Nota 1: CAPÍTULO NOVO! *Caps Lock da emoção* Eu prometi nas fics anteriores (e nas PM's) que estava voltando e aí está.

Nota 2: A música desse capítulo é Melt Away, da Mariah Carey (haha, novidade!).


Chapter XIV

Depois da conversa no terraço, Misha voltou para o salão, tentando não pensar muito no torvelinho que girava em sua cabeça e fazendo o máximo para se convencer que era somente efeito do vinho que havia tomado. Sua missão tornou-se mais fácil quando avistou a cabeleira vermelha de Adrian não muito longe e, aproximando-se, focou a atenção no relato detalhado e bastante entusiasmado que o ruivo fazia para qualquer um a sua volta sobre seu encontro com Juliet Rosenbaum. Estava tão concentrado que deu um pulo quando Mark o cutucou nas costelas.

- Desculpa, Mish. – o loiro disse, mas com um sorriso nos lábios. – Não quis assustá-lo.

- Duvido muito. – Misha retrucou, mas sorriu. – É que eu estava aqui maravilhado com a incrível aventura de Adrian, da qual aparentemente você não faz parte, meu amigo...

Mark suspirou e fingiu mágoa, antes de dizer com uma voz grave:

- Receio que eu serei mesmo apagado do registro desse importante acontecimento da história de Nova York. Mas eu estava lá, isso é o que conta, não é?

- Se é o que você diz. –o professor de História deu de ombros e os dois homens riram.

Prevendo que o relato ainda iria durar muito, Mark puxou Misha de lado e os dois foram caminhando a esmo pelo salão.

- Então, como foi a sua aventura com Jensen Ackles? – o loiro perguntou, já tinham se afastado alguns metros. – Posso ver que você se divertiu.

- A-aventura? Me divertir? Eu não... Como...? – Misha sentiu-se desconcertado e Mark deu uma gargalhada.

- Eu estou vendo os sinais, Misha. – Mark disse, divertido. – Você está vermelho, os olhos brilhantes, o que significa que bebeu pelo menos mais uma taça de vinho.

- Oh, isso. – o moreno compreendeu. – Ah, Mark, esse vinho de fato é muito bom. Mas por hoje já deu, nem venha tentar me forçar a beber. Não quero me sentir como se tivesse sido atropelado por um caminhão amanhã.

- Você deve ter sido um daqueles nerds bem viciados em estudos, Mish... – o loiro disse, revirando os olhos.

- Por quê? – o outro franziu a testa.

- Se nessa idade ainda é tão fraco e reclama tanto de uma ressaca, não deve ter bebido muito nas festinhas do colégio e da faculdade.

- Ah, porque eu estava estudando, que é o que se deve fazer na faculdade. – o moreno respondeu, cruzando os braços.

- Nerd. – Mark disse, dando um sorriso debochado.

- Isso pra mim não é ofensa. – Misha retrucou, torcendo os lábios.

- Não precisa fazer bico. – o loiro disse, depois de uma gargalhada. – Só estou brincando. Não é como seu eu mesmo não tivesse meu lado nerd na faculdade.

- Hm! – Misha resmungou. – Aposto que você era daqueles garotos de fraternidade, daquelas dos atletas, que só se interessavam nas garotas e na bebedeira.

- Então você perdeu sua aposta, meu caro amigo. – Mark disse, dando um tapinha no ombro do outro. – Eu praticava meus esportes, mas meus interesses não estavam só nas garotas e na bebedeira...

Misha demorou alguns bons segundos antes de entender – ou pelo menos achar que havia entendido – o que aquele comentário poderia significar. Talvez se tivesse bebido mais um pouco, se arriscasse a agarrar a oportunidade e fazer uma brincadeira com uma segunda intenção. Calou-se, entretanto, depois de resmungar alguma coisa que fez Mark rir, e eles continuaram andando pelo salão que, aos poucos, ia se esvaziando – muito embora lá fora ainda houvesse uma quantidade considerável de pessoas querendo conferir o que se passava na galeria.

- Bom, Mark, acho que eu já vou indo. – disse Misha, depois de algumas voltas. – Toda essa arte moderna – ele indicou a taça que o loiro segurava – me deixou com sono.

- Acho que eu também vou embora. – o loiro respondeu. – Não vou comprar nenhuma das obras mesmo e já vimos todas, melhor ir descansar um pouco. Tenho que preparar as aulas da próxima semana, posso adiantar a labuta acordando mais cedo amanhã.

Misha concordou com a cabeça e, depois de se despedirem de Adrian, os dois professores desceram as escadas e saíram para o ar frio das ruas de Nova York. Foram andando até o carro do moreno, estacionado uma quadra adiante.

- Você está bem para dirigir? – Mark perguntou, quando Misha abria a porta do motorista.

- Estou sim. – o outro respondeu. – Não se preocupe, não vou matar você no caminho até Chelsea.

