Proposta Irresistível

Por Mukuroo

Obs: Saint Seiya não me pertence! Os personagens podem sofrer algumas alterações em suas personalidades originais.

XIV

Na seção de material hidráulico da imensa loja de departamentos, Shura tentava encontrar um tubo em U que servisse para sua pia. Precisava apressar-se, senão as flores iriam murchar em seu jipe. Chamar um encanador começava a parecer-lhe uma boa idéia. Contudo, era provável que só o fosse encontrar na segunda-feira.

- Droga! – resmungou, jogando de lado outro cano. – Eu desisto.

- Antes disso, por que não experimenta este? – A peça que o espanhol procurava chegou-lhe do nada, assim como o loiro. Outra vez. Aiolos estaria seguindo-o? Shura não iria negar que um lado seu desejava que fosse essa a verdade.

- Obrigado, Aiolos. – sorriu levemente.

- De nada.

Shura o viu afastar-se, achando que devia ser apenas coincidência o modo como seus caminhos estavam se cruzando naquele dia. Ficou desapontado por Aiolos não o estar perseguindo, e isso o irritou.

Encontrou-o na sessão de ferragens, indeciso, diante de várias maçanetas. Antes que Shura pudesse dizer algo ou lhe dar um tapinha no ombro, Aiolos lhe mostrou um puxador de vidro. – O que acha deste?

- O vidro lapidado vai bem com quase tudo. Eu gosto, porque me lembra diamantes. – Shura acabou por responder, sorrindo levemente.

Aiolos ia devolver o puxador quando Shura segurou-lhe a mão. O contato foi mágico, hipnotizando o espanhol. O sorriso de Aiolos foi se abrindo aos poucos, deixando-o com uma sensação de alegria ainda mais surpreendente do que a que sentira diante do presente inesperado, aquelas...

- As flores! – exclamou Shura. – Minhas flores não vão agüentar o calor. Elas precisam de água e...

- Vou ficar com os puxadores de vidro – decidiu Aiolos, pegando um punhado deles e jogando-os na cesta. – Agora vamos voltar aos canos. – Guiou o espanhol pelo braço com a segurança de um homem que conhecia muito bem seu caminho. – Você ainda precisa da válvula de conexão, certo?

- Certo. Como sabe? – o olhou espantado.

- Ora, eu conheço as pias. – o loiro riu baixinho. – Já trabalhei em muitas na vida. Em ambas as vidas.

O fato de Aiolos conseguir rir daquilo mostrou a Shura o quanto ele progredira e quão pouco precisava do espanhol agora. Quanto a si próprio, ele não podia dizer o mesmo. Refreou a tentação de pedir ajuda para consertar a pia, pois isso seria contra as normas profissionais. Era uma pena, mas o máximo que poderia lhe pedir era auxílio em relação aos canos e peças correlatas.

Aiolos encontrou tudo. Em poucos minutos, estavam fora da loja. Aiolos seguiu direto para o carro esporte do espanhol, de sacola na mão. Shura abriu a porta do lado do passageiro e recolheu o buquê.

O loiro percebeu a sacola da butique, e ficou irritado. De olho fixo no conteúdo oculto, que só Excalibur ousaria vestir, largou a seu lado o material que pretendia instalar. Incapaz de resistir, esticou a mão para abrir a porta do lado do motorista e, ao fazê-lo, deu um jeito de derrubar as compras de Shura no chão do carro.

- Opa! Desculpe-me, Shura!

Enquanto o espanhol se ocupava em alojar as flores no painel, Aiolos aproveitou para abotoar um botão da camisa de Shura que havia se aberto. Antes que Shura pudesse tirá-lo do caminho, o loiro recolheu tudo e devolveu à sacola, com outro pedido de desculpas tão falso quanto o primeiro.

Achando que não seria sábio provocar o analista falando no rubor que se espalhava da raiz dos cabelos até o queixo, Aiolos agiu como se nada houvesse acontecido e sugeriu: - Não quer que eu o ajude com a pia?

- É muito amabilidade sua oferecer, mas...

- Seria uma quebra das regras profissionais. – Aiolos o interrompeu.

- Receio que sim. – Shura não parecia nada satisfeito com aquilo.

- Você já me disse isso antes, mas não entendo. Por quê?

- Porque um analista trava contato com revelações pessoais que, por juramento, devem ser mantidas em sigilo. Levá-las para fora do consultório é proibido para a segurança de ambas as partes.

- Então vamos mantê-las lá, no consultório, onde é o lugar delas. – Aiolos fazia o máximo para tirar vantagem da situação. – Gosto de você, Shura. Gostei mesmo antes de nos conhecermos pessoalmente. A primeira vez que li sua coluna, pensei: essa pessoa é sensata e aprecio o que ela diz. Aos poucos, fui percebendo que não me interessava apenas o que você dizia, mas por você.

- Sabe como isso me deixa feliz? – O sorriso de Shura era radiante. – Às vezes acho que estou passando adiante os conselhos que dou a mim mesmo e que não sigo, lançando-os num buraco negro. Quando dizem o contrário, me faz muito bem. Obrigado, Aiolos. Você fez meu dia valer a pena.

- E o meu valeu, se eu trouxe um pouco de alegria ao seu. – Sem querer forçar demais a situação, Aiolos contornou o carro e abriu a porta para o espanhol. Shura entrou, mas não levou a mão ao trinco nem procurou as chaves.

Encorajado por esse fato, Aiolos perguntou: - Minhas consultas estão perto do fim. Poderemos ser amigos quando terminarem? – Estendeu-lhe a mão, com certa timidez. – O que acha?

Shura ficou indeciso por um instante, mas Aiolos soube que havia vencido quando ele apertou a mão. – Amigos.

