Olá minhas leitoras! Estou de volta agora com a continuação do cap 12! Boa leitura.
Samantha fechou os olhos e deixou a ultima leva de suas lágrimas caírem no seu rosto pálido. Ela se tornou consciente da dor nas palmas de suas mãos e notou que ela estava cravando suas unhas na pele. Nada a havia preparado para aquela revelação, mas o pior foi que aquele maldito velhote não mostrou o menor sinal de arrependimento perante a sua terrível traição.
Ela entendeu imediatamente o plano e seus motivos. A ideia do velhote era realmente boa.
Ela estava em um mundo ainda regido pela religião e em uma sociedade onde os divórcios não eram permitidos. Por isso no momento em que ela, Samantha, mergulhada no êxtase de sua paixão por Erik, se esquecendo de sua vida anterior e egoisticamente tomando a vida de uma jovem inocente dissesse "sim" para ele no altar, ela alteraria permanentemente o destino de Christine e por consequência ela acabaria com a sua existência e simplesmente desapareceria do universo.
E Christine voltaria a ter controle sobre o próprio corpo.
Mas isso não mudaria o fato de que ela estava eternamente presa a Erik.
Até que a morte os separe.
Ela arfou horrorizada quando essa ideia chegou a sua mente.
Mas isso não significaria a felicidade para Erik e muito menos para Christine.
Nos momentos em que estava conectada com a alma de Christine, Samantha teve uma real noção de toda a personalidade da jovem soprano. Christine era uma menina tranquila e frágil, ela não era uma pessoa feita para grandes emoções ou desafios. Ela quebraria na primeira coisa realmente ruim que acontecesse. A morte de seu pai foi prova o suficiente disso. Antes de Erik se tornar seu anjo da música Christine era uma pessoa totalmente infeliz e sem nenhuma vontade de viver. A alma dela era tão musical quanto à de Samantha ou a de Erik. Ela não era um gênio, mas a Música era extremamente importante para a sua alma. Com a morte do velho violinista sueco a Música foi arrancada de sua alma e com isso ela foi destruída.
Então quando Erik com a sua alma forte e encantadora entrou na vida dela, toda a luz que ela havia perdido junto com a Música voltou para a sua existência.
Ela sorriu internamente ao imaginar o fato de que a vinda de Erik para aquele mundo provavelmente evitou que uma jovem menina abrisse os pulsos para se juntar ao seu velho pai.
O Guardião das Almas ficou alguns momentos admirando seu triunfo antes de prosseguir.
"Agora que ambas as partes estão totalmente esclarecidas sobre os fatos desse caso vamos continuar."
Ele se virou para Samantha e continuou seu interrogatório.
"Durante o tempo em que você esteve dentro do corpo de Christine Daae ela estava consciente de sua situação?"
"Sim" Respondeu Samantha apaticamente. Agora ela não via nenhum motivo para não dizer a verdade uma vez que aquele velhote mentiu para ela.
"Christine tinha alguma espécie de controle sobre suas ações?"
"Ela não tinha controle sobre o seu corpo, somente eu podia agir e falar como se fosse ela. Christine só podia pensar." Respondeu Samantha.
"Entendo." Disse o Guardião das Almas.
"Exceto por uma vez." Disse Samantha. "Quando eu estava com Erik voltando de um passeio o Visconde apareceu do nada e tentou nos parar. Christine conseguiu agir por conta própria naquele momento, ela parecia que ia saltar da janela em direção à rua."
Houve um leve burburinho entre os outros guardiões, algo no que Samantha disse parecia ter gerado aquela rápida confusão.
"Silencio, por favor." Disse o Guardião de almas.
O júri ficou em silêncio, mas o ar de tensão era palpável naquele lugar. Samantha estava se sentindo confusa, o que poderia ter causado tanta confusão.
"Uma alma foi capaz de quebrar um selo de confinamento?" Perguntou um dos Guardiões.
