Capítulo 14 - Outra estrada

Harry acordou se sentido bem. Respirou fundo, reconhecendo o perfume de Charlie e sorriu antes de abrir os olhos. Era um ótimo dia para se tentar recomeçar a vida.

Uma luz suave das primeiras horas da manhã entrava pelo quarto de janelas abertas e iluminavam a pele pálida, marcada por pequenas sardas, do peito do homem. Harry depositou um pequeno beijo em seu ventre nu, com suavidade para não acordá-lo, decidindo se levantar para fechar os vidros e pegar uma coberta para o ruivo, ele estava gelado.

Ao se erguer, porém, a cena se desenhou em totalidade à sua frente. O corpo nu jogado sobre a cama, descoberto, deixando à mostra as marcas do sexo recente, os olhos abertos, vidrados, encarando o nada, os hematomas nos pulsos, ainda imóveis sobre a cabeça, a ausência de respiração.

Harry se afastou da cama, em choque, os olhos verdes presos à cena, o cérebro travado sem conseguir chegar à informação final que resultava da associação de todos esses traços: Charlie estava morto.

Seu corpo se chocou contra a parede e ele se deixou escorregar, se encolhendo sentado no chão, ainda sem conseguir desviar os olhos dos olhos mortos de Charlie. E então, a risada soava em seu silêncio interno, e ele sabia o que isso significava.

Foi você quem o matou.

A frase se repetia na mesma cadência do piscar de seus olhos, no ritmo da respiração agitada que saía de seu peito de forma quase dolorida. Ele sabia. Sabia exatamente o que tinha acontecido ali, mesmo que não se lembrasse.

Gritou, se impulsionando contra a porta, sem suportar mais ficar ali, sem aguentar olhar para ele mais uma vez. Ele sabia que aquilo iria acontecer, a qualquer minuto, ele estava somente esperando, tentando acreditar em... nada.

Correu pelos corredores sem saber onde estava ou para onde estava indo. Ele não podia ficar ali e não podia sair. Não podia libertar... ele. Não podia deixar ninguém se aproximar. Ninguém podia ajudá-lo.

Ele devia morrer.

Seus pés perderam o chão e o corpo pequeno rolou pela escada sem ao menos tentar evitar a queda, aterrissando no corredor de entrada de Largo Grimmauld machucado e inconsciente.

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Era noite novamente quando os olhos verdes se abriram. O garoto se ergueu do chão, mancando, mas se endireitou como se não tivesse acontecido nada. Estendeu a mão, e a varinha de Harry Potter veio até ela. As palavras em latim a que ele já estava familiarizado convocaram suas roupas do quarto no andar de cima, onde ele sabia que o corpo do homem ainda devia estar.

Talvez um dia o encontrassem. Não lhe importava.

Vestiu-se, devagar, limpando vagamente o sangue que escorria pelo seu rosto, e saiu da casa, agora forte o suficiente para desfazer os feitiços que a trancavam, determinado a não ser um prisioneiro de um humano qualquer novamente.

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A igreja vazia era um lugar agradável. O padre fechou as portas da sacristia, depois de verificar se tudo estava guardado em seu devido lugar, e fechou os olhos em prece ao cruzar o altar, ouvindo somente o som dos próprios passos ressoarem no espaço côncavo sob a abóbada central da nave.

Após trancar as portas principais da igreja e apagar as luzes, deixando somente algumas acesas, justamente aquelas que indicavam a presença de Deus em Sua casa, saiu por uma entrada lateral, descendo as escadas para a área dos dormitórios. Era hora da oração noturna, e tudo o que se ouvia na passagem estreita que dava acesso aos quartos dos seminaristas era um sussurro quase cadencial.

Padre Bernard preferia a natureza de São Francisco, por isso, ao invés de seguir para sua cela, preferiu voltar pela escadinha, indo à praça que ficava nas costas da igreja. Era ali, entre as estátuas não tão ornamentadas dos santos e os pequenos sons da vida noturna, que ele gostava de rezar.

Naquela noite, porém, para sua surpresa, a praça não estava vazia como costumava estar em horário tão avançado. Em um dos bancos distribuídos a espaços regulares em seu entorno, uma sombra encolhida em uma capa preta parecia tremer sob o frio da noite.

Não seria o primeiro mendigo a quem o padre ofereceria um prato de comida e um cobertor mais grosso, mesmo que seus superiores não aprovassem que recolhessem estranhos às dependências da igreja. Era o mínimo que ele podia fazer para um irmão.

Aproximou-se, tomando cuidado para fazer barulho com seus passos a fim de não surpreender o estranho, e, como o esperado, a sombra se mexeu mais abruptamente e se virou de frente para ele. Dois olhos verdes cansados e levemente irritados o encararam. Era somente um menino.

- Você está bem? – o padre perguntou, preocupado, ao se dar conta que não era um menino de rua, simplesmente. A capa que ele usava era mais grossa que sua batina e ele calçava botas de couro e roupas estranhas, mas bem cortadas.

O rapaz sentou-se, segurando a própria cabeça como se sentisse dor, ele ainda tremia. O padre se aproximou, tocando seu ombro, e a mão do garoto se agarrou ao seu pulso com aflição. O toque da pele o permitiu sentir que o menino ardia em febre.

