Capítulo 14 – Alguma verdade
Havia um campo cheio de flores amarelas e miúdas e ela, delicadamente, pegava algumas e as colocava em seu cesto. Ele a observava e sorria: sua beleza e ternura o confortavam, como sempre. A mulher se virou para ele e o chamou delicadamente para perto de si e ele viu a si próprio muito pequeno, ainda menino, correndo para os braços dela. – Mamãe!
-Meu filho, - disse com calor e o abraçando. – Eu te amo muito, nunca se esqueça disso.
-Sim, mamãe, - ele a abraçava com mais força. Ele não sabia por quanto tempo estava ali, mas tinha a sensação da eternidade. – Nunca me abandone, estou com medo!
Ela sacudiu a cabeça suavemente. – Mesmo que tudo indique a isso, eu nunca vou te abandonar. Confie em mim, Loki.
-Não quero sair daqui nunca mais, nunca mais!
Frigga agachou-se em frente a ele e olhou bem nos olhos do filho. – Seu destino é por demais pesado, mas é o único que pode cumpri-lo. Mas não se esqueça que tem aliados, não só a mim. Abra seu coração, meu filho, e terá melhor visão. Não deixe o orgulho te cegar.
Loki sacudiu a cabecinha contrariado, ele só queria ficar ali, protegido, não queria ter que enfrentar destino algum. – Lembre-se de Sigyn. Ela é sua responsabilidade, - lembrou-lhe ela.
Sigyn... Ela estava sozinha. Ela deveria estar desesperada. – Eu sei, mamãe, - e pôs um dedinho na boca.
Sua mãe pôs uma de suas mãos na cabeça da criança e recitou algumas frases em língua estranha. Imediatamente Loki sentiu-se muito bem, como se uma força o tivesse envolvido. Ela sorriu admirando o resultado.
A mulher se ergueu de repente e olhou a sua volta, franzindo a testa. – Você vai acordar a qualquer momento, mas ficará muito bem. Adeus, minha criança. Eu prometo, nos veremos em breve.
Loki estendeu as mãos para ela, porém Frigga tornou-se mera sombra e essa sombra foi se afastando dele aos poucos. – Não! Volte! Eu estou tão sozinho..., - pediu em voz infantil.
E uma escuridão tomou conta e ele pode ouvir algumas vozes em pânico, seu corpo sendo tocado, espetado, puxado, de modo bastante dolorido. Abriu os olhos e viu diversas pessoas em sua volta o olhando com atenção e preocupação. – Ele acordou!
O príncipe fez uma careta e tentou arrancar todos os acessos grudados nele e sair da cama, porém foi retido pela equipe médica. – Fique, senhor, está fraco e precisa repousar! – disse um deles.
-Eu preciso... Eu quero água, - respondeu com voz muito rouca e ficando sentado no leito.
Enquanto um foi buscar um copo, ele pode ver adentrando o ambiente o capitão e Stark. – Loki! – E se aproximaram rapidamente.
Rogers olhou para ele pasmo. – Você... Sua pele voltou ao normal... Como?
-Cura instantânea? – questionou o engenheiro.
Loki olhou para si e viu sua pele imaculada e muito branca. – Eu não sei... – E alguns flashes de memória o remetiam a sua mãe. Mas ele não conseguia lembrar o que.
Barton havia se aproximado deles com testa franzida. – Muito suspeito. Podia se curar o tempo todo?
-Você acha que ele fingia?- perguntou o capitão com agressividade.
Natasha adentrou o ambiente também. – Está tudo bem? – E ela olhou para Loki. – Vejo que se curou, está... Está muito bem. – E cruzou os braços o analisando.
Um dos médicos havia voltado e deu um copo de água para o rapaz. – Tem repositores hidroeletrolíticos para sua desidratação.
Outro médico tentou recolocar os acessos nele, mas foi rechaçado. – Ninguém encosta em mim, - ameaçou Loki rosnando. – Eu estou bem.
-Nós precisamos garantir sua saúde, - disse Steve. – Eles necessitam colher amostras...