Todos olhavam diretamente para Samantha e o velhote, ambos sentados lado a lado de frente para a bancada.
"Imagino que o Criador possa responder essa questão uma vez que foi ele que criou o selo." Disse o Guardião das Almas em tom estranho de voz. "O senhor poderia ter a bondade?"
O velhote sorriu para o seu chefe e respondeu alegremente.
"Um selo fraco era necessário pelo fato de que a alma original precisaria voltar imediatamente para o controle de seu corpo e eu não tinha garantias que minha presença na ocasião fosse possível. Mas vejo que subestimei o poder daquela alma insignificante, nunca imaginei que ela seria capaz de quebrar um selo de qualquer espécie, gostaria de saber o que causou isso."
"Amor." Disse Samantha.
Todo o júri se voltou para ela agora, todos parecendo extremamente interessados.
"Perdão?" Disse o Guardião das Almas. "Você pode ser mais clara?"
Samantha assentiu.
"Amor. O amor de Christine por Raoul e o de Raoul por Christine. O amor dos dois deu forças para a alma de Christine se tornar capaz de subjugar a minha e retomar o controle do corpo dela por alguns momentos." Respondeu ela apaticamente.
O Guardião das Almas parecia realmente interessado no caso, ele começou a andar de um lado para o outro murmurando coisas para si mesmo.
"Realmente o vinculo de almas gêmeas é interessante e mesmo que nós tenhamos um conhecimento aprofundado de suas características sempre nos surpreendemos mais uma vez."
"Vocês trabalham com almas e não dominam todos os aspectos de sua natureza?" Perguntou Samantha sem querer.
O Guardião deu de ombros.
"Já se faz muito tempo desde que nós nos podíamos nos considerar totais dominadores da natureza das almas humanas. A complexidade das mentes humanas se reflete em suas almas. As almas das outras criaturas são infinitamente mais simples e por isso não nos causam nem um milésimo dos problemas que as almas da sua espécie. Mesmo que sejamos nós que as criamos o que acontece depois é por conta de vocês, o Destino rege os aspectos básicos, mas o modo como os humanos irão lidar com isso só depende deles mesmos." Respondeu ele tranquilamente.
Então ele continuou.
"Realmente os fatos são extraordinários, nunca nos deparamos com nada parecido. Mas isso não muda irregularidade das atitudes desse Criador que usou uma das suas criações em um plano que poderia por em risco inúmeros aspectos da existência humana para salvar uma única alma miserável."
O velhote ficou notavelmente rígido de fúria perante essas palavras, mas não fez nenhum movimento para contradizer o seu líder.
Mas Samantha não tinha nada a perder. Ela estava pouco se lixando para a situação daquele velhote estupido, mas a vida de Erik estava envolvida nisso, ela não podia simplesmente voltar para a sua existência medíocre em mundo inconsciente e deixar Erik sofrer tudo que ele estava destinado a sofrer.
"É uma alma miserável só porque vocês quiseram que fosse assim!" Disse ela furiosa. "Durante todos os minutos desse circo estupido a única coisa que eu ouvi foi como essas ações e como esse plano era errado. Mas se vocês realmente querem julgar alguém porque não começam julgando quem cometeu esse erro estupido de fazer uma alma nascer no tempo errado. Isso também deve ter causado mudanças fortes no destino de muitas pessoas além de mim. Então porque nada foi feito em relação a isso."
O júri de guardiões não gostou da atitude dela, de repente todos estavam cochichando entre si e olhando para ela como abelhas raivosas.
"Não cabe a você questionar as atitudes desse conselho ou do Destino, sua existência só é possível porque nós a criamos, e você não deve expressar nada além de gratidão por isso."
Samantha ergue uma sobrancelha.
"E quem diabos disse que eu estou grata por estar viva." Disse ela.
Mais uma onda de cochichos raivosos saiu do júri.
