Como eu Vejo

Capítulo Quatorze – Quando Draco fica louco

Observei o rosto pateticamente imóvel de Ginny Weasley por alguns segundos. Eu estava podre por dentro. Olhar para o cabelo ruivo caindo sobre o rosto sardento, que antes fora liso e sustentara cabelos negros, era tortura que eu não podia suportar. Eu a desejara. Eu tinha abandonado tudo por causa daquela ilusão. Eu não podia mais me olhar no espelho por causa dela.

Porque se ela ainda podia existir, eu não precisava matar menininhas trouxas.

Jogá-la contra a parede, fazer barulho e quebrar coisas não tinha aliviado o meu desejo de vingança.

-Estou fugindo esta noite. Estou traindo esta noite.

Mas não significava que eu a levaria comigo. Se ela não era Diana Higgs, eu não a queria sendo mais nada. Eu não queria dizer besteiras. Não queria uma idiota como ela rindo de mim por ter fraquejado diante do pior tipo de espionagem que os amiguinhos de Dumbledore já tinham inventado.

Eu também não queria me lembrar de Dumbledore! Ou não conseguiria fazer nada do que planejara.

-Quem é você para me enlouquecer? – vociferei no rosto dela, tremendo todo. – Que importância você achou que tinha para ficar me ouvindo e ficar perto de mim quando mais ninguém queria? Você é só mais uma prostituta falsa!

Ergui a mão e com um tapa descarreguei mais raiva no rosto dela; a garota caiu para o lado mas permaneceu me olhando, chocada. O jeito como ela permaneceu parada me irritou mais ainda.

-Agora não vai reagir, não é? – berrei, aliviado secretamente pelo feitiço abafador que eu tinha lançado ali antes. – Você reagia bastante quando tinha esperança de que eu falasse qualquer merda sobre Voldemort! Muito bem, o jogo está acabado!

-Você... você está completamente maluco – ela balbuciou afinal, me olhando com uma expressão misturada de choque e incerteza. As sobrancelhas dela se arquearam com uma harmonia que eu não queria ter notado. – No que diabos você se tornou?

A única coisa que me impedia de parar com a minha própria risada doida era saber que logo ela estaria morta e eu poderia recuperar o meu controle... Com algum esforço, mas ainda assim. Eu a queria longe de mim, destruída.

-Você demorou um bocado pra perceber que ninguém é são, garota! Será que os meus trejeitos galantes te convenceram? Será que você achou mesmo...? Ah! – fiz uma pausa, com um riso largo e cínico. – Claro que achou! Você pensou que dormiu comigo, não é?

Minhas mãos tremiam e tremeram mais ainda quando ela cuspiu no chão, aos meus pés.

-Eu não tenho que me envergonhar de ser decente. – resmungou ela.

Na minha ira, ergui a varinha depressa e a sacudi no ar; depois ela bateu com as costas na parede mais uma vez, escorregando até o chão. Eu tentei colocar os meus braços, os meus joelhos, mas tudo tremia. Era como se eu fosse explodir. Convoquei a cadeira e me sentei, buscando ar.

-Não venha com seus discursos moralistas, menina – repliquei, apontando a varinha cuidadosamente para os olhos dela. – Você estava passando por uma garota rica e jovem. E o que é pior. Quis me convencer que era virgem! E eu sabendo o tempo todo quantas noites você já não passou com o herói de todos os tempos, a última esperança do mundo, cujo nome é melhor você não dizer!

Eu podia ver que ela estava assustada. Era como se eu me visse de fora, também; eu estava amedrontado comigo mesmo. Eu queria acabar com tudo.

Mate-a então, pensei comigo mesmo. E você poderá fugir de uma vez.

Mas ela tinha se calado diante da minha menção amarga a Potter. Eu nunca assumira aquilo, nem para mim mesmo. Eu não podia acreditar que desejava a namoradinha insossa de Potter. Do bruxo que foi sempre o incômodo, o ponto podre, da minha rotina.

Quando eu a tinha pego antes da batalha... Eu tinha imaginado... Olhado para ela entre os outros idiotas da Ordem da Fênix e pensado... Nela com Potter... Naqueles namoros adolescentes e felizes, que faziam as menininhas fúteis rirem o dia todo e os outros... Enfim.

Eu não sabia por que estava me lembrando daquelas coisas.

-Potter, o precioso Potter, obviamente ele quis dar uma olhada n'O Escolhido – eu resmungara, no sexto ano. – Mas aquela menina Weasley! O que há de tão especial nela?

Ela era popular e eu tinha que ouvir alguns sonserinos panacas suspirando por causa dela. Coisas de escola. Eu tinha mais o que fazer naquela época, afinal Voldemort me mandara matar Dumbledore... Já que um maldito bruxo das trevas mesmo não conseguia fazê-lo...