O rapaz deu uma risada sem vida. – Vocês não sabem nada do meu organismo, como saberão se estou bem ou não? – E tentou se levantar, e sua fraqueza se manifestou. – Droga.
Não deixe o orgulho te cegar.
Loki se assustou com essa lembrança. Quando ela disse isso a ele? Sua mãe estava em sua mente?
-Sua melhora estética, por assim dizer, está praticamente terminada, - disse o médico com um tablet em mãos. – Só peço, senhor, que fique por mais um tempo até ficar mais forte. Essa bebida vai ajuda-lo, é um isotônico. Beba.
Loki assentiu minimamente e bebeu do líquido. Depois, olhou para os Vingadores a sua volta. – Por quanto tempo fiquei aqui?
-Uns dois dias, - disse Stark com olhos brilhando. – Você deu um belo susto na gente, meu amigo, - falou carinhosamente.
Loki corou com a palavra "amigo" e abaixou a cabeça, olhando atentamente seus dedos. – Eu peço desculpas.
-Pelo que? – perguntou Steve já ao lado dele.
-Pela vergonha. – E ele engoliu em seco. – Que eu causei a esse lugar.
Os Vingadores se entreolharam. – Não causou nenhuma vergonha, Loki, - disse Natasha com firmeza e com certa raiva. – Fandral é quem deve responder por esse crime. Você é a vítima.
O rapaz franziu a testa. – Esqueço que aqui em Midgard tudo é diferente. Muito diferente. – E calou-se.
-Acho que ele está apto para responder a algumas perguntas, - disse Clint se aproximando com cautela. – Pra começar, sobre os alienígenas invasores.
-Você está dizendo sobre Thor e os amigos? – perguntou Tony. Natasha deu um sorriso.
-Sobre os Chitauri, engraçadinho. Vou reportar a Shield sobre a recuperação de Loki, - e ele saiu do ambiente.
Stark suspirou. – Eu acho que eles têm razão em querer saber sobre as criaturas, Loki. Se você souber de algo, eu gostaria muito que falasse. Estamos sob perigo e precisamos saber mais detalhes.
Loki deitou-se novamente e fechou os olhos. – Estou cansado. Conversarei depois, o que quiserem, mas não agora.
Tony ergueu as mãos em rendição. – Ok, tudo bem. Acho que merece mesmo descanso. Vou ver com a equipe médica se pode se mudar para seu quarto ainda hoje.
Quando Stark se afastou, Rogers pegou na mão do rapaz timidamente, que não recusou o toque. – Fico muito feliz que esteja bem, pelo menos fisicamente. Estávamos bem assustados com sua situação. Pensamos que... Pensamos que não sobreviveria.
-Não são simples Chitauri que irão me matar, capitão, - disse Loki recolhendo sua mão. – Ou mera magia de Asgard. Não sou tão fraco quanto pensam.
-Ficou muito debilitado, Loki, - disse a espiã, - e não sei qual o limite pra sua genética, mas para nossos padrões, esteve à beira da morte.
Ele não respondeu, porém perceberam que seus lábios tremeram levemente. Tony retornou a eles. – Então, você pode se mudar para seu quarto agora, desde que o monitoramento clínico continue. Vou ajustar meu A.I. para que faça esse monitoramento, enquanto nossa equipe médica faz a análise por aqui mesmo. – Ele respirou fundo. – Eu fico feliz que conseguiu, Rock Star, que está de volta conosco.
Loki abriu os olhos verdes para ele e deu um sorriso mínimo.
~o ~
-Eu quero ver meu irmão! – gritou Thor em fúria segurando seu martelo. Lá fora, os céus já anunciavam relâmpagos e trovões. – Não tem o direito de afastá-lo de mim!
-Ele está exausto, Thor, precisa se recuperar de sua doença ainda, - disse Natasha em frente a ele, o impedindo de entrar no elevador.
Rogers ficou ao lado dela com seu escudo. – Pare de pensar em si mesmo por um momento, Thor, e veja o lado de Loki! Ele está debilitado e traumatizado, precisa descansar e se reorganizar. Não é possível que não entenda isso!
-Eu...
