Capítulo XIV

Na manhã seguinte, Rony aprendeu uma lição sobre a necessidade de ser modesto quanto à sua importância. Quando se trata de bebês... o sucesso pode se transformar em fracasso, num piscar de olhos.

Ele se sentira extremamente orgulhoso, achando que conseguira uma grande vitória. Obedecendo à sugestão do pai, Charlie dormira a noite inteira, para dar uma noite de sossego à mãe, sem mencionar a liberdade e o tempo necessários para ela voltar a descobrir o imenso prazer e a satisfação do sexo. Rony a considerara obediente e com um alto nível de inteligência, uma criança que conhecia, por instinto, o significado da arte da cooperação entre os seres humanos.

Mas esquecera de pensar nas conseqüências de seu triunfo. Charlie pulara a mamada das três horas da manhã e, quando chorara de fome, já bem depois do nascer do sol, os seios de Hermione estavam transbordantes. O leite jorrou, com força excessiva, pela garganta da garota que engasgou e vomitou. Logicamente, Hermione se descontrolou!

Rony jamais teria imaginado que uma criatura diminuta como Charlie pudesse lançar para tão longe o conteúdo de seu estômago. Assumiu a tarefa de limpeza, poupando Hermione e dando-lhe a tranqüilidade para encontrar um meio de alimentar a filha sem causar maiores desastres.

Realmente, o comportamento maternal devia ser instintivo. Rony jamais teria pensado na solução encontrada por Hermione, que deitou-se na cama e colocou a criança sobre ela, a fim de evitar um fluxo excessivo de leite.

O problema de alimentar o bebê sem afogá-lo em leite foi resolvido. Entretanto, o minúsculo estômago de Charlie não tinha dimensões para conter a dose equivalente a duas mamadas, que fora produzida e armazenada pelo equipamento materno.

Hermione ainda insistiu, mas teve de desistir. Após alimentar a filha, seus seios continuavam repletos de leite e bastante doloridos.

— Acho que terei de usar a bomba para tirar o leite, Rony— disse ela, preocupada. — Poderia ir até uma farmácia e comprar uma?

— Uma... bomba para tirar leite? — repetiu ele, sem acreditar no que ouvira.

Em sua mente, ele viu o único tipo de mecanismo que poderia associar àquelas palavras: uma ordenhadeira mecânica! Quando estava no primário, fora levado a visitar uma fazenda de gado leiteiro e vira esse objeto em funcionamento. Será que Hermione pretendia usar algo semelhante? A idéia o deixava simplesmente horrorizado.

— Eu deveria ter providenciado uma, antes do problema acontecer — explicou Hermione, com uma expressão de culpa. — Mas não imaginei que Charlotte começaria a dormir a noite toda, antes de completar o primeiro mês!

Rony sentiu-se angustiado. A culpa não era de Hermione e sim dele.

— Creio que há uma farmácia aberta vinte e quatro horas, em Epping. — Hermione parecia prestes a se desesperar. — Poderia ir até lá?

— Claro que sim! Ainda não são sete horas e o caminho deve estar completamente livre. Epping fica a poucas quadras daqui e voltarei em vinte minutos, no máximo. Pode ficar sozinha todo esse tempo?

— Não se preocupe. Estou bem. Mas espere que pegue o dinheiro...

— Pelo amor de Deus, Hermione— interrompeu ele.—Eu pagarei.

— Obrigado por me ajudar, Rony.

— Não sabe como me sinto feliz em poder fazê-lo, querida.

E era a mais pura verdade! Esse desastre ocorrera unicamente por culpa sua. Hermione tinha razão, ao lhe dizer que seres humanos são muito mais complexos do que se pode imaginar.

Enquanto dirigia, acima da velocidade permitida, à procura da farmácia, recriminava-se por não ter sequer cogitado nas dramáticas conseqüências de sua conversa com Charlie. E a pobre garota, confiando na experiência adulta do pai, também não poderia imaginar o que iria acontecer. Como resultado dessa falta de previsão, quase se afogara no leite materno!

