Capítulo 13 – A longa jornada para casa
As chamas azuladas traziam pouco conforto ao frio do deserto e pouca luz para quebrar a escuridão da noite. Sentado sob a areia com nada além de duas pessoas em coma e outra aparentemente dormindo como companhia, Draco se viu refletindo mais uma vez nas conseqüências do que ocorrera na pirâmide. Ou melhor, do que eles acharam lá dentro.
Esteve ocupado demais carregando Weasley e Granger para fora do monumento antigo para realmente considerar o que significava acordar os melhores amigos e confidentes de Harry Potter. Para a ruiva dormindo do outro lado da fogueira azul, aqueles dois significavam a volta da Ordem da Fênix, a volta da família dela. Draco duvidava que ela havia contemplado algo além disso, simplesmente porque estava envolvida emocionalmente na situação, cega para todo o resto.
E por isso ela, claro, achava que a opinião de Draco era irrelevante. Afinal, o que poderia significar para ele, um Comensal e um Malfoy, a vida de Ronald Weasley e Hermione Granger?
Significava muito.
Conhecimento. Segredos. Informações reais, não pistas ou chutes. A primeira, e provavelmente última, chance de uma vitória definitiva. Liberdade afinal. Tudo que Potter tinha feito antes de morrer, tudo o que Dumbledore havia lhe ensinado. Tudo isso e quem sabe o que mais o esperavam, caso tivesse sucesso em acordá-los, é claro.
Não queria pensar nisso agora. Lembrar a dificuldade em encontrar os ingredientes para o antídoto só resultaria em dor de cabeça e ele precisava manter os olhos abertos por boa parte da noite. Tinham concordado que ele ficaria como o primeiro vigia e não queria passar horas além de sozinho, irritado.
Exceto que não estava mais sozinho. Weasley levantou devagar, sentando e o encarando através das chamas azuis.
- Sem sono? – deduziu que ela estava ansiosa demais para fechar os olhos. – Que tal trocar comigo?
Ela colocou a mão no queixo e deu de ombros.
- E você, vai conseguir dormir?
Draco deu uma risada curta.
- Não, acho que não.
Podiam ter sido afetados de diferentes maneiras, mas foram afetados de qualquer forma. Fitaram-se por alguns minutos sem falar nada, o único som o ruído do vento. Weasley resolveu então observar os dois amigos, deixando escapar um suspiro de tempos em tempos. Finalmente, após analisá-los por vários minutos, se pronunciou.
- Não consigo dormir com eles perto – confessou, sua voz deixando escapar o embaraço, como se tivesse confessado algo terrível. – É tão surreal... E eles estão tão... Quietos.
- Parece que você está dormindo com cadáveres – completou para ela, sem dó nem piedade.
Ela quase pareceu ter sido picada fisicamente. Com certeza, só a menção da possibilidade de que eles estivessem mortos era terrível, quase como um tabu que, se quebrado, daria má sorte.
- Não é só isso... – tentou se explicar fracamente, colocando a mão na garganta. – Depois de tantos anos, tanto tempo... Eu... Parece que tudo que quero falar para eles está aqui, preso. Dúzias de coisas diferentes se passaram na minha cabeça, dezenas de cenas e momentos. Devia estar feliz, mas... Só consigo ficar com raiva. Fui forçada a lembrar que se passaram dez anos e...
Ela parou subitamente, olhando para Draco como se finalmente o pudesse enxergar ali. E então riu.
- Ah, o que estou dizendo... Ignore, é o cansaço falando.
Em outras circunstâncias ele teria deixado o assunto morrer. Mas Draco compreendia o que ela estava passando por incrível que pareça. E mais incrível ainda, ele queria desabafar também. Por isso se viu continuando o discurso dela.
- Dez anos em que eles estavam aqui, só esperando que alguém os acordasse. Tão perto! Por que passou tanto tempo? Por que deixaram passar tanto tempo? Por isso a raiva, porque vocês desistiram, pararam de ter esperanças. E agora pode ser tarde demais.