-Ah, sem discurso agora, grandalhão, - disse Stark com sua bebida favorita em mãos. Ele olhou para seu dispositivo no pulso, pronto pra acionar sua armadura. – Você está em minha Torre e irá respeitar o que dissermos!
Clint estava encostado próximo a porta olhando tudo com atenção. – E por que ele não pode ver o irmão? Loki é de porcelana agora?
Steve espremeu as mãos e respondeu entredentes: – Ele foi assediado pelo amigo do Thor, e sabemos o que Thor fez. É fácil entender, não vou desenhar pra você.
-Ele é um suspeito, suspeito de causar o caos novamente em Nova Iorque, levando o Hulk a cometer a destruição na cidade. Agora todos estão contra Hulk e ele vai escapar dessa sem nenhuma responsabilidade. Acham isso certo?
Thor se virou contra ele. – Está acusando meu irmão de prejudicar essa vila?
Barton se aprumou, colocando a mão discretamente em uma de suas armas por baixo do colete. – Você mesmo disse que ele é um perigo, que usa de manipulação pra alcançar os objetivos. Portanto, ele não precisaria estar cem por cento fisicamente ou com seus poderes, apenas sua língua afiada seria o suficiente. – E Clint se voltou para todos. – Ele seduziu a todos vocês, perderam o foco, a cidade está em polvorosa, estão com medo, e vocês, nenhum de vocês, foi lá para acalmá-la. Só pensam em Loki, como se isso fosse o suficiente para redimí-los de todos seus pecados! Mas eu já aviso, não vai! Estão apenas trocando um pecado pelo outro.
Tony suspirou. – Calma, Barton, eu me perdi... Poderia repetir desde o começo?
-Isso é ridículo! – disse Steve. – Por que uma vida não valeria a pena tanto quanto de uma cidade? Essa comparação é absurda!
-Ele é a causa do caos! – gritou Barton. – Eliminemos ele e acabaremos com tudo isso! Os Chitauri irão atrás dele seja para qual planeta ele for e ficaremos livres. Entenderam a lógica? Logo Fury estará aqui para interroga-lo da forma que lhe convier e descobriremos esses segredos que ele tanto guarda e que está nos prejudicando.
Natasha cruzou os braços. – Eu acho que Clint está com a razão, em parte, pelo menos. Tony, você precisa falar com a imprensa sobre Hulk, para acalmar a cidade. Você precisa garantir que essa outra invasão alienígena não é culpa do Hulk e que estamos investigando todas as possibilidades.
Stark deu um soluço e, um pouco zonzo, sentou-se numa poltrona. – Eu vou pensar no meu discurso... Hic.
-Você está bêbado! – disse Steve com desgosto. – Está sempre bêbado. Precisa estar sóbrio ao falar com os jornalistas, consegue isso?
Thor deu uma risada sarcástica. – Vocês mortais são tão fracos e patéticos. Ninguém acreditará em um homem que nem consegue firmar os pés. Se meu irmão está melhor, devo retirá-lo dessa Torre e leva-lo a um lugar seguro, sob minha supervisão.
-Loki ficará aqui! – disse Tony com certa firmeza. – Não se passou as 48 horas de observação. Ele pode ter recaídas.
-Disso você entende bem, não é mesmo? - disse Sif com braços cruzados.
-Nem mesmo a besta verde esta por aqui, na forma de Banner, - falou Thor. – Nem ele está mais do seu lado! Do lado de vocês! Entreguem Loki agora!
-Mas para onde vai leva-lo? – perguntou Natasha. – Conseguiram acesso para Asgard?
-Não sei ainda, - confessou o asgardiano. – Mas aqui é perigoso para ele.
-Thor, lá fora é muito mais. – disse a espiã. – Estão caçando Loki e quanto mais protetores ele tiver, melhor. Temos sensores de proteção em toda Torre, ninguém entra sem permissão. Mesmo com algumas restrições de contato, e você sabe o motivo, estará supervisionando seu irmão também. Seria um trabalho em equipe, por assim dizer. - E ela se aproximou de Thor, colocando sua mão no braço dele. – Todos nós estamos protegendo seu irmão, como você. Não sei o destino final dele, se é aqui, ou em Asgard, ou qualquer lugar que seja, mas agora, o ideal é protegê-lo. Você entende?