Rony pensou em como aquela situação se parecia com os problemas de ecologia. Bastava alterar um elo e se desn cadeava uma reação em cadeia que provocava desastres universais. Ele cometera um erro terrível mas, por sorte, Hermione não tomara conhecimento da calamitosa conversa entre pai e filha. Se tivesse sabido, o julgaria ainda menos apto para assumir o papel paterno.

Provavelmente, o consideraria egoísta, por não levar em conta a necessidade do bebê em ficar mais tempo com a mãe. Mas não o fizera por mal e admitia que a lição recebida fora bastante salutar. No futuro, pensaria bem mais antes de tomar decisões por conta própria.

Realmente, não havia trânsito algum naquela hora e ele encontrou rapidamente a farmácia. Depois de explicar o problema, Rony suspirou aliviado diante da pequena bomba manual, bastante diferente do que imaginara.

— Eu o aconselharia a levar também um pouco de lanolina. — A mente de Rony passou a se concentrar em ovelhas.

— Para quê? — perguntou ele, atemorizado.

— Sua esposa pode ficar com rachaduras no bico dos seios e são muito doloridas. O melhor remédio é lanolina.

A sensação de culpa crescia de uma forma avassaladora. Ele cometera um erro ainda maior do que calculara!

— Está bem. Vou levar um pote. Acha que preciso de algo mais?

— Não creio. Sua esposa deve resolver todos os problemas com essas duas soluções, mas tem de se cuidar. Caso não melhore, precisa consultar o médico.

Rony saiu da farmácia, jurando a si mesmo que supervisionaria os cuidados necessários para evitar mais problemas. Odiava a idéia de que Hermione teria de ir ao médico por culpa sua.

Dirigindo de volta para casa, ele pensava nas inesperadas complicações que um bebê consegue provocar. Observara as alterações repentinas nas vidas de seus amigos, mas só agora avaliava a extensão desses imprevistos preocupantes.

Sempre tivera certeza de que a chave para manter essas pequenas bombas-relógio em seus devidos lugares não passava de uma atitude de controle firme. Agora ficara claro que tomar as rédeas do processo natural era um grande risco. Seria necessário pensar a fundo sobre o assunto e ser mais prudente.

Quando Rony estacionou o carro, estava determinado a se manter um passo à frente nesse jogo. Não se pode manipular um bebê, sem ter conhecimento absoluto de todas repercussões possíveis. Especialmente no seu caso! Não podia permitir que Hermione percebesse muitos erros da sua parte. Depois daquela noite de paixão mútua, tivera certeza de que a porta lhe fora aberta e poderia partilhar da vida dela. Não admitiria que a fechassem de novo em sua cara!

Pelo menos, teria todo o fim de semana para se redimir desse desastre. Se encontrasse os pais dela, lhes diria algumas verdades! Como alguém poderia não querer Hermione e destruir sua infância através de raiva e rejeição? Por sorte, os seus pais só o haviam ignorado, na maior parte do tempo. Ela sofrera muito mais e precisava sentir-se segura.

Quanto à garota... Charlie era uma garota simpática! Ouvira os conselhos do pai e os obedecera, como uma recruta diante de seu superior. Precisaria encontrar alguns minutos sem a presença da mãe e comunicar-lhe que houvera uma mudança de planos e seria mais prudente retomar o horário antigo. Pai e filha tinham provocado uma calamidade!

E esta noite, ele apenas rodearia Hermione de carinho e atenções. O farmacêutico deduzira que ela era sua esposa e Rony pretendia transformar essa idéia em realidade, o mais depressa possível.

Certamente, não se passaria muito tempo até Hermione reconhecer que Rony Weasley não era parecido com o pai dela e muito menos com o dele!

Bastaria um entendimento mútuo com Charlie. A garota precisava de um pai e ele era obviamente o melhor à disposição, dela. Era uma simples questão de matemática.

Rony esperava, de todo o coração, que a vida fosse tão compreensível quanto uma ciência exata.


Coitada da Hermione, mas o problema não acaba por aí... é mais sério.

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