Capítulo Catorze
Help From The Headmaster
(Ajuda do Diretor)
— Entre. — Draco girou a maçaneta e entrou no escritório. Severus, que estava atrás de sua mesa, pareceu surpreso ao vê-lo, mas abaixou a pena e fez um gesto para que se sentasse. — Como posso ajudá-lo, senhor Malfoy? — Draco foi pego de surpresa pelo uso de seu sobrenome.
— Eu só... preciso de conselho. Se não tiver problema? Eu não sabia quem procurar; e eu sei que você é o Chefe da Sonserina, então provavelmente quer que eu seja amigo dos Sonserinos, mas... — Draco mordeu a língua e contou até cinco, mas sua voz ainda falhou quando voltou a falar. — Não sei o que fazer. — A expressão e o comportamento de Severus não mudaram, então Draco adicionou com desprezo: — Professor.
— Eu te ofendi? — perguntou Severus, curvando os lábios. Ele parecia se sentir divertido, e Draco o olhou feio.
— Você não deveria rir de mim.
— Peço desculpas — disse Severus, olhando-o intensamente. — Você é o Draco para mim, mas também é meu aluno, e eu me esqueço qual...
— Em duas semanas? — perguntou Draco, incrédulo. — Com uma memória como a sua? Eu me desculpo, senhor, mas isso é...
— Ridículo — disse Severus, sorrindo. — Sim, é. Muito bem observado. — Draco piscou e voltou a olhá-lo com uma carranca.
— Não estou aqui para esses joguinhos mentais — disse com raiva. Notou um envelope endereçado a Severus com a letra do pai. A pequena pilha de excremento de coruja ao lado do envelope estava seca, mas obviamente não estivera ali àquela manhã ou os elfos teriam limpado. Não era difícil de adivinhar sobre o que o pai estava escrevendo, depois de Draco ter deixado Hydrus falando sozinho no dia anterior. Talvez eles quisessem que Severus fizesse Draco "ver a razão", ou talvez estivessem avisando-o de que Draco era um traidor de sangue. O medo passou por seus ombros e invadiu seu peito.
— Certamente espero que não tenha vindo aqui para choramingar sobre como sua vida é injusta.
— A vida não é justa — retorquiu e podia jurar ter visto um brilho de aprovação nos olhos de Severus.
— Como posso ajudá-lo, Draco? — perguntou ele, com mais sinceridade do que antes. Alívio o invadiu, e apontou para a carta.
— Eu... — Mas alguém bateu na porta e, antes que Severus pudesse respondeu, ela foi aberta. Dumbledore entrou, assobiando uma melodia alegre, e sorriu para os dois.
— Certos novamente — declarou ele, olhando para Draco com confusão. Então, falando com os dois, continuou: — Se algum dia precisarem encontrar alguém, podem simplesmente perguntar a Fred ou George Weasley. Eles têm um jeito único de saber onde as pessoas estão, a qualquer momento. — Severus parecia preferir beber os conteúdos gosmentos das jarras em suas prateleiras a pedir ajuda aos Weasley, mas Draco guardou a sugestão do diretor. — Acho que é uma inclinação dos desordeiros; lembro de outro grupo de garotos que também era muito bom em saber onde as pessoas estavam.
— Devia ter dito "delinquentes", não "desordeiros" — disse Severus com uma carranca. — O que quer?
— Me falaram que Draco estava nas masmorras — respondeu Dumbledore. — Naturalmente, assumi que ele estaria aqui. — Draco olhou para Severus, confuso, mas Severus inclinou a cabeça. Dumbledore olhou para a carta e, por um momento, Draco teve a impressão de que Dumbledore sabia o que estava escrito. Então, balançou a cabeça; isso era ridículo. Ainda que não o odiasse, como o pai odiava, Severus não teria Dumbledore como confidente. — Um Auror está aqui para falar sobre o incidente com a coruja ontem. Será que pode conversar com ele, Draco? O jovem Christopher indicou que quer ser deixado em paz.
— Acho que posso fazer isso — disse Draco, apesar de realmente não querer conversar com os Aurores. Olhou para Severus. — Você...
— Estarei aqui, no meu escritório, à tarde — disse Severus. — E, diretor, a poção foi entregue a quem deveria recebê-la. — Dumbledore assentiu, parecendo satisfeito. Severus encontrou os olhos de Draco, que assentiu; não deveria falar sobre isso.