"A vida que eu amava foi tirada de mim há muito tempo. E quando eu finalmente pareço conseguir me acomodar em uma vida não totalmente feliz como era anteriormente, mas ao menos boa o suficiente para se gostar de viver O Destino manda um motorista embriagado tirar tudo isso de mim e se não fosse o bastante me condenar a uma semivida onde eu sei que todas as pessoas que tem alguma espécie de sentimento bom por mim estão sofrendo nesse exato momento por me ver presa em uma cama e não serem capazes de me ver partir de uma vez." Disse ela entre lágrimas.
O Guardião das Almas e o júri estavam em um silencio constrangido. Completamente sem respostas.
"Digam-me como posso ser grata por isso?" Encerrou Samantha.
O Guardião começou a rir.
"É encantador o modo como os seres humanos são egoístas. Era o destino deles morrerem naquele dia. A existência deles se encerrava daquele modo, assim como a sua deve se encerrar naquela cama de hospital e a de Erik naquele subterrâneo da Ópera. Nada é como vocês querem e sim como nós queremos. Vocês deveriam se sentir felizes pela nossa generosidade de compartilhar o dom da existência como vocês."
Samantha estava arrasada. Então era essa a pergunta da humanidade? Nossa vida é regida por esse bando de criaturas estupidas e egocêntricas que se divertem controlando a vida da humanidade. Sua educação religiosa foi completamente agnóstica nem ela nem seus irmãos foram batizados os iniciados de algum modo em alguma religião. Seu pai era um cientista cético o suficiente para não acreditar cegamente em um Deus, e sua mãe também tivera uma vida totalmente desprovida de religião a ponto de não se incomodar com os olhares horrorizados de muitas pessoas ao descobrir que Samantha e seus irmãos eram crianças não batizadas. Ela gostaria de saber qual seria o tamanho da decepção da humanidade ao descobrir o que tornava a existência deles possível.
"Imagino que não há mais nada a ser dito que seja relevante ao caso." Disse o Guardião das Almas. "Os fatos estão claros e o réu admite ser culpado por suas transgressões. A alma humana que foi usada para a execução do plano admitiu que estivesse ciente do seu papel nessa farsa e concordou de livre e espontânea vontade participar dessa atividade, mas ela deu a entender que fora iludida com falsas promessas de recompensa quando tudo estivesse concluído, isso é algo que deve ser considerado. Desde o inicio dos tempos às regras para a criação são claras e se nota que varias delas foram transgredidas. Se o júri não tiver mais perguntas eu acho que estamos prontos para discutir o veredicto."
Samantha sentiu o seu sangue gelar. O júri acenou em concordância para o Guardião e o seguiram até algum lugar na névoa e desapareceram.
Samantha estava sozinha tendo somente o velhote como companhia.
"Perdoe-me por ter mentido para você." Disse o velhote.
Samantha soltou um hunf e não respondeu.
"Eu não estava nem um pouco feliz em usa-la. Mas de todas as outras almas você era a única que poderia rapidamente varrer a escuridão que penetrou a alma de Erik." Continuou ele ignorando a desatenção de Samantha. "A escolha do Destino acabou com a continuidade da sua existência, por isso eu imaginei que seria melhor você não ter existido do que passar o resto do seu tempo em um limbo."
Samantha sorriu.
"Esse não é o ponto. Se fosse simples assim eu aceitaria isso de boa vontade. Eu não sei o que sinto por Erik, mas qualquer idiota enxergaria que a vida dele é mais preciosa que a minha. Mas o que você e nem aqueles outros babacas conseguem ver é que tudo o que acontecer gera uma reação em cadeia assustadora. Se eu fizer o que você quer eu não vou dar só fim a minha existência, mas sim a de todos os meus antepassados, meus irmãos, meu pai."
O velhote deu de ombros.
"Isso não seria o fim do mundo. Eles não sofreriam porque nunca teriam existido."
Samantha bufou de indignação.
