Título: There's a Light... (ou a Cia. Hogwarts de Teatro apresenta Rocky Horror Picture Show)
Disclaimer: Fanfic escrita por diversão e para me botar de volta ao rumo. Os direitos autorais de Harry Potter pertecem a JK Rowling, a Warner Bros. e etc. Rocky Horror Picture Show também não é meu e eu não gostaria de ter problemas com quem possui os direitos. Eu não possuo nada e nem quero dinheiro por essa história.
Avisos: Slash, slash e mais um pouco de slash. Se você não sabe o que é isso, talvez seja melhor nem ler.
Capítulo 13: Ele é escorregadio como uma cobra
Não consegui dormir aquela noite. Minha mente estava a mil e eu sentia todas as minhas ansiedades se acumulando dentro de mim. Eu realmente tinha que resolver minha situação com Harry, mas não sabia como. Na verdade, eu sabia sim. Tinha certeza que precisava conversar com ele, porque nós dois estávamos no mesmo barco. Mas o medo de ser rejeitado novamente estava me paralisando. De manhã, eu estava novamente convencido de que tudo ia dar errado e eu seria infeliz para sempre.
Resolvi não ir para a faculdade, principalmente porque não queria encontrar com ele. Então fiquei deitado no sofá encarando a janela. Senti Luna passando por mim ao sair e sua cara de preocupação. Porém, ela não falou nada e por mais que eu precisasse falar alguma coisa, não consegui. Continuei ali deitado, sentindo pena de mim mesmo até que uma vozinha muito parecida com a de Pansy começou a me incomodar. Tentei não ouvir, mas ela estava ficando mais e mais forte: "Ai, Draco, assim você vai entrar em depressão". Acabei me sentando e pude imaginar Pansy realmente dizendo isso e Blaise, ao seu lado, concordando com a cabeça.
Respirei fundo e fui dando um passo de cada vez, quase que literalmente. Esse tinha sido o principal conselho que a psicóloga na qual me mãe me obrigou a ir antes de viajar para a Itália havia me dado. Então, bem lentamente, me levantei do sofá e fui fazer uma xícara de chá. Depois fui tomar um banho e decidi ir trabalhar mais cedo. Ficar em casa pensando não ia me ajudar em nada. E eu já tinha aprendido a lição de que fugir dos meus problemas, por mais longe que você vá, só serve para adia-los.
No trabalho, tratei de ficar o mais ocupado possível e torcendo para que nenhum conhecido aparecesse. Porém, no meio da tarde, a sineta da loja tocou e Neville Longbottom começou a circular pela loja. Ele poderia estar só passando tempo olhando os livros, mas já era a terceira ou quarta vez que o via por ali bem no meu turno. Comecei a achar que talvez ele estivesse ali por mim. Pode me chamar de egocêntrico, mas aquilo já era coincidência demais.
Fui me aproximando aos poucos, para não assusta-lo. Mas assim que eu cheguei perto o suficiente dele (numa loja que não é muito grande) para conseguir falar com Longbottom, ele se virou e foi embora, como se tivesse mudado de ideia. Enquanto o observava andando um pouco rápido demais pela vitrine, decidi que ele não me escaparia mais. De um jeito ou de outro, eu ia saber porque ele estava vindo atrás de mim.
Let's do the time warp again…
Tentei cercar Longbottom nos ensaios de quinta e sexta, mas ele conseguia ser bem escorregadio quando queria. Na quinta, assim que o vi, fui falar com ele, mas os gêmeos Weasley me viram e começaram uma balburdia, já que eu iria ensaiar com eles e Pansy. Diferentemente dos outros ensaios particulares que tinha tido, esse foi no palco e com Tonks dando as direções. Ela achava que nós quatro tínhamos que trabalhar como uma máquina e eu não posso discordar dela. As tensões entre nossos quatro personagens eram muito importantes para a peça. O descontentamento de Riff Raff e Magenta com Frank disfarçado por serem "serviçais" e a confusão da obsessão/amor/ódio de Columbia são as bases do gran finale de Rocky Horror.
Só que foi bem complicado ensaiar com as zoeiras e piadinhas dos gêmeos. Toda hora eles atrapalhavam Tonks com imitações, exageros ou qualquer coisa maluca que se possa imaginar. Fazia tempo que eu não me divertia tanto. Minha parte preferida do que eu comecei a me referir como "ato especial dos gêmeos" foi quando eles começaram a imitar Tonks enquanto ela tentava ralhar com eles. Foi tão engraçado, que até a diretora começou a rir e várias pessoas apareceram por ali para ver o que estava acontecendo.