Eu não estava ouvindo o que ela dizia.

-... Eu estava lutando pelo fim da guerra... Porque eu quero Voldemort destruído, diferente de você... Que está aí, gritando comigo e me tirando da batalha!

-Quer batalhar? – eu ergui a voz mais uma vez, voltando a este mundo. – Batalhe comigo!

-Você me venceu. – replicou ela, simplesmente. – Estou esperando você me matar.

Parei no ato de encher os pulmões; foi como um soco.

Eu não desviara a varinha dela o tempo todo. Parecia que estava tentando dizer o Avada Kedavra desde que tínhamos desaparatado. Mas eu continuava ali, falando. E lembrando de como Potter ficaria preocupado com ela quando soubesse que ela não estava mais na batalha... Talvez ele desistisse se encontrasse o cadáver dela.

-Eu... Posso devolver sua varinha. E você luta contra mim. Desse modo poderá lutar contra um Comensal da Morte... Como sempre se divertiu fazendo. Está tudo acabado, mesmo. Seu namorado não tem chance alguma.

-Pensei que estava fugindo – ela resmungou, em desdém. – Se Voldemort vai vencer, por que abandoná-lo logo agora?

De todas as perguntas, aquela era a que eu não queria responder. Eu não queria dizer, nem confessar. Já dizer que eu tinha inveja de Potter era demais pra mim. Quanto mais falar, usar meu fôlego atrapalhado para...

-Por sua causa.

O silêncio que se seguiu foi tenso. E desconfortável.

-Em alguns dias, Voldemort pretende atacar com força total. Eu descobri com detalhes e não discuta. Ele conseguiu as armas que sempre quis.

-Mas eles não podem entrar na sede da Ordem. – resmungou ela, sem reagir à minha declaração patética.

-Mas podem atrair a Ordem para fora da sede. Eles têm Humbert Lovegood, afinal de contas.

As sobrancelhas dela se ergueram.

-Então ele está vivo!

-Sim, está. – eu suspirei e escondi o rosto nas mãos. O cansaço estava começando a se demonstrar em mim. E eu não tinha lá muito tempo... Até que o Lord das Trevas descobrisse os meus planos... Se é que àquela altura ele ainda não os conhecia... – Aparentemente o bruxo doido tem algumas poções embaixo da manga... Além de outras coisas que devia estar escondendo... Ele será usado como isca.

Mesmo alguém com um intelecto Weasley conseguia enxergar as proporções do plano. Não era complexo, não era elaborado nem espetacular, mas pegava justamente no calcanhar de Aquiles dos emotivos membros da Ordem: a família... O que quer que aquilo pudesse significar para uma dessas pessoas de infância feliz e descompromissada, era sempre o ponto infalível nos planos de Voldemort.

E, claro, eu podia ver a indignação brotando em cada poro do rosto dela.

-Isso é tolice! A Ordem toda não seria derrotada nesse golpe.

-Você verá que não é nada do outro mundo.

Ela também, mais relaxada e parecendo afinal ter percebido a minha covardia em não matá-la, sentou-se encostada à parede e abraçou os joelhos.

-Tem que ter algo que eu possa fazer...

-Oh, não – eu a cortei. – Eu não tirei você do meio da guerra para ajudar o seu namorado. – será que eu era incapaz de esquecer daquele detalhe maldito? – Eu vou sumir do mapa. E você morre. Ou some também. Você quer morrer?

Ela me encarou corajosamente, com o maxilar tenso. Os olhos dela mostravam que ela não tinha nem mesmo pensado em desistir.

-Não quero morrer. – ela declarou, afinal.

-Ótimo. – falei, baixando, afinal, a varinha.

Ela aproveitou a oportunidade para se levantar e se aproximar de mim.

-Mas você não pode fugir dessa maneira, Malfoy! – eu respirei fundo, pedindo aos céus que ela não abusasse daquele meu momento de paciência. – As pessoas que nós podemos salvar! Os danos que podemos causar aos Comensais da Morte!

Eu me levantei também, e me virei para ela. Ela, bem mais baixa do que eu, acompanhou o meu movimento com o olhar.

-Weasley. Caso não se lembre. Eu sou um Comensal da Morte. Jurei fidelidade a Lord Voldemort. EU matei inocentes. EU corrompi pessoas e tirei o pior delas antes que morressem. Eu fui o pior monstro que você pode conhecer. Não consigo encontrar um motivo bastante claro para fazer as coisas de outra maneira, contra a minha palavra e contra a minha vida. Você acha que eu não cairia morto se ajudasse os seus amiguinhos? Voldemort tem a minha alma nas mãos dele, garota.