- Amigos ajudam um ao outro, Shura. Deixe-me auxiliá-lo com a pia. Que tal?

- Tudo bem. – Shura parecia calmo e seguro como sempre. – Se nos perdemos no trânsito meu endereço é...

- Eu sei o seu endereço, a não ser que tenha trapaceado na sua ficha. Fica só uns quinze minutos de onde moro. Vou passar em casa para trocar de roupa e depois irei até lá.

Antes que Shura pudesse mudar de idéia, Aiolos partiu. O loiro dirigiu como um louco, trocou de roupa e surgiu à porta de Shura em poucos minutos.

- Já? – o espanhol perguntou, com um vaso de flores nas mãos.

- Trouxe uma ferramenta com a qual você pode posar se for escolhido como o novo garoto da folhinha dos mecânicos gays. – Aiolos sorriu. De provocação em provocação, estava vencendo-o. Decidido a ganhar mais terreno, entrou no saguão e olhou em torno.

Uma obra-prima arquitetônica de cornijas entalhadas e acessórios da virada do século passado. Havia muita madeira, ainda mais em mogno e carvalho. Mas o que mais lhe chamou a atenção foi à escadaria reluzente.

- Que beleza! Precisa de uma reforma, claro, mas como você, esta casa é única. Pelo menos o que estou vendo... – Fez uma pausa, esperando que Shura oferecesse para mostrar-lhe o resto, ou, pelo menos, o quarto da torre.

- A cozinha é por aqui, Aiolos. – falou de forma séria mostrando o caminho.

O loiro deixou o outro o conduzir, reparando que Shura havia vestido uma bermuda quando chegara a casa. Fitou-lhe as longas pernas. Os quadris pareciam feitos para serem acariciados; o pescoço, para seus lábios.

- Não quero que você faça tudo sozinho – disse o espanhol, por sobre o ombro, que Aiolos planejava massagear numa carícia possessiva. – Prefiro que vá me dando instruções, para que eu, da próxima vez, possa fazer sozinho.

- Claro. – sorriu levemente.

- Está quente demais aqui. Os canos de ar foram instalados esta semana. A unidade central chega na próxima segunda. – comentou chegando ao cômodo.

- Está bom assim. – Não estava nada bom. Aiolos entrou embaixo da pia, antes que agarrasse algo além da válvula do registro. Mas, assim que fechou-o, nova tortura: encontrou-o postado bem diante dele.

- Desculpe-me Aiolos – disse, enquanto o loiro lutava contra a vontade de segurar-lhe os cotovelos esguios e puxá-lo. Daquele ponto privilegiado, as pernas do analista pareciam infinitas.

Por mais que odiasse renunciar aquela visão, Aiolos escolheu duas ferramentas e se levantou. Ao lado de Shura, e não atrás. Caso contrário, suas coxas ficariam entrelaçadas às do espanhol e as mãos iriam parar em qualquer lugar, exceto na janela que Shura não estava conseguindo abrir, acima da pia.

- Deixe comigo. – A oferta era polida, mas o tom de voz chegava a ser rascante de tão rouco. O braço nu de Aiolos roçou no do outro, fazendo com que os pêlos de ambos se eriçassem ao mesmo tempo.

Em vez de se afastar, como Aiolos previra, Shura permaneceu imóvel como estátua enquanto ele enfiava a chave de fenda nas juntas grudadas de tinta e soltava-as com um martelo.

Com os bíceps tensos, Aiolos forçou a janela, vencendo-lhe as últimas resistências. Ela se abriu, e uma refrescante brisa de verão penetrou. Mais tenso do que uma corda de piano a ponto de rebentar, Aiolos olhou para Shura, que mantinha uma postura rígida.

- Shura? Ao trabalho. – sorriu levemente para ele.

Uma hora depois, o cano estava consertado. Ali, embaixo da pia, eles haviam cimentado um novo vínculo, o da intimidade doméstica. Aiolos procurou ampliar isso ao máximo.

- Bom trabalho, Shura. Devia orgulhar-se de si mesmo.

- E me orgulho! – o espanhol acabou por sorrir para ele.

Fitando-o nos olhos, Aiolos entrelaçou os dedos ao do outro. O sorriso de Shura se apagou. O do loiro tornou-se pálido reflexo do conflito interno que o consumia. "Ele quer que você o beije, que o puxe e coloque os lábios sobre os seus. E você quer isso também". – o loiro pensava. Porém, forçando-se a recuar, Aiolos cerrou os dentes e olhou para o relógio.

- Acho que é melhor eu ir. Já são cinco e meia e você deve ter compromissos...

Culpa e desejo. Foi o que Aiolos leu nos olhos do outro antes de ele os fechasse, e depois abrisse de novo, recolocando a muralha entre os dois.

- É, tenho sim. E você?

Observando-o com atenção, Aiolos respondeu: - Eu também. Tenho um encontro em cerca de uma hora.

O sorriso de Shura era tão forçado quanto o tom de voz: - Então é melhor ir. Divirta-se e... Muito obrigado.

- Disponha. – Aiolos ocultou o sorriso de triunfo enquanto saía. Sem levar as ferramentas. Assim que a porta se fechou, depois de sua passagem, Aiolos ensaiou alguns passos pelo jardim e sentiu um prazer perverso.

Continua...

Oi, meus queridos e amados leitores. O que acharam desse capítulo? Bem... Ontem não pude postar nenhum capítulo, apesar de que ele já estava pronto. Me desculpem por isso, mas eu não estava bem de saúde. Então por este motivo, para compensar a minha falta, hoje estou postando dois capítulos. Espero que se divirtam.

Abraços!

Muk-chan \o/