— Obrigado, Severus. Vamos, Draco? — Draco olhou para a carta mais uma vez, antes de seguir Dumbledore. — Eu me desculpo por interromper o que devia ser uma conversa importante — continuou Dumbledore, sincero. Draco assentiu para mostrar que ouvira, mas não falou. — Como foi para você, Severus deixar de ser apenas seu padrinho e passar a ser, também, seu professor? — Por algum motivo, Draco não ficou surpreso por Dumbledore saber que Severus era seu padrinho.
— Não é tão diferente assim — respondeu, dando de ombros. — Ele ainda me trata do mesmo jeito... age do mesmo jeito.
— Ah, consistência — disse ele, sorrindo. Draco o olhou. — Severus, você deve ter percebido, é uma pessoa bastante consistente. É muito fácil supor o que ele falará ou fará a qualquer momento. — Draco assentiu. — Acho que sou assim, também; fácil de prever... Ou é o que gosto de pensar. — Draco achou concordar. Enquanto Severus normalmente respondia com sarcasmo ou perguntas mordazes, Dumbledore parecia responder com sorrisos e afirmações estranhas. — Não é algo fácil de se fazer. — Olhou para Draco, aparentemente esperando por algum tipo de comentário.
— Por que não? — perguntou e Dumbledore sorriu (Draco preciso esconder sua expressão confusa), antes de continuar a falar com um floreio de mão.
— Digamos que alguém gosta de vermelho — disse, fazendo Draco piscar, confuso. — Essa pessoa usa roupas vermelhas, tem objetos vermelhos, dorme em uma cama com lençóis vermelhos... e, graças à consistência, podemos confiar que ela sempre fará isso. Mas, aí, outra pessoa, um amigo, talvez, gosta de verde. Para ela, o vermelho pode ser ofensivo. E, assim, apesar de não ser culpa da pessoa que gosta de vermelho, elas vão sempre discutir.
— Podem chegar a um meio-termo — disse Draco, completamente confuso. — Talvez possa usar verde às vezes, e a que gosta de verde possa usar vermelho...
— Mas nenhuma delas realmente quer isso — disse Dumbledore gentilmente.
— Talvez elas possam usar calças vermelhas e blusas verdes, então — respondeu Draco.
— Caro menino, eu me considero excêntrico com meu gosto por vestes, mas nem mesmo eu aconselharia tal mistura... a não ser que seja natal. — Os olhos de Dumbledore brilharam e, então, ele suspirou, parecendo (pela primeira vez) velho e cansado sob a fraca luz das masmorras. — É impossível agradar a todos. Você ainda é jovem e pode ser perdoado por ainda não saber disso, mas confie nesse velho bruxo quando ele diz que é verdade. É melhor para nosso bruxo hipotético usar vermelho se é o que o faz feliz e que ele seja consistente nisso. Se ele usar verde ocasionalmente ou, como você sugeriu, use essa combinação ousada, então o bruxo verde será magoado sempre que o vermelho reaparecer. Se o bruxo vermelho for consistente em ser vermelho, então o bruxo verde passará a esperar por isso.
— Mas o bruxo verde pode não querer ser um amigo depois...
— O bruxo verde e o bruxo vermelho deveriam reconhecer suas diferenças e aceitá-las. Não deveriam condenar o outro por não concordar com suas opiniões.
— Certo — respondeu, ainda confuso. Supôs que fazia sentido. Dumbledore só tinha um jeito estranho.
— Posso lhe contar um segredo sobre opiniões?
— Certo — repetiu, hesitante. Dumbledore parou de andar e se virou para olhar para Draco, a meio caminho das escadas que levavam ao Saguão de Entrada.
— Todos têm uma opinião diferente. E todo mundo está errado.
— Algumas pessoas podem estar certas — disse Draco na mesma hora.