Weasley apenas assentiu, soltando um suspiro mais triste ainda. Ele continuou.
- Pode parecer hipócrita vindo de mim, mas... Que adianta pensar no passado agora? Melhor esquecer o que aconteceu e seguir em frente. Weasley... Essa é a nossa chance de destruí-lo. Acabar com toda essa... Tortura de vida.
Ela abriu um meio sorriso.
- Não é tão fácil assim. Mesmo se eu esquecer, eles não vão – disse séria, apontando para os dois. – Eles vão fazer perguntas, vão querer saber por que e por que não. E o que eu posso fazer? Que respostas posso dar? Dez anos é muito tempo. Tudo que eu quero é tê-los de volta, mas... – ela engoliu em seco.
Ele não se identificava com aqueles sentimentos, por isso não sabia o que responder. A olhou bem nos olhos, e depois...
- Você só está com medo, Weasley.
Franziu a testa, não gostando da opinião dele.
- O quê?
- É isso mesmo. Porque acha que cometeu tantos erros de merda que seu irmão e Granger vão deixar você para trás de novo. Eles vão acordar e concluir que você falhou em tudo que é possível. Vão abraçar você, agradecer e se desculpar, e então sumir de novo. Porque não importa que dez anos se passaram... Ou quem sabe importa, porque foram dez anos de erros e para eles você ainda vai ser a irmã caçula que tem que ser protegida.
Weasley não disse nada a principio, o fitando com raiva.
- Você leu minha mente.
Draco deu de ombros, com um sorriso.
- Como eu posso te consolar se você não diz o que realmente está pensando?
- Consolar? Por acaso jogar meus medos na minha cara é consolo agora?
- Eu não cheguei nessa parte ainda.
Ela revirou os olhos.
- Nem precisa chegar. Eu não devia ter falado nada.
Com um suspiro de irritação ela se levantou, lhe dando as costas, pronta para se afastar o máximo possível dele.
- O fato é que isso não é sobre você ou seus medos – ele continuou, ignorando o movimento. – É sobre Weasley e Granger e o que eles vão passar. Se conseguirem acordar, já pensou no que pode acontecer com eles? Podem não conseguir andar ou enxergar, nem mesmo se lembrar dos próprios nomes. O corpo inteiro dos dois vai entrar em um choque tão grande que talvez morram antes de terem chance de abrir os olhos por completo.
Ela continuava de costas para ele, mas sem intenção de sair dali.
- E... Com sorte, eles vão sobreviver em um pedaço. E então, pronto. A primeira coisa que vão fazer é voltar para missão, certo? Errado. Vão ter que engolir e aceitar os tais dez anos de erros seus ou meus, ou basicamente os erros de todo mundo que não estava em coma. Porque eles, a esperança do mundo mágico, cometeram algum erro tão absurdo que matou Potter e os deixou em coma. E esse, ruiva, foi o erro que levou a todos os nossos erros depois.
Silêncio. Draco observou as costas dela com muito cuidado, querendo prever a reação dela, mas sem sucesso.
- Nossos, uh? – ela riu fracamente. – Eu não colocaria os meus erros nem um quilometro perto dos seus, Malfoy.
- Talvez. Mas eu provavelmente estaria em Azkaban se não fosse por eles. Então eles são os responsáveis por tudo que eu fiz de merda por dez anos.
Ela se virou, voltando a sentar. Após um longo silêncio, assentiu.
- Obrigada – sussurrou. – Isso serviu de consolo, um pouco.
Draco assentiu em retorno.
- Mas pare de ler meus pensamentos, Malfoy. Lembre-se que eu estou com a única varinha – abriu um pequeno sorriso.
- Como posso esquecer? Você gosta de me lembrar disso a cada hora.
Aparentemente satisfeita, se deitou, pronta para tentar de novo dormir. Não pareceu perceber que Draco não prometeu nada sobre não ler a mente dela. Afinal, alguma vantagem ele precisava ter sobre ela.