Ela piscou, parecendo suavizar a expressão.

-Nós podemos buscar a sua alma de volta. – ela respondeu, simplesmente.

Foi a vez dos meus olhos se abrirem melhor. Ela não estava falando sério, estava?

-Além do mais, não é como se a minha ajuda fosse mudar qualquer coisa. Eu, Weasley, estou de mãos atadas. Eu não existo. Sou um bruxo morto, é apenas questão de tempo. Por isso sugiro que nós saiamos depressa daqui, antes que os Comensais nos descubram... ou o seu namoradinho.

-Pare de falar dele assim – ela me cortou, em tom mais amargo do que o normal. – Eu não tenho um namorado. E nós temos que buscar o que quer que tenhamos que buscar. E como você ousa dizer que não tem nenhum motivo?

Ela deu mais um passo corajoso na minha direção.

Mas eu recuei outro.

-Não comece a fingir outra vez, ou eu posso me lembrar da minha intenção. Eu vou sumir daqui. Resta a você escolher...

-E por que eu teria direito de escolha entre viver e morrer se você não quisesse que eu sobrevivesse? – ela atirou, antes que eu pudesse terminar.

-Já chega! – eu exclamei, empurrando-a com violência para trás. – Eu não acredito em você. Para um membro da Ordem da Fênix, você deveria ser mais sincera.

Ergui a varinha mais uma vez e conjurei cordas que a prenderam no chão.

-Você está sendo ridículo! – gritou ela. – Covarde! Fraco!

O que eu mais odeio nos idiotas da Ordem é esse idealismo deles... Achar que tudo é preto no branco.


Fora outro jantar em família na Mansão Malfoy. Eu estava me sentindo horrível; minha respiração ainda estava acelerada com as outras que eu destruíra no meu quarto... Tudo misturado ao meu mais novo ódio de Ginny Weasley, culpada por todos os meus problemas. Minha mãe estava elogiando o prato da noite, o que era esquisitíssimo; o novo elfo doméstico não ouvia um elogio desde que tinha esquecido uma das máquinas de tortura do meu pai em funcionamento, nos porões da mansão. Meu pai chegara sorridente e nem tirara a máscara ao exclamar:

-A guerra acaba em uma semana!

Minha mãe ergueu a cabeça e levantou-se para receber o marido.

-Do que está falando? – ela perguntou, erguendo as sobrancelhas.

-Nós temos tudo de que precisávamos. – meu pai continuou. – Todas as informações. – Os olhos dele brilharam alucinadamente, e eu quase senti minha Marca Negra estremecer no meu braço. – A Ordem da Fênix será destruída em uma semana...

Eu acho que fiquei meio zonzo com a informação, porque imediatamente imaginei Ginny. Quando meu pai começou a descrever a invasão, desde o momento em que conseguissem o segredo da sede deles, eu só via a ruiva recuando ao lado de Potter, enfeitiçando tantos quanto ela conseguisse, até finalmente cair morta.

E se eu fosse mandado naquela missão? E se eu tivesse que matá-la? E se eu fosse forçado a vê-la morrer bem na minha frente, como aquela menina trouxa sem nome, insolente e, ainda assim, mais corajosa do que fui eu a vida inteira?

Minhas entranhas reviraram. E meu pai, o senhor da família Malfoy, bruxo das trevas inato, continuou falando.

-Sem falar daquele velhote Lovegood. – ele levou uma garfada de comida à boca, mastigou apressadamente e continuou falando. – Foi difícil, mas um pouco de Veritaserum do velho Severus nunca falha. Temos receitas de poções e encantamentos de gigantes antigos. Sem falar de que ele era o único capaz de chegar ao labirinto...

Engoli em seco e tentei controlar meu tom de voz.

-Labirinto? – perguntei.

-Sim, labirinto. – meu pai confirmou, como se afastasse uma mosca. – Onde o Lord das Trevas guarda um objeto muito importante.

Devia ser importante mesmo, se nem mesmo meu pai sabia dizer o que era.

-Inclusive, Draco – ele voltou-se para mim de novo, dessa vez com mais atenção. – Quero que esteja conosco amanhã. Alguns colegas estão trabalhando nas poções que Lovegood deixou escapar. E quero que você patrulhe o local.

-Eu sou bom com poções. – murmurei, mais para que ele me achasse disposto do que qualquer outra coisa.

Ele riu, naquele tom gelado dele, mas seus olhos estavam fixos em mim. Estaria ele com alguma ponta mínima de orgulho da cópia dele próprio que ele tinha criado por todos aqueles anos?

-Verei o que posso fazer por você, Draco. – ele ponderou. – Snape lembra-se do seu dom natural para poções dos tempos de escola.

