CAPÍTULO XIV – Desvio de Comportamento

Draco Malfoy estava em casa, no seu próprio quarto. Não sabia como tinha chegado até ali, mas sentia-se bem, exceto pelo fato de estar com os membros e os pensamentos meio lentos, como se o ar estivesse mais denso que o normal. Estranha e confortavelmente tinha um caminho perfeitamente traçado em sua mente, tudo planejado para os próximos dias. Ao forçar um pouco sua memória, pôde lembrar pequenos flashes de alguns acontecimentos do passado recente, todos eles parecendo muito insignificantes para que valesse a pena o esforço de tentar lembrá-los por inteiro, por isso os esqueceu por completo. O que seu cérebro repetia constantemente, era a lista de coisas a fazer e a maneira que deveria agir. Coisas que aconteceriam e que ele deveria dar continuidade.

A primeira coisa era achar Escórpio, o que se mostrou fácil, pois uma coruja havia deixado, um minuto atrás, um bilhete avisando que ele estava no St Mungus. Draco respondera da mesma forma que deveria agir com o menino durante o feriado, curto e seco, nada de explicações elaboradas. Ele deveria fazer isso porque... porque... era o certo a se fazer, era o que a lista em seu cérebro dizia e ela era o guia de seus passos.

Tendo tudo isso em mente, colocou o sobretudo e andou até a lareira de seu quarto, jogou um punhado de Flú nela e ordenou: "St Mungus".


Não se demorou muito no quarto onde sua tia convalescia, ficou apenas o tempo necessário para certificar-se de que ela estava bem. O clima estava pesado lá dentro e realmente sentia-se meio como uma intrusa numa reunião de família particularmente tensa. Isso, na verdade, era parte da razão de ela estar saindo do quarto agora e indo em direção ao corredor onde ficavam as cadeiras de espera. Estava também muito preocupada com Escórpio. O garoto tinha ficado sozinho ali, pois sua avó já tinha se juntado ao resto da família em volta da cama de tia Gina há alguns minutos.

- Escórpio? Tudo bem?

Seu amigo estava sentado de cabeça baixa com as mãos firmemente apertadas uma contra a outra. Rose sentou-se ao lado dele.

- Escórpio, por favor, fale comigo!!!!!!

- Tudo bem, Rose. – O garoto estava com a voz mais grossa que o normal, como se estivesse resfriado.

- Certeza?

- Sim. Sua avó mandou uma coruja à minha casa. – Ele levantou a cabeça e encarou sua amiga, que tinha a testa enrugada em sinal de preocupação. – Desfaz essa ruga de preocupação, Rose. – Escórpio passou o dedo indicador muito levemente entre as sobrancelhas de Rose, que relaxou ao seu toque. Ele estava com os olhos vermelhos, mas secos. Parecia realmente mais calmo agora. – Recebi uma resposta de meu pai, ele está vindo me buscar.

- Então ele está bem? Isso é ótimo!

- O que me deixou intrigado foi o tom seco em que me respondeu. – Agora era ele que tinha o cenho franzido. – Espero que seja apenas por ter recebido notícias minhas através de uma Weasley.

- Bem, você é que deveria estar brabo, Escórpio! Foi você que foi deixado numa estação! A culpa não é sua!

- Eu sei, eu sei. Mas isso não é do feitio dos meus pais. Na verdade, eles são superprotetores. Há algo estranho, Rose. Sei que há.

- Escórpio, tenho certeza de que há uma explicação razoável para isso. – As palavras de Rose contrastavam totalmente com seus sentimentos, havia uma bola incômoda em seu estômago. Internamente, concordava com seu amigo, havia algo muito estranho acontecendo, juntando tudo.

- Rose, escuta, meu pai deve estar chegando. – Ele agora estava falando muito rápido e havia urgência em sua voz. – Por isso quero te pedir um favor muito sério.

- Claro, peça.

- A partir de amanhã, vou te mandar cartas todos os dias no mesmo horário. Se eu atrasar ou falhar algum dia, fique alerta ok?!

- Escórpio, você está me assustando...

- Mas não é só isso. Quero que você me responda todos os dias, no momento em que recebê-las. E logo após, escreva para o Al e o obrigue a fazer o mesmo.

- Mas são só quatro dias de feriado, para quê isso?

- Porque algo não está bem...

- Escórpio. – Uma voz masculina soou acima deles, olhando nessa direção, viram Draco Malfoy, alto e carrancudo, olhando para eles.

