Naruto não me pertence.

É chato ter que dar esse tipo de notícia – Nada de pânico! Calma! – mas de certa forma Apple Lady já entrou em um novo período de vacas magras. Muito trabalho e nenhuma previsão de quando sairá o próximo, mas enquanto isso vou escrevendo de pouquinho em pouquinho, uma palavrinha por vez se for o caso. Até porque eu já sei quase tudo o que vai acontecer até o final, enfim.

E só uma notinha de esclarecimento: A música da parte anterior, Anata, é na verdade da cantora Kosaka Akiko, portanto, aquela não é a versão original. Mas que aquela música fica melhor na voz da Teresa Teng, fica.


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- Apple Lady -


Parte 14

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- Isso é...! – Tumpf!

A escada rolou diante de seus olhos até tudo virar água e lajotas azuladas.

Nem no Topo do Monte havia algo tão estranho quando uma pseudo-pirâmide com um piscinão em sua base, outro (quase) no meio e mais outro, decerto o melhor de todos, lá no alto, de onde também partia um espécie de tobogã que ladeava a escadaria e desbocava nas águas de baixo. Parecia algo nascido de um sonho maluco da madrugada. Extravagante, por isso que não era barato! Ino não teve tempo de pensar tudo isso.

Confusão, e falta de ar. Ela sempre odiou quando a jogavam na água assim, quando criança essa era a tática favorita dos que adoravam provocá-la. Não teve tempo de querer cortar algumas cabeças porque quanto mais seus pés se remexiam, mas ficava claro que aquilo não tinha chão.

Agarrou a mão que alcançou seu braço e quase não a deixou puxá-la de volta – Não a soltou e agarrou também a borda. Agora sim... Vendo Naruto lá n meio da água, todo sorridente e com o cabelo baixo de tão ensopado, agora sim ela podia se dar ao luxo de mergulhar na fúria.

- SEEEEEEEU...!

- Ué, é divertido, 'ttebayo!

- Ei, cuidado. –Ino foi impulsionada para cima bem quando ia tentar bater naquele filho da mãe. Sensação estranha de voltar a ter apenas ar à sua volta

Só então notou que foi Shikamaru quem a tirou do sufoco.

- Você teve sorte. –Ele puxou a bolsa de Sakura para mais perto – Naruto joga mais pesado quando você está de costas para a piscina. Nem queira saber o quanto que isso é problemático...

- Ino está agora. – Naruto falou, dando leves puxões no cabelo da garota.

- Não estou mais! – A moça deu um giro, largando o outro rapaz e se sentando - Tente, nulidade!

- Tem uns fiozinhos aqui! – Naruto apontou e fez menção de se aproximar, mas Ino sentiu uma toalha ser jogada em suas costas e Shikamaru puxando-a para mais longe. O loiro frustrou-se – Ah, qual é. Shikamaru, não vá me dizer que não foi divertido só porque quase quebrei esse seu único elástico que você nunca troca, 'ttebayo! – Ficou ofegante quando terminou.

- Você – O amigo respondeu – quase quebrou meu pescoço.

No instante entre ele ter dito e a chegada de Sakura, Ino imaginou a cena. Surreal.

Riu a ponto de precisar levar a mão à testa e nem ouviu Naruto aproveitar a deixa para se justificar dizendo que ela tinha gostado. Ou Shikamaru demonstrando todo o seu enfado com tudo isso. A vontade já estava passando quando Ino passou a mão no canto do olho. Sakura e Naruto olhando para ela de um jeito tão bobo...

- O que foi? – Mas foi o Nara quem perguntou primeiro. Ele ainda estava aí atrás?

Os outros dois se entreolharam. Naruto já ia falar algo, mas Sakura jogou a mão na boca dele e foi até Ino, a expressão mudando do entusiasmo para a preocupação de uma forma bem suspeita.

- Agora só tem um jeito. – Sakura falou, averiguando o estado da outra – Ou você fica aqui no sol ou... – Fitou a piscina coberta do 2º andar - ...você deixa a roupa pendurada enquanto vai se divertir de verdade.

- Hum...

- Que tal? – Sakura falou em um tom mais baixo.

- Bom, vocês podem ir na frente – Ino respondeu – Primeiro eu... – Não chegou a ter certeza se era para a voz morrer alí mesmo ou se foram aqueles sorrisos medonhos do outro casal que a sepultaram.