- Por favor, padre. Ajude-me. – sua voz era somente um sussurro, e Bernard entendeu que aquela alma precisava de mais do que um prato de comida.

Ajudou o garoto a se erguer, vendo o quanto ele tremia, e o conduziu até a porta lateral da igreja, deixando-o deitado em um dos muitos bancos destinados ao público da missa enquanto ia até o altar, tocando um sino que alertaria o corpo de seminaristas. Pegando uma taça de cima do altar, a encheu com água benta – única fonte de água potável no momento – e voltou até o garoto, fazendo-o beber.

- Isso, devagar. – ele insistiu quando o menino engasgou e tentou afastar a taça, mas se ele estava com tanta febre, precisava de água.

- Padre Bernard? – uma voz baixa se aproximou, sobressaltando os dois – O que está acontecendo?

- Evan. – o padre sorriu ao ver um dos seminaristas – Encontrei este garoto nos bancos da praça, ele está doente. Vou ver se podemos levá-lo a um hospital. Fique com ele enquanto eu chamo ajuda, ok?

Foi menos de cinco minutos entre Padre Bernard sair da igreja, descer novamente ao dormitório, convocar mais três ajudantes, para carregar o garoto e dirigir até o hospital, e retornar onde o havia deixado com Evan. Ao chegar lá, porém, percebeu com o que estava lidando.

Evan e o garoto continuavam sentados no mesmo banco em que os deixara, com a pequena diferença de que agora o garoto estava alojado sobre o colo do seminarista, abrindo sua batina e violando sua boca em um beijo faminto.

Bernard começou a entoar imediatamente as palavras em latim de um ritual de exorcismo e não foi com surpresa que viu o garoto jogar a cabeça para trás e gritar em agonia. Dois dos seminaristas que o acompanhavam seguraram em cada braço do menino, afastando-o de Evan com dificuldade, enquanto ele se debatia, e Bernard tirou o celular do bolso da calça que usava por baixo da batina, entregando-o para o terceiro, já com um número de chamada internacional digitado na tela.

- Diga que precisamos de orientação, rápido. Temos um demônio aqui.

O seminarista deixou a nave da igreja tentando ouvir a ligação independente dos gritos do garoto e do canto de exorcismo, entoado cada vez mais alto. Quando desligou, porém, notou o silêncio absoluto da noite.

- Padre? – entrou, receoso, de volta à igreja. Não havia ninguém ali. Seus olhos correram o altar e a fileira de bancos e os santos semi-ocultos pela escuridão do lugar. Nada.

Então algo o pegou por trás, prendendo suas mãos às costas e tampando sua boca. Uma respiração quente bateu contra seu pescoço e ele sentiu um beijo suave, para então sua pele ser sugada e levemente mordida no mesmo ponto, em um contato erótico. Tentou protestar, mas uma risada fria o calou. A mão que cobria sua boca virou seu rosto e foi substituída por lábios em um beijo que parecia sorver sua alma. Ele se sentiu tonto e seus joelhos cederiam a qualquer momento.

Com quase delicadeza, o garoto o sentou em um dos bancos, sentando-se sobre seu colo e tomando o celular fracamente seguro em sua mão. Na tela, brilhava um nome a que o número que ligara se referia.

- John Winchester. – o demônio leu, sorrindo. Aquilo era promissor – O que ele disse? Suponho que tenha falado com um dos filhos dele. Já encontrei com John no inferno. – o seminarista não respondeu, tentando somente respirar, e o demônio perdeu a paciência, beijando-o novamente – Responda e eu penso na possibilidade de não te matar.

- Eu disse que tínhamos um garoto possuído e que o exorcismo não estava funcionando. – o seminarista comentou, vago.

- Muito perspicaz. E aí?

- Ele disse para te manter preso. Que eles não sabiam o que fazer sem analisar o que é você.

O demônio pensou por um momento, então voltou a encarar o seminarista.

- Bom garoto. E já que tenho as bênçãos de seu bom deus para oficializar minha viagem, acho que vou ter que visitá-los então. Eu adoraria analisar alguns Winchesters.

Ele voltou a beijá-lo até sentir que o homem estava inconsciente. Então se levantou, pegando a taça caída no chão e olhando seu reflexo no metal polido. Aquela tentativa de Harry havia sido algo inusitado. Procurar uma igreja?

Deixou a taça cair novamente, balançando a cabeça incrédulo, e se dirigiu à sacristia, procurando pelos documentos da paróquia. Brincar com Winchesters era muito mais interessante do que simplesmente caçar, e ele já estava enjoando dessa história de ser bruxo e ficar se escondendo. Precisava de novos ares.

Encarou a imagem do arcanjo Michel em um dos cantos da igreja, achando em sua base o compartimento onde estava o cofre. E, afinal, talvez eles soubessem o que fazer sobre seu probleminha com Harry Potter.

FIM

Mas continua...

NA: Olá, meus queridos.

Demônio termina aqui. Foi uma jornada mais longa do que eu jamais pensei quando comecei a escrever a fic, mas acho que foi realmente boa. Espero que pelo menos metade de vocês tenha ficado feliz com o desenrolar da fic e tenho fé que mais da metade vá ler a continuação.

Obrigada e nos vemos em Asmodeus /o/

Ah, e a quem interessar possa, eu atualizei meu profile.

Beijos