- Oi, pai. Essa é Ros..

- Eu sei quem ela é, agora vamos. – Então o homem virou as costas, fazendo suas vestes rodopiarem. Escórpio ficou olhando, durante dois segundos, para as costas de seu pai, com um olhar desconfiado. Rose o cutucou levemente e disse "Vai logo".

- Desculpe por isso e não esqueça o que combinamos. – Disse muito baixo e seguiu atrás do Malfoy adulto.

Rose sentiu seu estômago apertar mais fortemente. Não pelo fato do Sr Malfoy ter sido rude, mas sim por aquela atitude parecer não usual aos olhos de Escórpio. E isso confirmava a teoria dele de que algo estava muito errado. Ela decidiu seguir à risca o pedido de seu amigo e também agir um pouco por conta própria. Falaria com sua mãe, assim que surgisse uma oportunidade.


Gina ficara muito feliz com a invasão de parentes que ocorreu à tarde em seu quarto no hospital, por dar-lhe a certeza de que eles ainda se preocupavam com ela. Mas, contudo, sentiu o clima tenso, sentiu o peso das perguntas que todos queriam fazer mas não tinham coragem por causa de sua condição atual e sentiu a preocupação distante de Harry e Alvo.

Agora que já anoitecera, todos tinham ido para suas casas. Harry e as crianças para a Toca com seu pai, enquanto sua mãe encontrava-se adormecida, na cama desocupada ao lado da sua. Achava antes que tinha perdido a amizade de sua mãe, quando ela soube do Malfoy, agora sabia que tinha sido estúpida. Nenhuma mãe deixaria sua filha na mão no momento em que ela mais precisava, mesmo não concordando com o que aquela filha fez.

Malfoy. Era o primeiro momento em que estava realmente lúcida e sozinha em que pôde se permitir a pensar no Malfoy. Tendo a mente clara, Gina soube que aquele que a atacou não era Malfoy. Ele não tinha motivos para fazer aquilo. No fundo, Gina não podia acreditar que, depois de tudo, ele teria coragem de fazer algo contra ela. Mas quem a atacou era alguém realmente parecido com ele, mas muito mais novo. Tampouco era Escórpio, o filho dele, por ser o atacante mais velho do que este. Então, quem seria? Malfoy não tinha irmãos que ela soubesse. E mais, porque tinha feito tal coisa? Era este o "cabeça" que estavam procurando? Parecia um rapaz apenas, não alguém suficientemente experiente para bolar algo tão grande contra eles. Então viera a mando de quem? As coisas estavam ficando mais complicadas à medida que o tempo passava, ao contrário do que as pessoas diziam: "O tempo responderá". Para ela, o tempo só fez aumentar o número de perguntas.

Sabendo que receberia alta no dia seguinte, resolveu que falaria com Malfoy pessoalmente. Ela apenas retribuiria o favor que ele havia feito quando a visitou na Toca. Iria inteirá-lo das informações. Ele merecia isso e talvez pudesse ajudá-la a esclarecer esse fato.

Ginevra Potter então dormiu, sem saber que ela estava muito mais desinformada do que Malfoy. Ela não sabia da ausência de Malfoy na estação de trem, nem de seu comportamento não usual, nem mesmo da amizade de seus filhos e sobrinhos com o filho dele. Não sabia da existência de Cygnus ou do envolvimento de Pansy. Não sabia que muito ao contrário de poder ajudá-la, era Malfoy que precisava de ajuda.


No outro dia.

- Mãe. – A menina parou ao lado do sofá em que sua mãe estava sentada.

- Sim, Rose? – Hermione baixou a varinha e virou-se para sua filha, fazendo com que as roupas que até um minuto atrás se dobravam sozinhas no ar, caíssem em cima do sofá de dois lugares.

- A senhora tem um minutinho para mim? – Aproveitaria agora, quando todos estavam fora, no hospital. Logo elas sairiam também.

- Só um minutinho mesmo, Rose. A sua tia vai ter alta ainda hoje e quero estar lá quando acontecer. – Então, achando que o assunto de sua filha não era muito sério (provavelmente algo relacionado às estranhas amizades que nutria), voltou a dobrar as roupas com a ajuda da varinha.

- Qual pode ser a causa de uma mudança repentina de comportamento?

