Capítulo 14 – O começo do fim
[P.V.: RUBY]
Acordei e olhei ao redor. Eu estava em um lugar que nunca havia estado antes. Era escuro, cheirava a mofo, e eu podia ouvir uma goteira por perto pingando uma gota a cada dois segundos. Eu estava sozinha no que parecia ser uma cela, trancafiada. Lentamente, senti uma dor na minha nuca crescendo. Provavelmente onde me acertaram, pensei.
Com o tempo, me acostumei com a escuridão, e pude observar mais detalhes do local no qual eu estava confinada. As paredes eram de pedra, como uma antiga masmorra. O ar era frio e pútrido, como se o sol não pertencesse a qualquer lugar próximo daquele que eu me encontrava. Farejei por uns segundos e encontrei a fonte do cheiro pútrido: havia um cadáver extremamente decomposto no extremo da cela. Tudo o que eu podia ver eram ossos, identificar o gênero ou identidade do corpo seria impossível.
Suspirei e tentei enxergar para além das barras de ferro que me separavam da liberdade. Havia uma luz ao longe, mas nenhum sinal (ou cheiro) de alguma pessoa presente. Olhei para cima. Havia um tipo de alçapão bem no alto, a cerca de três metros de altura, também com barras de ferro.
Próximo do portão que me separava do mundo real, havia um copo de madeira com um líquido que parecia ser água. Cheirei algumas vezes para garantir, e vi que era realmente o líquido sagrado. Tomei em pequenos goles e devagar, deixando metade dele para trás. Tratei de esconder o restante em um ponto cego da cela, pois não sabia quando seria possível ter acesso à água novamente. Foi então que a dor de cabeça começou. Ressaca. Mas é claro. Eu podia me lembrar de poucas coisas do caminho até onde fui atingida, mas nada parecia muito inteligente, àquela altura. Principalmente se tratando de uma cidade como Storybrooke, em que o perigo estava sempre à solta. A questão era: por que eu? Por que agora?
Olhei ao redor novamente e comecei a calcular mentalmente se eu seria capaz de destruir as barras de ferro em forma de lobo. Como, aparentemente, eu estava sozinha, eu poderia tentar, sem problemas. Rapidamente me transformei e avancei contra as barras. O primeiro golpe me atingiu em cheio no pescoço, e eu choraminguei. Devia haver alguma proteção mágica ao redor das barras de ferro que me incapacitavam de quebra-las. Voltei à forma humana e pude sentir uma protuberância no local atingido. Provavelmente ficaria roxo, mas eu não ligava. Minha única preocupação no momento era sair dali.
Antes que eu pudesse pensar em alguma outra forma de escapar da minha prisão, ouvi passos distantes se aproximando do local. Minha audição apurada me dizia que eram duas pessoas. Ouvi os dois murmurando à distância, e deitei no chão, na posição em que eu havia acordado, fingindo ainda estar dormindo. Os passos se aproximaram, e ouvi um barulho no portão. Pouco tempo depois, os passos se distanciaram e cessaram. Olhei para onde a figura havia estado e vi um prato de comida com uma colher de plástico no chão. Meu estômago roncou. Rapidamente corri até a marmita e comi tudo, sem me importar com a quantidade ou qualidade. Eu mal havia terminado de mastigar a última colherada quando senti minha visão turva novamente.
Nota mental: averiguar a comida, antes de consumi-la.
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[P.V.: BRANCA]
Conferi o relógio mais uma vez. Era por volta de 12:10, e Regina e Emma estavam atrasadas. A comida estava começando a esfriar – eu havia cozinhado para todos. Henry estava sentado à mesa com David, conversando animadamente sobre um novo jogo de aventura que havia sido lançado, e eu sorri. Eles se davam muito bem, e pareciam duas crianças, às vezes. Mesmo assim, David ainda era maduro o suficiente pra lidar com situações delicadas. Foi assim que ele deu um jeito de nos proteger dos ataques da Rainha Má quando Emma nasceu, e, mesmo tendo sido atingido, conseguimos manda-la para outro reino através do guarda-roupa mágico que Gepeto havia feito.
