens fizeram o que lhes ordenou sem outra palavra.
Ele encarou aos seis jovens Donegal outra vez.
— Todos os que vieram ao desafio lutarão, exceto ele — disse, indicando ao Chrechte que já tinha devotado seu pescoço.
O moço que tinha devotado sua submissão agachou a cabeça como se estivesse envergonhado. Edward grunhiu e o menino elevou a cabeça com sobressalto.
— É um Omega, não há vergonha em submeter-se ao alfa mais poderoso.
A posição de um omega na manada nem sempre era de respeito, mas quando os Chrechte se deram conta de que seus costumes reclusos estavam a ponto de dizimar a sua raça, isto trocou. Em um princípio, foi um Omega quem primeiro sugeriu que os Chrechte deviam introduzir-se nos clãs circundantes, em vez de lutar contra eles.
Uma vez que se reconheceu a sabedoria dessa recomendação, o respeito pela forma de pensar dos ômegas cresceu.
Após, davam aos Omegas um lugar de honra nos conselhos da manada. Eram considerados tanto sábios como equilibrados, o que na maioria dos casos era bastante certo. Também eram considerados fortes de modos que a força muscular não poderia derrotar, porque os Omega tinham conseguido prolongar suas vidas entre seus irmãos Chrechte mais capitalistas apesar de ser fisicamente os mais débeis. Geração detrás geração. Não era algo fácil negar o pensamento desses homens.
Além disso, cada Omega se mantinha em pé como um aviso vivo à manada de que não importasse quão fortes podiam ser os Chrechte, não podiam escapar à debilidade… à mortalidade. Que deviam respeitar a vida a fim de seguir prosperando. Que ainda estavam sob a influência de suas naturezas de lobo, mas que não eram controlados por esta. Recordava-lhes que muitos deles frequentemente morriam jovens, e que, além disso, seriam um aviso proeminente para aqueles que viriam depois.
— Edward, não crê que poderia te referir a estes jovens em termos mais humanos? Ou essas palavras gaélicas que está usando têm outro significado que não entendo?
— Não sou ofensivo — assegurou a sua esposa e logo se perguntou que estava fazendo. Acaso lhe importava que sua esposa inglesa acreditasse grosseiro?
Ele não era civilizado, maldição e não tinha nenhum desejo de sê-lo.
Descarregando sua irritação, cruzou os braços e fulminou com o olhar ao outro Chrechte Donegal.
— Por que trouxe um Omega para um desafio?
— É meu irmão mais jovem. Não posso deixá-lo desprotegido, mas ele rechaçou ficar no bosque enquanto lhes desafiava.
— Compartilharei o destino de meu irmão — disse o lobo Omega quedamente.
O respeito de Edward por estes jovens guerreiros aumentou. Sem dúvida estes dois liderariam ao clã Donegal e sua manada um dia. Ele assentiu ante a explicação.
— Você — disse olhando ao Omega — fica junto ao Kellan e minha dama durante o desafio.
O Omega baixou a cabeça em reconhecimento da ordem.
Kellan afastou a Isabella da cova e os homens ficaram em guarda para o desafio. O Omega o seguiu, tomando posição ao outro lado do Kellan. Longe de Isabella, como era apropriado. Não mostrou nenhum medo ante a presença do enorme guerreiro, evidentemente confiando na honra do Chrechte do Edward como alfa superior. Um dia aprenderia que não todas as naturezas dos lobos eram dignas dessa fé, mas não hoje.
Edward instruiu ao Airril e Fionn para enfrentar aos quatro humanos.
Logo moveu a cabeça para o líder Chrechte.
— Enfrentarei seu desafio, moço.
— Não sou nenhum moço.
— Tampouco é um alfa, ainda não.
Ele podia dizer que suas duas últimas palavras tinham agradado ao jovem soldado pela expressão que revoou sobre seu rosto antes que a seriedade se assentasse em suas feições.
— Meu nome é Alec.
— E eu sou Edward, laird dos Cullen e líder de manada de meus irmãos Chrechte.
Então ele esperou, permitindo que Alec fizesse o primeiro movimento. Edward respondeu, contento quando necessitou algum esforço de sua parte. Sentiria-se profundamente decepcionado com o laird Donegal se o homem não tivesse observado a formação do jovem guerreiro Chrechte sob seu cuidado. Edward fez seu próprio movimento, lhe explicando por que era um bom oponente, mas como poderia ser ainda melhor.
Os olhos do Alec se alargaram ante as instruções, mas ainda assim não deixou que o fluxo de palavras rompesse sua concentração. Inclusive assim, era óbvio que escutava tudo o que Edward dizia. E ao fazer o desta forma ganhou outra medida na estima do Edward.