- Ah, Mish, não precisa se incomodar! – o loiro disse, gesticulando com as mãos. – Eu posso ir andando.

- Mas... são só algumas quadras. – o moreno ficou ligeiramente confuso.

- Por isso mesmo. – o outro argumentou. – Minha casa é na direção oposta a que você tem que seguir, não precisa se incomodar em se desviar por apenas algumas quadras.

- Bom... se é o que você diz. – Misha não quis discutir. Já estava pronto para entrar no carro quando viu que Mark se aproximava.

- Desculpe se a noite não foi como a gente tinha planejado. – ele disse, com um olhar de penitência.

- A-ah, que isso. – o moreno engoliu em seco, sorvendo o perfume marcante do outro, que lhe pareceu familiar, mas ele não conseguiu pensar muito naquilo. – A noite foi muito divertida. Única, eu diria.

- Ah, que bom que você gostou. – Mark sorriu e por um instante Misha perdeu-se no sorriso charmoso do outro. – Eu me diverti muito também. Mas prometo que ainda vamos àquela boate!

- C-claro! – Misha respondeu em uma reação automática. – Mal posso esperar. – acrescentou, apenas para se sentir idiota dizendo aquilo.

Mark deu um risinho e se adiantou. O professor de História ficou sem saber o que fazer, erguendo a mão para apertar a do outro, mas foi surpreendido por um abraço que fez a baixa temperatura subir em segundos. Os braços do outro o envolveram com firmeza e o amadeirado do perfume invadiu suas narinas, os cabelos cor de trigo roçando-lhe as bochechas. Timidamente ele retribuiu o abraço – que durou uma eternidade breve demais.

- Boa noite, Mish. – Mark disse, apertando o ombro do outro e cravando os olhos claros nos dele. – A gente se vê na escola.

- A gente... – Misha começou, mas precisou pigarrear para recuperar a voz. – A gente se vê.

Ainda atônito, o professor mais velho observou o outro afastar-se, com o coração disparado. Como se a conversa do terraço já não houvesse sido o bastante, Mark tinha que deixá-lo tão confuso, com tantos sinais contraditórios. Decidido a não deixar que sua mente ficasse maluca pensando naquilo, Misha suspirou e entrou no carro, querendo mais do que nunca chegar em casa e simplesmente dormir.

Mal tinha girado a chave, porém, e seu telefone começou a tocar. Com outro suspiro, dessa vez de exasperação, o professor olhou o visor do aparelho. Ergueu as sobrancelhas, porque não reconhecia o número. Ele não costumava dar seu número para qualquer pessoa e que desconhecido ligaria aquela hora?

- Alô? – atendeu hesitante. Silêncio do outro lado. – Alô?

- M-Misha? – disse uma voz que ele demorou algum tempo para reconhecer, em parte porque era apenas um sussurro. – Sou eu, Jensen.

J&M

O coração de Jensen batia forte e a pressão do sangue nos ouvidos o deixava desorientado. Agora que a ligação havia sido atendida, não sabia o que dizer, como falar tudo o que precisava.

- Jensen? – Misha disse do outro lado. – Está tudo bem? Aconteceu alguma coisa?

- Não, quer dizer, sim, eu... er... – o rapaz tentou responder, sem muito sucesso.

- Jensen, fique calmo e respire. – o professor, percebendo o nervosismo do aluno, instruiu. Intuindo que a conversa seria longa, desligou o motor do carro e certificou-se de que as portas estavam trancadas.

Jensen inspirou profundamente e soltou o ar bem devagar, uma, duas, três vezes.

- Isso. – Misha aprovou. – Agora me diga o que aconteceu.

- Foi... foi o meu pai. – Jensen falou, depois de alguns instantes de silêncio. – O Mike me trouxe e ele estava em casa, bêbado. Ele começou a brigar comigo, eu me irritei e acabei respondendo às ofensas dele e... Ele tentou me bater, minha mãe entrou na frente ele a acertou.

- Jensen, por Deus! Você está bem? Ela está bem? – a voz de Misha soou preocupada.

- Ele não me acertou. – o loiro explicou. – Minha mãe cortou o lábio, mas não se machucou mais.

- Vocês chamaram a polícia?

- Não. Eu queria, mas minha mãe não deixou. Ela disse que não queria piorar a situação. Eu não sabia o que fazer, por isso eu... por isso eu liguei.

- Certo... – Misha tentou pensar. O mais correto, claro, seria comunicar à polícia o caso de agressão, mas o professor sabia que esse tipo de coisa era muito delicado e precisava saber de mais coisas antes de aconselhar o garoto. – O seu pai ainda está em casa?

- Não. Depois da briga ele saiu, resmungando.

- Você acha que ele pode voltar logo, ou continuar agressivo?

- Bom, não posso dizer com certeza, mas quando ele sai nervoso assim só costuma voltar horas depois, tão bêbado que desmaia logo. Às vezes ele me diz... coisas, mas nunca chegou ao ponto de tentar me agredir, acho que ele se irritou mesmo com minhas respostas.