Sentindo o cansaço de um dia longo e doloroso, caiu para trás, suas costas contra a areia. As estrelas mal brilhavam, parecendo cada vez mais distantes com o passar dos anos, quem sabe se afastando da Terra por falta de esperança de um futuro melhor. Ironicamente, aquela noite era a primeira em que sentia verdadeira esperança para o fim do sofrimento de sua mãe e quem sabe o seu próprio.
A conversa anterior com Malfoy teve um efeito estranho sob Gina. Por um lado conseguiu inibir seus medos mais imediatos, e provavelmente os mais tolos. Era incrível que a pessoa com quem viajava pudesse fornecer algum tipo de consolo, mas lá estava. Draco Malfoy a ajudara a ultrapassar não apenas obstáculos físicos, mas agora também emocionais. Mas tal fato também contribuiu para alimentar novos medos e estes provavelmente mais preocupantes.
Estavam à beira de um precipício, um momento antes da transformação total. Ela podia sentir em seus ossos que acordar Rony e Hermione traria o fim de algo, mas não sabia ao certo o que. Torcia para que fosse o império de Voldemort, mas também suspeitava de que envolveria certas verdades que não estava pronta para ouvir.
"Eles cometeram algum erro?", considerou as palavras de Malfoy com cuidado. Parecia algo impossível. Mas se fosse verdade, isso a isentava de culpa? Não, mas os deixavam mais próximos a ela. O que era triste, porém justo. Por tanto tempo a Ordem os transformara em mártires, heróis jovens que morreram antes do tempo, ninguém jamais considerando a possibilidade de que eram menos do que perfeitos. Definitivamente ela era uma dessas pessoas. Suas mortes misteriosas e súbitas formaram um manto de proteção sobre suas possíveis decisões e ações. Todos pareciam imperfeitos perto deles (incluindo ela). Agora que estavam vivos, ela seria forçada à realidade.
Isso, claro, como Malfoy deixara bem claro, se eles conseguissem acordar.
Outro medo, mais sutil, era justamente Malfoy. O que passaram na pirâmide não podia ser ignorado, muito menos a tentativa dele de consolá-la poucas horas antes. Ela estava deixando suas suspeitas de lado, confiando nele muito além do que seria o correto devido às alianças anteriores dele. Podia enxergar isso com clareza, mas parecia incapaz de parar o processo, de se segurar.
A parte racional que lhe restava, tentava justificar seus sentimentos lembrando-a de que precisava dele para acordar Rony e Hermione. E que as ações dele provavam que suas palavras eram relativamente verdadeiras. Não havia o que temer, era seguro confiar nele por enquanto. Seu lado irracional gritava o oposto, o que era estranho por si só. Normalmente deixava o conselho da racionalidade para trás a favor de suas emoções (não fora justamente Malfoy que a lembrara do fato com sua lição sobre resguardar a mente?).
E, dessa forma, vinha o medo. Estava com medo de ignorar suas emoções, com medo de justificar racionalmente o que sentia ser errado. De qualquer forma, todos aqueles pensamentos a impediram de dormir. Ao invés, se viu virando para as labaredas azuladas e, por conseqüência, a figura de Draco Malfoy. Por algum estranho motivo ficou decepcionada ao perceber que ele não tinha o rosto virado para ela. Queria, sabe-se lá por que, observá-lo dormir, talvez para o ver em um raro momento de pura sinceridade (ninguém pode se controlar durante o sono, não é?).
Finalmente decidiu por olhar para o céu, contemplando o quanto tudo pode mudar em questão de horas. Apesar dos medos e insegurança iniciais, havia também muitas expectativas e esperanças. Era tolo, completamente tolo, mas a pequena parte dela questionou: se Rony e Hermione estavam vivos todo esse tempo, por que não Harry? Suspirou, automaticamente se repreendendo pelo pensamento.
No fim, sua noite acabou recheada de pensamentos parecidos e nenhum sono. Antes mesmo que o sol tivesse nascido já estava de pé, preparando os camelos para a longa viagem até algum sinal de civilização. Malfoy dissera que sabia o caminho mesmo sem o guia sob o Imperio (o feitiço rompera junto com a destruição da varinha dele), Gina duvidava, mas como não tinha outra opção, não discutiu. Terminando tudo que podia fazer, resolveu acordá-lo.