Tudo isso me distraiu dos meus próprios pensamentos e levando em consideração meu estado naquela manhã, o dia tinha superado minhas expectativas. Já a sexta teve seus altos e baixos. Novamente, Longbottom conseguiu fugir de mim, apesar de ter aparecido pelo Diagon Alley durante a tarde e de ter ficado me olhando como se quisesse dizer algo à noite no ensaio. Além disso, Harry apareceu no teatro para ensaiar. De algum jeito nós conseguimos ensaiar, mas sem se falar ou se olhar. Sei que Tonks não ficou nem um pouco satisfeita com nossas performances, mas foi melhor que conseguimos. Mas ela não foi a única a ficar decepcionada. Luna, Pansy e Hermione estavam exasperadas no final do ensaio com o nosso comportamento. Então tratei de fugir delas e vi Harry fazendo o mesmo com Hermione. Porém, apesar de tudo isso, eu consegui me manter são, tentando não pensar muito.
Já no sábado, eu acordei decido a fazer Longbottom desembuchar. Eu não sabia se ele iria aparecer hoje ou quando o veria de novo, mas ele não me escaparia. Na parte da manhã, ele surgiu na livraria com ar de "não sei exatamente o que estou procurando, mas vou ficar olhando livros até eu descobrir alguma coisa de bom". Respirei fundo, antes de ir até ele. Eu não podia dar chance dele fugir de novo. Não só porque eu estava morrendo de curiosidade, mas porque, desde a ida ao pub, eu tinha percebido que Longbottom havia se fechado ainda mais no seu mundinho e que mesmo com todos os outros dramas, tinha ficado um pouco preocupado. Não que ninguém comentasse alguma coisa, porque ele era assim mesmo. Mas eu via, de vez em quando, Luna e Hermione olhando para ele com a mesma preocupação que elas tinham comigo ou Harry.
- Precisa de ajuda? – Perguntei, ao parar ao lado dele. Eu tinha sido o mais rápido e silencioso que conseguia e dessa vez, eu tinha pego ele.
- Não, eu só estou... – ele começou a dizer, mas parou e ficou branco a me ver.
- Tá tudo bem, Longbottom? – Eu perguntei, genuinamente preocupado. Algo me dizia que ele precisava de alguém para conversar.
- Tá... – ele sorriu fraco e começou a se dirigir para a saída da loja. Tentei ir atrás dele, mas ele saiu correndo.
Passei o resto da manhã achando que tinha perdido minha oportunidade. Agora eu só o veria no ensaio de segunda e ele continuaria fugindo de mim constantemente, até eu desistir. Porém, voltando da minha hora de almoço, vi Longbottom sentado nas mesinhas do lado de fora da Florean Fortescue's Ice Cream Parlour, olhando o nada. Seu sorvete parecia intacto e aquele mesmo garçom dava olhares significativos pela vitrine da sorveteria. Essa era minha chance. Eu não podia deixa-lo ali daquele jeito, parecendo estar à beira das lagrimas ao mesmo tempo que eu sentia que poderia ajuda-lo de algum jeito.
- Hey, Neville... – eu falei, me sentando com ele, que me olhou assustado, provavelmente porque eu o tinha chamado pelo primeiro nome. – Você quer conversar ou alguma coisa assim?
- Eu... – ele parecia chocado, mas sorriu agradecido. – Eu não quero te atrapalhar no seu trabalho...
- Eu to no meu almoço... – falei como se aquilo não fosse nada. Neville então sorriu fracamente e fez que sim com a cabeça. Acho que nós dois tínhamos consciência do quão estranho aquilo tudo era, mas algo me dizia que era certo a se fazer. E esse algo era o quão parecido eu era de Neville. E acho que ele também percebia o mesmo.
- Então, o que aconteceu? – Perguntei a ele, depois de um pequeno silêncio. Neville me olhou com um misto de curiosidade e vergonha.
- Não é nada demais, para falar a verdade... – levantei a sobrancelha, mas ele não falou mais nada.
- Neville... Eu posso te chamar de Neville? – Ele apenas confirmou com a cabeça. – Eu sei que você é tímido e dado o histórico, eu seria a última pessoa em quem você confiaria. Mas eu só quero tentar te ajudar, se puder.
