Disclamer: Saint Seiya não me pertence, nem seus personagens, o que é uma pena realmente XD
Esta é uma fic yaoi, ou seja contém relacionamento homossexual entre homens.
Capítulo 14
Afrodite POV
Eu conferi mais uma vez o relógio de pulso enquanto entrava esbaforido no restaurante. Uma e dez. Eu estava dez minutos atrasado. Mas ele ainda não estava lá, conforme eu pude apurar em uma rápida olhada pelo lugar.
Eu relaxei os ombros. Eu não estava indo me encontrar com o Camus, afinal. E ninguém mais no mundo consegue chegar pontualmente aos compromissos com esse trânsito. Com a possível exceção dos trens ingleses. E, claro, do meu melhor amigo.
Eu olhei mais uma vez em volta, agora com mais calma. O restaurante, mais um pub na verdade, permanecia vazio como sempre. Eu e o Camus costumávamos ir lá antes. Ambiente decadente, comida horrorosa, preços salgados. Mas tinham boas opções de vinho e a música era agradável. Mais importante: Nunca tinha fila na porta.
Naquela tarde de Segunda, toda a freguesia do pub se resumia a três bêbados no balcão, que me encararam de maneira inamistosa quando eu entrei, como se fossem perturbados; Um casal que discutia em uma das mesas do fundo – moça loira, bonita, do tipo que se imagina ver em catálogo de lavagem de carros. Homem de meia idade meio feioso; Uma mulher lendo o cardápio perto da porta – cabelo muito curto, com mechas bordô. Macacão laranja horroroso. Bolsa bem maneira. Miu Miu. Por que usar uma roupa feia com uma bolsa tão legal, eu me pergunto. Não fazia sentido – ; Outra mulher fumando um cigarro na mesa da janela – vestido tubo preto tubo. Cinto largo na cintura. Sapatilha. Sem graça, mas elegante. Estrutura pequena, parecendo um esquilinho.
Uma recepcionista se aproximou. Cabelo vermelho espetado - tintura caseira, mas aplaudi o esforço -, calça jeans justa demais, top preto mostrando dois dedos de barriga na região da cintura. Meio vulgar, mas admirei a ousadia. Corpo bonito, piercing no umbigo.
– O Senhor vai querer mesa pra quantas pessoas? – ela perguntou enquanto pendurava meu casaco junto com os outros no cabideiro. Os olhos muito pintados, escuros e redondos demais, faziam com que ela lembrasse um guaxinim. Um guaxinim maquiado.
– Pra dois, por favor. – eu respondi.
Engraçado, agora que tinha pensado aquilo não conseguia mais parar de pensar: Cara de Guaxinim, Mulher Guaxinim, e até Pequeno Guaxinim Assustado.
Ela me colocou em uma mesa ao lado da Esquilinho, que havia pousado o cigarro no cinzeiro e agora falava em um francês rápido com alguém no celular. A voz também era de esquilinho.
– Oi. – eu tentei puxar assunto quando ela desligou o telefone.
–Oi.
– Você é daqui? – eu sabia que não, era só um pretexto pra poder conversar.
– Non, de France.
Pensei que poderíamos falar sobre as lojas de Paris. Mas ela não era de Paris. Era de um lugar chamado Roanne. Eu nunca tinha ouvido falar, mas ela parecia ter bastante orgulho disso.
Um garçom se aproximou pra anotar meu pedido. Olhos grandes, um pouco estufados, nariz de bolinha, sorriso meio idiota no boca de dentes separados. Gravata vermelha na camisa de manga curta branca. Calça social um número menor. Cafona. Lembrava um personagem de desenho animado.
Bob esponja! Eu não pude deixar de pensar. 'Bob Esponja, calça quadrada, Bob Esponja, calça apertada'... O quê? Eu gosto de assistir desenhos, oras!
– Já decidiu? – Bob Esponja perguntou. Pelo sotaque dava pra ver que não era americano. Latino talvez, ou egípcio. Ou de algum outro país subdesenvolvido qualquer. Quer dizer, em desenvolvimento. Não se pode mais falar subdesenvolvido, não é politicamente correto.
– Um vinho, por favor. – Eu respondi.
– Merlot?
– Perfeito. – eu sorri.
Quando dei por mim estava perguntando:
– De onde você é?
Ai meu Deus, será que eu estava virando aquele tipo de pessoa irritante que puxa conversa com todo mundo que encontra?
