Maus Costumes:

Capítulo 14.

Sempre se obstinar

Cutler adormeceu. Penélope ainda chorava no lado oposto da cama, aliviada por não ter sido usada naquela noite, mas ainda assim completamente desgraçada. Descobrira, enfim, que a sua vida não havia valido e nem valia nada. Seu rosto ainda ardia, mas era a sua alma que jazia ferida há muito tempo.

Silenciosamente, Penélope se pôs de pé calçando os chinelos ao pé da cama, vencendo qualquer anseio de ser descoberta fora do quarto a uma hora daquelas... Agasalhou-se, e saiu porta a fora, rumo asala de estar. Rompeu à escuridão descendo as escadas e atravessou todo o salão de visitas da mansão Beckett.

Girou a maçaneta e já estava fora, sentindo a brisa noturna contra o seu rosto, arrastando a camisola de seda pela terra batida do jardim. — A barra da saia vai estar podre pela manhã! — pensou. — Mas valerá o esforço.

Quando Penélope saiu do quarto, arriscou-se em acordar seu odiado marido em meio à madrugada. E, quando partiu portões a fora, arriscou a sua própria integridade. — Que tipo de loucura ele fará se me descobrir pelas ruas de Port Royal à uma hora dessas? — se perguntou. — Argh! Tanto faz... Já perdi meu orgulho há tanto tempo quem nem me lembro se um dia o tive.

- -

— Ela não está no quarto, sala, cozinha, varanda ou jardim! — Beckett bradava. O homem havia acordado em meio a um pesadelo, sedento por um herdeiro, mas não encontrara ninguém esquentando o lado esquerdo da cama.

Locksmith, o mordomo, ouviu um estalo à porta e levantou-se às pressas a fim de flagrar o tal larápio que ele pensava ousar adentrar na propriedade dos Beckett, mas ao invés disso, avistou sua patroa, sumir noite a dentro.

— Mas o que sugere que eu faça, Sr. Beckett? — o outro perguntou, desejando estar naquele momento em sua própria cama.

— Meu caro, já viu uma mulher casada sair na calada da noite às escondidas pelo simples prazer de sair?— o seu senhor disse — Siga o seu rastro e me traga provas suficientes para trucidá-la.

Trucidá-la? — Que diabos de adorável marido era aquele? — Torradas e chá ao café da manhã e bolachas não rosto antes de dormir? — Cutler Beckett não era só um mau patrão. Era um péssimo marido.

... Mas as ordens do seu senhor eram ordens irrefutáveis, e Joseph Locksmith precisava daquele emprego tanto quanto Cutler precisava da sua esposa cativa.

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Penélope Lane estava morta.

Morreu há alguns anos atrás, com apenas vinte... Sem uma mãe para colocar um pouco de juízo aos seus devaneios radicais, dando lugar à Penélope Rocher; A esposa de um almirante francês de meia idade, muito apto a ajudar seus amigos falidos, os Lanes.

A andarilha vagava pelos arredores de sua casa, pelas ruas da localidade, pela escuridão da orla. Quando deu por si, os chinelos já estavam sujos de areia, e seus pés já encharcados pela água salgada da praia.

Penélope Rocher estava morta.

No exato dia em que partiu de Liverpool, Inglaterra, a bordo de um velho navio. Viúva e considerando-se responsável por qualquer desgraça de viesse a atacar o pouco que restou da sua família, morreu.

Como tinha ido para naquelas bandas da cidade? Ao longe ouvia acordeons chorarem num ritmo bastante conhecido... Luzes vermelhas acesas nas poucas casas próximas ao porto e gargalhadas provindas de uma alegria bem alheia aos sentimentos que lhe afloravam ao peito.... Seria um pedaço de Tortuga em plena Port Royal?

— Como vim parar aqui? — Ela se perguntou. Quando esqueceu das bobagens que lhe invadiam a mente, não estava mais na praia. Sob os seus pés jazia agora a madeira úmida do píer, e sobre os seus lábios, o vento salgado da noite.

Num ato impensado, mirou os navios ancorados próximos dali e sentou-se à beirada jogando os chinelos a muitos metros abaixo de si. Observou meticulosamente ambos afundarem em meio à escuridão em que a água havia se voltado e respirou fundo.

Penélope Beckett tinha que morrer.