Hermione estacou e arregalou os olhos para sua filha. "Que tipo de pergunta era aquela?", Rose pôde ler na expressão do rosto de sua mãe. Demorou alguns segundos para ela suavizar a expressão e perguntar:

- Trabalho escolar? DCAT?

- Não exatamente. – A garota sabia que no passado sua mãe usara muito de evasivas para conseguir informações, então achou que ela entenderia.

- Ok. – Ela realmente entendeu. Menos preocupada, voltou aos afazeres enquanto pensava. – Primeiro preciso saber se há algum evento de grande magnitude antes da mudança de comportamento.

Rose parou para pensar durante um segundo e achou que, bem, trair a esposa com uma integrante de uma família inimiga poderia ser classificado como "evento de grande magnitude", então respondeu:

- Sim.

- Esse evento teve conseqüências físicas? Eu digo algo como fraturas e etc.

- Acredito que não. – Mas Rose já não tinha tanta certeza. Onde sua mãe queria chegar?

- Você está pensando em sua tia Gina, Rose? Porque se sim, eu fico orgulhosa! Pensei exatamente a mesma coisa! Essa mudança brusca de comportamento não é normal! – Agora foi a vez de Rose estacar. Tia Gina? Ela também tinha desvios de comportamento? Interessante. Escórpio receberia uma carta com mais conteúdo que ela imaginara a princípio. – Mas esse assunto não é para ser falado agora, minha filha. Por favor, não saia perguntando essas coisas por aí, viu?

- A senhora chegou a pensar no feitiço "imperious"? – Rose a interrompeu e Hermione parou de novo. Pelo visto não seria hoje que ela acabaria de dobrar as roupas.

- Rose, isso é uma acusação muito séria. Acredito que não é preciso dizer que é uma maldição! Imperdoável! E não é assunto para crianças!

Rose enrugou a testa, pensativa. Então disse:

- Eu não acusei ninguém especificamente. E sabe, ouvi uma história uma vez em que uma garotinha enfrentou sua professora por achar que ela estava escondendo a verdade, quando os impediu de aprender sobre feitiços avançados e de como se defender das maldições... Acho que a senhora sabe de quem estou falando, não?

- Eu era mais velha do que você na época! E tinha enfrentado muitas coisas! E muitas mais estavam por vir!

- Mãe....

- Ok, ok. Mas, como já avisei, não saia espalhando essas coisas por aí! Ainda mais agora que sei que você é amiga do tal de Escórpio e...

- Mãe!

- Está bem, está bem. Foco. – Rose sorriu e sua mãe, suspirando, continuou: - Bem, logo que soube do ocorrido, pensei de cara no "imperious". Era o mais óbvio. O que aconteceu não batia com a personalidade da sua tia, que conheço desde que era uma garotinha.

- Então é isso! Porque vocês não investigaram isso melhor? – A garota ficou intrigada. Será que os dois, sua tia e o pai de Escórpio, estavam amaldiçoados? Quem poderia ter feito isso? E por quê?

- Minha filha, deixa eu acabar de falar, por favor? – Alerta "tom de voz materno". Rose resolveu não interromper mais. – Obrigada. O que me fez repensar sobre essa teoria foi o jeito que seu tio Harry descobriu e o que ele viu. – Antes de sua filha abrir a boca, esquecendo a resolução de segundos atrás de não interromper, Hermione levantou a mão em sinal de "pare". – Nem pergunte, você não deve saber de detalhes agora. - Rose bufou. Quando sua mãe dizia que não ia contar... Não tinha jeito. Ainda mais quando o assunto era de família. – Filha, se você confia no meu discernimento, vai confiar no que estou dizendo: Sua tia não fez nada sob o julgo de uma maldição. Ela estava consciente. Eu falei com ela no dia seguinte, posso te dizer que não havia vestígios de magia nela.

- O que mais poderia ser então?

- Não sei, Rose. As pessoas fazem coisas estranhas às vezes... Isso só prova que nunca conhecemos alguém completamente.

Mas Escórpio conhecia seu próprio pai o suficiente para saber, somente lendo um bilhete, que ele estava fora de seu normal. E isso somado ao fato de não terem ido buscá-lo na estação queria dizer que os pais de Escórpio estavam - pelo menos o pai dele estava - muito fora de seu normal. Não podia acreditar que isso era apenas uma atitude estranha. Assim sendo, só faltava uma última pergunta a fazer à sua mãe.

- E como se descobre vestígios de magia em alguém?


"Sei que estou escrevendo antes do combinado, mas preciso te inteirar de alguns fatos novos.