Em New York é fundamental falar com o mínimo de pessoas possível, sabe. Principalmente quando se está fazendo compras. Já notaram como as vendedoras sempre dizem palavras de validação do produto quando estão embrulhando as peças? Dizem: 'Linda essa camisa!', por exemplo. Ou: 'Esplêndida, não é?' Sempre me vejo querendo responder: 'Na verdade, não concordo. Detesto essa camisa.É uma das que menos gosto' Quer dizer, provavelmente não compraria se não gostasse. Mas só estão trabalhando, não é culpa delas.
– Da Jordânia. – Bob Esponja respondeu.
Nossa, Jordânia! Eu nunca tinha conhecido ninguém de lá antes.
– Puxa, você está bem longe de casa. – eu disse. Pensando: Coisa mais idiota pra se dizer, parece papo do Lobo Mau pra Chapeuzinho.
E depois:
– Você deve sentir falta do calor. – Outra coisa idiota, e todo mundo deve dizer isso.
– É. Mas tem coisas mais importantes na vida que a temperatura.
– Tipo o quê? – de repente curioso.
Ele riu
– Tipo três refeições por dia, estar livre de perseguição política. Tipo oportunidade pra sustentar a família.
– Certo. – eu disse - Entendi.
Me senti um pouco melhor. Tinha conseguido me conectar com outro ser humano.
Acho que no fim o Camus tinha razão sobre eu não conseguir ficar mais de cinco minutos de boca fechada mesmo.
Olhei outra vez no relógio. Uma e dezessete. O tal Milo estava demorando um bocado. Será que aquilo era o normal dele, ou tinha acontecido alguma coisa?
Nova descoberta: Bob Esponja é muçulmano!
Não sei por que fiquei tão surpreso. Eu sabia que a Jordânia é um país de maioria muçulmana.
Ele veio trazer o vinho e falou casualmente sobre rezar em direção à Meca, então perguntei:
– Você é muçulmano?
E ele respondeu:
– Sou.
Nada de mais, mas de repente me senti desconfortável de ter pedido vinho pra ele. Com a sensação de que ele podia ficar pensando coisas terríveis sobre mim, sabe. Não quero parecer preconceituoso, mas é inegável o choque dos sistemas de valores. Eu gosto de Merlot. Os muçulmanos desaprovam o Merlot. Não recusaria trabalho a uma pessoa só porque não gosta de Merlot. Não recusaria a cidadania a ela. Mas quero gostar de Merlot, sem achar que vou queimar no mármore do inferno se tomar uma taça no almoço.
Estou sendo racista? Ou só estou dizendo o que todo mundo pensa?
Uma e vinte e dois. Começando a me perguntar se era mesmo uma boa idéia o Scorpion e o Camus juntos. Concluí que não podia ser pior do que ter que aguentar a Saori.
O que o Camus estava fazendo com ela? Era o que eu me perguntava todos os dias do café da manhã ao jantar. Algumas vezes em voz alta. O que fazia meu amigo balançar a cabeça ruiva em desaprovação. Ele achava que era implicância minha. Mas não era. Eu não a achava feia demais pra ele, nem nada assim, por exemplo - que era o que eu achava da maioria das outras garotas que ele saíra diga-se de passagem.
Achava ela até bem bonita, na verdade (mesmo tendo o QI de um inseto). Pele clara, cintura fina, os peitos turbinados. Era a única pessoa que eu conhecia que realmente colocara silicone. Pra ser franco, eles não eram grotescamente grandes. Mesmo assim, não tinha como não notar. Também suspeito que tenha colocado megahair – numa semana a gente se encontra e ela está com o cabelo logo abaixo do ombro, na outra vinte centímetros mais comprido. Mas talvez tome muito selênio, sei lá.
Ela faz o tipo modelo, sabe. Na verdade, foi modelo. Bom, mais ou menos. Apareceu em algumas fotos numa revista de uma amiga - que só conseguiu lançar dois números antes de falir. Também apareceu em um comercial de cerveja que a companhia do avô dela patrocinou. Depois quis ser cantora (em um reality show de TV). Também quis ser atriz (gastou uma pequena fortuna em fotos, mas foi descartada porque era péssima). E há boatos de que foi vista num teste pro Big Brother, mas ela nega.
Mas não vou julgar. Meu Deus, eu mesmo só consegui gravar um comercial, e depois de muito esforço. Parabéns a Saori pelo espírito aventureiro.