Sem esperar, conseguiu matar sua curiosidade anterior. Encarou frente a frente um Malfoy dormindo sem reservas. Mesmo a palidez e a cicatriz perto da boca não lhe roubaram um ar de calma e, até, certa arrogância. Infelizmente nada disso ajudou Gina a resolver suas dúvidas. Não trocaram muitas palavras quando ele finalmente acordou e se apressaram para continuar a jornada. Por horas nada foi dito e a única interação que tiveram foi dividir o cantil de água e lamentar sobre o calor acima de suas cabeças e nas solas de seus pés.
Gina se viu acompanhando os movimentos dele e os estudando mais do que talvez devesse. Após alguma reflexão sobre confiar nele, acabou por notar que não era a única. Que talvez a confiança estava crescendo em ambos os lados. Ele não precisava consolá-la para destruir Horcruxes, não precisava ouvir os problemas dela. Aliás, tudo que conhecia de Malfoy indicava que ele preferiria não ouvir, e se fosse obrigado responderia com insultos e escárnio. E, no entanto, ele genuinamente tentou ajudá-la. Quem sabe ela não era a única correndo riscos ali?
Não soube quanto tempo levaram, mas depois do que pareceu uma sessão de tortura, conseguiram chegar aos arredores de uma pequena cidade trouxa. Não queriam correr riscos, então Gina primeiro aparatou com a capa de invisibilidade para ter certeza de que não havia Comensais na área. Tiveram sorte e não havia nenhum sinal de perigo, resolveram por fim se esconder em um galpão aparentemente abandonado. A escolha não era das mais confortáveis, mas não havia outra opção. Malfoy decidiu que o próximo passo era descobrir se havia presença de bruxos ou então teriam que ir para outra cidade mais distante em busca dos ingredientes necessários para a poção.
- Se algum bruxo estiver morando por aqui, não tem muitas opções – Gina disse, analisando o que vira da cidade. – Tem que conviver com os trouxas no dia-a-dia e isso significa...
- Ir a lugares públicos ou populares...
- Bares – concluiu.
Malfoy assentiu. Ao cair da noite, já com as forças recuperadas, foram até o único bar da cidade. De imediato sentiu uma familiaridade com o clima do lugar. Não era exatamente saudade, pois não tinha muitas memórias boas do Cabeça de Javali e seus patronos, mas mesmo assim foi como voltar para casa de certa forma. Os sons de copos batendo um contra o outro, das conversas e risadas, tudo a deixou um pouco desconfortável. Não parecia certo "voltar" para sua antiga vida depois do que passara.
Sentaram-se à mesa mais distante e escondida do bar, não querendo chamar atenção e apenas observar. Estavam realmente no mais importante ponto de encontro daquela gente. Havia todo o tipo de clientela, desde o grupo de amigos se reunindo após um dia de trabalho até alcoólatras regulares, incluindo uma mesa apenas de mulheres, provavelmente comemorando algum aniversário. Era estranho encarar o fato que a vida dessas pessoas pouco mudara desde Voldemort, que não haviam sido vitimas de crueldades nem testemunhas de mortes. Gina sacudiu a cabeça, suspirando e chamando atenção de Malfoy, que até o momento se ocupava em encontrar alguém bruxo.
- Não gostou do serviço? – ele riu. – Pessoalmente eu acho melhor do que o do seu pub.
- A clientela certamente é melhor – retrucou.
Malfoy abriu um sorriso irônico, talvez não considerando trouxas muito melhor do que Comensais. Depois de uma breve pausa, na qual a garçonete trouxe suas bebidas, ficaram em silêncio até que foi a vez de Malfoy sacudir a cabeça.
- É só uma questão de tempo até isso tudo ser destruído – disse simplesmente e Gina quase o acusou de ler sua mente de novo.
- Você não parece muito chateado com a possibilidade.