— Ah, mas quem determina o que é "certo"... Eu sempre achei ser uma questão de opinião. — Dumbledore piscou e Draco sentiu um sorriso pequeno e divertido aparecer em seu rosto. — A sociedade tem algumas ideias do que pode ser certo e justo, mas sempre achei que essas ideias divergem demais umas das outras. Podemos fazer apenas o que nós achamos ser certo e justo, mesmo quando enfrentamos o que achamos ser injusto e errado. — Draco se viu esfregando a cicatriz na palma de sua mão. Dumbledore colocou uma mão no ombro de Draco e o apertou gentilmente. — Sua opinião é sua, Draco — disse, voltando a subir as escadas. Draco o seguiu. — E lembre-se dos bruxos vermelho e verde. — Com isso, abriu a porta e guiou o caminho até o saguão, onde Potter e Black conversavam.
— ... ficando atrasado. — Ouviu Black dizer a Potter. — Morton não está disposto, então preciso esperar que Dumbledore encontre... — Os dois ergueram os olhos; Black meio segundo antes de Potter. — Excelente — disse, parecendo aliviado. — Eu vou sair logo — prometeu a Potter, que assentiu e foi para os jardins. — Draco — disse Black, e Draco ficou aliviado por ser ele. — Obrigado por concordar em falar comigo. — Draco deu de ombros. — Obrigado por encontrá-lo — adicionou. Draco ficou um pouco surpreso com a falta de "senhor" ou "professor", ou até "diretor", mas então se lembrou do julgamento. Black era claramente capaz de trabalhar com Dumbledore, mas era diferente da relação implícita que tiveram durante a guerra. Mas Dumbledore não pareceu se importar ou, pelo menos, não demonstrou.
— É aqui que eu o deixo, Draco — disse o diretor. — Obrigado por sua companhia.
Draco abriu a boca para lembrar que Dumbledore não lhe dera uma escolha, mas o bruxo mais velho já tinha ido embora.
— Se importa se fizermos isso no Salão? — perguntou Black.
— Não — respondeu Draco, mais uma vez dando de ombros.
Black assentiu, aparentemente satisfeito, e disse:
— Gostaria de ver onde todos estavam quando aconteceu, se possível.
— Tenho uma boa memória — contou Draco.
— Espero que sim — respondeu Black, sorrindo. Draco sorriu de volta.
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— O que, em nome de Merlin, é isso? — perguntou Harry, boquiaberto. Padfoot sorriu para ele e continuou a ir para frente, para que Harry pudesse ficar mais perto das vassouras nas mãos de seu padrinho. Na mão direita de Padfoot estava uma Nimbus 1700 e, na esquerda, não estava a Galaxy de Harry, mas uma Nimbus 2000 lustrosa e brilhante.
— Sua nova vassoura — respondeu Padfoot, arrogante. — Não pode jogar na sua Galaxy...
— Eu ia usar uma das vassouras da escola ou pedir emprestada a sua ou a de Moo...
— E a professora McGonagall deixou bastante claro que se eu não comprasse uma Nimbus para você, ela compraria.
— Mas...
— "Obrigado" é a palavra que está procurando, garoto — disse Padfoot com um sorriso. Harry apenas olhou de seu padrinho para a vassoura. — É um presente de natal bastante adiantado — continuou ele —, então não espere muito quando dezembro chegar. — Isso chamou a atenção de Harry.
— É bastante justo — conseguiu dizer. — Eu provavelmente não preciso de nada quando fizer doze anos, tam... — Padfoot balançou uma mão.
— Experimente — disse, sorrindo. Harry se jogou para frente, não para pegar a vassoura, mas para passar os braços ao redor de Padfoot.
— Obrigado! — disse, abraçando-o o mais apertado possível.
— Cuidado, garoto, não consigo respirar — brincou Padfoot e soltou as vassouras para que pudesse bagunçar o cabelo de Harry. Então, num movimento rápido, que provavelmente aprendera no DELM, ele se soltou de Harry (com mais cuidado que teria se fosse um ataque de verdade), pegou a própria Nimbus e saiu voando. — Me pegue se conseguir — desafiou.
— Suba — disse Harry (era um processo importante com qualquer vassoura que fosse ser montada pela primeira vez) e a Nimbus pulou para sua mão. Harry perdeu um momento admirando a madeira brilhante, antes de passar uma perna por cima dela e dar impulso com a outra. A aceleração era muito maior do que Harry estava acostumado, e também muito mais suave; sua Galaxy não tinha muitos feitiços de estabilidade, porque era uma vassoura de manobras, e os feitiços das vassouras da escola provavelmente tinham perdido seu efeito durante o tempo.