O guerreiro respirou fundo e balançou a cabeça em aceitação. Sif bufou sonoramente.
-Tudo bem, Lady Natasha. Esperarei as ditas 48 horas de recuperação total. Após isso, vou requerer audiência com meu irmão. Quero vê-lo.
-Acho razoável, mas será monitorado. – Avisou ela. – Você poderá perguntar a Jarvis sobre Loki a qualquer momento, o que ele faz, se está comendo, dormindo. O que quiser. Um monitoramento remoto.
Thor entendeu e assentiu. – Tudo bem. Jarvis, o que faz Loki agora?
-Senhor, ele está sentado em sua cama.
-Fazendo o que?
-Apenas sentado, senhor.
Todos se entreolharam. Natasha pigarreou. – Estará tentando se restabelecer. Após eventos traumáticos, alguns preferem ficar imóveis para a mente se acalmar.
-Ou tramando algo contra alguém, - sussurrou Sif próximo a Fandral.
Então todos se dispersaram, indo cada qual a seus aposentos. Steve, a muito custo, foi direto ao seu repousar. O desejo dele era ficar com Loki, o que foi impedido por Natasha. – Deixe-o a sós. Por ele. Ele precisa disso, Steve. Eu vou também descansar. Jarvis avisará se qualquer coisa acontecer.
Tony permaneceu em seu escritório e, se vendo a sós, tratou de deitar no grande sofá e se aconchegar. Esse sofá é mesmo macio, ainda pensou antes de dormir.
~o ~
Loki olhava, imóvel, a parede cinza a sua frente. Ele estava sentado na cama naquela posição havia mais de meia hora e sua respiração estava um pouco ofegante. Ele torceu as mãos um pouco e, num átimo, socou o colchão com muita força. Depois socou novamente, em sucessivos golpes, até se cansar. Ele se levantou e foi andando de um lado para outro do quarto. – Jarvis?
-Sim, senhor.
-Eles estão vindo?
-Não, senhor. Mas como ordenado, eu avisarei quando estiverem nesse andar.
Loki sacudiu a cabeça e retornou a caminhada pelo ambiente, andando a esmo até se deparar com a grande janela. Fora naquele mesmo lugar que Fandral o assediara. Ainda podia se lembrar das palavras horríveis dele. Ele tocou no vidro e começou a soca-lo também até suas mãos doerem muito. – Jarvis? – perguntou arfando.
-Sim, senhor.
-Eles estão vindo agora?
-Não, senhor. Mas como...
-Oh, cale-se! – Disse asperamente e foi até a cama, sentando-se nela. Como ele era imundo. E fraco. Qualquer um poderia entrar ali e fazer o que quisesse com ele. Aquelas malditas pulseiras...! Fandral poderia entrar novamente. E terminar o que havia começado. Thor poderia visita-lo. Thor...
Loki levantou-se novamente e socou a escrivaninha ao lado da cama, a partindo em dois. Socou novamente e ela foi ao chão com grande estrondo. – Jarvis?
-Sim, senhor.
-Me avise quando eles começarem a vir pra cá. Antes do elevador.
-Senhor, posso avisar quando qualquer pessoa digitar o número desse andar. Antes, é impossível. Não consigo ler mentes.
Loki suspirou e se abraçou, numa tentativa de se proteger. Eles podem vir a qualquer momento. Fique alerta. Rogers poderia protege-lo, talvez, mas quem deteria Thor? Só Hulk. Mas ele não viu Banner na enfermaria. Ele deve ter ido embora. Era sensato, afinal das contas.
Ele se olhou, ainda pasmo com sua cura. "Mamãe...". Ela sabia de tudo, então? Do que o filho herdeiro estava fazendo com ele? Frigga havia lido a mente dele, junto a Freya, deve ter visto tudo naquela época. Tudo. Loki respirou fundo e engoliu um choro que queria sair. "Não sou fraco", pensou. "Não devo ser".
Quando Gamora virá com sua ajuda? Por que demorava tanto? Será que estava bem, ou Thanos a havia capturado de novo? Loki fez uma careta de horror.