Corou e não conseguiu se mexer. Sequer a mão que estava crispada na de Shikamaru. Desde aquela hora.

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Ino estava na Terra há tanto tempo que, em algum momento, achou que não teria mais nenhuma sensação peculiar. Mas pessoas não costumam se tocar quando estão molhadas, pelo menos os poderosos não. Segurar uma mão em estado normal quando a sua própria está enrugada e fria de úmida - mas quente por dentro, como um bolinho deixado sob o vento - era algo novo. Naruto segurava a mão de Sakura, devia estar sentindo o mesmo, enquanto subiam numa velocidade que os deixava em risco de escorregar.

Achou chato notar suas mãos já secas. Ainda frias, mas secas. Sorriu e largou-as, estava parecendo uma criança. Puxou o peso chamado toalha de cima de si.

- Vão achar que você está demorando. – Era esperado que, quando Ino a largasse, não ouviria o baque dela no chão.

- Estou esperando pela sua força de vontade. – Mas ouviu um arrastar da ponta dela. – Ei!

- Hã?...

Já estavam ombro a ombro, ela debruçada na grade e ele de costas olhando as nuvens até então. Ino aguentou passar apenas três, quatro segundos olhando a cara dele e vendo ele fazer o mesmo. No quinto, beijou-o.

Até que entendia aqueles dois hipócritas lá de cima: Havia algo diferente agora. Desde mais cedo Ino não estava conseguindo ficar distante de Shikamaru e vice versa, ele sempre está a um metro dela, no máximo. E ainda era pouco.

Na verdade, era uma vontade que já há muito tempo estava lá, oculta por um monte de dedos em relação à tudo, tudo. Ino se afastou sem pressa dele, ainda se imaginando pondo a mão por baixo da camiseta do rapaz. Shikamaru ia enlaçando sua mão, mas dela cruzou seu braço no dele feito moda antiga.

- Você não trouxe roupas de banho. – Ino comentou – Acha que eu não sei?

- ...

- Devia aproveitar para se divertir mais! E não se meter em confusão quando quem se diverte são os outros, não é?...

- O sol serve para ajudar nessas horas. Só é problemático porque é lento.

- Hihihi...

- Que droga... – Ele suspirou – Você quer um sorvete? – Questionou.

- Como?

- Alguma coisa para você parar de ficar se divertindo às minhas custas... Já faz isso demais.

- Quer saber? – Ino começou de repente, e caminhou para longe da grade – Você tem razão. Chega de ficar orbitando à sua volta, senhor sabe-tudo! Quero três. – Ela fez o sinal com a mão e ele piscou. Ino então foi abaixando os dedos – Um pra mim, um pra Naruto e outro pra Sakura. Você não vai ter porque não se diverte.

- Quatro.

- Hein?

- Eu disse quatro. – Repetiu – Está bom pra você?

Não era como se ele realmente quisesse comer sorvete. Impulso besta. Estava dando satisfações a ela?

- Ahn... – Ela fez como se pensasse – Sim. – Demorou para se virar – Até daqui a pouco, baka.

- Ei, espera...

Ela o olhou ao mesmo tempo em que ele tocou em seu braço.

Um segundo depois, ele a beijou.

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Após a ligação, as horas se arrastaram como tartarugas atoladas. Definitivamente, o lugar de Kiba era lá no laboratório, misturando os cheiros até ver no que ia dar, e não no meio daquele monte de fragrâncias prontas. Meteu o cordão no bolso da calça e pegou o suporte de fechar as portas. Ainda faltavam 10 minutos para as cinco e meia da tarde.

Grande coisa. Aquele nunca foi um dia muito movimentado, e Akamaru devia estar morrendo de tédio tanto quanto ele.

O barulho da folha sendo puxada até o chão ressoou alto.

- Com licença... – Uma moça no meio da parte ainda aberta. Cliente...

- Ah, desculpa! – Sorriu. Terminou de abaixar a folha – Desculpe, é que nós já estamos fechando.

- É rapidinho. – Ela falou doce, entrando na mesma hora e sem dar chances – Só vou ver uma coisa.