Padfoot soltou um assobio de apreciação e voou por cima das arquibancadas em seu caminho até o campo. Harry foi atrás dele.
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Draco esbarrou em Potter novamente no Saguão de Entrada, quando ia jantar. Tinha jogado uma partida de xadrez com Weasley depois de conversar com Black e, aí, ele, Longbottom e Granger tinham ido à biblioteca. Surpreendentemente, ficara por lá mais tempo do que Granger; ela tinha descido para jantar com Longbottom e, por isso, Draco estava sozinho.
Pelo menos, até Potter chegar, parecendo fustigado pelo vento. Os olhos de Draco foram direto para o belo objeto que descansava no ombro dele.
— É uma Nimbus Dois Mil? — quis saber. Potter corou num tom engraçado de vermelho (aparentemente envergonhado) e Draco se pegou pensando no bruxo vermelho. A história de Dumbledore estivera em sua mente durante a tarde toda. Talvez Dumbledore estivera se referindo a Potter? Ele estava usando o cachecol da Grifinória. Isso fazia de Draco o bruxo verde? Verde, como a Sonserina.
Mas Potter e eu não brigamos. Ele não liga se eu me sento com os Sonserinos.
Mas eles se importam, outra voz lembrou, os Sonserinos, quando eu me sento com os Grifinórios.
Será que isso fazia dele o bruxo vermelho? Draco não sabia se gostava dessa ideia.
— ... presente de natal adiantado, e parece que McGonagall disse... eu não pedi por ela, então...
— Um sim teria sido o bastante, Potter — ralhou e ele ficou em silêncio na mesma hora. Draco voltou a pensar no vermelho e no verde, e ficava cada vez mais convencido de que Dumbledore estivera falando dele. E também ficou cada vez mais irritado consigo mesmo e com o Diretor.
— Você está bem? — perguntou Potter, preocupado. — Parece um pouco...
— Um pouco o quê?
— Você pode voar nela às vezes — disse Potter. — Tecnicamente, alunos do primeiro ano não podem ter vassouras, mas eu divido...
— Eu não ligo para as vassouras — disse Draco, distraído.
— Padfoot fez perguntas demais? — adicionou Potter na mesma hora. — Ele...
— Você tem algum tipo de lista mental de coisas que podem me irritar? — perguntou Draco, atacando Potter como uma distração de seu entendimento nada agradável.
— Er... Prometo ler aquele dicionário? — disse Potter. Ele tinha uma expressão tão ansiosa em seu rosto, que Draco não conseguiu evitar o sorrisinho. — Usar palavras maiores e tudo o mais. — Draco riu antes que pudesse se impedir, e Potter pareceu aliviado. — Foi algo que eu...
— Não tem nada a ver com você, Potter — garantiu a ele, sentindo-se cansado de repente.
— Algo com que eu possa ajudar?
— Eu... eu não sei — respondeu. Potter, curiosamente, não insistiu. Ele ficou em silêncio, observando os alunos do primeiro ano da Sonserina passarem pelas portas das masmorras. Draco quase gemeu; eles eram as últimas pessoas de quem queria a companhia. — Você vai jantar? — perguntou a Potter.
— Só vou levar a vassoura lá pra cima. — Potter olhou de Draco para os Sonserinos e ajeitou os óculos. — Quer ir? Podemos descer juntos.
Vermelho ou verde?, perguntou-se Draco.
— Eu... gostaria... se você não se importar, isso...
— Certo — disse Potter com um sorriso fácil. Draco sentiu a própria boca se curva em resposta; virou-se e seguiu Potter pelas escadas.
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Padfoot devia ter ido embora cedo na segunda-feira de manhã, porque Harry não o viu no café da manhã. Moony também não estava lá, mas os elfos da escola teriam se garantido de alimentá-lo.
— 'Dia — disse Hermione quando Harry e Ron se sentaram. Draco já tinha se acomodado de frente para Hermione e colocava canela em sua torrada.
— 'Dia — murmurou Ron, servindo duas taças de suco de abóbora. Ron, Harry descobrira, não era uma pessoa matinal; ele costumava ser o último do dormitório a acordar (Harry ou Draco costumavam ser os primeiros), mas tinha uma habilidade incrível de funcionar apesar de ainda estar meio adormecido. Ele conseguia se vestir, conversar com Harry a caminho do Salão, e se servir, tudo sem estar completamente acordado. — Alguém mais quer uma?