Não, o único motivo de eu não gostar dela era ela não ser agradável mesmo. Mal se dava ao trabalho de falar comigo. Se comportava como se fosse uma rainha cheia de vontades. A linguagem corporal dela sempre dizia: 'Não suporto andar com você, sua Biba. Preferia mil vezes estar cheirando coca na coxa de um qualquer numa boate'.
Ela agia como se achasse que eu fosse 'contaminar' o Camus, e roubá-lo bem debaixo do nariz dela. Como se tivesse alguma probabilidade disso acontecer.
Mas tudo bem, eu até poderia aguentar tudo isso se eu realmente achasse que o Camus gostasse dela. O que não era absolutamente o caso. Ele podia até sentir alguma atração por ela, era compreensível. Admiração, talvez. Gratidão. Mas, amor? Não mesmo. Quer dizer, é claro que ele sentia algum afeto por ela, mas ele também sentia isso por mim e pelo Hyoga, não é?
Além disso, eu achava que ela também nem gostava dele de verdade. Era mais uma questão de status, sabe. Que mulher não ficaria deslumbrada pela possibilidade de ter um príncipe como marido? Bom, não um príncipe exatamente reconhecido, já que os franceses foram bem eficientes em eliminar a maior parte da sua aristocracia há mais de duzentos anos, mas mesmo assim.
É que no caso dele, especificamente, parece que um de seus antigos antepassados foi muito bem sucedido em escapar da 'Dona Guilhotina'. Trocando de nome, e fugindo as pressas pra Inglaterra. Parte da família conseguiu retornar a França anos depois, se restabelecendo ali, e até recuperando (em troca de uma pequena fortuna) um dos muitos castelos que eram da família.
Um lindo Château no Vale do Loire (que custa mais de cem mil euros ao ano de imposto ao governo francês), a cerca de 6 horas de carro de Paris, com um vinhedo próprio, que infelizmente não é muito produtivo. E que, claro, ele irá herdar, junto com vários outros objetos de valor inestimável que um dia pertenceram à coroa francesa. Sabe aquela tiara que ele ofereceu a Saori como presente de noivado? Adornou a fronte de Diana de Poitiers e Catarina de Médice. Passada, depois, de geração à geração. Peça de museu. Totalmente de incrível!(1)
Mas ele não fica se gabando disso. Ao contrário. Ele age exatamente como se espera que um príncipe despojado do trono aja em relação ao seu título: como se tivesse vergonha dele. E na verdade ele realmente tem vergonha dele. Toda vez que eu menciono o assunto ele só diz: 'Dite, a monarquia na França acabou há mais de duzentos anos'.
Eu mesmo só descobri a história toda por acaso, sabe. Em um verão que nós passamos no Château em Loire, quando reparei no retrato de um homem muito pomposo no salão principal e li na plaquinha de informação que se tratava de um príncipe. No começo ele não quis me dizer quem era, mas depois o pai dele soltou que se tratava de um antepassado deles, e me contou a história toda.
Por isso, mesmo que já passasse da uma meia, quando o Milo Scorpion finalmente chegou no restaurante, e que eu soubesse o quanto o Camus odiava atrasos, ele ainda era uma opção muito melhor do que a Saori. Porque, pra começar, ele nem sabia sobre essa coisa toda de príncipe, castelo, e tudo mais. Então não tinha como ele estar interessado nisso. Como eu tinha certeza de que ela estava.
Na verdade, eram exatamente uma e trinta e cinco da tarde, quando ele empurrou a porta de vai e vem que separava a parte das mesas, do hall de entrada do pub. E eu nem precisei olhar no relógio dessa vez pra saber disso porque o homem da CNN na televisão ao lado do balcão tinha acabado de dizer as horas enquanto dava uma notícia horrível. Horrível. Sobre dezessete cubanos sendo deportados apesar de terem filhos americanos. Era a 'América despejando suas montanhas de lixo no Terceiro Mundo', ele falou. Sim, ele disse 'Terceiro Mundo', não 'países em desenvolvimento'.
Era por isso que eu não gostava de assistir ao noticiário, sabe. Às vezes passava alguma coisa divertida. Como aquela notícia sobre as estradas de New York a Jersey City estarem fechadas por causa do acidente com um caminhão de galinhas. A tela toda ficou cheia de penas. Mas na grande maioria das vezes eram notícias sobre guerras, crianças passando fome, e pessoas morrendo. Ou eram imagens de políticos - homens gordos, de bochechas vermelhas, com cara de corruptos - numa grande sala redonda, gritando uns com os outros. Eu realmente não entendia porque todos pareciam achar tão necessário que eu me deprimisse vendo aquilo.