O rapaz se encaminhou para o banheiro e lá retirou toda sua roupa, indo para o chuveiro. Ele deixou a água morna deslizar pelo seu corpo e começou a esfregar um sabonete em sua pele com força até ela perder a sua brancura e ficar avermelhada. –Jarvis? Eles estão vindo? – perguntou em voz trêmula.
-Não, senhor.
Deveria se secar e se vestir o mais depressa possível. Eles poderiam vir a qualquer momento e ele deveria estar vestido. Sua mente de novo lançou Fandral, ele poderia aparecer sozinho. Loki queria tanto uma arma! Uma faca, talvez. "Se eu fosse até a cozinha...". Uma faca seria o suficiente, ele feriria o máximo possível seu opositor. "Uma faca grande faria mais estrago".
-Jarvis, tem alguém na cozinha?
-Somente o senhor Volstagg.
Volstagg era seguro.
Era mesmo?
Loki deveria arriscar. Senão não teria sua arma. Uma faca grande. Para um grande estrago. Será que o guerreiro o denunciaria? "Deve estar comendo, como sempre." Após se arrumar, logo se dirigiu pelo elevador até o andar das refeições. – Jarvis? Ele continua sozinho?
-Sim, senhor.
Quando Loki adentrou o ambiente, viu Volstagg sentado a mesa comendo alguma coisa sem muito entusiasmo e com olhar perdido. Ele logo se virou para ver quem lhe fazia companhia. – Loki!
-Volstagg, - respondeu o rapaz indiferente indo rapidamente para o local onde vira talheres em outra vez.
-Thor sabe que está aqui?
-Não sabe e nem saberá. Conto com você. – E ele foi remexendo as gavetas com as coleções de prataria de Stark. Logo viu uma bela faca afiada e grande para carnes. Aproveitou para olhar se havia mais algo de útil. – Já retornarei ao meu quarto.
-Loki, você deve me escutar, - ele disse ficando mais próximo do rapaz. – Fandral nunca faria nada contra você, tudo isso é muito estranho!
O príncipe se voltou contra ele com sua faca. – Não se aproxime mais! Não hesitarei em usá-la. Eu não confio mais em vocês, guerreiros asgardiano imundos!
-Você sabe que posso toma-la facilmente de você, - disse o outro se mantendo distante. – Mas não quero isso, não quero ameaça-lo. Loki, me escute, algo está acontecendo, deve ser alguma magia.
-Magia?
-Sim! Fandral diz que não se lembra de nada, ele mesmo acha absurdo ter feito algo contra você. Ele sempre lhe foi simpático.
Loki observou com cuidado o guerreiro a sua frente. Volstagg sempre o tratara bem. Fandral também era assim, até o ocorrido. – Eu preciso voltar ao meu quarto.
-Loki...!
Um barulho metálico soou pelo ambiente. – Senhor Loki. Thor e Fandral estão chegando a esse andar.
O rapaz olhou para Volstagg como se implorasse. – Eu preciso me esconder.
-Vá para o armário da dispensa. Vou ver se os tiro daqui.
Loki fez um gesto mínimo com a cabeça e correu para o armário. O barulho do elevador se abrindo se ouviu e logo as ruidosas vozes dos guerreiros encheram o ambiente. – Amigo Volstagg, que bom que o achamos. – Era a voz de Thor.
-Estava comendo algo e confesso que estou entediado. Poderíamos ir para o andar de treinamento deles. Uma luta para aquecer os ânimos, que acham?
Fandral foi até a geladeira ignorando a sugestão. – Estou com fome. Quero comer algo quente. Nossa, essa geladeira está abastecida, que maravilha!
-A encomenda de Stark deve ter vindo, finalmente, - Thor foi até a mesa e se sentou. – Estão impedindo que eu veja meu irmão. Eu odeio diplomacia, eu deveria esmaga-los por ser oporem a mim. Como ousam? Eu sou o príncipe herdeiro de Asgard e futuro líder dos nove reinos. São tão ignorantes que nem sabem o que isso significa...
-Vamos discutir isso enquanto treinamos? – pediu novamente Volstagg.