A loja ficou com um ar lúgubre. A garota, de blusa leve, calça delicada e tranças, parecia ser tão meiga e frágil que soava arriscado ela ir logo para a parte mais escura. Devia ser adolescente ainda. Kiba não se deteve muito nela, queria mais que fosse embora. Encaixou o suporte na outra folha mas não a puxou, e isso era angustiante.

Ela mentiu. O espaço perigava começar a ficar azul de noite chegando quando ela, enfim, concluiu sua análise minuciosa de tudo o que tinha disponível. Kiba estava com a cabeça apoiada na parede. O irônico era que quase tinha se esquecido da criatura.

- Você – A moça perguntou enquanto ia para um ponto mais claro – também trabalha com encomendas?

- Não conseguiu achar o que queria? – Não parecia há pouco tempo, mas ele estranhamente teve sucesso em ser simpático de verdade com ela.

- Estou atrás de algo que tenha cheiro de... surpresa.

- Ah, mas então... – Kiba foi até à prateleira do centro – Tem esta aqui!

- Não! Pra mim, isso é cheiro de um passeio por um corredor com balões. – Ela falou – Não é necessariamente algo surpreendente.

"E qual é a diferença?", Kiba só não verbalizou isso porque até para ele isso era extremamente idiota. Claro que há diferenças, não?

- É raro encontrar alguém que fale de cheiros de uma forma assim tão subjetiva. – Comentou.

- Obrigado. – Ela sorriu – Consegue fazer?

- Surpresa... – Kiba outra vez pôs a mão no suporte. A cliente já estava na calçada da rua, as tranças dando a volta até caírem pela frente, e não pelas costas – Está com pressa para receber.

- Só um pouco. Tem como eu receber até depois de amanhã, no máximo?

- Pode ser.

A moça agradeceu outra vez e se foi após mais algumas palavras, as tranças enfim indo para as costas enquanto metade dela estava brilhando amarelo por causa das lâmpadas. Ao ver isso foi que um pedaço de idéia sinistra passou pela cabeça do Inuzuka. Olhou de novo para a garota, lá longe.

Mas ela só queria um perfume...

- Bah! – E fechou por completo a entrada.

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Foi maravilhoso!

Sakura jogou as mãos para a frente como se, mais uma vez, jogasse suas coisas sobre a cama. De bônus, tinha visto a amiga feliz como nunca – Algo deve ter acontecido para que ela e Shikamaru passassem a agir da maneira que, a rosada sabia muito bem, que eles queriam agir. Anteciparam-se a qualquer plano que ela quisesse botar em ação para ver se aqueles dois se tocavam... No mais, Naruto cumprira sua promessa. Fazia perguntas de cinco em cinco minutos, mas foi como se ela fosse uma rainha e o mundo girasse ao seu redor. Incrível, fantástico.

E uma parte da sensação boa se dissipou aí.

Ouviu a porta se abrindo e um baque seu pufe favorito com a certeza de que era Naruto alí. Ajeitou o laço da camisola e se olhou no vidro de uma quinquilharia da prateleira. O rapaz, ao lado, parecia um parêntese.

- Não pense que é para você ficar aí se sentindo o rei! – Pegou o objeto e foi até perto do rapaz – Fique aqui. – Apontou a beirada da cama.

- Por que aí?

- Porque sim. – Finalizou categórica.

Naruto abriu um sorriso – algo safado – enquanto transitava de um lugar para o outro. Ele ainda estava com roupas normais, e Sakura desconfiou mais uma vez de que elas eram novas. Na havia espaço entre eles, e isso de certa forma os desconcertou. Era uma proximidade diferente, ansiosa, insuficiente. Não como quando ele passaram alguns minutos arrancando novos cogumelos do quintal e seus braços e mãos se encontraram várias vezes – Por que ela fazia questão de não deixar Naruto apanhá-los também. Ou quando tinham gotas de água entre eles.

- Bem... hora de conversar. – Ela esfregou as mãos se queixando mentalmente por não parecer séria – Você gostou? – Perguntou tão incomum e de repente que ele ficou surpreso.

-Ah, Sakura, por que não? Estava todo mundo lá, você estava lá... A pergunta mesmo é se você gostou, 'ttebayo.

- Oh, claro que sim! – Sakura riu – Foi... muito bom. Mas eu perguntei foi dos meus legumes ao curry, de agora da janta.