- Possibilidade? – a encarou, surpreso. – Bellatrix está no Egito, Weasley. Destruição não é uma possibilidade, é um fato inevitável.
- Se você tivesse me ajudado no trem, ela estaria morta – cruzou os braços, encostando-se ao apoio da cadeira, só o nome da mulher a irritava.
Malfoy apenas revirou os olhos, pela primeira vez em muito tempo desistindo de continuar uma discussão. Voltaram à tarefa mais importante: encontrar algum cidadão bruxo. Gina, enquanto bebia sua água, percorreu seus olhos pelo bar buscando um sinal de estranheza. Porém o que encontrou foi bem diferente.
A mesa inteira do grupo de mulheres estava encarando Malfoy. Estavam mais próximos delas do que dos outros clientes e Gina podia ouvir as risadas e conversas em voz baixa que imediatamente identificou como, bem... Como mulheres fofocando e elas obviamente estavam interessadas em Malfoy. Era definitivamente, agora que as analisava melhor, um grupo que mal saíra da adolescência. Gina conhecia bem seu próprio sexo e reconheceu facilmente o comportamento.
O que elas viram em Malfoy, no entanto, era um completo mistério. Pálido ao extremo (principalmente considerando que a maioria ali era egípcia) e com uma cicatriz bem visível, sem falar na atitude arrogante e ar de superioridade que ele carregava, intencionalmente ou não. E ao mesmo tempo a descrição que fizera acabou por responder a pergunta. Lá estava um estrangeiro loiro, olhos cinza, atitude de bad boy, com uma misteriosa cicatriz e um toque de perigo. Era o sonho de qualquer adolescente bêbada com más intenções.
Revirou os olhos. Felizmente Malfoy não parecia ter notado as tentativas delas de chamar sua atenção, mais preocupado com a missão, com a destruição de Voldemort e achar os ingredientes para a poção. Gina quase queria rir do absurdo que era aquela situação. Lá estavam duas pessoas correndo perigo de morte, com enormes responsabilidades em seus ombros e bem aos seus lados estava um grupo de mulheres – não – meninas só com diversão e futilidades em suas mentes. Infelizmente os dois mundos se colidiram quando uma das moças (para a irritação de Gina, a mais atraente) juntou coragem para ir até Malfoy frente a frente.
- De que país vocês são? – ela tentou perguntar em um inglês sem prática, um sorriso envergonhado no rosto.
"Hm, pelo menos não me ignorou", Gina pensou otimista, considerando que a menina só viera ali atrás de Malfoy.
- Não te interessa – foi a resposta curta e grossa de Malfoy, nem se dando o trabalho de olhar para ela.
- Ah... Hmm. É que...
- Inglaterra – respondeu Gina, não sabendo exatamente por que.
Malfoy a fitou, claramente irritado que ela tinha divulgado aquela informação.
- Ah, nossa! É muito longe daqui! O que traz vocês aqui? Nós somos bem afastados da... Bem... Da civilização! – ela riu, claramente aliviada em obter uma resposta.
- Estamos "mochilando" – explicou Gina, buscando a explicação mais lógica e normal que conseguiu. – Conhecendo o interior do país, não só os pontos turísticos.
- Ah mesmo? Que interessante! – mas pelo tom da voz da moça, ela não achava lá muito interessante e agora buscava o olhar de Malfoy novamente. – Estão gostando?
Gina decidiu que ao menos podiam tirar vantagem disso de alguma forma. Mesmo que a atitude da menina a irritava (Malfoy claramente não era o tipo de homem que essas garotas deveriam estar correndo atrás), quem sabe ela tivesse informações úteis.
- Não muito, na verdade.
Como se a resposta fosse um convite, a menina juntou-se a eles na mesa, pegando uma cadeira desocupada. Malfoy parecia pronto para matar alguém, principalmente Gina.
- Puxa, que pena.
- Você não saberia por acaso de alguma coisa interessante para vermos por aqui? – perguntou Gina, tentando parecer inocente.