Esta dama era dramática, e precisava de uma morte triunfal. Num movimento, a jovem tresloucada se pôs de pé. Sacudiu as vestes sujas e deu as costas para as águas profundas que lhe esperavam. Inflou o peito de ar e orgulho, estendeu os braços sentindo o vento passar-se entre eles, fechou os olhos imaginando tudo de ruim que já havia feito naquela vida.... Impulsionou-se para trás, se entregando ao triste destino que havia traçado;

— Adeus — disse a si mesma.

— Lady Penélope Lane de Liverpool,o que pensa que está fazendo?!

Uma mão firme lhe agarrou um dos braços, puxando-a bruscamente para frente.

- -

Um chinelo flutuava na água. O velho mordomo sobressaltou-se quando reconheceu de pronto a quem que aquele calçado pertencia — A sra. Beckett! — pensou consigo, correndo os olhos ao redor, procurando por algum sinal de sua patroa.

— Me largue! — uma voz aguda gritou à muitos metros dali. A atenção do empregado voltou-se àquela cena confusa no píer. Uma jovem mulher tentava se soltar dos braços de um outro alguém bastante convencido em tomá-la para si. — Capitão Jack Sparrow! — ela tornou a gritar — Será que vai sempre interceptar o meu destino?

— Do que está falando, Penny?! — aquele que mais parecia um pirata se exaltou — Pretendia se jogar dessa porcaria de plataforma?

— Se sim, o que você tem a ver com isso?! — bradou — Não é meu pai, marido ou amante! Não é nada meu! E pra falar a verdade, Jack Sparrow, nem a minha costureira você é. —

Costureira? — o Locksmith divagou à espreita... — Costureira? Amante...? Cap. Jack Sparrow?... De que diabos esta mulher está falando?

Jack tomou fôlego tentando lhe falar:

— Penny, eu só quero que saiba que - -

— Desde o dia em que me deixou em terra, há dois anos atrás, não me deixa em paz! — suas palavras lhe atropelaram — Está sempre em meus sonhos, meus pensamentos e minhas atitudes... Me deixe em paz! Não preciso de você!

Sparrow... Sparrow... Eu conheço esse nome — o velho pensou — Será o tal pirata de que tanto se falava no centro?

— Se não puder me fazer uma mortalha, srta. Jaakina Hani, suma da minha vida!

Ó! — Locksmith estava boquiaberto. — Jaakina Hani... Jack Sparow!.... Sra. Beckett, o que está fazendo de sua vida?! lamentou

A vida não lhe valia mais nada. Chegara o momento de sua morte. Se Jack Sparrow gostaria de assisti-la naquela hora desgraçada, era problema dele. — Não adianta lutar contra esse chamado. — Ela tinha que ir... Ou pelo menos achava que tinha

— Afaste-se de mim!l — Penny bradou inclinando-se píer abaixo.

Suas palavras não ofendiam ao capitão do Pérola Negra, ela poderia relutar por um dia inteiro e ele jamais acreditaria em suas palavras mal expelidas. Jack não sabia, mas somente uma grande decepção poderia, enfim, afasta-la dele. — Não vou deixá-la ir a canto algum. — pensou.

Num único movimento, Sparrow tornou a puxá-la para si. Penny ainda era observada à espreita pelo fiel mordomo dos Beckett, quando, lhe segurando os ombros, Jack aproximou-se de si colando seus lábios num beijo sofrido que, por fim, lhe amoleceu os nervos.

- -

Locksmith teria de voltar à mansão. Teria de atravessar os jardins, romper pelas portas do fundo e voltar-se ao seu senhor. — Eu a vi — o mordomo teria de dizer — Estava no píer na companhia de um pirata que fingia ser a Srta. Hani.

Seu emprego dependia daquilo. Não tinha nada contra a Sra. Beckett. — Ela é esnobe, mas me mostre uma única senhora nesta cidade que não seja!

E ao contar, seria interrogado até o limite. Cutler Beckett sabia ser cansativo e extrairia tudo que ele tinha para contar.

Teria de contar... — Eles são nobres. Eles que se entendam.

- -

— Fuja comigo. — ele disse, livrando-a do abraço — Vamos embora.

— Não posso. Tenho que voltar pra casa.

— Mas você ia se matar agora mesmo, mulher! — Jack bradou — Venha comigo, e deixe dessas conversas dramáticas!

— Você me seguiu até aqui? — ela perguntou

— Não eu não a segui. — seu salvador lhe falou — De longe, vi uma louca tentando se jogar e corri para ajudar... Imagine a minha surpresa quando me deparei com você, Penny!

— Hum. — ela divagou, mantendo-se firme — Obrigada, mas eu tenho deveres a cumprir.