— Se está oferecendo, Weasley, certamente — disse Draco. Perebas olhou de onde Ron o colocara na mesa e foi até Draco, que lhe ofereceu um pedaço de torrada.
— Você parece cansado — disse Hermione a Harry. Ele deu de ombros. Tinha passado um tempo com Moony e Padfoot depois do jantar, indo embora antes que Moony se transformasse. Mas não tinha voltado para os dormitórios; tinha ido à biblioteca, para começar a tradução de seu encantamento. Ficara lá até a meia-noite, mas não chegara nem perto de fazer tanto progresso quanto esperara e, cansado, voltara para a torre de Grifinória, tomando cuidado de evitar Filch e os professores.
— O que acham que vamos ver com Flitwick hoje? — perguntou. Tinham uma aula de História da Magia antes, mas era uma única aula, e Harry provavelmente dormiria. Até agora, Draco e Hermione eram os únicos que conseguiam ficar acordados durante as aulas de Binns. Como esperara, os olhos de Hermione brilharam na mesma hora.
— Movimento — respondeu ela. — Acho que o professor Flitwick mencionou que começaríamos essa semana.
A predição de Hermione se provou verdadeira — não que Harry tenha ficado surpreso — e, no começo da aula de Feitiços, Flitwick anunciou que aprenderiam a usar a magia para mover objetos. Cada um recebeu uma bola de gude e lhes foi dito para abrirem seus livros. Não era para voar, Flitwick avisou — ainda não estavam prontos para isso —, mas podiam usar qualquer um dos feitiços do livro para fazer a bola de gude se mover pela mesa. Ele queria ver o que eles conseguiam fazer.
Acabou sendo uma aula divertida. Harry, sem se preocupar em consultar seu livro, usou um Feitiço de Vento e ganhou dez pontos; Ventus era um feitiço que aprenderiam mais para o final do ano e ele o controlava como um aluno do segundo ano. Seamus, sentado atrás de Harry, tentou derreter sua bola de gude. Funcionou um pouco; ele conseguiu derreter a bola, mas também colocou fogo na mesa e perdeu cinco pontos por isso.
Harry olhou para seus amigos; Draco assoprava em sua bola de gude e parava antes que ela caísse da mesa, antes de assoprá-la para o outro lado, e Ron soltava fagulhas com sua varinha. A cada duas ou três fagulhas, ele acertava a bola, que se mexia um pouco. O rosto de Hermione estava enrugado em concentração e ela parecia ter feito dois eixos crescerem de sua bola de gude.
Ao saírem da aula de Feitiços e irem para o almoço, ela contou a Harry, tristemente, que estivera tentando fazer a bola crescer pernas e correr, mas que não tinha conseguido.
Depois do almoço, tiveram aula de Transfiguração, que tinha transcorrido sem problemas, Harry pensou; McGonagall tinha dado um fósforo para cada um deles no começo da aula e fez que, um a um, mostrassem a ela que conseguiam transformá-lo em uma agulha. Passaram o resto da aula estudando a teoria que precisariam para a aula de quinta-feira, quando tentariam transformar sal em açúcar. Ter lido um pouco a mais do que o pedido se fez valer; entendera o que ela dizia e ficou verdadeiramente desapontado por ter de esperar até quinta-feira para tentar colocar em prática.
Mas seu desapontamento sumiu quando passaram por Wood no caminho até a torre de Grifinória.
— Pronto para hoje, Potter?
— Definitivamente — respondeu Harry, sorrindo. Não achava ser um péssimo bruxo; era certamente mais inteligente do que Crabbe e Goyle (assim como as velas que flutuavam sobre as mesas no Salão Principal) e era mais consistente do que Ron. Mas a magia não lhe vinha tão naturalmente quanto a Hermione. Ele precisava se esforçar para entender as coisas e precisava praticar para fazer algo útil com as coisas que aprendia.
Mas voar... era quando Harry estava em seu elemento. Era algo que entendia instintivamente, algo em que era bom. Podia melhorar com o treino, certamente, mas mesmo sem treinar, sabia o que estava fazendo, sentia-se confortável, confiante.