"Meus pais. Eles eram almas gêmeas?" Perguntou ela.
"Sim, eles eram." Respondeu o velhote.
"O que seria da minha mãe se meu pai nunca tivesse existido?" Perguntou ela.
O velhote não respondeu e Samantha continuou.
"Se a não existência de Erik me confinou a uma cama de hospital pelo resto da minha vida o que a não existência de um bando de pessoas da minha família poderia causar para a vida de várias outras pessoas? O que seria da minha mãe, de Lucille e de todos os outros?"
"Porque você se importa tanto com essas pessoas?" Perguntou o velhote.
Samantha teve vontade de bater no nele.
"Por quê? Eu não sou egoísta a esse ponto. Ninguém está certo dentro dessa história, pelo contrario esta tudo errado! Eles estão errados em terem deixado Erik nascer no séc. XIX e você está errado em achar que pode destruir tudo para salvar a sua preciosa criação. Eu imaginava que se existisse alguma existência superior essa existência seria mais sabia e não tão tola, egocêntrica, supérflua, tão..."
"Tão humana?" Perguntou o velhote.
Samantha deu de ombros.
"Imagino que sim." Respondeu ela.
"Desculpe decepcioná-la." Respondeu ele. "Mas nós não somos muito criativos, vocês compartilham da nossa natureza. Criado a imagem e semelhança, lembra?"
Se a situação não fosse tão doentia ela teria rido. Tudo era tão sinistro e louco que nada mais poderia surpreender Samantha. Ela gostaria de ter uma chance de consertar tudo, mas ela era tão fraca e mortal perto daquelas criaturas, ela não tinha como salvar Erik e muito menos ela mesma. Por que ela estava metida nisso?
Seus pensamentos foram interrompidos com a chegada dos guardiões sendo liderados pelo Guardião das almas que trazia consigo algo que lembrava um pergaminho dourado e uma longa vara igualmente dourada. Samantha ficou se perguntando para que serviam aqueles estranhos instrumentos quando o guardião se pôs de frente para o velhote e disse.
"O Conselho analisou todos os fatos e depois de uma longa discussão finalmente foi chegado a um veredicto."
Samantha sentiu seus músculos enrijecerem de expectativa quando o Guardião abriu o longo pergaminho e anunciou:
"Nós consideramos o réu culpado pelo crime de alteração significativa das linhas do Destino sem autorização prévia de seu superior. Por se revelar a uma criação e por utiliza-la para cometer sua infração nós o consideramos culpado. Por pecar contra a boa imagem do Destino nós o consideramos culpado. Por dar inicio a um motim dentro de seu departamento pondo em risco a segurança deste Conselho nós o consideramos culpado. Por tentativa de atentar contra a existência de inúmeras almas as quais nem todas eram de sua autoria nós o consideramos culpado."
Samantha fechou os olhos ao ouvir aquelas palavras. Logo haveria a sentença, o final.
O Guardião continuou:
"A sentença para o Criador será a cassação de sua posição como Criador de Almas e a sua remoção para outro departamento, sendo que o departamento de Criação de Almas será eternamente fechado para você."
O velhote se levantou completamente chocado.
"Você não pode fazer isso! Eu existo para criar almas, não há outra ocupação que eu seja capaz de desempenhar perfeitamente!" Gritou ele indignado.
"As leis desse Conselho são claras e a sentença é a palavra final." Declarou o Guardião.
O velhote caiu sentado na sua cadeira, chocado demais para falar.
O Guardião considerou que o velhote se deu por vencido e continuou:
"Quanto a Samantha Michaelis. A sentença normalmente imposta seria a destruição imediata da alma, mas dadas as circunstancias e a total ignorância de sua parte em relação às regras nós resolvemos antecipar o fim de sua existência."
Samantha ficou tão paralisada quanto o velhote. Antecipar o fim de sua existência? Ela entendeu exatamente o que isso significava para ela.
Morte.