— Tem?! — Sparrow repetiu, irritado — Não quero que você volte pra aquela casa!

— Eu sinto muito...

— Você não vai voltar pra lá, não vai se sujeitar a ele... Eu não vou deixar! — disse agarrando uma das mãos pequenas dela — Você não precisa disso, Penny... E nem eu agüento vê-la nessa situação. Venha comigo. Amanhã partirei, e se você não estiver ao meu lado, naquele navio, jamais serei o mesmo homem.

— Não seja sentimental, Jack Sparrow!

— Não seja tão fria e relutante... — ele retrucou, fazendo menção em lhe acariciar o rosto — Tentar não custa nada.

- -

"Tentar não custa nada." — ela repetia mentalmente, repassando passo a passo, como contaria ao seu marido que iria embora, que nunca o havia amado e que ele não lhe metia mais medo. Enfim, ela iria embora — Talvez de volta à Liverpool... — pensou, mas mesmo não tendo nada a perder, era melhor não sonhar tão alto.

— Vou para onde Jack me levar. — pensou. — Ficarei a deriva, ou no rumo de algum tesouro... Perderei qualquer título antes me dado pela coroa, mas estarei livre ao seu lado. Ao lado de um homem que realmente se importa comigo...

Sem saber, Penélope seguiu o rastro do mordomo, evitando a porta da frente, seguindo pelos jardins e quintais de encontro às portas dos fundos que levavam a cozinha, e consequentemente à sala de estar. — Estou em casa! — pensou quando já se encontrava na cozinha. — Não, não, não... — se corrigiu — Estou deixando esta casa, e partindo para uma outra.

A Sra. Beckett já se via em seus aposentos, organizando o pouco do que levaria àquela escapada... — Quem falou em escapada? — Penny não iria fugir! Iria lhe falar pessoalmente. — Cutler, sua esposa defeituosa esta te deixando! — ensaiou. Porem, quando deixou os cômodos dos empregados para trás, adentrando na sala de estar, percebeu que havia alguém acordado à sua espera.

Havia luz naquele recinto, e ao canto, próximo à estante de livros, um vulto descansava à luz de velas, numa das poltronas. — Que não seja o Cutler— desejou.

... Mas, seus desejos não mais poderiam ser ouvidos. Era Cutler à sua espera e ele já sabia de tudo.

Tudo.

— Bom dia, minha esposa.

Se eu ficar calada - - — ela pensava — ...Talvez as coisas saiam bem amanhã pela manhã e ...

— Está surda?! — ele bradou, se levantando. A cada passo que aquela figura baixinha dava ao seu encontro, mais clara ficava a situação em que ela havia se metido. Seu marido vestia suas habituais roupas aristocráticas, e, se não fosse três horas da manhã, ela até poderia dizer que Cutler estava pronto para sair a trabalho.

— Não é isso, eu - -

— Ou prefere "Bom dia, minha vergonhosa esposa"?! — a interrompeu

— Cutler... — ela hesitou em lhe dizer a verdade — Eu estava fora, mas posso explicar- -!

— Eu já sei de tudo. — Como assim "tudo"? — .... Por um reles empregado, mas pelo menos já estou à par da sua sem-vergonhice. Só me pergunto como pude ser tão estúpido por todos esse tempo. — disse — Você nunca me disse o porquê de seu atraso no desmebarque em Port Royal há dois anos atrás, minha querida. Mas agora não adianta, tudo ficou tão claro. Só acho que, envolver-se com pirataria me parece baixo demais, Penny... Baixo até pra você.

— Não me envolvi com pirataria — sua esposa escancarou

Beckett bufou de raiva diante de suas palavras

— Mas se envolveu com um pirata, sua perdida! — bradou — Sim, você está perdida, Lane! Você e toda a sua família. Se pensou que poderia me trair dessa forma, trair a minha confiança... Está muito enganada!

— Não vou te trair por muito mais tempo, meu esposo — falou com a voz abafada — Estou partindo.

— Partindo com um pirata? — ele supôs — Partindo com Jack Sparrow? Você ficou louca?! Se tentar fazer isso irei trucidá-la, Lane! — seguiu forçando um sorriso — Você é muito descarada... Fingiu não conhecê-lo naquele dia à praia, fingiu nem nunca ter ouvido falar em seu nome... E pelo caráter que tem, é bem capaz de armado toda essa palhaçada de propósito, pois presumo que já sabia de minha inimizade com aquele tipo de gente, não sabia?