Ele olhou pra mim enquanto sorria por alguma piada que Henry havia contado, e seus olhos emanavam ternura e amor. Eu não podia haver escolhido homem melhor pra ser o pai dos meus filhos que ele, por tudo o que havíamos passado juntos. Nós permanecemos apenas olhando um para o outro e sorrindo por alguns segundos, antes de ouvir batidas desesperadas na porta. Nos despertamos para a realidade junto com Henry, e rapidamente fui até a porta. Assim que abri, Emma e Regina correram para dentro, sem saber exatamente para onde ir ou o que fazer. Emma balbuciou coisas sem sentido ao mesmo tempo que Regina começou a narrar uma história em voz baixa. Eu não conseguia entender uma palavra do que ninguém dizia, até que David levantou e disse:
- SILÊNCIO! - Todo mundo paralisou e olhou para ele. – É... Ahem. – David limpou a garganta. – Um de cada vez, por favor. – Ele disse e sentou novamente à mesa. Emma começou, tentando conter sua emoção, quase totalmente sem sucesso.
- Então, a Ruby estava lá em casa... Quer dizer, na casa da Regina, e... – Ela enrubesceu. – Bom, de repente ela não estava mais lá, e...
- A verdade é que a gente não sabe pra onde ela foi. – Regina completou. – Não sabemos se ela simplesmente foi embora, mas já que ela não tá aqui, eu... – Ela começou a andar em círculos, pensativa. De repente, ela parou e olhou pra mim, suplicante. – Você sabe dela? Ela te avisou de alguma coisa?
- Er... Não, Regina. Infelizmente, não.
Regina suspirou e sentou no chão, desolada. Emma sentou ao seu lado, a abraçando. A preocupação começou a crescer dentro de mim.
- Se ela não está com vocês... Pra onde ela pode ter ido?
- Exatamente! É por isso que estamos aqui. – Regina disse. – Eu sei que tínhamos assuntos mais importantes pra tratar agora, mas... Ela é... Importante pra mim. – Regina olhou pra baixo e tentou impedir que uma lágrima escorresse sobre sua bochecha, sem sucesso. – Ela é muito importante pra mim. E eu sei que é pra você, também. – Ela disse, olhando pra mim. – O que podemos fazer? – De repente, Regina mudou completamente sua linguagem corporal. Ela parecia resoluta, decidida e inabalável. Eu admirava isso nela.
- Bom... Ela deixou algum bilhete? Algum recado, pista... Alguma coisa?
- Não. – Emma e Regina disseram, juntas.
- Certo. Ela foi raptada dentro de casa, ou saiu espontaneamente?
- Um dos meus casacos não está mais no lugar, então eu presumo que ela deve ter saído em algum momento.
- Certo. Bom, vocês já perguntaram à Vovó?
Regina e Emma se entreolharam ao mesmo tempo, confusas.
- Como foi que não pensamos nisso antes?! – Regina perguntou à Emma, que apenas sacudiu a cabeça, inconformada. Eu sorri.
Antes que pudesse falar, David já havia pegado o celular e estava ligando para ela. Esperamos ansiosamente, todos olhando pra ele com expectativa. Dentro de alguns segundos ele sacudiu a cabeça, indicando que, infelizmente, a Vovó não sabia do paradeiro de Ruby. Ouvi alguns suspiros frustrados, Emma e Regina estavam murmurando coisas que eu não consegui entender e David sentou exasperado à mesa.
- Bom... – Começou Henry. Todos olharam para ele ao mesmo tempo. – Nós podemos tentar um feitiço localizador. -Todos ficaram em silêncio por alguns segundos, absorvendo aquela informação.
- Isso é... Brilhante! Henry, você é demais. – Regina disse, abraçando-o forte. Henry sorriu timidamente, mas a abraçou de volta com o mesmo entusiasmo.
- Certo... Ótimo! Nós vamos precisar de algum objeto dela...
Saí em direção ao quarto à procura de sua famosa capa vermelha. Ela havia ficado comigo desde que a trouxemos de volta para casa, da floresta. Andei pelo quarto silenciosamente para não acordar o Neal que estava tirando uma soneca. Depois de poucos minutos, achei o que estava procurando. Sorri para mim mesma e voltei correndo para a sala, mostrando a capa para todos com um ar triunfante. Fui recebida com aplausos e enérgicas palavras de agradecimento. Rapidamente fiz um gesto de silêncio e murmurei "Shh! O Neal tá dormindo!", provocando risadas sutis nos participantes – e em mim mesma.
Emma estendeu o braço em minha direção, sinalizando para pegar a capa.
- Vocês vão e encontrem minha melhor amiga, por favor. Tenho que ficar com o Neal. - Entreguei-a sem cerimônias, e ela lançou o feitiço nela. Rapidamente a capa começou a se mover sozinha no ar, indo em direção à porta. Regina a abriu e todos correram atrás dela.