A moça egípcia passou uma das mãos nos longos cabelos, quase os batendo contra o rosto de Malfoy, enquanto pensava numa resposta. Depois mordeu o lábio e se aproximou mais da mesa e Gina notou que o objetivo em toda aquela atuação era chamar a atenção de Draco. Por algum motivo foi difícil resistir à vontade de chutar a canela dela por debaixo da mesa.
- Nós temos um curandeiro, isso serve?
Finalmente Malfoy ficou interessado.
- Curandeiro? Como assim? – retrucou bruscamente, virando o rosto da menina, para enorme felicidade dela.
- Oh, não é que eu acredito nessas coisas, claro! – ela riu, inclinando levemente a cabeça na direção dele. – Mas os mais velhos da cidade preferem ele aos médicos do Cairo! Essas tradições e superstições bestas...
E agora Gina estava completamente fora da conversa. A menina só tinha olhos para Malfoy e os dois a ignoravam.
- O que esse homem faz afinal?
- Cura... Coisas? – ela respondeu em meio a risadinhas.
- Como ele cura coisas, exatamente? – Malfoy quase cuspiu, irritado.
- Olhos de lagartos! Asas de morcegos! Essas coisas – disse rindo e gesticulando.
- E onde o encontramos?
A menina estava agora praticamente se jogando nos braços de Malfoy e Gina estava praticamente se jogando contra ela, violentamente.
- Hmm, eu posso te levar se você quiser.
O tom sugestivo foi a gota d'água para Gina que acidentalmente (mas não) derrubou seu copo bem no colo da mulher, a molhando toda.
- Ah me desculpe! Nossa, que desastrada! – lamentou falsamente, enquanto ignorava o olhar curioso de Malfoy.
Envergonhada, a menina se afastou, acompanhada por um das amigas para o banheiro mais próximo. O resto do grupo das adolescentes encarou Gina com raiva, sussurrando, o que eram provavelmente insultos, entre si.
- Weasley, você é um enigma – Malfoy comentou, ao saírem do bar meia hora depois. – Não foi você que incentivou a trouxa a conversar conosco?
- Foi um acidente – respondeu rapidamente, não o encarando.
- Já vi hipogrifos mais sutis que você – retrucou, revirando os olhos. – O que houve? Ela ofendeu Potter em outra vida?
Foi a vez de ela revirar os olhos. Malfoy não podia ter realmente ignorado todos os sinais!
- Não acho que uma adolescente deva ficar se jogando num estranho daquele jeito.
A risada de Malfoy foi alta e genuína, a pegando de surpresa e ao mesmo tempo a irritando.
- O quê? É uma desgraça para o meu sexo – ela se defendeu rapidamente.
- Weasley... Você... – Malfoy não conseguia parar de rir o suficiente para terminar a frase. Finalmente, respirou fundo. – Estava com ciúmes!
- Como é?! – exclamou, ofendida, cruzando os braços.
- Admita!
- Você está louco.
Malfoy revirou os olhos.
- Ah Weasley, não se preocupe, aposto que tinha algum trouxa cego querendo flertar com você também.
Ela abriu a boca para protestar, mas percebeu o que ele queria dizer e, de repente, preferiu não mudar a percepção dele. Malfoy continuou soltando breves risadas por todo caminho de volta até o galpão, para sua irritação.
Na manhã seguinte voltaram à busca. Não foi muito difícil encontrar a casa do tal curandeiro, ele aparamente era uma celebridade entre os moradores. Gina mais uma vez usou a Capa para observar a casa dele e comprovar que, felizmente, tratava-se de um bruxo de verdade. Ao cair da noite ela voltou com uma lista de ingredientes e com a ajuda da Capa roubou todos que encontrou. Não era algo que a deixava contente, mas não havia outra opção. Seria perigoso demais comprar do bruxo, pois revelaria suas identidades. Mesmo assim, para aliviar a culpa deixou alguns galeões na janela do homem.