Enquanto eu esperava, ele entregou o casaco e o cachecol pra Cara de Guaxinim – que parecia ainda mais com um guaxinim daquele jeito: os olhos arregalados, olhando pra ele – e caminhou até a mesa. Camiseta preta, jeans escuro - tipo skinny -, sapatênis, óculos de sol. Lindo de morrer. Beleza internacional.
Eu ouvi a Esquilinho abafar um gritinho ao meu lado quando ele se aproximou, retirando os óculos.
– Oi. – ele disse. Nenhum sorriso. Nenhum 'me desculpe pelo atraso'.
Mas, eu não podia culpá-lo por não gostar de mim. Eu sabia que tinha provocado. Mesmo assim era um pouco engraçado. O Camus vivia falando do ciúme do Carlo e agora...
– Oi. – eu respondi, fazendo um gesto pra que ele se sentasse.
Silêncio.
Ainda era um pouco estranho estar tão perto de alguém que eu costumava ver apenas na televisão.
Bob Esponja se aproximou.
Queria saber se nós gostaríamos pedir mais alguma coisa (na verdade, queria mesmo era pescar informações, considerando os olhares que lançava pra Cara de Guaxinim que agora retorcia as mãos ansiosamente, parada em frente ao bar. Os bêbados no balcão e a mulher do macacão horroroso também nos olhavam disfarçadamente. Até o casal nos fundos tinha interrompido a discussão e agora cochichavam entre si, lançando olhadelas pro nosso lado).
Nós estávamos sem fome pra almoçar, acabamos pedindo duas sobremesas.
– E então, o que você queria falar comigo? – Eu perguntei depois que Bob Esponja saiu pra registrar nossos pedidos.
Eu sabia o que ele queria. Mas não ia facilitar.
– Eu preciso que você me diga onde está o Camus. – ele foi direto – Você sabe onde ele está, não sabe?
Eu ponderei um pouco sobre aquilo. Estava em dúvida.
Por um lado, era verdade que eu fora o primeiro a incentivar aquela coisa dele com o Camus, e que queria o meu amigo livre da Saori. Ontem, de preferência. Também era verdade que eu estava sempre lhe dizendo pra viver mais intensamente, e que achava uma aventura com Milo Scorpion um excelente remédio, inclusive pra auto estima dele.
Mas por outro, eu estava preocupado.
O problema é que eu começara a ter fortes suspeitas de que, mais que uma aventura, ele realmente se envolvera pelo grego. Na verdade, eu tive bastante certeza disso quando desci pra pegar um copo de água no Sábado de madrugada, depois do Natal, e lá estava ele: Taça de vinho na mão, olhos fechados, cabelos vermelhos espalhados pelo encosto do sofá.
– Você quer me matar do coração? – eu havia gritado, assustado. Eram cerca de 5 e meia da manhã.
– O que está fazendo aqui sozinho e no escuro? - eu perguntei.
– Acenda a luz se isso te incomoda. – ele nem se preocupou em abrir os olhos.
– Você está doente? – eu me aproximei preocupado. Ele parecia péssimo.
– Non.
– Então por que está aí todo caído?
Abrindo os olhos e virando a cabeça na almofada, ele deu um sorriso fraco.
– Porque gosto.
– Isso não é coisa sua. – eu disse.
Ele deu um riso seco.
– Não é coisa minha? Claro que é. Sou aquele que medita, esqueceu? Eu medito. Gosto de pensar e de ser melancólico. Estou até cogitando em dar aulas.
Eu ensaiei um sorriso, mas estava preocupado demais pra piadas.
– O Hyoga ligou. - eu falei. Mais pra ter o que falar, me sentando ao lado dele no sofá.
– Hum.
Ele parecia desligado.
– Pediu desculpas. - eu continuei - Disse que vai emendar a semana do Natal até a virada do ano e viajar para o campo com os amigos.
– C'est juste.
Eu franzi o cenho.
– Pensei que você não fosse gostar.
– Pourquoi? - ele perguntou de forma vaga.
Minha pouca paciência se esgotou.
– O que há, Camie? Qual o problema, afinal?