Tudo o que eu queria é que ela estivesse bem, e em segurança.
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[P.V.: REGINA]
Corremos por um tempo considerável atrás da capa, adentramos a floresta e continuamos correndo por cerca de dez minutos até entrarmos em uma clareira até então desconhecida. Paramos para olhar ao redor com cautela. A capa, então, voou rapidamente até onde havia uma silhueta deitada no chão bem ao centro. Cuidadosamente, como se alguém estivesse a manuseando, ela cobriu a estranha figura que estava no chão.
Andei devagar até lá, ignorando o braço de Emma segurando o meu, indicando que eu parasse. Quando cheguei a cerca de três metros da figura, meu coração se aqueceu e o alívio tomou conta de todo meu ser.
- É ela! – Gritei, e todos vieram correndo em nossa direção.
Me abaixei e chequei seus sinais vitais. Seu pulso era fraco, mas ela estava viva. Estava desacordada, talvez dopada, mas bem. David cuidadosamente pegou Ruby no colo e a levantou. Pude ver com a visão periférica que embaixo de onde ela estava deitada havia um pequeno bilhete dobrado. O peguei e abri, mas ele estava em branco. Ninguém mais havia reparado nisso, então apenas coloquei o papel dentro do bolso e nos teletransportei de volta para a casa de Branca.
David colocou Ruby na cama – ela aparentava ter uma febre. Mary Margaret prontamente colocou um pano úmido em sua testa e cobriu metade de seu corpo com uma coberta leve. Henry se prontificou para ficar "de guarda" ao lado dela, caso ela acordasse.
Fomos para a sala e nos sentamos à mesa. Parecíamos todos exaustos pela adrenalina e preocupação. Mary Margaret colocou uma garrafa de vinho na mesa e taças para todos. Olhei surpresa pra ela.
- O que?! Foi um dia estressante, tá legal?
- Ok... Eu nem disse nada. – Ambas sorrimos uma pra outra.
David serviu vinho para todos e brindamos pela missão bem-sucedida.
- O que será que ela tem? – Perguntei, depois de um tempo de silêncio.
- Não sei... Pode ser qualquer coisa, pode não ser nada. – Branca deu de ombros, e eu suspirei.
Emma pegou na minha mão e a apertou de forma reconfortante. Sorri para ela e percebi sua expressão se suavizar um pouco.
- Ela vai ficar bem, Regina. – David disse, sorrindo.
Meus olhos começaram a ficar úmidos pela emoção, e eu tomei um gole grande de vinho. Emma apertou minha mão mais forte, como se dissesse "tá tudo bem, tô aqui pra você". Limpei a garganta na tentativa de fazer com que o nó que estava nela desaparecesse magicamente.
- Bom, acho que vou pra casa então... Foi emoção demais pra um dia. Prometem que vão cuidar bem dela? – Meus olhos indicavam súplica.
- Claro, Regina. Não se preocupe. – Branca disse.
Fiz um sinal com a cabeça para que Emma viesse até um canto comigo, conversar.
- Então, eu estava pensando, e... Eu acho que... Queria ficar sozinha hoje. Tudo bem? – Mordi meu lábio, ansiosa com o que ela poderia pensar disso. Emma inicialmente franziu o cenho, mas sua expressão se suavizou rapidamente. - Tá tudo bem, Regina. Não se preocupe. Depois a gente conversa.
- Claro. E... Obrigada. – Eu sorri timidamente pra ela. – Por tudo. Por coisas que você nem imagina... E por ainda estar do meu lado.
Seu olhar indicou uma certa confusão e indignação.
- Por que eu não estaria, Regina?! – Respirei fundo, de olhos fechados.
- Porque... Ninguém nunca fica, de uma forma ou de outra. Quero dizer... Quase perdemos a Ruby hoje, e teve o Daniel, Robin, e eu só...
Emma me impediu de continuar falando, selando seus lábios nos meus gentilmente. Só então percebi o quanto meu corpo estava tenso. Relaxei os ombros e a abracei apertado. Permanecemos nessa posição por alguns minutos, apenas sentindo o corpo quente uma da outra e nossas respirações. O cheiro de Emma sempre me dava borboletas no estômago, e meu coração jamais batia devagar em sua presença.
- Hey... – Emma sussurrou em meu ouvido. – Eu te amo. Tô aqui pra você, e estamos nisso juntas. – Suspirei e a abracei mais apertado.