— Bom; vamos te testar — avisou Wood. — Precisamos ver o que consegue fazer.
Harry mal podia esperar.
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— Desculpem o atraso — disse Remus, abrindo a porta. Os alunos do segundo ano já estavam sentados. Dente Verde (ou Sarah) e Traseiro Prateado (Ethan) pareciam tão doentes quanto ele se sentia. — Não estou em condições de ministrar uma aula animada hoje, infelizmente — disse. Cada passo doía e fazia sua cabeça latejar, mas conseguiu ir da porta da sala até sua mesa. Abriu a pasta e tirou uma pilha pequena de pergaminho. — Preparei algumas perguntas para vocês responderem; elas cobrem tudo o que aprendemos até agora e serão úteis para estudar para as provas. Tentei não as deixar muito chatas.
— Você vai corrigir? — Cho Chang, uma Corvinal do segundo ano, olhou-o com expectativa.
— Quando me sentir melhor, sim — garantiu Remus. — E, por causa disso, vocês terão uma semana para respondê-las. Mas não deveria demorar muito mais do que o tempo de aula, se vocês se concentrarem. Angus, Isobel, podem distribui-las?
— Está se sentindo mal? — perguntou Marietta, enquanto Angus lhe entregava uma folha de questões.
— Bastante — respondeu Remus, sentando-se em sua cadeira. Ficou aliviado por estar com os alunos da Lufa-Lufa e da Corvinal, e não com os alunos do segundo ano de Grifinória e Sonserina. Ou pior, os Grifinórios e Sonserinos do terceiro ano; uma tarde com Fred e George Weasley provavelmente o mataria. Esses alunos fariam várias perguntas, mas também conseguiam passar a aula sem brigarem ou explodir algo. — Não serei muito divertido hoje.
Remus tirou uma xícara lascada e um sache de chá de sua pasta e, também, um pacote pequeno de açúcar e uma poção para a dor. Sirius o enchera com a dose de sempre naquela manhã, mas Remus ainda estava dolorido. Alguns alunos da Corvinal o observaram preparar sua bebida com interesse, mas (como provavelmente era inevitável com os Corvinais) tinham se voltado a seu trabalho antes que Remus ficasse muito desconfortável.
Remus observou Dente Verde parecer alegre com seu mal-estar. Sabia que ela devia se sentir péssima, mas seus olhos estavam alertas e brilhantes, e ela estava inquieta em sua cadeira, como se quisesse poder voltar a ser um lobo. Ele a respeitava por sua habilidade de aceitar tanto sua condição, mas também não conseguia se impedir de condená-la pelo mesmo motivo; ela tinha o mesmo deleite doente por sua licantropia que seu "pai" Greyback tivera. Mas Traseiro Prateado... Remus o observou cuidadosamente e não conseguiu evitar sentir pena do menino; sua expressão ficava cada vez uma casada e triste com o passar do tempo, e Remus foi lembrado de si mesmo.
Mas Traseiro Prateado não tinha os amigos que Remus tivera, isso era claro. James e Sirius sempre arrumavam brigas com os Sonserinos no dia depois da lua cheia, na esperança de acabarem na Ala Hospitalar e que fosse Remus a levá-los até lá. Quando chegavam lá, Madame Pomfrey sempre servia uma xícara de chá a Remus e permitia que ele se deitasse, enquanto ela cuidava de James ou Sirius. Peter e quem mais ainda estivesse em pé depois da briga iria para a aula e os atualizaria depois.
Sim, Remus tinha sido bem cuidado nos seus dias como aluno. Traseiro Prateado, até onde Remus sabia, só ficava com Dente Verde, e ela estava perdida demais nas próprias lembranças e não parou para pensar nele. Remus pegou uma pena e a molhou na tinta.
Descanse, escreveu. Também teve uma noite cheia. Os dois alunos também recebiam a Mata-Cão de Snape, mas Remus duvidava que Dente Verde encostara na dela. Traseiro Prateado provavelmente bebera — Remus suspeitava que ele seguia regras, mesmo se não concordasse com elas —, mas mesmo com a poção, a transformação era dolorosa e a noite era longa. Queime isso, adicionou. Dobrou duas vezes e escreveu Traseiro Prateado na frente.