— Não, Cutler.. — ela tentou lhe dizer — Apenas quando atraquei em Port Royal me dei conta do que havia feito e, acredite, não me arrependi.

— Não seja estúpida — Cutler disse aproximando-se da figura esbaforida de Penélope. Alguns passos bastaram para que, num gesto bastante digno do Capitão Jack Sparrow, ele colhesse uma mecha solta de seu cabelo castanho... E fingindo analisá-lo, disse; — Eu vou matá-lo.

— Você não pode fazer isso, Beckett!

— Agora que sei que o miserável ainda está na cidade... Te digo; posso não ter título algum de nobreza... E que se o tenho é porque me casei contigo, mas sou poderoso e vou caçá-lo até a morte...

— Seu miserável! — ela esbravejou empurrando o corpo dele para longe de si

— Shhh — ele murmurou calmamente — Levarei seus irmãos à ruína e irei denunciá-la às autoridades, sua adultera!

Eu vou fugir! — divagou Penélope — Se eu fugir você jamais poderá me alcançar e poderei ser feliz... Mesmo sabendo que meus irmãos estarão na ruína.... Fugirei! — seguiu, refazendo o caminho da cozinha — Pedir permissões sempre foram as piores coisas que já fiz em vida, então vou fugir e deixá-lo marcado para sempre. Marcado como muitos daqueles que você já ferrou a pele em brasa.

— Minha esposa - - — ele a chamou mantendo o mesmo tom de voz displicente — Já ouviu dizer que "O que os olhos não vêem, o coração não sente?" — seguiu — A não ser que me ferre em brasa, jamais me magoará... Porem, se eu caçá-la pelos sete mares, certamente irei achá-la... Então eu próprio irei marcá-la à mais do que ferro em brasa. Será o seu fim... Isso, mesmo; fuja. Dê mais um passo a caminho da cozinha e saberá o que é a verdadeira desgraça humana.

— Sempre vivi na desgraça! — ela falou, num tom desesperado.

— Não! Você sempre soube conviver com ela muito bem! — disse — Sempre fria e calculista... Mentirosa! Conseguiu me enganar, enganou a sua família, e também a um pirata infeliz. Ele não vai levá-la à Liverpool, ó Lady Lane! — deixou-se gritar — Sim, é pra lá que pensa que ele irá levá-la, não? Você só tem amor por uma coisa; pela maldita terra de que um dia saiu...

— Isso não é verdade — ela rebateu insegura do que dizia — Eu não sou um monstro. Você é que é!

— Sei... Sei! Até que você me prove o contrário será sempre essa criatura baixa e interesseira! — exclamou sarcástico — Isso, Penny! Prove que alguém pode ser mais do que uma escada para os seus ideais... Prove, e deixarei o seu amiguinho fora-da-lei vivo!


N/A

1) Perdões pela imensa demora, meninas. Estive por um bom tempo sem internet e depois disso nenhum tempo para parar e redigir este capítulo... Não sei o porque mas esta fic exige muito de mim *-* Mais do que as outras rsrs

2) Obrigada pela reviews, e pela enorme paciencia de vocês: JodiVise, Tati C. Hopkins, Taah Almeida e Kitty Pride Malfoy.

Escrevo por vocês e somente pra vocês, minhas leitoras queridas.

[ATENÇÃO LEIAM O ITEM ABAIXO =D]

3) Quantidade de Capítulos: Não sei se vocês se lembram, mas minha idéia principal era que a fic somente tivesse cinco capítulos, bem... Já estamos no 14º rsrsrs isso é muito bom! Mas sempre fui viciada em angst, então eis que me surgiu um probleminha... "Maus Costumes" era uma angst, e até um tempo atrás eu sustentei essa idéia pois ela se passa 10 anos antes da saga original, e todos nos já sabemos o que vem depois de tudo isso, certo? Will, Lizzie, Jack etc etc... Bem... O capítulo quinze já é o próximo e me dei conta de que eu simplesmente, NÃO POSSO FAZER ISSO!

Me transformei numa romantica incondicional, e não posso deixar a Penny sem o Jack... Então o próximo capítulo, o 15º, será o ÚLTIMO a se passar antes da saga. Apartir do 16º seguirei para um novo roteiro que se passará depois da trilogia... Sim, isto implicará nos personagens principais um pouco mais velhos, OCs a serem criados, novos lugares, etc etc...!

4) Espero que gostem da nova fase (que virá apartir do 16º), assim como eu estou gostando de formulá-la.

REVIEWS, AÍ EM BAIXO, HEIN?!