Misha inspirou mais fundo, pensando. Ainda pensava que a polícia tinha de ser acionada de imediato, mas por outro lado... Sabia que a família de Jensen era do Texas e que aquele tipo de comportamento não era tão incomum em vários lugares do Estado – o que não era de forma alguma uma justificativa, mas ajudava a entender a relutância da Sra. Ackles.

- Ok, Jensen. O que você deveria fazer nesse momento é chamar a polícia, mas talvez sua mãe tenha razão, por enquanto. Acho que o melhor a fazer é deixar a poeira abaixar e os ânimos se acalmarem um pouco.

- Certo. – Jensen disse, tentando imaginar como se acalmaria.

- Tente dormir um pouco. – Misha continuou. – Mas fique atento para o caso de seu pai voltar e continuar nervoso. Se isso acontecer, Jensen, se houver qualquer sinal, por menor que seja, de que ele possa agredir você ou à sua mãe novamente, não hesite em chamar a polícia imediatamente, ok?

- O-ok. – o garoto concordou, esforçando-se para acreditar que não precisaria chegar àquilo.

- Você tem uma irmãzinha, não tem? – Misha perguntou, lembrando-se do fato.

- Sim, a Mack. – Jensen confirmou.

- Ela viu alguma coisa?

- Ela acordou na hora da confusão, mas não sei ao certo o que ela viu.

- Bom, seja um bom irmão mais velho e cuide dela, ok? – o professor aconselhou, imaginando que uma responsabilidade naquele momento pudesse distrair a cabeça do rapaz.

- Eu vou. – Jensen se comprometeu.

- Tire o dia de amanhã de folga, também.

- Mas, Misha...

- Não se preocupe, eu converso com o Jim e ele te libera, sem descontar do seu pagamento. E eu não vou contar o que aconteceu. – Misha acrescentou, antes que Jensen pudesse dizer alguma coisa. – Por baixo daquela cara ranzinza, Jim tem um coração mole, ele vai entender se eu disser que você precisa descansar amanhã por motivos pessoais.

- Eu sei que o Sr. Beaver é uma boa pessoa, mas...

- Sem mas, Jensen. – Misha foi incisivo. – Uma folga vai lhe fazer bem. Além do mais, esse é o último final de semana antes das aulas voltarem, você precisa estar bem para melhorar aquelas notas, rapazinho. – o tom de voz do moreno fez Jensen dar um risinho. – Durma, vá dar uma volta na praça, passear com seu amigo Jared... namorar o Mike... qualquer coisa que te faça relaxar um pouco.

- Ok, ok. – Jensen se deu por vencido. Não podia negar que não estava nem um pouco animado para trabalhar no dia seguinte e que uma folga realmente seria uma coisa boa. – Acho que eu posso pensar em alguma coisa. – disse, com outro risinho.

- Muito bem. – Misha disse, do outro lado. – E... bom, eu disse pra você pensar um pouco, mas... se você quiser ir lá em casa, dar uma olhada no trabalho que ainda resta fazer na biblioteca... será bem vindo.

- Oh... eu... – Jensen hesitou, sem saber o que responder.

- É só uma opção, Jensen, não precisa responder agora. – Misha interveio. Através do telefone, Jensen não podia perceber que o professor parecia tão nervoso quanto ele – É só que... bem, talvez passar um tempo com os livros ajude também. Mas você é quem sabe.

- Certo. – o loiro disse. – Eu... ah... eu vou pensar.

- Ok.

Houve um breve instante de silêncio, em que ambos puderam ouvir a respiração um do outro ao telefone.

- Jensen? – foi Misha quem quebrou o silêncio.

- Estou aqui. – o loiro respondeu.

- Você está melhor? Mais calmo?

- Sim. Estou sim. – e era verdade.

- Bom. Isso é bom.

- Eu, ah, é melhor eu ir tentar dormir um pouco. – Jensen disse, olhando a hora avançada no relógio-despertador ao lado de sua cama. – Muito... muito obrigado.

- Não precisa agradecer, Jensen. – o professor respondeu. – Eu disse a você que poderia contar comigo. E pode continuar contando.

- O. obrigado.

- Eu disse que não precisa agradecer. – Misha repetiu, com um risinho.

Jensen também riu. Depois de mais um breve silêncio, o loiro inspirou o ar profundamente.

- Eu vou deixar você em paz agora. – o garoto disse.

- Eu vou ficar em paz se você estiver. – o outro respondeu.

- Eu estou. – Jensen disse. – Vou ficar. – acrescentou, mais acuradamente. – De verdade.

- Ok, então. Mas se precisar, não hesite em me ligar.

- Certo... Bom... boa noite, Misha.

- Boa noite, Jensen. Fique bem.

- Eu vou.