Ele permitiu que a luta continuasse muito depois de que os moços humanos tivessem sido derrotados e se rendessem ante Airril e Fionn. Poderia ter derrubado ao Alec e obrigá-lo a apresentar sua submissão em qualquer momento. Entretanto, queria ensinar ao jovem lobo os movimentos usualmente reservados aos Chrechte porque estes requeriam de mais velocidade, força e resistência que a maioria dos guerreiros humanos possuíam.
Alec mostrou sua avaliação ao expor voluntariamente a garganta quando Edward o apanhou em um abraço quase inquebrável. O soldado mais jovem poderia haver-se obstinado a seu orgulho até que Edward o tivesse obrigado a reconhecer sua força superior. O laird se sentia satisfeito de ver que o moço compreendia como aferrar-se à dignidade no fracasso.
Essa era uma carência em sua gente que quase os tinha levado a desaparecer no passado.
Edward tinha permitido que Alec lutasse com ele por muito tempo pelo que não deveria sentir vergonha ao perder o desafio. Pelo contrário a honra do jovem deveria estar satisfeito, já que tinha lutado pelo direito à terra e tinha perdido.
Entretanto, isso seria bom de comprovar. Edward não necessitava a um inimigo surgindo de uma fonte quando estava tão perto de chamá-lo amigo.
— Está satisfeito?
Alec cabeceou, a tristeza tingia seu olhar.
— Estou.
Inclusive conhecendo o resultando antes de atirar o primeiro golpe, não podia haver alegria ao fracassar.
— Bem. — Ele colocou seu punho direito sobre seu coração.
Alec copiou a ação e agachou a cabeça.
— Diga a seu laird que o laird dos Cullen consideraria uma honra treinar aos guerreiros Chrechte de seu clã se o desejar.
Os olhos do Alec se acenderam com entusiasmo.
— Querem dizer isso?
— A primeira coisa que deve aprender, moço, é que um alfa nunca diz algo que não quer dizer ou não pode manter — repreendeu Kellan desde sua posição entre a Isabella e o Omega.
— Inclusive ao Jann? — perguntou Alec.
— Jann é seu irmão? — perguntou Edward, em vez de responder.
Alec se limpou o sangue da comissura de sua boca com o dorso da mão.
— Aye.
— Um Omega sempre é bem-vindo entre seus irmãos Chrechte, sem ter em conta as cores que vista.
— Aderem-lhes estritamente às leis Chrechte.
— Aye. — Inclusive se o Salvatore tivesse acreditado por um tempo que não o fazia.
— Transmitirei seu convite a meu laird.
E não esperaria a resposta, se a conjetura do Edward era exata.
Não se sentiu surpreso quando Isabella convidou aos guerreiros Donegal a compartilhar seu jantar. Só esteve surpreso pelo fato de que sua presunção não lhe tivesse incomodado. Supunha que se devia a que ela era sua esposa depois de tudo.
. . .
— Não pude menos que notar que não levou seu cavalo à caçada — disse Isabella, rompendo o silêncio que tinha mantido desde que tinha convidado aos outros guerreiros para jantar com eles.
Sua esposa era uma mescla curiosa de acanhamento e valor. Não tinha duvidado em encará-lo antes de aceitar o desafio do Alec, mas tinha passado as horas após observando a todos outros e falando muito pouco. Isso era estranho. Segundo sua experiência, as mulheres tendiam a falar mais que os homens, frequentemente enchendo um pacifico silêncio com um desnecessário ruído verbal. Isabella era a primeira mulher que conhecia que de verdade podia falar menos que seus guerreiros.
— Não o necessitava.
— Possivelmente deveria reconsiderar essa ideia. — Ela fez uma pausa, olhando-o desde detrás de suas largas pestanas — Considerando o fato de que seus soldados retornaram com a caça e você não.
Todos ao redor do fogo ficaram em silencio ante a observação de sua inocente algema, quem esperava sua resposta.
Não confessaria que seu lobo tinha passado a manhã preocupado por uma mulher que tinha respondido com nada mais que medo ante sua presença. Ele franziu o cenho, lhe advertindo que não tinha a intenção de justificar seu fracasso por retornar sem uma jóia.
— Possivelmente o esquecimento de seu plaid causou sua falta de êxito. Afugentou a presa. — As bordas de seus lábios se curvaram para cima, embora sua expressão seguisse sendo recatada.
Lhe estava tirando o sarro. Sua pequena e tímida esposa humana se atrevia brincar com o Cullen. O olhar de assombro no rosto de Earc e a sutil alegria em Kellan lhe dizia que eles também o tinham notado. Os outros homens mostravam uma mescla de inquietação e preocupação, claramente confundindo as palavras de sua esposa com uma crítica.
— Os highlander estiveram caçando sem cobrir-se durante tanto tempo como reclamaram estas terras.
— Hmm… — respondeu ela sendo evasiva.
— Está preocupada com minha capacidade de te prover? — perguntou-lhe, mantendo sua expressão dura e ilegível.
O cruzamento de seus braços e o olhar que lhe deu fez que ele se tornasse para trás.