Calaram-se porque Naruto precisou processar a súbita mudança de rumo. Acabaram rindo. E depois ficando com sorrisos em suspenso como se nada mais tivessem a fazer.

- Você realmente – Ela comentou – gosta muito de mim. Bem, isso não é novidade nenhuma... – "Quantas vezes você já deu provas disso?" – Eu também te amo.

- Sim, e en... Huh? – Ele voltou a virar-se para a moça. Sakura recolheu as pernas e sentou-se feito buda, encarando o moço.

- Naruto, não é a primeira vez que eu te digo isso, mas, antes de mais nada, eu quero que você saiba e tenha certeza... – Ela fez uma pausa, não conseguiu olhar nos olhos dele na hora – Eu também... amo você.

É verdade. As memórias de Naruto eram confusas mas...

"O quê?!"

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Fechar a porta do quarto. Miscelânea de sentimentos acionada. Alí, sozinha consigo mesma naquele cômodo iluminado apenas por um restilho de luz vindo de fora, Ino não soube o que fazer. Ou se tinha vontade de ficar parada, ou de correr, ou de saltar de vitória, ou se pensava na sua missão, ou como o seu pai iria se sentir, ou se se jogava na cama e gritava abafado para liberar a... o entusiasmo misturado com um trilhão de outras coisas.

Porém, tudo isso se acalmou, até certo ponto, dando espaço para uma elétrica saudade. Não, isso é tão ridículo. Shikamaru está atrás daquela parede alí, ó. Será que ele está se sentindo parecido? Sem se dar conta, Ino começou um monte de planos. Pegou todos os espaços vazios que sua estratégia de levá-lo de volta permitia e se imaginou preenchendo cada uma delas. Estava empolgada demais até para pensar em angústias. Ela e o rapaz conversaram sobre tantas coisas, e se beijaram mais algumas vezes – depois de já terem voltado do passeio. Sentou-se devagar na cama, digerindo cada pedacinho de alegria que ainda saltava-lhe ao pensar em hoje. Grande hoje.

Tshshshsh!...

Quebra súbita. Ino olhou para trás e seu susto aumentou quando viu a silhueta ocupando quase toda a janela, ameaçadora, as cortinas escancaradas. Ia dar um jeito de expulsá-lo, mas o corajoso não só pulou para dentro como também agarrou seu braço. Não tem jeito, usaria a luz de forma mais explosiva. O importante é que aquele invasor fosse embora...

- Calma, sou eu!

- Sai! - Bastou um pouquinho mais de iluminação para o rosto de Sai aparecer. Ino puxou com força o braço de volta – O que está fazendo aqui?! Não fique me assustando!

- Me desculpe, senhora. – Ele falou e foi andando de um jeito tão insubordinado que Ino ficou desconcertada. Ele acendeu a luz – Mas nós precisamos conversar.

- Aqui não! – Foi a vez de Ino ir até o interruptor –E se, apenas se, você erra o quarto e aí pensam que você é um ladrão?! Me diz! Como é que eu f...

- Explique-me quem é Kiba. – A luz já estava apagada outra vez.

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Ele sempre teve certeza, e nela alicerçou toda a sua confiança. Era tudo o que ele tirara de bom daquele momento terrível de quando algo o fez seguir uma lógica estranha. Segundo ela, no fim Sakura seria dele para sempre, de uma forma cruel e nojenta. Tão nojenta que nos primeiros dias dele no hospital e após se dar conta do que fez, Naruto várias vezes pensou se o melhor era se afastar da moça. Mas isso o deixava ainda mais dolorido. Apenas se sentia algo mais feliz quando sentia ela por perto, mesmo que houvesse um ponto de sombra na moça. Como se ela estivesse chateada com ele.

Naruto se acostumou a essa distância, de algum jeito. Mesmo antes do incidente, ela nunca agiu ou deu uma pista de que o quisesse. Por isso, essa declaração de Sakura parecia soar algo falsa, plastificada... Quando ela disse que havia adorado a música, parecia antinatural também. Mas havia aquele abraço.

Ele se aproximou dela num impulso, quase como se fosse beijá-la. Sakura perdeu a delicadeza, reclamou gaguejando. Ficou com as bochechas tingidas de um tom mimoso e diferente de vermelho.

Então era verdade?...

- S-Sakura!