Depois de um segundo, o loiro apertou o botão para finalizar a chamada. Ficou algum tempo encarando o celular, a cabeça mais leve, mas ainda girando com tudo o que tinha acontecido aquela noite. Por fim, despiu-se e colocou o pijama. Deitou-se encarando o teto, sem conseguir pegar no sono. A qualquer barulho, assustava-se, pensando ser o pai voltando em outro surto de raiva. Pensou em ligar para o professor novamente, mas não queria incomodá-lo outra vez. Além do mais, não havia nada que ele realmente pudesse fazer naquele momento.

Então, teve uma ideia. Levantou-se e saiu do quarto. No corredor, deu duas batidas leves e entreabriu a porta do quarto da irmã. Mackenzie tinha o sono leve, não tinha sido a toa que a discussão a acordara.

- Mack? – Jensen chamou, baixinho e a garota sentou-se na cama.

- Jenny? O que foi? – ela perguntou, um tantinho sonolenta.

- Eu... eu posso dormir aqui com você? – o loiro disse, entrando no quarto.

- Você está com medo dele voltar? – Mackenzie perguntou, depois de balançar positivamente a cabeça.

- Não, claro que não. – Jensen respondeu, enfiando-se debaixo do cobertor e ajeitando-se na cama da irmã. – Eu só pensei em dormir aqui com você, pra te proteger, caso ele volte.

Mackenzie encarou o irmão, com uma expressão que dizia que ela entendia bem o que o irmão estava sentindo. Ela o abraçou.

- Você é o melhor irmão do mundo, Jenny. – ela disse. – Não importa o que o papai diz.

- Você acha mesmo? – o loiro perguntou, sentindo os olhos ficarem molhados.

- Claro. – a garota respondeu, com convicção. – Você sempre me traz doces do seu trabalho. Você me ajuda com o dever de casa e intervém quando a mamãe briga comigo. E foi você que me explicou que o Josh foi morar no céu, antes da gente mudar pra cá...

- Você... sente falta dele, do Josh?

- Hummm... sinto. – Mackenzie respondeu. – Mas você disse que ele está num lugar bom agora, então eu fico feliz por ele. E você, sente falta dele?

- Muito. – Jensen respondeu, a voz um pouco embargada. – Sabe, ele sempre fez por mim essas coisas que você disse que eu faço por você. Ele sempre me protegeu, sempre cuidou de mim. Às vezes eu me sinto sozinho, sem ele.

- Você não está. – Mack disse, abraçando o irmão mais apertado. – Eu posso não ser grande como o Josh era, mas eu estou aqui, Jenny. E tem o Jared... eu sei que ele cuida de você também. E deve ter mais montes de pessoas que gostam e se importam com você, porque você é incrível, Jenny.

Jensen não conseguiu segurar o choro e deixou as lágrimas descerem. Intensificou o abraço que dava na irmã e deixou que as emoções daquele momento fluíssem no escuro silencioso do quarto.

- Obrigado, Mack... – foi a única coisa que sussurrou.

Abraçado à irmã, sentindo-se mais confortado por suas inocentes palavras do que poderia imaginar, o garoto finalmente conseguiu escorregar para a abençoada inconsciência de um sono sem sonhos.

J & M

Depois de desligar e guardar o telefone, Misha ficou algum tempo com as mãos no volante, pensando. Jamais poderia imaginar que aquela noite de sexta feira pudesse ser tão movimentada. Mas, entre planos frustrados e lendas vivas, não esperava que fosse terminar daquele jeito. Estava realmente preocupado com Jensen e chegou a cogitar fazer uma denúncia à polícia, mas desistiu. Tinha que confiar que o garoto iria se cuidar. Faria o que podia fazer por ele naquele momento.

- Jim? – disse, depois de discar o número do amigo e ser atendido. – Te acordei?

- Infelizmente não. – Jim disse, pesaroso. – Esses dias eu estou trabalhando mais do que tudo. E eu já me acostumei com você me ligando em horários muito mais inapropriados desde que você conheceu um certo professor de Inglês...

Misha riu, mas meio sem graça.

- Foi só uma vez, Jimmy! – protestou. – De qualquer jeito, eu preciso conversar com você, é algo importante. Você está em casa?

- Puxa... – Beaver se surpreendeu. – Estou no restaurante, ainda. Fazer o fechamento da contabilidade do ano passado está um caos.

- Então eu posso passar aí?

- Claro, mas agora estou curioso...

- Em cinco minutinhos você vai saber, eu estou no centro.

- Ok, meu caro amigo. Vou aguardar você com as minhas melhores amigas agora, as notas fiscais.

Misha riu do suspiro exasperado do amigo, logo antes de desligar o telefone. Mais ou menos no tempo que tinha prometido, estava estacionando no B&S Bistro. Encontrou a entrada dos funcionários ainda aberta e se dirigiu ao escritório de Jim. Deu umas batidinhas antes de empurrar a porta e ver o amigo sentado à mesa que ele sabia ser de carvalho, mas que por ora parecia feita de papéis, atulhada como estava de notas, recibos e outras coisas de contabilidade.