Eu fazia uma boa idéia do problema, mas queria ouvi-lo dizer.
Ele permaneceu inexpressivo.
– Nada.
– Mentiroso. - eu acusei - Você está assim por ter dormido com Milo Scorpion, não é?
Silêncio.
Eu continuei:
– Certo, então você transou com o Milo... Bom, e daí? O que tem de tão errado nisso?
– E daí? – ele repetiu, me encarando, subitamente irritado – Você me pergunta simplesmente 'o que tem de tão errado nisso'? O que tem de tão errado nisso é que, caso você não se lembre, eu estou comprometido e vou me casar com a Saori em menos de dois meses!
Eu dei de ombros.
– Se ela pode ter um caso, você também pode.
Ele ficou de queixo caído.
– Está bem. – Eu suspirei, me virando no sofá, ao ver expressão atordoada dele – Você está certo. Você não é exatamente o tipo de cara que tem amantes, não é? Mas o que realmente importa, Camie, é que você experimentou as calças, e elas não serviram.
– Isso é tudo culpa sua, sabe disso? – ele lançou de repente - Se você tivesse ficado quieto, eu non teria saído por aí experimentando coisas, e non saberia nada sobre calças que não servem.
– Então você deveria culpar o Hyoga. - eu falei - Se ele não tivesse feito a estupidez de ser baleado, a Saori não o teria salvado, e você seria livre pra ficar com quem quisesse.
– Mas eu queria me casar com a Saori. – ele afirmou - Estava achando ótima a idéia. Até descobrir tudo sobre Milo Scorpion, e depois sobre calças que não cabem no corpo.
– É culpa do Milo, então. – eu disse - Você não saberia de calças que não se ajustam se ele não tivesse enfiado a língua na sua boca.
– Ah, Merd! – ele falou jogando a cabeça no sofá outra vez. – Qual é o problema comigo, afinal, me diz? Mon Dieu, ele nem faz o meu tipo!
Eu comecei a rir.
– Ah, Camus, por favor! Não faz o seu tipo? Porque ele é homem? – eu zombei - Ou porque ele sabe escrever?
– Porque ele é o Milo Scorpion. - ele respondeu amargo - Um Casanova moderno irresponsável que brinca de seduzir pra se divertir.
Certo. Eu tinha que admitir que ele tinha um pouco de razão nisso. Mesmo assim tentei confortá-lo.
– Vamos, - eu disse, dando leve batidinhas no seu ombro – não é tão ruim assim.
– Não é tão ruim? – os olhos dele pegaram fogo de repente – É terrível! Mon Dieu, você non vê o que eu fiz? Non percebe o que está acontecendo? O que ele está fazendo? Exatamente o que já fez com dezenas de pessoas, centenas talvez.
– Mas ele disse que você o interessava, não foi?
Ele balançou a cabeça.
– Francamente, Afrodite, olha bem pra mim. - ele apontou pra si mesmo - O que eu poderia ter pra interessar um homem como Milo Scorpion?
Eu balancei a cabeça. Ah, não, aquilo de novo não.
Sério, eu ainda ia enlouquecer com aquele complexo de inferioridade estúpido.
Ele se achava esquisito: Era ruivo demais – será que ele tinha noção de quantos bilhões as indústrias de cosméticos gastavam por ano tentando reproduzir aquele tom de vermelho, e nunca conseguiam? -, magro demais – vê se pode!- , branco demais.
Francamente.
Felizmente, eu fui poupado de responder aquela pergunta pela entrada do Brian, nosso criado. Mais um secretário geral pra assuntos domésticos, na verdade. Pai inglês, mãe espanhola, francês de coração. Trabalhava para os Chevalier há décadas. Veio com eles de Paris. Cerca de quarenta anos, rosto meio estreito, olhos escuros, nariz adunco. Uniforme impecável. Parecia transpirar eficiência.
– Senhor Chevalier, - ele disse muito formalmente - seu táxi já está esperando.
– Táxi? – eu ecoei, só então reparando nas malas encostadas perto do sofá.
Ele virou o último gole do vinho e depositou o copo vazio sobre a mesinha. Depois levantou do sofá, tomando uma das valises e caminhando até a porta. Brian o seguiu com a outra mala.
– Eu preciso de um tempo, Di. – ele explicou enquanto saía - Pra pensar.
Eu corri atrás dele.
– Você está louco? Será que perdeu todo juízo que Deus lhe deu? Você não pode simplesmente sair assim.