- Espera! – Naruto praticamente caiu para o lado dela, mas Sakura meio que o recolocou de volta no lugar - Também não pode ser assim!

E deu um beijo demorado no rosto dele. A mão de Naruto foi capturada por outra enquanto ia tentar novos abraços. Engaiolada e envolvida e tensa. A dele e a dela. Porém, a algum custo, Sakura se levantou, levando consigo o objeto que deixara ao seu lado. Andou até se escorar na porta e fitando um Naruto que já estava de pé também. Teve a impressão de que ele dissera algo antes. Tudo bem, ela também reclamaria. Era pouco demais...

- Bem, agora você já sabe. Espero não ter estragado nenhuma intenção sua de se declarar. Você tinha dito que queria fazer uma melhor.

- Não tem problema! Eu faço agora! – E se aproximou.

Sakura levou uma das mãos à frente, a caixa de vidro nela.

- O que é isso?

- É por causa disto que estamos aqui agora. – Sakura não continuou de imediato, os dedos tamborilando a caixinha – Tenho que admitir que, e você deve saber, eu não fui legal com você esse tempo todo desde que percebi que... era você.

- Eu o quê?

- Que eu passei a amar, dã! – Ele rolou os olhos. Foi engraçado, mas... – Eu devia ter te dito antes, mas preferi ficar me comportando feito uma tonta só porque eu não sabia como ia ser se eu te contasse uma outra coisa. – E abriu a caixa – É algo que você também precisa saber sobre mim... – Virou-a para Naruto.

- Ah... um anel? – Pegou a jóia. Muito rara por sinal. – Quem foi que te deu?

Porém, antes que Sakura respondesse, o rapaz foi rolando e rolando o aro (Tinha uma coisa escrita nele) e nisso sua face foi ficando pálida, pálida, pálida. Ele parou, branco por completo e preso ao anel. Sakura mordeu os lábios.

Ele não precisava perguntar. O modo como ele a olhou... A vontade da moça era de rebobinar a fita e abraçar Naruto e não deixar que ele fosse varrido pelo ar feito areia. Medo com peso de um bloco de concreto.

- Isso mesmo. – Limitou-se a responder.

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- Não fale comigo desse jeito. Olha o respeito! – Ino avançou, o dedo em riste - Kiba é só um amigo meu daqui.

- Amigo-amigo ou amigo de vínculos empregatícios?

- Amigo-amigo. – Ela respondeu tão sem titubear que agora foi a vez de Sai ficar desconcertado. – E se você veio aqui só por causa de ciuminho é melhor voltar lá pra fora!

- Não é isso. – Sai puxou uma folha de dentro de um dos bolsos e a desdobrou. Ino reconheceu logo que era a lista dos seus súditos, e o rapaz apontou para o último nome – É que o seu amigo é este aqui.

9. Inuzuka Kiba. Admissão em...

Ino puxou a lista das mãos de Sai. Leu e releu.

- Não pode ser ele. Esse mundo não é pequeno demais para ter duas pessoas com o mesmo nome.

- Eu não sei se tem um xará dele por aí, mas o único Inuzuka Kiba súdito da Senhora do Infinito que eu vi foi o que saiu desta casa ontem pela manhã. – Puxou outra coisa do bolso – Eu já tenho meu faro de súdito, mas dei uma passadinha lá no seu templo mais tarde. Como sua sacerdotisa escreve igual a médico, acho que ajuda. – Entregou o outro papel à Ino.

Borrões, mas nada ilegível o suficiente para que não ficassem claros o horário, a data e um nome. Todos seguidos de uma oração pedindo por luz e coragem para que Inuzuka Kiba seguisse firme em seu caminho de devoção e doação de si mesmo. A folha era recheada de outras informações sobre o rapaz, espalhadas a esmo. Era mesmo ele.

- Agora é esquisito um ritual de admissão sem a poderosa em questão conduzindo. – Sai comentou – Será que foi via alfabeto do copinho? – Perguntou algo inocente.

- Não houve ritual nenhum! Ele nem sabe quem sou eu, nem queria ser súdito de coisa alguma!

- Mas ele está aí. – Sai outra vez apontou para o nome. Suspirou – Parece ter a vida feita, coitadinho... Agora vai ter que largar tudo.