Pensando em tudo que você me disse e em tudo o que aconteceu, começou a me vir em mente o feitiço "imperious". Então conversei com a minha mãe e ela disse que pensou nisso à princípio, mas me garantiu que minha tia não está sob o efeito de nenhuma maldição. Mas, obviamente, ela não tem como saber isso sobre seu pai (nem eu perguntei).

O que tenho a dizer é o seguinte, não fale com ninguém e jogue esse bilhete fora depois de lê-lo e decorá-lo. "Decorá-lo para quê?" Você deve estar pensando... E eu digo: Elementar, meu caro Watson, vou te ensinar a descobrir se seu pai está amaldiçoado ou não. O feitiço é complicado, por isso recite várias vezes, teste antes e só depois aplique-o. O feitiço deve ser lançado nele mesmo ou em alguma veste ou objeto usado por ele recentemente.

-si abhinc enchantment cum animus nocendi et/aut laedendi, quis is may exsisto ostendo sum, verbo ad verbum, suspicio quis tamen is fatur-

Isso em nossa língua quer dizer: "Se há feitiço com intenção de prejudicar e/ou ferir, que seja revelado, palavra por palavra, a este que agora fala". Chatinho ele, né? Só a minha mãe mesmo para saber algo assim.

Bem, se for preciso, faça uma cola, escreva na mão, sei lá. Mas teste antes, não queime essa chance sem treinar primeiro, ok?(acho que já falei isso, né? Desculpe, mas é importante mesmo!)

XOXO

Rose"

Escórpio dobrou o bilhete da amiga e o colocou no fundo do bolso de sua camisa. Aquele era só mais um reforço em sua preocupação. As coisas estavam mais estranhas ainda. Desde que chegara à Mansão, não pôde sair de seu quarto, elfos domésticos traziam sua comida e ele não podia fazer perguntas a eles. Seu pai justificara toda essa rigidez dizendo que havia uma investigação ocorrendo em sua casa e que ele, seu filho, não poderia atrapalhá-la. Mas Escórpio não tinha visto homens do Ministério por lá, nem quando chegou, nem na sua vigília junto à janela. Quem estava investigando o quê afinal? Se é que essa história era verdade.

Outro fato estava o incomodando. Quando perguntou ao pai onde estava sua mãe e seus avós, ele havia respondido com um simples "Não passarão o Natal conosco". Quando perguntou o porquê, recebeu um cascudo como resposta. Nada estava no lugar. Nada. E o feitiço que Rose lhe enviou ajudaria e muito na resolução dessa história maluca. Pelo menos saberia um pouco do que estava acontecendo, se o feitiço revelasse algo.

Felizmente estava liberado para receber e enviar corujas. Ou ainda não tinham pensado nesse detalhe. Mandaria uma resposta agora à Rose, confirmando o recebimento e a relembrando de escrever à Alvo (além de um PS perguntando quem era esse Watson. Rose e suas manias de literatura trouxa! Ele nunca tinha certeza se ela o estava elogiando ou tirando uma com sua cara...) e passaria a testar o feitiço. Sentia que logo seu pai viria vê-lo e, então, poderia tirar essa história a limpo.

O problema é que ele veio antes do esperado. Veio um segundo depois de Escórpio ter enviado uma resposta à Rose e começado a treinar. Apenas destrancou a porta do quarto do filho e ficou parado lá por um instante. Escórpio sentiu um arrepio de medo ao ver a face vazia de seu pai. Nunca sentira medo dele antes. Levantou da cama onde estava tentando decorar as palavras mágicas, escondendo o papel dentro do bolso traseiro de sua calça.

- Escórpio, me acompanhe, por favor. – E o garoto, ao encaminhar-se para a porta de seu quarto, sentiu como se estivesse andando para o patíbulo ao invés de para o corredor de sua casa. Mesmo assim foi de cabeça erguida, ignorando a tremedeira de suas pernas e bolo em seu estômago.

N/A: Desculpem a demora, mas esse capítulo foi mais um parto. Ele sempre me parecia incompleto, sabe? Isso até eu reler umas fics antigas (uma das minhas favoritas, escrita pela melhor escritora de fics brasileira, ao meu ver) e sentir as coisas mais claras. Então, aí está. Espero que gostem.

Gostaria de agradecer à todos que comentaram. Obrigada mesmo. De coração. E agradecer à Marcella, que betou parte desse capítulo para mim.