Procurei sorrir astutamente, como fazia antes, e terminei minha refeição, que subitamente ganhara gosto de cartolina. As coisas estavam totalmente erradas, e eu lhes digo o motivo: eu não queria que a Ordem da Fênix fosse destruída.

Por culpa dela!

Aquela noite se arrastou. O relógio do meu quarto marcava duas da manhã e eu ainda tinha aquela imagem na minha cabeça. Ginny lutando até a morte, Ginny morrendo ao lado de Potter. Ginny rindo daquele jeito que ela rira para mim quando estava bêbada.

Eu não sei quando aquela imagem velha da ruivinha submissa e boba que seguia os irmãos ruivos para todos os lados tinha me deixado. Eu me sentia idiota ao querer voltar no tempo e apenas fazer de conta que não sabia que ela era Diana Higgs.

Se aquilo pudesse ser verdade!

Se eu tivesse vivido como uma pessoa normal. Se eu não tivesse deixado que matassem Dumbledore. Eu seria mais decente? Será que eu pelo menos estaria vivo? Talvez eu não encontrasse aquela risada. E talvez morresse me sentindo idiota, porém não tão idiota quanto estava me sentindo naquele momento.

O ódio que eu sentia... A raiva e o rancor... Vinham todos de mim e apenas para mim, porque eu não era a pessoa que Diana/Ginny desejaria para si. Àquela altura da madrugada, eu já não me importava com quem era real e quem não era. Eu nunca estive tão louco como naquela noite.

Eu a queria!

Meus olhos estalaram abertos. Eu andei até a janela e abri as cortinas. Era lua cheia. Seguro para mim, a morte para qualquer um que não tivesse a Marca Negra. Mas mesmo a Marca Negra voltou-se contra mim. Porque eu queria ter feito as escolhas certas. Em poucos dias, ela estaria morta. E então, eu seria livre.

Mas a questão era a seguinte: eu queria ser livre?

Livre como? Livre de quem? Do quê? Da lembrança dela? Da escravidão a que ela havia submetido o meu sono?

Ninguém nunca sorrira ao ser beijada por mim.

Talvez por eu ser tão nojento. Tão oco, tão pré-formatado pelo meu pai, que afinal não queria o bem para mim, e sim o bem para ele e para seus partidários. Eu também queria poder. Mas não aquele poder. Não o de matar uma mulher que eu queria para mim.

Já não me importa!, pensei, dando as costas para a luz da lua. Tanto faz se ela prefere o herói Potter; tanto faz se eu serei morto também. Eu não posso terminar a guerra que comecei. Mas posso terminar uma coisa: aquela loucura.

Eu tentaria. Uma única vez. Que custaria a minha vida, mas que talvez me tornasse uma pessoa de verdade. E não a sombra doutrinada de Lucius Malfoy. Eu tinha um lugar... Eu tinha todas as chances. Naquele segundo.

Desci as escadas com os joelhos trêmulos, a varinha em punho. Não carregava roupas nem quaisquer outros objetos nos bolsos da minha capa; eu não sobreviveria muito tempo, mesmo.

Abri a porta do hall de casa e, seguido de um vento gelado, encontrei Severus Snape prestes a bater à porta.

Ele me fitou e naquele segundo escaneou todos os meus sentimentos. Meu cabelo despenteado e as minhas olheiras também não disfarçavam muito.

-Aonde vai, Draco? – ele perguntou, erguendo uma sobrancelha para a minha varinha.

Engoli em seco.

Ninguém mente para Snape...

-Responda, Draco.

Será que ele me compreenderia? Não...

-Vou encontrar Zabini. Ele me disse que queria que eu o ajudasse com uma família de bruxos no centro de Londres.

Ele ergueu uma sobrancelha.

-É difícil acreditar que você esteja tentando mentir para o seu professor de Legitimência, Draco.

Franzi o cenho.

-Você me mataria.

-Caso esteja fugindo, Draco, eu apenas amenizaria a sua dor. – ele respondeu, desdenhoso. – Venha. Quero saber o que está tramando.

Meu coração martelava; e a consciência desse mesmo coração não me trazia boas lembranças, porque ele sempre acelerava daquele jeito quando eu estava prestes a fazer algo do qual fosse me arrepender por toda a minha existência – o que eu não considerava ser muito, naquela ocasião. Talvez por isso eu tenha seguido Snape, como ele me dissera.

Eu segurei o ombro de suas vestes e ele nos aparatou para um beco aparentemente trouxa, com uma casa aparentemente abandonada.

-Onde estamos? – perguntei, olhando em volta para o beco deserto.

-Não é importante. – ele resmungou de volta, abrindo a porta da frente. – Qual uma das principais lições do Comensal da Morte?