Malfoy a esperava no galpão ansioso, andava em círculos em volta das camas improvisadas onde Rony e Hermione foram colocados. Analisava o estado de ambos quase como um médico diagnostica seus pacientes. Sua agitação não ajudou o nervosismo dela, mas ao menos indicava que ele estava levando a sério a tentativa e que, quem sabe, se importava com os resultados tanto quanto ela. Gina o ajudou no preparo dos ingredientes, os dois trabalhando em um silêncio tenso. Durante quase todo o processo Malfoy murmurava consigo mesmo, recitando instruções como se as lesse de um livro em suas mãos.
Quando enfim o pequeno caldeirão às suas frentes recebeu o último pedaço de flor de Lótus, ele se virou para Gina com uma expressão solene.
- Weasley... Só vamos deixar algo bem claro aqui... – começou, gesticulando com as mãos em sinal de nervosismo. – Se eles não acordarem, ou se alguma coisa der errado...
- Eu não vou te matar, Malfoy – tentou acalmá-lo com um meio sorriso. – Talvez te transformar em uma lesma de novo, mas fora isso...
Ele ignorou sua tentativa de dissipar a tensão.
- Se isso aqui não der certo... Seguimos em frente, entendeu?
O recado era claro: não caia em depressão, não entre em colapso, siga com a missão. Gina não sabia se deveria ficar agradecida ou ofendida.
- Malfoy, eu vi minha família e amigos morrerem e tudo o que conheci ser destruído. Acho que sei como lidar com dor e perda, certo? – respondeu seca.
Não respondeu, satisfeito ou não com sua resposta, em vez disso preferiu voltar para a tarefa. Com cuidado, dividiu a porção do caldeirão em dois copos, dando um a Gina.
- Não sabemos qual vai ser a reação deles, então é melhor ficar um pouco afastada.
Gina obedeceu relutantemente, apenas observando enquanto ele abria a boca de Rony e com a ajuda de um funil o fazia beber a poção. Por alguns minutos nada aconteceu, seu coração batia rapidamente, a ansiedade quase incontrolável e só conseguia pensar em uma única coisa: "Por favor, acorde, acorde, por favor, acorda!"
E então subitamente os olhos de Rony abriram com uma rapidez assustadora. Mas qualquer reação de felicidade de Gina foi interrompida de imediato, não só Rony acordara como suas mãos também haviam levantado bruscamente e agora apertavam o pescoço de Malfoy com uma força inesperada.
- Rony! – gritou correndo na direção de Malfoy e tentando libertá-lo, ao mesmo tempo em que olhava para o irmão. – Rony, por favor, sou eu, Gina!
Mas então ela percebeu. Os olhos dele buscavam algo além de Malfoy e dela. Rony não conseguia vê-los. Será que sequer podia escutá-la? Resolveu tentar outra tática, com Malfoy sufocando ao seu lado precisava ser rápida. Aproximou-se do rosto do seu irmão e o tocou suavemente na bochecha, depois o beijando na testa. Lentamente ele largou o pescoço de Malfoy que se afastou rapidamente, tossindo e buscando ar.
- Merlin, argh... Bosta de... – xingou entre goles de ar.
Gina continuou confortando Rony, tentando acalmá-lo. Agora o irmão murmurava algo incompreensível sem parar e por mais que falasse que tudo estava bem, ele a ignorava.
- Malfoy, o que eu faço? O que fazemos agora?! – pediu, o chamando de volta. – Ele não está nos vendo!
O Comensal relutantemente se aproximou, seu pescoço roxo, então sentiu o pulso e analisou a visão de Rony.
- Considerando que ele não usa os olhos há dez anos, vai demorar um pouco para ele se acostumar com a luz. O pulso está fraco, mas melhor do que esperado. Weasley, não podemos fazer nada a não ser esperar e garantir que ele não se machuque... E não machuque a gente.
Gina assentiu, mesmo assim sentindo-se frustrada, queria ajudar de alguma forma mais concreta. Voltaram-se então para Hermione, dando-lhe também a poção (dessa vez Malfoy deu a tarefa a Gina, provavelmente querendo evitar outro atentado contra sua vida). Ao invés de Rony, felizmente, Hermione abriu seus olhos devagar ao mesmo tempo em que respirava fundo para apenas tossir ferozmente logo em seguida.