-Pode indo, amigo, - respondeu o príncipe. – Vou ficar aqui com Fandral comendo algo.
-Acho que vou esperar com vocês, - e ele se sentou torcendo as mãos.
Fandral foi até eles com pão italiano, queijos e frios. – Está nervoso, Volstagg?
-Um pouco apreensivo. Loki está bem, então?
Thor batia devagar na mesa com seu punho fechado. – Sim, está bem, amigo Volstagg. Ele se curou perfeitamente. Jotuns são assim?
-Ou os elfos, Thor, - completou Fandral colocando um pedaço de pão na boca. – Loki sempre foi difícil e imprevisível. Agora sabemos por que.
-Lembrem que ele também não sabia e deve ter ficado por anos se sentindo diferente, - disse Volstagg pegando um pedaço de queijo. – Ou mesmo inferior.
Thor franziu a testa. – Tem razão, amigo. Eu não tinha pensando dessa forma. Sempre se exigiu dele o padrão asgardiano, algo que ele nunca atingirá, e não por culpa dele.
-Bom rever expectativas então. Deveriam entender a natureza élfica e jotun para compreender seu irmão. Eu já disse isso pra você, Thor.
Fandral olhou de um para outro e retornou a comer. – Eu não entendo nada disso, nada de elfos frescos ou das bestas azuis. E Loki não se parece nem com um nem com outro.
Ficaram um tempo assim até que terminaram o estoque de frios da geladeira. Após isso, Volstagg tentou novamente chama-los para o andar de treinamentos.
-Estou com a barriga cheia! – reclamou Fandral.
-Talvez fosse melhor mesmo ir até lá, - disse Thor se erguendo. – Vamos todos, senão ficaremos gordos e lentos. E quero espairecer a cabeça sobre esse assunto do meu irmão e pensar num jeito de chegar até ele.
Quando o andar ficou vazio, Loki saiu devagar, olhando por todos os lados. Viu a mesa cheia de farelos e restos de comida. – Porcos. – Sua faca estava encostada em seu corpo e ele podia ouvir sua respiração pesada. – Eles se foram mesmo... Jarvis?
-Sim, senhor.
-É seguro ir de elevador agora?
-Sim, ele encontra-se em perfeitas condições.
Loki rolou os olhos. -Foi Stark que projetou você?
-Nos mínimos detalhes, senhor.
Loki apertou o botão do elevador para chamá-lo e aguardou por um momento. Ao ouvir o seu sinal de abertura, as portas se abrem, revelando uma companhia indesejada. – Loki?
Droga. E ele apertou a faca que estava embaixo de sua roupa. – Sif, - rosnou.
Ela avançou para o espaço pessoal dele e Loki recuou com pressa. – Saia da minha frente, Sif.
-Como ousa, Loki, como ousa sobreviver? Que maldição é essa que possui, é seu sangue jotun? Dos gigantes do gelo? – O olhar dela chamuscava ódio.
-Eu vou sobreviver para ver sua humilhação pública, Sif. Esse dia chegará e aí, sim, eu poderei morrer tranquilo. Até lá, sofrerá com minha presença. Sofrerá muito.
Ela olhou fixamente para ele e depois deu uma gargalhada. – Sofrer? Eu? Será você, Loki. Atraindo machos para si, não é mesmo? Será que eles acham que você não passa de uma puta imunda, que pode ser usado quando bem entendem? Quem será o próximo? O Stark? O Rogers? A besta verde, que combinará bem com a besta azul que é? Para quem você abrirá as pernas, Loki?
-Você é tão suja dizendo essas coisas, - disse Loki horrorizado e com ódio. – É praticamente uma princesa, como se rebaixa tanto dizendo imundícies? Será a futura rainha de Asgard e é tão baixa!
Sif olhou com espanto para ele e se recompôs. – Eu só estou dizendo a verdade. Está seduzindo pessoas importantes de Asgard, o príncipe herdeiro, um guerreiro de alta patente, quem será o próximo? Eu só estou preocupada com Asgard...