- Você sabe que isso seria muito mais fácil se tudo estivesse organizado, não sabe? – o professor disse, entrando no escritório.

- Ora, não venha você também! – Jim respondeu, fechando a expressão. – Já não me basta a Sam. Como se ela fosse a senhora organização...

- Calma, calma. – Misha riu. – Só estou brincando. Mas, falando seriamente, você sabe que a entrada dos fundos deveria estar trancada, né? Tudo bem que o restaurante pode passar despercebido no meio dos prédios, mas estamos em Nova York...

- Ah, aquele cabeça oca do Sebastian deve ter esquecido. – disse Jim, revirando os olhos. – Não sei por que ainda deixo aquela peste trabalhar aqui.

- Porque você é um velho que tem uma manteiga no lugar do coração. – Misha troçou.

- Misha, se você vai continuar dizendo besteiras, é melhor dar meia volta e ir embora. Como você pode ver, tenho muita coisa mais importante pra fazer do que ficar ouvindo seus impropérios.

- Ok, ok. – o professor respondeu, erguendo as mãos espalmadas. – Já parei. Vou ser breve então e deixar você voltar logo pras suas amigas. – apontou os papéis sobre a mesa e tomou um breve fôlego antes de continuar: - O que você acha de dar uma folga pro Jensen amanhã?

- Oi? – Jim perguntou, depois de um momento de silêncio. – E por que é que eu faria isso?

- Eu não posso te explicar, exatamente. – Misha respondeu. – É um assunto meio delicado, mas eu prometi que você daria uma folga a ele amanhã.

- Misha, eu não estou entendendo nada. – disse Jim, coçando a barba arruivada. – O que aconteceu com o Jensen? Ele parecia perfeitamente bem quando saiu daqui hoje mais cedo. E porque ele pediu pra você vir me pedir uma folga?

- Não foi ele que me pediu isso, Jimmy. – o moreno disse. – Eu que sugeri que ele ficasse em casa amanhã e disse que falaria com você. Eu realmente não posso te dar os detalhes, é... é uma coisa com a família dele, mas eu não estaria te pedindo isso se não fosse algo importante.

O dono do B&S continuou coçando a barba, enquanto franzia o cenho e ponderava.

- Ah, tudo bem. – disse, finalmente. – Só estou fazendo isso porque é você que está me pedindo, mesmo essa história sendo muito estranha. E também, com esse frio, os finais de semana não têm sido muito movimentados.

- Muito obrigado, Jimmy. – Misha sorriu. – E vê se não vai encher o garoto de perguntas segunda-feira, hein?

- Ok, Misha, ok... – Jim concordou meio a contragosto.

Entretanto, estava mais curioso sobre aquela intimidade entre o amigo e seu funcionário do que sobre o pedido de uma folga no sábado. Ele tinha percebido a aproximação dos dois nos últimos tempos, mas não pensava que poderia ser em um nível aparentemente tão profundo – ainda mais com Jensen namorando aquele rapaz bem apessoado e Misha caidinho pelo tal do Mark. Bom, eles que eram brancos, que se entendessem; ele, Jim, estava ocupado demais pra ficar pensando em amores e paixonites – ajudaria, se alguém pedisse sua opinião ou seu conselho, mas não meteria a colher naquilo por vontade própria.

- A boate estava ruim? – perguntou, espreguiçando-se e em seguida levantando-se.

- Hm? – Misha fez, observando o amigo caminhar até um mini-bar a um canto e apanhar uma garrafa de uísque.

- A boate. – Jim repetiu, servindo-se de uma generosa dose, sem gelo. – Você não ia reviver sua juventude hoje com o "Marky"? – ele fez as aspas com a mão e riu.

- Ah, sim. – o moreno disse, recusando com a cabeça o oferecimento que Jim lhe fez com a garrafa. – Bom, a noite hoje teve mais surpresas do que eu jamais poderia esperar... Acredita que fomos parar em uma galeria de arte, na exposição aguardadíssima de uma "lenda viva" – Misha deu um risinho ao usar o termo, pensando que nunca se cansaria dele – da arte moderna e que é mãe do namorado do Jensen?

- Uau. – Jim bebericou o uísque. – Puxa, parece uma história e tanto... – continuou, já prevendo que o amigo ia lhe contar tudo o que acontecera.

Dito e feito, Misha relatou os acontecimentos da noite, enquanto Jim relaxava um pouco em sua cadeira e bebia.

- É, meu amigo... – o mais velho comentou, depois de ouvir tudo. – Eu acho, só acho, que você está se apaixonando.

- E-eu? – Misha engasgou. – N-não tem nada a ver, Jimmy. – tentou desconversar.

- Misha, por favor... – Jim deu um risinho. – Até parece que eu não te conheço.