Ele continuou andando.
– Não só posso, como vou.
Foi minha vez de ficar de queixo caído. Eu nunca o havia visto sendo tão impulsivo.
– Mas, eu não entendo. Por que? Você não pode estar fazendo isso só por causa... – então a compreensão me atingiu. - Espera. Não vá me dizer que você... - eu me interrompi.
De repente minha voz soava bastante cautelosa: – Camus, você não está apaixonado por ele, está?
Ele parou imediatamente e olhou pra trás. Pra mim.
– O que? Eu? Apaixonado? Por Milo Scorpion?
– Você me ouviu muito bem. – eu o encarei - Está?
Ele desviou o rosto.
– Eu mal conheço o cara.
– Ah meu Deus, você está.
– Não! – ele protestou.
– Eu te conheço a vida inteira, Camus, e nunca o vi agindo desse jeito antes.
Ele não respondeu, simplesmente se virou outra vez, e voltou a andar até a porta.
Eu o segui novamente.
– Você sabe não pode fugir disso pra sempre, não sabe? Você não vai conseguir nada assim. A não ser talvez arruinar a si mesmo.
Ele terminou de ajeitar a mala no carro antes de dar um sorriso fraco.
– Je Sais, Di. Merci – Então entrou no táxi e partiu.
E sim, eu sabia pra onde ele tinha ido - ele sempre ia pro mesmo lugar quando queria ficar sozinho. O apartamento em Paris -, mesmo assim, não tinha certeza se devia contar sobre isso ao Scorpion agora. Porque uma aventura, tudo bem. Mas, paixão? Sei lá... Eu não queria ver meu amigo de coração partido. Vocês sabem como é: pele acinzentada, olhos fundos, expressão rígida. Do jeito que são os rostos de quem teve uma desilusão. O que acontece afinal quando uma pessoa é rejeitada que tranca os músculos do rosto desse jeito? (Possível descoberta científica. Sabe por que os rejeitados não sorriem? Todo mundo diz que não têm motivo pra sorrir. Mas talvez isso seja o efeito de uma enzima especial, o que significa que não podem sorrir. Esse é o tipo de descoberta que ganha prêmios.)
Além disso, eu havia prometido solenemente a ele pelo telefone não revelar seu paradeiro a ninguém.
O loiro continuava olhando pra mim a espera de uma resposta.
– E quais são suas intenções com ele? – eu acabei falando. Depois me arrependi. Coisa mais ridícula de se dizer. Parecia conversa de pai preocupado com a virtude da filha.
– Não sei. Conhecê-lo melhor, eu acho. – ele disse. Ar displicente. Não pareceu muito sincero.
– Ele merece mais do que uma transa. – Eu afirmei. Outra coisa estúpida de se falar, parecendo fala de novela ruim.
– É isso que você acha que eu quero? – Ele perguntou. Os olhos azuis brilhando muito. Um pouco indignado.
– Não sei. O que você quer?
– Mais do que uma transa, é claro. – ele respondeu - Poderia conseguir uma em qualquer lugar e com bem menos esforço do que o que eu tenho dedicado aquele ruivo.
Fazia algum sentido.
– É isso que ele significa pra você? Um esforço? – Pensando que eu teria futuro como escritor de novela brega pra TV.
Ele se remexeu inquieto na cadeira. Parecia irritado
– O que ele significa pra mim não é da sua conta. – ele falou, ríspido.
E depois:
– Que inquisição é essa? Você está com medo de que eu esteja brincando com ele, é isso?
Eu dei de ombros.
– A sua fama o precede, você sabe.
Ele sabia. Passou uma das mãos no rosto e respirou fundo, antes de voltar a falar:
– Olha, eu não quero magoar o Camus, está bem. Penso muito nele e não quero feri-lo nunca, mas não sei se sou capaz de qualquer outra coisa.
Ele parecia tão confuso. Eu fiquei um pouco confuso também.
Bob Esponja apareceu com nossas sobremesas. Nós paramos de falar. Torta de banana pra mim, de chocolate pra ele.
Eu provei minha torta. Melada, com gosto de folha molhada.
Ele provou a dele também. Fez uma careta.
– Qual o gosto? – eu quis saber
– Sabão – ele disse – com aromatizante de chocolate.
Eu assenti.
Silêncio, outra vez.
– Você fala como se não o merecesse. – eu voltei no assunto, enquanto cutucava a minha torta.