Loki deu um sorriso mau. – Não seduzo ninguém, e é essa a sua preocupação. Basta eu estalar os dedos que eu o faço desistir de tudo e ficar comigo. Você sabe disso. Quem sabe eu não decida fazer exatamente isso. E aí, minha cara Sif, será rainha de nada.
-Será caçado e morto, esse será seu destino! Como é agora! – gritava ela. – Ele nunca será seu, Loki, nunca!
Ele balançou a cabeça e foi até o elevador, apertando o botão para chamá-lo novamente. – Eu nunca quis, Sif. Pare de delírios.
Ela foi até ele e desferiu um golpe contra Loki, que desviou rapidamente e foi para o lado oposto, longe do elevador. Droga.
-Lute como um homem, se é que é um!
-Eu sou jotun, não te disseram?
Sif partiu para cima dele novamente, que desviou, sem antes dar uma rasteira nela com violência. A guerreira caiu ao chão e o príncipe aproveitou o momento e colocou sua bota em cima do pescoço dela com força. – Se forçar vai quebra-lo.
Ela se debateu, enraivecida por ser pega de surpresa, enquanto Loki retirou a faca escondida. Apontou o objeto para ela enquanto pensava. Deu um sorriso mau e aproximou a faca perto da guerreira. – Vai ficar linda, Sif. – E agarrou o rabo de cavalo dela e, rapidamente, começou a cortar seus cabelos bem próximo da base.
-Não, Loki! Não, Loki, maldito! Maldito!
Ele terminou o serviço rapidamente e jogou o rabo de cavalo próximo a ela. – Uma mulher de cabelos curtos... Vai parecer uma sacerdotisa. – E tirou os pés dela assim que o elevador abriu suas portas. Loki entrou por ele rapidamente ouvindo os gritos da guerreira ao longe.
Em seu quarto, ele escondeu a faca embaixo do travesseiro e ficou exultante. – Em breve Thor virá aqui raivoso, mas não me importo mais. Não serei mais capacho deles, e de ninguém. – Ele se olhou novamente, sua pele imaculada e sentiu uma força interna que havia muito tempo não sentia. Obrigado, mamãe.
~o ~
Barton adentrou o escritório de Stark acompanhado de Fury e do agente Coulson. – Stark.
Tony estava deitado no sofá com olhos fechados cantarolando alguma canção desconhecida. – Estou ocupado, Clint. Fale com minha secretária e marque horário.
-Está bêbado de novo? – questionou Fury cheirando o ambiente.
-Não de novo, o truque é nunca ficar sóbrio, - e ele deu uma piscada.
Coulson balançou a cabeça. – Precisamos falar com Loki. Agora.
Stark se levantou do sofá com alguma dificuldade. – Ele acabou de sair de um estado quase vegetativo, e vocês já querem entrevista-lo.
-Clint nos disse que ele está praticamente cem por cento, que nunca viu uma recuperação tão rápida.
Barton assentiu. – Ele está pronto para nos dizer algumas informações sobre as criaturas e sobre os motivos dele estar curando algumas pessoas.
-É obrigatório que ele nos diga, senão tomaremos medidas drásticas, - disse Fury. – Mostre-nos onde ele se encontra.
Tony suspirou. Que alternativas tinha, agora? Eles tinham razão, Loki precisava ajuda-los sobre o que estava acontecendo. "Só espero que não pense nisso como uma traição". Ele acompanhou os três até o andar do príncipe, mas antes pedindo para Jarvis anunciar a ida da comitiva. – Não quero que seja pego de surpresa, vai que está dançando nu pelo quarto.
-Stark, também queremos falar com Banner, - disse Fury. – Onde ele está?
-Oh, ele não me disse sua agenda. Vai ter que falar com o empresário dele.
-Stark!
Tony fingiu contrariedade. – Tudo bem, tudo bem. Jarvis, onde está nosso querido Banner? Quebrando algumas coisas por aí?
-Senhor, ele se encontra no laboratório com alguns da equipe.
-Viram? Fazendo o trabalho que lhe cabe, experimentos, clonagens, armas biológicas e químicas...
Chegando ao andar, eles vão direto para o quarto de Loki, onde o encontraram muito quieto sentado em sua cama. Como se tivesse em alerta.