- Eu também, meu amor.
Nos separamos e nos olhamos nos olhos. Podia ver o brilho em seu olhar e rapidamente um sorriso se formando. Sorri de volta pra ela e selei nossos lábios em um beijo terno. Nos despedimos e me teletransportei de volta para a mansão.
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[P.V.: JANE]
- Você acha que vai funcionar? – Perguntei.
A pouca luminosidade era frequente em todo o local. Era como se fosse uma masmorra – totalmente desconhecida pelos habitantes de Storybrooke, recém-descoberta por mim, quase que por acidente. Não estava em nenhum mapa, nem mesmo o Gancho sabia desse lugar.
- Claro que vai. Você os viu, assim como eu. É uma questão de tempo até que a pessoa certa entenda o que aquilo significa.
- Será que ela vai...
- Ah, sim. A Regina não vai decifrar a mensagem, mas a Rainha Má vai. Pode apostar. E quando ela o fizer... Bom, você vai ver.
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[P.V.: REGINA]
Cheguei em casa após tamanha comoção. O que havíamos planejado resolver havia sido adiado por motivos óbvios – precisávamos antes de tudo entender o que havia acontecido com a Ruby, e quem havia causado aquilo. Era de suma importância saber quem eram os inimigos atuais. O fim da tarde espreitava através das nuvens que subiam no céu indicando uma possível chuva mais tarde. Um trovão ao longe confirmou minhas suspeitas.
Respirei fundo algumas vezes, olhando para o local que Ruby havia estado por último – a sala. Ainda estava tudo bagunçado, garrafas espalhadas, almofadas, sem mencionar a cozinha. Eu sei que toda magia tem seu preço, mas psicologicamente falando, eu simplesmente não estava com ânimo para arrumar nada naquele momento. Com um simples movimento da minha mão direita, reorganizei a sala e a cozinha. Olhei para as escadas e comecei a subi-las bem devagar. Parecia que meu corpo pesava uma tonelada.
Entrei no meu quarto e deitei. Imediatamente fui inundada pelo cheiro marcante de Emma no lençol e travesseiros. Puxei um mais para perto e o abracei apertado. Deus, eu a amava. Estava aliviada por ter Ruby de volta e por todos estarem bem. Sem muitas energias restantes, retirei minha roupa e a coloquei ao meu lado na cama. O pequeno papel que estava junto de Ruby caiu sobre a cama. A janela estava aberta e a primeira luz da lua tomava conta do quarto. Segundos antes de adormecer, percebi que o papel havia brilhado em uma intensa cor prateada, mas não tive energias suficientes para desvendar o que aquilo queria dizer, naquele momento.
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Estava correndo em um corredor escuro e feito de pedra, e poderia jurar que ele era do meu antigo castelo. Sentia que alguma coisa me perseguia, mas não sabia o que. Eu podia ouvir uma risada diabólica ecoando por todo o local, e o medo crescendo a cada passo apressado que eu dava. Por mais que eu conhecesse aquele corredor, as portas e janelas estavam ausentes, e eu parecia andar em círculos.
- Estou chegando, Regina. Você não pode escapar.
Eu reconhecia aquela voz. Era... A minha.
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[P.V.: RAINHA MÁ]
Finalmente, um pouco de liberdade. Era difícil conseguir me manifestar com a Emma por perto – arriscado demais, e eu não poderia botar tudo a perder – não agora. Sentei na cama e olhei ao redor. A janela aberta fazia com que o quarto ficasse iluminado pelo luar. Foi então que percebi um papel luminoso na cama. Com curiosidade, estendi a mão até ele e o abri. Quem o escreveu havia sido inteligente... Ele apenas poderia ser lido em uma lua cheia – como hoje. Parecia ter sido devidamente arquitetado para que uma pessoa específica o lesse. Ao julgar pela Bela Adormecida na minha cabeça tendo pesadelos nesse instante... Não era ela.
"Nós temos a adaga. Nos encontre às 02:00 no Jolly Roger."
Não podia ser. COMO o pirata havia conseguido a adaga?! Com quem ele estava trabalhando? Ele sabia que eu estava voltando? E por que ele me disse isso, e queria conversar comigo?! Não fazia sentido... A menos que ele... Precisasse de mim pra alguma coisa. Olhei no relógio – ele marcava 01:00. Bom, se eu iria fazer isso, precisava me preparar.