- Ah, Jim, eu não sei. – o moreno respondeu, sendo sincero. – Às vezes eu tenho medo de estar confundindo as coisas, de fazer alguma coisa errada e acabar perdendo uma amizade por causa de uma conclusão errada.

- Mas Misha, pelo que eu vejo e o que você me conta, ele pode estar interessado em você também.

- Eu sei, eu sei. – Misha balançou a cabeça. – Mas ao mesmo tempo em que parece ser interesse, pode ser que não seja. Quer dizer, eu nem mesmo sei se ele gosta de sair com homens.

- Vocês nunca conversaram sobre isso?

- Não diretamente. – Misha disse. – Mas ele já mencionou mulheres, algumas vezes.

- Bom, isso não significa nada. Você mesmo já saiu com algumas.

- É, eu sei. – o professor repetiu. – Por isso eu fico meio confuso.

- Ai, esses jovens... – Jim troçou, soltando uma gargalhada, que foi acompanhada por uma do amigo. – Bem, estando interessado ou não, eu fico satisfeito de ver que esse Mark está te fazendo bem. É bom ver você saindo numa sexta-feira, se divertindo.

- É, não posso negar que ele me ajudou a fazer algumas mudanças no meu jeito de ser. Acho que estar apaixonado (e eu não estou dizendo que eu estou, veja bem) faz bem. O Jensen, por exemplo, é outra pessoa.

- Isso é verdade. – Jim concordou. – Até no atendimento aos clientes aqui do restaurante. Ele sorri mais, é mais comunicativo...

- Sabe que eu nunca tinha reparado nele, na sala de aula? – Misha comentou. – Ele sempre foi muito na dele, muito tímido. Dar carona pra ele esses últimos dias foi uma ótima oportunidade para conhecê-lo melhor. Ele é um garoto ótimo.

- Sim, sim. Percebi isso desde o dia em que ele apareceu, procurando emprego.

- Ouch! – o professor fingiu levar um golpe no braço.

- O quê? – Jim ergueu as sobrancelhas.

- Você acabou de dizer que sou um professor com péssima percepção.

- Ah, não, não. – o mais velho ergueu as mãos. – Você tem centenas de alunos, alguém tímido como o Jensen passa despercebido fácil. Eu entrevistei o garoto, poxa.

- Eu sei, estou só brincando. – Misha riu. – Quer dizer, mais ou menos. Acho que eu deveria ser capaz de perceber bem meus alunos.

- Não posso discordar. – Jim riu também, antes de bebericar o uísque.

- Bom, Jimmy, eu vou indo. – Misha falou, levantando-se. – Vou deixar você com suas amigas e ir dormir, porque estou cansado e amanhã tenho muita coisa pra fazer.

- Já se preparando pra volta às aulas?

- Também. Mas amanhã quero começar a lidar com o caos que está minha biblioteca. Chamei o Jensen pra me dar uma mão, como se fosse um bico, sabe? Acho que pode ajudar a família dele e adiantar meu trabalho.

- É, acho que é uma boa ideia. – Jim concordou, tomando um gole de bebida. Ou talvez não fosse, pensou...

- Enfim... vou embora, meu amigo. – o moreno foi indo em direção a porta do escritório. – Obrigado por dispensar o Jensen. Ah, e não se esqueça de trancar a saída dos fundos, hein? Não quero te ver nas páginas policias amanhã, vítima de um assalto.

- Ai, que exagero, Misha. – Jim revirou os olhos. – Mas pode deixar que vou trancar. E dar uma bronca naquele irresponsável do Sebastian.

Misha riu e, dando boa noite ao amigo, foi embora do B&S. Estava louco para chegar em casa e cair na cama. A noite tinha sido intensa, cheia de surpresas boas e nem tão boas, mas muito, muito interessante, para dizer o mínimo.

J & M

Quando Jensen abriu os olhos no dia seguinte, Mackenzie não estava no quarto. Filtrada pelas cortinas, a luz do sol lá fora deixava o ambiente numa penumbra que tornava difícil dizer quantas horas eram. O garoto sentiu-se ligeiramente tentado a virar para o lado e dormir mais, mas depois de alguns segundos, resolveu que era melhor levantar e ir ver o que estava acontecendo na casa.

Esfregando os olhos, o loiro pôs-se se pé e foi para o próprio quarto, trocar de roupa e escovar os dentes. Descendo as escadas, sentiu um cheiro adocicado vindo da cozinha. Parecia bolo de laranja. E de fato era. Quando entrou no cômodo, viu a irmã espiando com curiosidade o vidro do forno, dentro do qual um bolo assava.

- Bom dia, Mack. – Jensen disse, indo pegar um copo d'água. – Fazendo suas experiências?

- A mamãe foi fazer compras e deixou eu tentar de novo. – a menina respondeu, sorrindo. – Dessa vez vai dar certo! – acrescentou confiante.