-Quanto menos se sabe, melhor cumprida será a tarefa. – respondi maquinalmente.

Snape acendeu um archote antigo na parede com a varinha e me mandou sentar sobre um sofá de aspecto duvidoso.

-Mas você não quer mais seguir as lições do Comensal da Morte. – não era uma pergunta.

Abaixei a cabeça e permaneci em silêncio.

-Por que a fuga?

Não resisti; um riso fino de ironia me escapou. Meu peito ainda arfava e a pulsação teimava em não baixar; a tendência agora era dizer bobagem após bobagem.

-Eu não quero que o Lord das Trevas vença.

-E desde quando fugir faz com que ele perca a guerra? – ele atirou, asperamente.

-Não faz. – repliquei. – Mas eu não posso mais.

-Você nunca pode, Draco. – Snape sussurrou, no tom mais irônico e perigoso que eu já ouvira antes. – Enquanto seu pai e outros estavam ocupados admirando a potência dos seus feitiços, Draco, eles se esqueceram de olhar para você e ver o quanto você se divertia com o sofrimento alheio.

Ergui os olhos, surpreso.

-Você nunca pertenceu ao Lord de verdade.

-Eu...

-Temi que você nunca fosse perceber isso. E, de fato, a idéia chegou tarde demais, Draco. Não acredito que haja esperança para você.

Eram muitas informações novas de uma vez. Eu me senti de novo um garoto de colégio, o qual eu apenas não era por conta da escola não existir mais...

-Não existem mais heróis aqui. Nem esperanças. Mesmo assim, por que abandonar tudo agora? – Snape estreitou os olhos. – Agora, que você está tão próximo de cair nas graças do bruxo mais poderoso do mundo e alcançar a tranqüilidade?

Não tive coragem de dizer. Mas Snape viu a imagem de Ginny em minha mente tão claramente quanto eu. Sua expressão se suavizou.

-Suma daqui. – disse ele. – E pegue o que você quer amanhã à noite, na antiga casa dos Gaunt.


Agora ela estava ali, presa, sob o meu comando. E eu não conseguia agir como planejado.

De costas para ela, preparando uma Chave de Portal potente o suficiente para nos levar o mais longe possível , continuava ouvindo os impropérios dela.

-Covarde! – ela esganiçava.

A garota não entendia, e eu já me arrependia do único ato altruísta de toda a minha vida.

-Você está me cansando, garota! – esbravejei, voltando-me para ela. – Eu estou salvando a sua pele, caso não se lembre!

-Curioso! – ela gritou de volta, olhando para a taça antiga que eu tinha em mãos. – Eu não me lembro de ter pedido para sair daquela batalha!

Fiquei de frente para ela, encarando-a com os olhos em fogo. Ela estava de joelhos, tentando se levantar com pernas e braços amarrados, mas mantinha aquela expressão arrogante de quem nunca admite estar perdendo.

-Você não passa de uma criança – eu falei, num sussurro tenso. Era sussurrar para não gritar até estourar os tímpanos dela. – Você não sabe nada sobre a morte, nem sobre a guerra. Certamente Potter ficou tão ocupado te protegendo e te jogando em missões com meia dúzia de Comensais de quinta, que você não criou nenhuma noção do perigo. Você não sabe como é ser marcado pelo Lord.

Ela ergueu o queixo ousadamente.

-Claro que não sei! – ela continuou me encarando. – Eu não vendi a minha alma por poder, Malfoy!

Ao ouvir a palavra alma, minha pulsação subiu e a raiva foi com ela. Segurei a ruiva pelos ombros e a coloquei de pé. Empurrei-a contra a parede para que ela pudesse olhar direito dentro dos meus olhos.

-É muito fácil falar na sua posição, Weasley! – ela não entendia nada... – Se você perdeu tanto tempo com namoradinhos e com essa sua cabeça vazia demais para entender que nem todos puderam ter uma adolescência feliz e despreocupada, não é problema meu.

Ela estreitou os olhos.

-Você não sabe nada sobre mim. – ela rosnou.

-E você acha que sabe alguma coisa de mim? – eu dei um passo à frente, de modo que as sardas dela ficaram nitidamente claras pra mim. O archote tremulou e a luz recaiu sobre apenas um lado do rosto dela. – Não existe apenas branco e preto, garota. Não são só luz e trevas. Duvido que você seja toda radiante e nobre como todos vocês metidos a heróis alegam ser.

Ela piscou.

-Está insinuando que você tem alguma coisa de bondade que reste aí dentro? – ela falou, o lábio tremendo. Ela engoliu em seco e eu percebi que ela queria chorar. Típico. – Você jurou fidelidade a Voldemort.