-Loki? – perguntou Tony se aproximando com cuidado. – Conhece o diretor Nick Fury e o agente Phill Coulson. Eles precisam falar com você sobre o que está acontecendo.
O rapaz permaneceu quieto, apenas olhando para o engenheiro com olhar cheio de acusação.
-É melhor cooperar, Loki, - disse Clint, - senão será acusado de alta traição e cumplicidade com os Chitauri.
Naquele momento a porta se abriu, adentrando o capitão rapidamente. – Por que vocês estão aqui? Jarvis me alertou sobre essa... Invasão!
-Calma, capitão – disse Tony. - Eles estão apenas o interrogando sobre os acontecimentos recentes.
Natasha também entrou no ambiente verificando o que estava acontecendo. Steve vai direto para Loki, ficando ao lado dele. O rapaz o observou com espanto. – Loki acabou de sair de um momento delicado, como podem força-lo a dizer algo ainda hoje? Eu sugiro fortemente que o deixem em paz por uns dias. Para que ele se recupere plenamente e que possa nos ajudar. Pois creio, sim, eu creio que Loki estará disposto a fazer tudo que for melhor para ele e para nós, como estava fazendo antes de nós interceptá-lo naquele hospital.
-Não temos tempo, capitão, - disse Fury bufando. – Estamos com uma quase guerra civil lá fora, o número de pessoas está aumentando em protesto contra a Torre dos Vingadores. E estão culpando o governo, também. Nosso grande Anthony Stark, em vez de ir até a imprensa se pronunciar, prefere encher a cara infinitamente. Assim, não temos nada para oferecer a multidão, nada.
-O prefeito se pronunciou faz uma hora, - informou Phil. – Ele está do lado do povo e quer, também, respostas. Está tentando marcar uma reunião com Stark sem sucesso.
-Já disse, só marcar com minha secretária, - disse Tony indiferente.
-Se soubermos algo de concreto contra essas criaturas, podemos dar andamento as investigações e combatê-las.
Steve abaixou a cabeça, pensativo. E Loki sentiu que não havia outro jeito digno de se resolver as coisas. – Tudo bem. O que querem saber?
Um barulho metálico foi ouvido por todos. – Senhor.
-O que acontece, Jarvis? – perguntou Tony.
-Há confusão no andar da cozinha. Senhora Sif e senhor Thor estão discutindo e estão pedindo para vir para este andar.
-Negativo. Que façam DR nos aposentos deles.
-Senhor, eles acusam Loki de cortar os cabelos da senhora Sif.
Tony virou-se para Loki e deu um sorriso mínimo. –Deve ser uma estória interessante. Tem vídeos, Jarvis?
-Stark! – interrompeu Steve aborrecido. – Temos coisas importantes a resolver agora e liberar Loki para o repouso depois. E creio que devemos fazer isso na biblioteca, um ambiente mais apropriado, não aqui no quarto dele. E depois ver sobre Sif e essa confusão toda.
-Senhor,- tornou Jarvis, - Thor quer invadir esse andar. Ele está usando o martelo.
Stark pôs as mãos no rosto. – Eu não sei o que fiz para merecer Thor na minha vida. Tá, eu sei o que fiz, mas pensei que o inferno fosse depois da morte.
Natasha suspirou. – Posso ir até lá e tentar resolver ou amenizar a situação. – E ela se retirou.
Loki ergueu-se e foi até a janela. – Ela me provocou. Pode ver em seus "vídeos". Eu não vou mais tolerar ofensas a minha pessoa. Sou um príncipe, senão de Asgard legitimamente, mas de Alfheim e Jotunheim.
-E eles o abandonaram, segundo relato de Thor,- disse Coulson com ar satisfeito. – Odin o recolheu como sinal de piedade.
O rapaz sorriu sem vida e suspirou, tomando coragem. – Ele não me adotou, agente - falou com dificuldade.
-Como assim, Loki? – perguntou Steve confuso. – Ele não adotou legalmente, é isso?
-Ele me roubou, capitão, durante a guerra. Odin roubou-me dos meus pais.
Oh, merda...
~o ~