— Quem já fez a maior parte da tarefa? — perguntou Remus. Alguns alunos esticaram o pescoço para ver o progresso de seus colegas. — Ethan, você costuma acabar rápido. — Alguns Corvinais (Dylan e Elyse em particular) pareciam chateados por não terem sido escolhidos. — Guarde suas coisas. Preciso entregar um bilhete ao professor Snape — todos pareceram aliviados por não terem sido escolhidos — e não estou em condições de ir até as masmorras, infelizmente.
Traseiro Prateado fechou os olhos por um breve momento, provavelmente pensando que Remus estava sendo cruel, não gentil. Dente Verde só parecia irritada por Remus estar falando com um deles; o olhar que ela lhe dava era tão mortal quanto os dentes de Remus tinham sido há algumas horas.
Ethan pegou suas coisas da mesa e as guardou na mochila, antes de ir até a mesa do professor. Ele olhou para Remus com irritação, que deu lugar a surpresa e, depois, desconfiança quando Remus pressionou o bilhete em sua mão, mas ele era inteligente o bastante para não falar.
— Obrigado — disse Remus, educado, indicando a porta. Ethan deu um último olhar curioso para Remus (que o ouviu fungar algumas vezes) antes de sair da sala. Todos observavam a conversa; ninguém parecia desconfiar, além de Dente Verde, e Remus queria que continuasse assim. — Só mais vinte minutos, pessoal — disse, forçando um sorriso. — Tentem terminar as perguntas para não terem que se preocupar com elas depois.
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— A gente se vê amanhã à noite, Harry! — disse Angelina. Ele a vira pelo Salão Comunal e à mesa de Grifinória no Salão Principal, mas nunca tinham sido apresentados. Também conhecera Alicia Spinnet, que estava no mesmo ano que Fred e George, com Angelina, e conhecera Katie Bell, um ano a sua frente.
Harry acenou, apoiou a Nimbus no ombro e saiu do vestiário. Era uma noite fria, e Harry estava quase tentado a voar até o castelo, mas caminhou, achando que se dependesse de sua sorte, acabaria sendo visto por Filch e teria sua vassoura confiscada.
Todos estavam se acomodando no Salão Principal para o jantar; conseguia vê-los — funcionários e alunos — indo de um lado para o outro, escolhendo assentos, e fazendo várias outras coisas. Notou a cabeça brilhante de Ron ao lado da cabeça igualmente brilhante de Draco, e a cabeça cheia de cachos de Hermione, e sorriu. Não sabia o que tinha acontecido entre Draco e os outros Sonserinos, mas o Malfoy mais novo tinha passado os últimos dias perto de seus colegas de Casa. Harry estava feliz por ele ter mudado de ideia e ter parado de agir como um idiota, mas também estava preocupado; Hydrus podia infernizar a vida de Draco se quisesse, e Harry não queria ver isso acontecer.
— Será nosso segredinho até que estejamos prontos, certo? — Isso foi seguido por uma risadinha perturbadoramente conhecida e, apesar de não ter sido alta, era facilmente ouvida no Saguão de Entrada silencioso. Harry parou na mesma hora, os olhos nas escadas que levavam às masmorras.
— Tudo bem — concordou uma voz menos conhecida. Morton entrou em seu campo de visão, de costas para onde Harry tinha parado; ele falava.
— Bom. O elemento surpresa é importante nesse tipo de coisa, querido; acredite nisso. — A voz de quem falava ficou amargurada e Harry sorriu, satisfeito. — Mas tenho experiência nisso, agora, e acho que nós dois podemos conseguir o que queremos. — Franziu o cenho, não gostando de como isso soava.
— E providências pra mim, também, certo? — perguntou Morton.
— Certo, certo. Mas vamos começar pelo começo, e Black é nosso maior problema no momento. — Harry viu Morton assentir. Harry estremeceu e voltou a subir as escadas o mais silenciosamente possível, indo buscar seu espelho. Então, Morton se virou e o viu, assim como, infelizmente, sua companheira.
Continua.
N/T: Obrigada pelos comentários!
Para quem perguntou sobre o processo Animago: sim, depois de terminar de "inventar" o encantamento, o Harry precisa traduzir e só aí poderá se transformar. Ele tá quase terminando! ;)
Até semana que vem.