- Ele não vai largar nada! Escuta... vou tentar descobrir o que houve e, até lá, nada do Kiba se mudar para o Topo do Monte, entendeu? Ele está na minha lista, é minha responsabilidade, não é?

- O que você vai dizer pro meu senhor?

- ...

- "Ganhei um súdito por geração expontânea!"

- Você quer parar? Eu já disse que não sei como isso aconteceu. – Olhou para trás. Falara muito alto? Ia continuar mas, como quem se deteve uma idéia, Ino simplesmente foi para perto da janela e passou mais algum tempo ensimesmada. Até que... – Dá para fazer isso sem um ritual.

Sai olhou para ela. Ino levou a mão à testa.

"Céus!"

- Você acabou de descobrir o que aconteceu. – Sai falou – Eu acho. Pela sua cara...

- Você tem razão.

- ...

- Mas você ouviu o que eu disse! – Ela falou de repente - Nada de fazer alguma coisa, nada do Kiba ir agora! Primeiro, nós vamos ter que conversar e tentar reverter essa joça.

- Hum... Reverter?

- Você sabe! – Falou. Era o óbvio. – Agora, só não sei como é que eu vou fazer isso...

Tump! Tump!

- Você tem visitas. – Sai apontou para a porta. Ino começou a empurrá-lo – Vou me esconder dentro do armário?!

- Não, você vai sair. – Ele já ia sendo tocado pra fora – Vê se não faz barulho, ou pisa no rabo do gato ou qualquer outra besteira, ouviu.

- Tudo bem. – E pulou.

Ino sentiu falta de algo nesta hora. Sai lhe pareceu muito seco na despedida.

Claro, ele tentaria beijá-la na bochecha...

A moça se voltou e abriu a porta, mas não havia ninguém, nem mesmo no final do corredor. Saiu um pouco e, observando, talvez o barulho fosse de alguma coisa batendo nos outros quartos. Mas ouviu uns soluços abafados vindo do banheiro. A luz estava acesa.

Aproximou-se e viu Sakura debruçada sobre a pia, chorando.

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Precisava sair. Por pouco não viu Sai pulando o muro. Estava frio lá fora.

"- V-você é casada?!"

E então Sakura lhe explicara, pacientemente... Sobre aquele casamento, sobre a impossibilidade de um divórcio, por alto sobre aquele outro homem. Sabia que devia ser alguém com algum dinheiro, ou ao menos com a pose, muito longe do patamar de zés ninguéns como ele próprio devia ser. Comparado a esse cara. Se Sakura ainda o amasse, na certa sentiria muita, muita inveja dele.

Não que Naruto, algum vez durante aquele curto tempo, não tivesse se sentido traído, não quisesse perguntar, por favor, porque ela escondeu isso dele. Só para extravasar sua indignação com isso... Mas, agora, uma coisa entre morna e quente – aquele limiar angustiante antes da água ficar em temperatura de queimar – circulava e corroía lenta e sistemática o seu interior.

Ele quase não acreditou. O sujeito era tão alguém que Naruto jamais poderia enfrentar, tanto, que o rapaz já nem conseguia pensar mais nele. Tinha vontade de algum dia encontra-lo e dizer-lhe umas boas verdades (Deixe ela em paz! Você nem a quer!), mas, esquece, não era essa a questão de maior importância. A que era tem a ver com as peças. Que sempre estiveram faltando, mas que Naruto nunca se preocupou em procurá-las.

Uma série de coisas agora faziam sentido.

Seu pé encostou em algo. Naruto levou um pedaço de susto ao fitar, bem no chão e pequeno, a coisa roxa, disforme, parecendo queimada nas bordas. Como que tomado pelo mesmo medo de Sakura, hesitou em se abaixar para arrancá-lo.

Ele sempre esteve perto. Estava lá quando ela chegou e quando ela se sentou pesada no sofá. Viu toda a tristeza dela e soube vagamente que tinha algo de amor alí e deu um de seus conselhos motivacionais xarope. Viu quando ela se tornou algo monstruoso e foi quem passou mais tempo no hospital com ela. Viu ela aos poucos se mostrar uma pessoa animada mas de pavio curto. Ele viu.