O som do nome fez os pêlos da minha nuca se arrepiarem; num breve segundo eu bufei e dei as costas a ela. Peguei a minha varinha.

-Suma daqui. – falei, em voz baixa mais uma vez, buscando calma. Sacudi a varinha por cima dos ombros e a livrei das cordas. Pode desaparatar, virar fumaça, sumir daqui. Vá lá e morra. Se não quer ser salva, o problema é todo seu.

Eu me virei de novo e ela estava parada, em pé, me olhando chocada. Andei a passos largos até a porta e a abri. A porta de madeira levava a um vale frio e deserto, depois de uns lances de escadas, cuja localização eu não estava interessado em dar.

Fiquei parado ali, guardei de novo a varinha e indiquei o lado de fora.

-Vá embora.

Ela ergueu-se e começou a andar. Toda a sua rebeldia desapareça de repente, como uma criança que consegue o que quer para em seguida tornar-se um anjo de candura, por mais que tenha atormentado o adulto momentos antes.

Ginny parou a dois metros de mim e trancou os olhos castanhos nos meus. Eu não conseguia desviar, porque não conseguia entender seus pensamentos. E fui covarde demais para invadi-la e lê-los, como das outras vezes. Afinal, não era mais Diana. Era Ginny.

No instante seguinte, ela pulou para frente e num rufar súbito de vestes, ela se jogou no meu pescoço. Os braços se trancaram nas minhas costas e ela se segurou a mim com tanta força quanto podia. Eu, imóvel, senti a minha coluna se arrepiando. Eu não estivera a evitar o contato sem motivo...

Aquela garota era louca?

Mas eu não consegui perguntar nada, porque ela olhou em cheio para mim de novo e colou os lábios nos meus.

E eu fiquei louco, também.

Depois de um tapa desajeitado na porta, eu a beijei de volta e a apertei contra mim. Não tinha percebido o quanto eu a queria; não sabia por que ela tinha feito aquilo... Mas já não importava tanto. Eu a abracei com força, passando uma mão pelo cabelo tão vivamente vermelho.

Senti as minhas costas batendo contra a parede, e ela ainda não me soltara, embora eu também não tivesse deixado, mesmo que ela tivesse tentado. Quando ela finalmente separou os lábios dos meus, continuou com os olhos fechados, e sorriu. Eu fiquei olhando para o rosto dela, sentindo-me um espião por ficar estudando-a quando ela não me via, mas eu estava... maravilhado demais. Ela estava feliz por ter me beijado. Feliz por estar nos meus braços. E não fingia mais.

Então era de verdade.

Ela abriu os olhos e o sorriso se alargou.

-Eu sou tão doida. – ela comentou, olhando para a gola das minhas vestes.

-Eu sei. – virei os olhos, tentando ficar sério. Mas o canto da minha boca estava se curvando, por mais que eu tentasse evitar. Ela ainda estava presa a mim, e voluntariamente. – Caso você encontre a minha razão em algum canto desse lugar, me avise, porque ela está fazendo falta.

Os olhos dela estavam brilhando com toda a força.

-Eu não vou deixar você sozinho – ela falou, ao ficar séria de novo. – Mas eu me recuso a fugir sem fazer nada. Tem que ter algo em que possamos ajudar.

-De manhã – eu resmunguei embriagado, porque não queria brigar e soltá-la de novo. Puxei-a para mim de novo e a beijei profundamente. No fundo da minha mente, havia uma parte comemorando o fato de ela não sentir nojo de mim e não me afastar.

Ela segurou o meu rosto, com os dedos finos espalhados pela face da qual eu tanto me envergonhava, até que eu a peguei no colo. Ela soltou um gritinho seguido de uma gargalhada quando eu fiz isso, e eu nunca estivera tão feliz.

Ela caiu na cama rindo radiante e eu me lembrei por um momento dela mesma, como Diana Higgs; meus olhos nublaram por um instante, até que eu percebi que não era mais como antes. Eu caí por cima dela e Ginny puxou a minha capa para trás, tirando as mangas...

Até que o seu sorriso desapareceu e seu rosto todo ficou muito sério.

Eu fiquei suspenso sobre ela, congelado, sabendo o que acontecera.

Ela estava olhando para a Marca Negra.

-Eu não posso me livrar disso. – murmurei, amargamente. Estava na cara que ela não queria aquela tatuagem horrenda tocando nela. Eu nunca experimentara o que eu senti naquele momento: ódio pelo Lord das Trevas. Em tão pouco tempo... Ele era outro na minha visão.

-Nós vamos acabar com ele. – disse ela, engolindo em seco e tentando soar otimista. – E então você se livra dela.

Pisquei, o cabelo caindo sobre ela.