- Hm, quero ver se não vai deixar passar do ponto novamente. Ou será que bolo queimado vai ser sua especialidade na cozinha? – o loiro falou, em tom de brincadeira.

- Bobo! – respondeu Mackenzie, mas riu. – Além do mais da última vez foi culpa sua, que me distraiu.

- Eu? – Jensen fez cara de inocente, mas logo gargalhou. – A culpa não é minha se você não ouviu o barulho do timer enquanto levava uma surra no videogame.

Mackenzie fechou a expressão e virou-se para o forno com um resmungo, mas Jensen a abraçou por trás e começou a fazer cócegas na irmã, que tentou resistir, mas cedeu e desatou a rir. O momento terminou com um mais velho dando um beijo no cocuruto da mais nova. Jensen ficou pensativo por alguns instantes, avaliando a aparente paz que reinava na casa.

- Bom, mas hoje eu não vou te atrapalhar. – disse, finalmente.

- Vai ir trabalhar? – a menina perguntou. – Você está atrasado, mas eu... não quis acordar você.

- Não, hoje o Sr. Beaver me deu uma folga. – o garoto disse. – Mas é que eu tenho que fazer uma coisa muito importante agora. Não devo demorar, mas quero provar do bolo quando chegar, hein?

- Vai estar pronto e delicioso, Jenny! – Mackenzie disse, confiante e Jensen sorriu.

O sorriso sumiu um pouco do rosto do rapaz quando ele subiu as escadas para lavar o rosto e trocar de roupas. Ficou repassando as cenas da noite anterior e se perguntando como tudo tinha passado de um momento incrível para um pesadelo – talvez tivesse sido mesmo um sonho que tinha virado pesadelo. Mas ele sabia que não. Tudo tinha sido bem real. Pensar no que ainda poderia acontecer o fez estremecer, mas, por ora, tentaria seguir o conselho de Misha e se distrair – mas antes precisava ver alguém.

A casa dos Padalecki – mais ou menos do mesmo estilo e tamanho da dos Ackles – ficava a algumas quadras de distância, e entre elas havia uma quadra de basquete um tanto velha, mas que servia para divertir a garotada do bairro nos finais de semana e nas férias. Jensen conhecia um atalho que evitava a quadra, mas resolveu passar pelo caminho mais longo – adivinhando mais ou menos que o amigo estaria lá. Ainda era cedo para os padrões de Jared, umas nove da manhã, mas algo dizia ao loiro que o garoto mais novo tinha acordado fora de seu horário habitual. Dito e feito, ao aproximar-se, ouviu o barulho da bola sendo rebatida no chão e lançada pelo aro sem rede – que se repetiu algumas vezes antes que fosse notado.

- Jare... – Jensen começou, mas Jared apenas virou o rosto e lançou a bola novamente, a expressão carrancuda. A bola dançou ao redor do aro, mas passou por ele. Antes que ela caísse, porém, Jensen, que tinha se adiantado, a apanhou. – Jared...

- Obrigado pela ligação de aviso... – o mais alto resmungou, - a uma da manhã.

- Jared. – Jensen repetiu.

Jared já tinha aberto a boca para esbravejar com Jensen sobre o bolo que tinha levado, dizer que tinha ficado esperando até meia noite na pracinha, morto de frio, mas nesse momento percebeu a expressão do amigo. Eles se conheciam bem demais para o mais novo saber que havia acontecido alguma coisa.

- O que aconteceu, Jen? – perguntou, o tom de voz mudando subitamente para uma genuína preocupação.

Depois de tomar fôlego, Jensen contou ao amigo tudo o que acontecera na noite anterior – do encontro surpresa com os pais do seu namorado ao que havia se passado em sua casa. Quando terminou, o sol já estava bem mais alto no céu, mas mesmo assim a temperatura do inverno não tinha subido muito.

- Jen, esse cretino não pode sair impune! – Jared disse, sério. – Você tem que avisar a polícia. Convencer sua mãe a fazer isso, sei lá.

- E-eu não sei, Jay. – o loiro respondeu, incerto. – Ele nunca foi violento assim, fisicamente. E a minha mãe foi categórica, é bem capaz de negar tudo, se eu fizer uma denúncia.

- Jensen... – os dois garotos estavam sentados lado a lado na arquibancada de concreto que cercava a quadra, vazia por causa do frio e Padalecki passou o braço pelos ombros do amigo. Ficaram assim por alguns minutos, sem dizer nada. – Agora me sinto um idiota por não ter atendido sua ligação ontem. Eu estava acordado, mas estava com raiva.

- Tudo bem Jay. – Jensen disse, com um meio sorriso. – Você não fazia ideia. E eu te dei mesmo um bolo, desculpa.

- Bom, isso é verdade. – Jared disse, em um tom mais leve. – E eu tenho certeza absoluta que você contou como foi a noite com o playboy pro Sebastian primeiro.