— Possivelmente. — Ela não tragava sua pretendida irritação, não mais que a uma falsa moeda inglesa sem valor.
Um ofego coletivo de seus guerreiros lhe disse que entretanto eles sim.
— Não deve preocupar-se, senhora. Nosso clã provê pelo laird como ele nos provê — disse Kellan, acrescentando sua contribuição contra Edward.
— Pareceria um bom trato — respondeu ela e deu uma delicada dentada ao coelho assado.
Quando Edward não fez nada salvo fulminar com o olhar a Kellan e sacudir a cabeça, Alec franziu o cenho muito mais ferozmente.
— Aceita semelhante insulto de seu guerreiro?
— Kellan não me insultou, nem o fez minha esposa. — Ele olhou a Isabella, quem agora sorria definitivamente com satisfação — O fazia?
— Nay, meu laird. Eu nunca faria algo assim.
Alec parecia totalmente cético.
— Mas…
— De fato, tenho a total confiança de que minha esposa prometerá facilmente comer só o que eu lhe proveja na próxima semana.
— Em efeito — disse Isabella prontamente.
Só então a juventude do Donegal se fez evidente.
— Brincava com seu laird.
Uma risada tola quase silenciosa saiu de sua garganta.
— Sim.
— Ninguém brinca com o laird Donegal.
— Nem sequer sua esposa? — perguntou Isabella.
— Nossa senhora morreu faz dez anos.
— Isso o explica. Ainda está de causar pena — disse Isabella, claramente irônica.
O soldado jovem assentiu totalmente a sério.
— Aye. Assim é. Grande parte de seu coração morreu com ela. Eram autênticos companheiros.
— É bom que marido e esposa sejam amigos — observou Isabella, obviamente confundindo o sentido da palavra companheiros.
Alec deu a Isabella um olhar confuso que se posou nela enquanto esta estudava o rosto do Edward. Lhe devolveu o olhar.
— Está de acordo? — perguntou ela, uma expressão pensativa sobre suas ovaladas feições.
— Seria suficiente desejar não ser inimigos. — Isso era tudo o que ele desejava conceder.
Como podia ser amigo de uma mulher nascida e criada como sassenach? Nunca teria a uma autêntica companheira agora que a tinha aceito em sua cama. Não seria capaz de engendrar filhos, já que um Chrechte não podia ter descendência com uma humana a menos que existisse um vínculo de companheiros sagrados. Ele, quem acreditava fortemente em preservar a herança Chrechte, não seria capaz de passar sua própria natureza lupina a seguinte geração.
O pensamento lhe fez ficar de pé.
— Farei a primeira patrulha.
. . .
Isabella passeou de um lado a outro, sua atenção ia da deriva à entrada da caverna a cada poucos passos. Esta permanecia tão vazia como o tinha estado desde que lhe tinha dado boa noite aos guerreiros e encontrou seu caminho a temporária antecâmara de descanso de Edward e ela.
Seu marido tinha desaparecido ao término da comida e não havia retornado depois. Ao princípio, havia-se sentido aliviada por sua ausência. Seu cruel comentário sobre não ser inimigo de sua esposa foi suficiente para pô-la a beira das lágrimas. Unido com a forma que ele a tinha ignorado todo o dia para caçar, ainda a pé, tinha-lhe deixado sem ideias de como a via.
Como uma inoportuna intrusa.
Igual a seus pais.
Por um breve instante, quando lhe tinha propiciado semelhante cuidado depois de consumar seu matrimônio a noite anterior, permitiu-se acreditar por um momento que seria diferente.
Só que, face ao que lhe havia dito durante o ritual de matrimônio Chrechte sobre que já não era inglesa e, sem ter em conta quão profundamente emocional havia sentido sua união física, ele não sentia carinho por ela. Tinha sido uma parva por pensar que um dia ele poderia. Uma absoluta parva. A intensa intimidade física que tanto tinha representado para ela não tinha significado nada para ele.
Ela era seu inimigo. Que fora sua esposa não podia anular esse sobressalente feito.
Não podia culpar a nada salvo a sua própria estupidez por permiti-la mais ligeira esperança de que poderia haver um lugar para ela entre seu clã, inclusive uma vez que soubessem a verdade sobre sua surdez. Edward se sentiria muito feliz para usar o engano como uma desculpa para desfazer-se de sua indeseada algema inglesa. Como o tinha acreditado de um princípio.
Ela deu um tapa à umidade que tentava acumular-se em seus olhos. Não choraria. Não o faria.
Tampouco daria a satisfação a Edward de encontrá-la caminhando freneticamente por sua chegada.
Com esse pensamento em mente, tirou-se a regata e entrou entre as peles para forçar ou fingir dormir. Algo funcionaria, enquanto Edward não se desse conta de quanto tinha ferido suas estúpidas esperanças.
Olá meninas! Correndo novamente aqui... Por isso quero agradecer a todos que deixaram seu review ;)