-Você não se importa?

Ela respirou fundo.

-Não faz mais parte de você de verdade. – Ela deu um sorriso amarelo. – Ande, venha aqui... – e o sorriso tornou-se sincero.

Eu não resisti; sorri de volta. E a beijei de novo.


Dormi muito pouco, embora muito bem. Quando abri os olhos, esparramado sobre aquela cama pequena que eu improvisara – aquele lugar já fora esconderijo de tortura, mas uma vez descoberto pela Ordem, fora abandonado – Ginny estava sentada à mesa, com a varinha do lado do punho direito, escrevendo apressadamente em um pedaço de pergaminho.

-O que está fazendo? – perguntei, sentando-me depressa e ligando o modo de alerta interno.

Talvez eu tenha me distraído observando-a vestir pouco mais do que o meu próprio sobretudo, e por isso não tenha lido o que ela escrevia ao me levantar.

-Vou avisar os outros que eu estou bem. – ela disse, erguendo os olhos para mim. – Dessa forma, eles não se arriscam me procurando.

Inclinei-me e beijei o pescoço dela, embora a preocupação começasse a crescer. Os Comensais poderiam já estar no meu rastro àquela altura.

-Não temos como mandar a mensagem. – resmunguei, de má vontade.

-Eu sei como. Tem uma lareira no quarto vazio ao lado.

Ela voltou-se e me beijou brevemente, com o bilhete fechado. Eu tentei fechar as calças, ficar mais apresentável antes que ela voltasse. Meus ombros estavam relaxados. Eu todo estava, e aquilo não era exatamente ideal se eu estava embarcando em uma missão com um membro assumido da Ordem da Fênix.

-Agora – ela disse, voltando. – Precisamos saber exatamente o que precisamos fazer.

-Eu já lhe disse, Ginny – repeti, sabendo que seria inútil. – Não temos nenhuma chance...

-Você pensa que não, Draco – ela falou alegremente, dando um tapinha no meu ombro. – Mas a Ordem precisa destruir uns... Uns objetos de Voldemort. Feito isso, Harry ficará frente a frente com ele e de igual para igual...

Franzi a testa à menção de Potter.

-E exatamente quais objetos são esses?

Seguiram-se minutos didáticos sobre coisas que ela sabia sobre Horcruxes. O nome já me passara pelos ouvidos alguma vez na minha vida, mas eu nunca me interessara sinceramente pelo vocábulo. As artes das trevas sempre foram lindas – agindo em outro bruxo, muito obrigado.

-E assim, se destruirmos todas as peças, Voldemort será apenas um homem mortal, como você e eu. – ela concluiu, alegre, esperando uma reação animada da minha parte.

Eu estava ainda meio embasbacado com a confiança dela. Ela tinha me contado tudo que a Ordem da Fênix descobrira a duras penas – e, dormindo com ela ou não, eu ainda possuía a Marca Negra.

-Ginny – eu engoli em seco. – E se eu não fosse um Comensal arrependido? Como você me conta tudo da maneira que fez?

-Veja bem, Draco, eu não tenho muito a perder. – ela deu de ombros. – Se você for ainda um servidor de Voldemort, com certeza vai me matar de qualquer jeito...

-Mas você deveria levar estes segredos para o túmulo.

-Bom, está feito, não? – ela virou os olhos. – Está querendo dizer que é a sua deixa para me destruir?

Resisti ao impulso de beijá-la de novo, para não quebrar o raciocínio.

Ginny citou todas as Horcruxes que conheciam; quando ela mencionou a cobra maldita de Voldemort, eu prendi a respiração.

-O que foi? – ela perguntou.

Snape, pensei. Será que ele também estaria interessado em uma pequena traição?

Snape, que controlava Rabicho... Que já cuidara por muito tempo de Nagini...

Inclinei-me e beijei Ginny de fato desta vez, a possibilidade enchendo alguma coisa dentro de mim de esperança.

-O que você está fazendo comigo, hein? – perguntei, quando nos soltamos. – Você fica aí, dando esperanças a Draco Malfoy...

Os olhos dela se iluminaram.

-Você está dizendo que é possível capturar a cobra?

-Vá pôr uma roupa decente – falei, com um sorriso afetado. – Vamos começar a viagem.


N/A: Sim, eu estou de volta! Estava com saudade dessa fic... Que agora está adequadamente corrigida. Quero agradecer ao pessoal que já comentou sem nem mesmo ver as respostas das reviews do capítulo treze, que aqui estão:

Lara: Harry indo pra Creta? Não sei, não sei... Afinal, nos últimos meses eu foquei mais em Draco/Ginny; o próximo capítulo é narrado por ela. E bem... eu demorei um bocado pra atualizar. Desculpa!! E obrigada!