Ele havia deixado a dele de lado.
– É isso mesmo. Não mereço.
Eu o olhei surpreso. Estaria louco?
Ele respirou fundo.
– É complicado, – ele disse – você não entenderia. Se eu fosse um monge e só tivesse feito coisas boas na vida ainda assim não mereceria ficar com um cara como ele. Mas isso também não quer dizer que eu não vá tentar se tiver uma chance.
Aquela resposta pareceu surpreender não só a mim, como a ele mesmo.
De repente eu tive vontade de rir pelo absurdo de tudo aquilo. Mas a emoção verdadeira que eu vi no rosto dele me fez engolir a risada.
Ah, meu Deus! Eu percebi então com uma sensação parecida com um choque. Ele amava o Camus. Realmente amava. Dava pra ver nos olhos dele. Eu meio que já tinha desconfiado disso, mas aí estava a confirmação. Como alguém poderia dizer tanta besteira se não estivesse apaixonado? Só que...
– O Camus vai se casar em menos de dois meses, você sabe.
– Não me importa. – ele disse de modo impaciente – Não quero saber. Apenas me diga onde ele se meteu.
– Se ele romper o noivado – eu meio que me senti na obrigação de informar – vai haver muita repercussão negativa... inclusive pra você. E pode apostar que a mocréia da noiva dele vai processá-lo.
Ele passou a mão pelo cabelo, frustrado.
– Eu... não... me importo. – ele estava obviamente a ponto de perder a calma – Só me diga onde ele está.
Eu estava chocado.
Meu Deus! Era verdade, então. Era totalmente verdade. Milo Scorpion, o ator mais badalado do momento, o homem eleito a celebridade mais bonita do mundo dos últimos cinco anos da revista People, estava apaixonado pelo Camus. O meu Camus. Que sempre esteve mais interessado em programas de computador do que em relacionamentos interpessoais. O 'cenourinha quatro olhos' sardento que eu vira crescer. O nerd complexado que se julgava indigno de um segundo olhar. E o homem mais desejado da América estava tão perdidamente apaixonado por ele, de fato, que estava ali agora, em um pub decadente, à vista de vários estranhos, praticamente implorando ao melhor amigo dele, um cara de quem ele nem gostava, apenas pra que lhe dissesse onde ele estava.
Eu respirei fundo, mordendo o lábio.
'Pardon, Camiu,' eu disse a mim mesmo em pensamento 'mas você ainda vai me agradecer por isso no futuro'.
Tirando uma caneta da carteira, eu peguei um guardanapo de papel sobre a mesa, e escrevi ali um endereço.
– Não me decepcione. - Eu falei entregando o papel a ele.
Eu pensei em ameaçá-lo um pouco também, só pro caso dele estar pensando em ferir os sentimentos do Camus de alguma forma, sabe. Mas ele já havia se levantado, e saía apressadamente como se tivesse... bom, um bando de fãs histéricas atrás dele.
Nota:
Rainha francesa de origem italiana, Catarina de Médice nasceu em Florença no dia 13 de abril de 1519, filha de Lorenzo de Médici, duque de Urbino e da francesa Madeleine de La Tour D'Auvergne. Casou-se aos 14 anos com Henrique, segundo filho do rei francês. Durante toda a sua vida de casada, travou uma luta surda com a amante do marido, Diana de Poitiers. Com a morte de Henrique II e de seu filho mais velho, Catarina finalmente conseguiu que Diana devolvesse as jóias da Coroa, com as quais fora presenteada pelo amante (que para isso a havia nomeado "Guardiã das Jóias da Coroa da França"), e a retirar-se da Corte, trocando o belíssimo castelo de Chenonceau pelo muito menos belo castelo de Chaumont-sur-Loire. Ambos na região do Vale do Loire na França.
Olá a todos, olha eu aqui de novo. E viram? Não Demorou muito dessa vez ^^ (tá bom que parte disso se deve ao fato de eu ter ficado sem net, com o marido viajando, e sem ter muito o que fazer XD)
Mas, bom, gente aí está finalmente o POV do Dite que todos esperavam, espero que gostem (sabe que eu fiquei até tensa de escrever por causa das expectativas XD).