Porém, ele nunca havia sentido Sakura. Um pouquinho mais cedo, um tanto mais na hora do passeio, bastante agora. Não no sentido se sentir o corpo dela ou ela o amando, mas de sentí-la como uma pessoa una, com seus próprios problemas, vontades, esperanças e anseios. Ela era Sakura, ela mesma, completa e independente. Não uma silhueta vista por um óculos embaçado ou um apêndice seu. Ou algo que ele pudesse chegar ao cúmulo de devorar no intento ensandecido de integrar a si mesmo

Naruto era um egoísta nato. Era verdade que ele amava Sakura, mas ela estava errada. Ele nunca se importou com ela de verdade.

Prova disso foi ter parado naquele quintal, sem ter dado a mínima se ela iria pensar que agora ele a odiava... Merda!

O rapaz pôs as pernas para funcionar e... Não, antes pegou uma flanela velha, arrancou o cogumelo, amarrou e o chutou loooooooonge. Aí sim correu para dentro. Mais do que nunca, precisava se manter íntegro, são, pronto para ser alguém em quem Sakura pudesse contar. Deu de cara com ela no final da escada e teve a impressão de estar ouvindo Anata baixinho. Mas o rádio estava na mão dela mesmo.

Abraçou-a.

- Eu... – Ele perguntou – ainda posso amar você?

O rádio caiu no chão outra vez. Ninguém se importou.

- Naruto...!

Esse abraço, com certeza, foi muito mais intenso e cheio de sentimento do que o outro. Só a música é que estava chata. Se pudesse, Naruto a calaria acionando algum botão com o pé. Deixa pra lá!

Trocaram um beijo tímido.

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O complexo dos templos era um tanto fúnebre a essa hora da noite. Apesar do ambiente demasiadamente escuro, Hinata tinha plena noção de distância, profundidade e imensidão daquele lugar. Perdeu-a um pouco ao entrar de fininho dentro do Templo dos Senhor da Sombra Profunda. Mesmo assim, seguiu resoluta, sem topar em nada. Um dos lados bons de ser quem era é não precisar de lanterna. Os cogumelos-olhos davam conta disso.

Quando não foram mais necessários, se transformaram em flores brancas. E se desintegraram. O lugar estava descontaminado agora. Um dos poucos que sobraram foi o que se instalou dentro do armário dos que trabalhavam alí. Outro foi o que encontrou a porta para Hinata.

Era uma bem nos fundos. A moça abriu-a. Já dentro, estendeu o braço até encontrar a superfície drapeada de mármore – uma roupa. Escorregou a mão para cima até encontrar o que julgou ser o braço da estátua. Era esta mesma.

Súbito, vários cogumelos enormes envolveram a mulher de pedra e sumiram com ela.

- Começou... – Hinata murmurou para si mesma.

Vai dar certo, vai dar certo...

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.Continua

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Respondendo...

B Lilac: Sem problemas, Lilac, que esse "o que se mandou por querer mais poder" ainda terá mais espaço. Afinal, ainda faltam algumas coisas para Sakura e Naruto enfim puderem viver o amor deles. E agora eles podem, já se resolveram! Antes mesmo do casal protagonista, vê se pode...

Pelo o que você diz, imagino que nessa hora Anata já estava em seu último e mais potente refrão, confere? Aí sim deve ter sido épico, jajaja! Sua suposição sobre o plano da Ino é boa, mas, acredite, Shikamaru já pensou nisso. Nem sempre rola de fazer inferências presumidas comigo, afinal. No entanto, já dá para você descartar uma de suas alternativas sobre o Sai. Agora sabemos que aconteceu algo muito sério com o Kiba. Talvez aí seja bom – para ele – haver mais de um.

Haru x3: Suas oraculices não devem ter ficado fracas, sou eu que tenho movimentos friamente calculados, jajaja! E as conversas francas e os beijos continuaram, agora Naruto sabe a verdade e o relacionamento do Shikamaru e da Ino está aparentemente sólido. E agora vou querer saber porque você achou que o Sai levou o amuleto para o Kiba. A Lilac levantou essa mesma hipótese, agora a curiosidade me pegou e eu gosto de ouvir vocês.

E, como disse a Hinata, começou. Não só o processo de queda das máscaras, mas também todas as implicações típicas de uma data decisiva chegando e a movimentação dos personagens para no final alguém se sair bem. Ah, te perdoo por não ouvir Anata junto com o texto, mas só desta vez.

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