- Eu... – ele agora me observava bastante intrigado.
- Se você não quiser me falar, tudo bem, mas... – eu respirei fundo. – Eu fiquei com a impressão de que você foi me procurar na livraria nesses últimos dias. - A primeira expressão que passou pelo rosto de Neville foi choque. Mas logo depois ele começou a corar e então sorriu derrotado.
- Na verdade, eu fui mesmo te procurar. – Ele respirou fundo algumas vezes e continuou. – Uns dias atrás, durante o intervalo das aulas, Luna veio falar comigo. Há algum tempo ela vem dando aquele olhar "eu sei o que está acontecendo com você", sabe? – Eu confirmei com a cabeça, sorrindo. Então não era só eu que achava que Luna me lia como um livro aberto. Minha resposta pareceu dar um pouco de confiança a ele. – Ela foi me perguntar o que estava acontecendo e eu disse que não era nada. Mas ela insistiu tanto, que eu acabei sendo meio grosso com ela. – Neville abaixou o olhar, envergonhado. Eu achei aquilo estranho. Não conseguia imagina-lo sendo grosso.
- Como assim, grosso? – Perguntei. – Você a mandou ir pra puta que pariu e não te encher mais a porra do saco? – Neville me olhou em choque, mas quando viu que eu estava sorrindo, ele percebeu que eu estava brincando e riu também.
- Não, eu só disse que não era da conta dela... – eu revirei os olhos, sorrindo. Ele provavelmente tinha dito algo como "Me desculpa, Luna, mas não é da sua conta." – Então Luna me disse que eu não precisava falar com ela, mas que eu precisava conversar com alguém. Então ela sorriu daquele jeito sonhador e me disse onde você trabalhava. – Neville ficou vermelho novamente. – Eu não entendi nada, mas acabei indo até a Flourish & Botts dia após dia, como se algo estivesse me atraindo para lá.
Nesse momento, ele fez uma pausa e sorriu envergonhado. Felizmente, um garçom veio até nós e perguntou se eu queria alguma coisa. Neville olhou para seu sorvete, agora quase todo derretido e corou como se pedisse desculpa por aquilo. Sorri um pouco achando impressionante como alguém podia ser tão... gentil. Para não parecer um babaca, acabei pedindo um sorvete qualquer e uma água e o garçom, com um misto de pena e desejo, disse que ia trazer outro sorvete para Neville por conta da casa. O rosto dele ficou vermelho como um tomate e, depois que o garçom foi embora, eu comecei a gargalhar e ele me olhou, confuso. A reação de Neville só me fez rir mais e ele, mesmo sem entender porque eu estava rindo, acabou soltando uma gargalhada.
- Por que você está rindo? – Ele perguntou quando meu riso se tornou apenas um leve sorriso.
- Porque eu nunca imaginei ver algo esse tipo de coisa acontecendo com você... – falei, sem pensar.
Ele sorriu de um jeito meio sombrio por alguns segundos depois que eu falei. Isso me fez realmente prestar atenção nele pela segunda vez. Em seu cabelo cortado na última moda. Em suas roupas simples, mas com estilo. No quanto ele tinha emagrecido. Nos seus dentes perfeitamente alinhados e brancos. Mesmo tendo percebido sua mudança da outra vez, de perto era ainda mais impressionante. E eu estava chocado por ter continuado a vê-lo do mesmo jeito mesmo depois do susto que eu tinha tomado. Mas aquele não era o Neville Longbottom que eu me lembrava dos tempos do colégio ou mesmo o que eu estava acostumado a ver por Hogwarts. E de alguma forma ele era estranhamente familiar, como se aquele fosse o Neville real. Claro que ele sempre esteve ali, presente, tentando não chamar muita atenção para si mesmo. Mas acho que eu nunca tinha realmente olhado para ele e o percebido como um indivíduo único e singular.
- Me desculpe... Eu não quis ser rude ou nada do gênero. – Neville voltou a corar. – Eu também não gosto que as pessoas façam acepções sobre mim do jeito que eu fiz.
- Tá tudo bem... – ele respondeu menos envergonhado e mais como aquele estranho familiar que eu tinha percebido agora pouco. – Todo mundo faz isso e, bem, a maior parte das pessoas nem chega a imaginar nada sobre mim. Elas me veem como o velho e sempre presente Neville.