Anna Weasley: Haha, eu ignorei o Draco e a Ginny por uns tempos, né, Anna? Mas agora respira fundo, porque você terá uma overdose deles. Pra valer! E puxa... Às vezes nem parece que fui eu que escrevi essa fic, sabe? Fiquei tensa quando fui reler esse capítulo hoje! Que medo... Obrigada!!

Matheus Chucri: Sobre escrever a Luna... Eu te contei que ela foi inspirada em "Dossiê Lovegood", da Lucy Holmes? É uma one-shot na qual ela fala de um casal... Não me lembro bem, mas acho que era Ron/Hermione. Achei aquela Luna tão bem feita que deu vontade de fazer a minha... E pra retratar cada um dos personagens, só tenho que encontrar o que, em mim, é parecido com eles. Eu só tenho que achar meu lado mais doido pra Luna... O mais confuso e atormentado pro Draco... O idealista pra Ginny... E o Harry, bem, ele é o herói. Heróis são fáceis, haha. Muito obrigada pelo comentário!

ivanidolores: Ah, mas você não acha que os capítulos curtos fazem mal pra qualidade da história? E eles nem são tão longos assim, haha. Conheço umas colegas que fazem bem pior... Espero que você termine de ler a fic algum dia... Obrigada!

Lucy Holmes: Hahah, a Luna é humana! Tinha que ter ciúme, né? Hahaha. Olha só, Lucy, eu consegui terminar esse capítulo! Eu sei que você já leu, mas mesmo assim... É legal ter seus comentários aqui. Obrigada!!!

Miri: Nossa, que saudade de você! Nem fala de faculdade, que eu começo esse ano. Já passei em uma e tô esperando a UFMG, roendo as unhas... Seremos colegas! Ah puxa... Estou me sentindo uma inovadora Harry/Luna desse jeito! Sabe como é... Eu só joguei as idéias no papel. Daí a gente pensa: hum, se eu fosse assim, o que eu pensaria se acontecesse aquilo? E kazaan! Hah, pobre da Luna! Ela é útil sim, você vai ver! Mas não no próximo capítulo, porque nele teremos mais DG. Obrigada por tudo!!

Cristina Melx: Arrependimento? Por que o Harry se arrependeria de ter beijado a Luna? Ele tinha é que erguer as mãos pro céu por ter tido essa chance, num acha? Pobre Lupin, ele tá pensando no bem da Ordem da Fênix, haha. Obrigada!!

AnaNinaSnape: Também estou com saudade de você! Preciso terminar de ler a sua fic. Já está terminada? Com quantos capítulos? Ah, e não veja o filme da Insustentável Leveza do Ser, não. Leia o livro! O filme é muita putaria, fiquei até chateada de ter algado. Mas o livro é INCRÍVEL, confie em mim! Obrigada!!

Ivania Dolores: Ahhh muito obrigada! Finalmente os dois desenrolaram, né?? Valeu mesmo!

Maria Silvia: Sabe, boa parte das coisas que "se conectam" na fic foram planejadas. Mas a maior parte, que aparece no próximo capítulo, se encaixou por acaso. E eu fiquei super feliz de perceber isso! Eu sei que demorei de novo. Tava todo mundo me cobrando, já. Daí criei vergonha na cara. Muito obrigada!

Anitty: Ah, o 3v demora um pouquinho mesmo... Aconselho que você procure aqui mesmo. Sobre a Luna: pra fazer ela bobinha e apaixonada eu me lembrei de quando eu mesma me apaixonei; eu era toda durona e não queria saber de nada. Porém, a gente fica naturalmente idiota quando se apaixona (mesmo que seja platônico que nem foi comigo), então foi uma espécie de licença que eu peguei. E a Ginny... Ai, por que eu não consigo gostar dela? haha. Obrigada!!

A. Mira Black: Aí está seu Draco e Ginny! Hahah. E tem muito mais de onde veio isso, fique tranquila! Eu também uso mais o Deu tanto trabalho pra aprender a mexer quando eu tinha meus doze anos, que agora não troco por nada... Obrigada por comentar!

Rapousa: Que bom que você chegou no final da fic! Eu já recebi o comentário deste capítulo, mas só posso respondê-lo no quinze, tá bom? Hahah. Obrigada!

Mary Campbol: Ufa! Consegui, terminei o quinze. E aqui está o 14 de presente. Agora, rumo ao dezesseis! Não falta muito pra terminar a fic, em número de capítulos. Em ações... Um bocado... Heheh... Obrigada por comentar!

Amanda Dumbledore agora vai assistir animê e esperar que a UFMG a aceite ou não. Estou apavorada!! E obrigada por continuarem lendo, tá??