- Quem está ai? – perguntou em uma voz rouca, quase inaudível, claramente também estava tendo problemas em enxergar. – Quanto tempo?
Malfoy e ela se entreolharam, confusos e surpresos.
- Hermione... Você está bem agora, está tudo bem. Sou eu, Gina.
- Gina...? Quanto tempo? – ela repetiu, tentando sentar-se, mas sem sucesso. – Quanto tempo se passou?
- Dez anos... Eu... Nós achamos vocês numa pirâmide, Rony está acordando também.
- Dez anos?! – mesmo com sua voz fraca, o terror e surpresa eram claros. – Me ajude a levantar? Preciso levantar.
Relutantemente e com muito cuidado (temia machucá-la ainda mais), Gina o fez, ao mesmo tempo em que sentia todos os ossos da amiga tremer com o esforço.
- Rony... Como ele está? Falei...F-falei para ficar calmo, para não lutar, mas você o conhece... Quase matou um deles com as próprias mãos e...
- Ele está indo bem, confuso, mas bem – respondeu, sua voz revelando suas próprias dúvidas.
- Por acaso tem água? Estou com muita sede.
Malfoy, silenciosamente (demais), passou para Gina um copo de água, se afastando logo depois. Hermione tomou devagar cada gole, com certeza sabendo das conseqüências de beber tudo de uma vez só após anos sem engolir nada.
- Obrigada. Agora... Onde ele está?
Gina pegou a mão dela e a guiou até o braço mais próximo de Rony. Hermione logo apertou com força a mão dele, abrindo um pequeno sorriso que logo se fechou. Gina conhecia bem a amiga e suspeitava do que viria a seguir: conclusões, hipóteses, planos e dúvidas que precisariam ser resolvidas.
- Bom. Dez anos. Isso significa que... Ou vocês finalmente venceram ele, e estão nos resgatando... Ou querem saber sobre Horcruxes. E acredito que não seja a primeira hipótese.
Malfoy, que até agora não se envolvera, instintivamente se aproximou das duas, curioso demais para se conter.
- Não. Infelizmente não – suspirou Gina. – Na verdade nós achamos vocês por pura sorte... Na nossa busca pelas Horcruxes.
Hermione não respondeu por um momento, seu rosto preocupado.
- Nós – murmurou para si mesma e Malfoy se afastou de novo. – Claramente se fosse alguém que eu conhecesse já teria se apresentado... Então, Gina, exatamente quem é esse "nós"?
Gina engoliu em seco.
N/A: Próximo capítulo já está na sua metade! Espero que vcs estejam gostando ainda, haha... Logo mais acaba!
Lauh Malfoy: Brigada!! Ser formada é assustador e ótimo ao mesmo tempo haha. Valeu pela review e espero que tenha gostado desse cap novo, tb!
aDii: Thankss!! Vivos e cheios de informações :) Valeu pela review!!
Lucy Holmes: Hahah, acho que não foi tão medo, mas mais curiosidade para saber o que R/Hr sabiam sobre Voldie :) Mas ela foi bem convicente tb. haha Thanks Lucy (por ler e betar!!).
Thaty Malfoy: Ai sorry! :) Acho que demorei menos dessa vez?? Sorry! Mas o capitulo 14 já está na metade, então definitivamente vou postá-lo mais rápido! Brigada pela review!!!
Aeris: Huahaua, thanks!!
Karina C: Boa sorte!! Faculdade é demais (mas não vou sentir falta hahaha), aproveite! E THANKS por acompanhar e continuar lendo, mesmo com todas as demoras. :D
kynhaa: Haha, bem-vinda! Espero que continue gostando... E beijo? Sim, haverá beijo! Quando? Eis a questão! hahahah. Thanks pela review.
Amanda: Hahaha, pelo menos foi um erro de português, hahaha... Os piores são os da trama! hauahauhau. Valeu por ler Amanda! Será que vc alcança o 13 pra ler essa resposta? Haha, thanks pela review!