- Bem, eu não quero te chatear, ou nada assim, mas eu só reparei recentemente no quão gato você está... - Ele levou um susto e ficou vermelho como um pimentão. – Não que você faça o meu tipo... – Já que todo mundo sabe que eu gosto mais de quase magrelos, com óculos fundo de garrafa, que não liga muito pro que veste e com olhos anormalmente verdes. Só de pensar nele, eu me arrepiei. – Mas quando isso tudo aconteceu? Aposto que se você fosse um pouco menos tímido, todo mundo ia correr atrás de você.
- Eu nem sei o que dizer... – Neville riu de nervoso e nisso o garçom veio com o nosso pedido. Depois de nos servir, ele deu uma piscadela para Neville e voltou dentro da sorveteria. Não pude deixar de reparar no guardanapo embaixo do sorvete dele com um número de telefone.
- Viu só o que eu disse... – eu sorri e ele voltou a corar. – Agora falando sério, aposto que ninguém percebe muito sua mudança.
- Quase todo mundo... – Ele falou depois de respirar fundo algumas vezes. – Ainda me vê do jeito que eu era no colégio. Gordinho, estranho e descoordenado. Até os meus amigos ainda me veem assim... – Neville tomou algumas colheradas de seu sorvete. – Na verdade, só a Luna, a Hermione, a Pansy e o... – Ele começou a misturar o sorvete sem perceber e olhou para o nada. – O Zac... Repararam na minha mudança...
- Zac? – Quem seria esse? Neville não parecia querer falar mais nada, então tentei puxar pela memória quem seria. Então eu me lembrei do dia do pub. Será que seria ele? – Você quer dizer o Zacharias Smith? – Ele apenas concordou com a cabeça. Eu não conseguia acreditar. Era realmente daquele chato, irritante e super cheio de si de quem Neville estava falando. – Vocês estão de caso ou algo assim?
- Mais ou menos... – Neville olhou bem nos meus olhos e continuou. – É complicado. A gente fica às vezes, principalmente quando está bêbado, mas... Depois... Ele sempre diz que foi um erro e que não vai acontecer de novo... E que ele não é gay. – Neville estava com o coração partido enquanto falava.
- Olha só, se ele fica com outro cara recorrentemente, ele é pelo menos bi. – Sorri, compreensível. – Desculpe, fui meio insensível. Você gosta dele, né? – Neville não se moveu, então tive certeza de que ele gostava do Smith. – Então você tem que colocar ele contra a parede e botar as cartas na mesa. Assim, as coisas entre vocês ficam claras e você vai parar de sofrer, queira ele ficar com você ou não. E se ele não quiser, o garçom não é mesmo de se jogar fora.
Neville refletiu um pouco sobre o que eu disse e acabou rindo da minha piada. Um olhar determinado surgiu em seu rosto e ele terminou o sorvete. O Neville Longbottom que se levantou daquela mesa não era mais o que tinha ido sentado ali. Ele me agradeceu pela conversa e pelo conselho, foi até a sorveteria e depois foi embora. Acabei bebendo meu sorvete que acabou completamente esquecido e derretido e pensando naquela estranha conversa que eu tinha acabado de ter. Quando terminei, fui até a sorveteria pagar minha parte da conta. Entrei e o garçom que tinha nos atendido me disse que meu amigo já tinha me pagado a conta. Eu sorri e me virei para ir embora.
- Olha, amigo... – O garçom falou e voltei a olhar para ele. – Não sei o que você disse para ele, mas eu te agradeço.
- Por quê? – Perguntei, confuso.
- Bem, faz algum tempo que eu estou de olho no seu amigo e ele sempre se esquivou, dizendo que eu devia ser cego ou que ele tava enrolado com alguém. – o garçom, que era alto, ruivo e bem bronzeado e de uma beleza simples, sorriu. – Mas hoje, ele me disse que ia resolver a situação e que talvez me desse uma ligada hoje. Então, valeu.
Eu só sorri e me despedi. Eu nunca teria imaginado que um conselho vindo de mim poderia fazer algum bem alguém e tão rápido. E não é como se fosse algum tipo de sabedoria milenar. Eu tinha dito apenas para ele ir atrás do que ele queria e tentar. Não era nada demais. Andei lentamente de volta a livraria, até que estanquei na entrada. Tudo o que eu havia falado para Neville era o que eu mesmo tinha que fazer. Respirei fundo e voltei ao trabalho.