E eu sei que era pra termos um POV do Camus aqui tb, mas o Afrodite tomou conta u.u. Ele simplesmente não parava mais de falar, e tanta coisa inútil *apanha*. Tá, teve umas coisas bem legais tb. Como a história da tiara. E o Camus príncipe? \o/... XD
Na verdade eu tive essa idéia já faz algum tempo. Eu estava lendo um livro que trazia essa proposta (A Rainha da Fofoca em NY da Meg Cabot): um dos personagens do livro era um príncipe francês na atualidade (Só que no livro isso nem tinha muita relevância com a temática central da história), o que me fez lembrar da corte real portuguesa no Brasil (até hoje ainda existem os descendentes de D. Pedro II - nosso primeiro rei -, eles ainda tem uma casa linda em Paraty e promovem almoços com artistas e gente importante todo ano na feira do livro de Paraty, mas ao mesmo tempo são pessoas comuns, e, obviamente não são mais reconhecidamente nobre). Então pensei que seria legal um dia usar isso em uma trama, sabe, só que de outra forma. Daí quando pensava na trama dessa história me veio a idéia do Camus príncipe (até porque o Camus tem maior jeito de príncipe, fala sério. Só que de príncipe de conto de fadas XD), e das jóias de Catarina de Médice e tudo o mais. E agora acho que já deu pra perceber que na verdade Camus e Milo meio que entraram de gaiato em uma história bem maior que eles, não é? ;)
Enfim, mesmo que o nosso príncipe fujão não tenha dado as caras mais uma vez (acho que está com medo de aparecer, depois de tanta crítica por ele ter abandonado o greguinho u.u... XD), nós enfim descobrimos pra onde ele foi. Pra Paris, gente. Nossa, eu achei que ia ser meio óbvio essa, mas ng acertou. Todo mundo com medo dele ter ido atrás da mocréia huahuahau
E, como eu já tinha avisado que seria, o POV do Dite, foi mais uma palhinha da visão dele de Camus, Milo e companhia. Sem entrar em méritos da própria vida pessoal dele. Até pq, se o Peixe já enrola assim pra falar da vida dos outros, imagine como seria ele falando da própria vida? XDD
E por falar em Peixe enrolado, gostaram da linha de raciocínio dele? Se é que se pode chamar isso de linha, tá mais pra novelo, né? XD Eu particularmente adorei escrever com esse maluquinho. Acho que viciei nisso, na verdade. Comecei a pensar um monte de ch sob a ótica dele. Meu Deus, tenho que parar com isso! o.o... XDD
Bem, então é isso, gente, muito obrigada mais uma vez a todos que mandaram reviews, e aos que não mandaram mas curtiram mesmo assim.
Beijos todo especiais à Dark. ookami, Kamy Jaganshi, Haina Aquarius-sama,Vengeresse Lolita, Ivy Visinho 2, Persefone-San, e Pandora. Lc. Brigada mais uma vez pelo carinho, meninas, pela compreensão, e por todos os votos de felicidade que recebi de vcs.
Bjos
PS1: Respondendo às reviews que ainda não foram respondidas.
Ivy Visinho: Ah, brigada, querida! Pelos parabéns, pela compreensão, pela paciência, por tudo. E sempre que sobrar um tempo pode ter certeza de que me dedicarei a novos chs pra vcs, como fiz agora ^^. Fiquei feliz em saber que vc gostou da idéia do pov do Hyoga, na verdade era um dos poucos jeito que eu tinha pra dar aquelas pistas. Sim, tadinho, eu botei ele numa bela enrascada mesmo, e, como vc disse, por enquanto só pistas - mais uma aqui nesse ch - mas esclarecimentos mesmo só no final, então formule suas hipóteses XD. Pois é, a situação do Milo tb não está das melhores, conseguir as provas contra os irmãos poderia ser uma boa solução, mas ele nem consegue saber quem é, ou, quem são, o cúmplice do Dohko, quanto mais onde estão escondidas as provas. Mas vamos ver o que vai acontecer daqui pra frente XD. Ah, e nem perca o seu tempo, eu já adianto que não, eu ainda não havia falado nada sobre o Rada, é a primeira menção dele na história mesmo, mas, sim, pode juntar tudo XD. Enfim, muito obrigada mais uma vez pela review, por tudo, fico feliz mesmo que esteja gostando ^^. Bjos. PS: Oria sempre será um fofo ^^
PS2: Créditos devidos: à Meg Cabot, Kathryn Smith, e Merian Keyes (de quem emprestei particularmente o raciocínio dos muçulmanos, que achei a cara do Dite XD)