- Bem, eu... eu... – Jensen gaguejou, mas Jared riu.

- Vou te perdoar dessa vez, Ackles. – o mais novo falou. – Mas vai ficar anotado no meu caderninho... Agora, vai, me conta: como foi a sua primeira noite? Quero todos os detalhes!

Jensen sentiu o rosto esquentar e Jared gargalhou, o que fez o mais velho corar mais ainda. Mesmo assim, ele contou como tinha sido a noite na cobertura dos Rosenbaum, da forma menos explícita que conseguiu, mesmo com o amigo enchendo-o de perguntas a cada momento.

- Uau! – exclamou Jared ao final do relato. – Foi uma noite e tanto.

- É... foi. – Jensen concordou, baixando os olhos e sorrindo.

- E eu continuo aqui, virjão. – o mais novo apoiou-se nas duas mãos, olhando para o alto, exasperado.

- Achei que as coisas estavam avançando com aquela garota da festa, Kate, não é?

- Que nada, ela sumiu. – o tom de Jared desceu uma oitava, triste.

- Oh, gente! – Jensen fez, com um sorriso sardônico. – Não liga pra isso. Você vai encontrar a garota certa.

- Ai, ai... – Jared suspirou em voz de falsete e os dois riram.

Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes, os rostos voltados para o sol, que brilhava forte agora. Jensen se sentia bem melhor agora e, embora uma parte dele temesse que algo ruim pudesse acontecer a qualquer momento, outra se permitiu relaxar e ficar tranquilo. De alguma forma, tinha esperança de que tudo daria certo.

- Quer ir almoçar lá em casa? – Jensen perguntou, quando sentiu o estômago roncar. – Não sei o que minha mãe fez, mas a Mack estava tentando fazer um bolo. Se tiver ficado bom, pode ser a sobremesa.

- Ou nossa última refeição. – Jared comentou, sombrio.

- Ei! Não fale assim das técnicas culinárias da minha maninha! – Jensen disse, dando um tapa no braço do amigo. – Mas, por via das dúvidas, deixe sua família de sobreaviso.

Rindo, os dois amigos deixaram a quadra, indo na direção da casa dos Ackles.

J & M

Misha acordou tarde no outro dia, feliz por não estar sentindo nenhum mal estar depois das taças de vinho da noite anterior. Depois de tomar café – com os biscoitos que a Sra. Novak trouxera quando o vira na varanda, ao apanhar o jornal – foi até a biblioteca encarar a tarefa que ainda tinha pela frente. Ele já tinha cortado e envernizado as madeiras das novas estantes, agora precisava montá-las e – o mais difícil – recolocar os livros. Todos estavam espalhados em pilhas pelo cômodo, mais ou menos separados por gênero, mas ainda assim bastante misturados.

O moreno suspirou e resolveu que procrastinaria mais um pouco e voltou para a sala de estar. Ficou pensando na noite anterior, no quanto se divertira com Mark, mas mais ainda nos momentos em que passara com Jensen. O garoto fora sua âncora naquele ambiente no qual provavelmente se sentiria desconfortável, então fora até uma feliz coincidência o tal Adrian ter arrasado Mark com ele para conhecer Juliet Rosenbaum. O professor então percebeu que, com o fim das férias e a volta de Mike, sentiria falta das caronas ao aluno. Jensen era uma companhia agradável e muito compatível com ele, do jeito que não imaginava que alguém da idade dele pudesse ser.

Lembrou-se da ligação da noite anterior e ficou preocupado. Será que estava tudo bem? Cogitou pegar o telefone e ligar para o rapaz, mas se ele não tinha entrado em contato era sinal de que não havia acontecido nada grave. Ficou pensando na situação toda, sentindo por Jensen e ao mesmo tempo feliz por ter tido sorte de sua família o ter acolhido. Precisaria ficar muito atento ao garoto, para não deixar que aquilo o abalasse e ele pudesse superar aquilo tudo. Porque, agora percebia, Jensen era alguém excepcional, dadas as coisas que sabia sobre ele e queria muito ajudá-lo a ser feliz na vida.

Os pensamentos, o clima frio lá fora e o calor da lareira na sala fizeram o professor pegar no sono, deitado no sofá. O barulho repentino da campainha o assustou, tirando-o repentinamente daquele gostoso momento de preguiça, e por isso foi com certo mau humor que ele se levantou para atender a porta, imaginando que seria a Sra. Novak.

- Je-Jensen? – o moreno surpreendeu-se quando viu o garoto parado na soleira.

- Hm, oi. – Jensen disse, um pouco sem jeito. – Você disse que eu poderia vir, olhar as coisas da biblioteca... Mas se eu estiver atrapalhando, tudo bem, eu vou embora. – acrescentou rápido, percebendo os cabelos despenteados do outro.

- Não, imagina! – Misha disse, dando um passo para o lado para que o garoto entrasse. – Eu só deitei um pouco no sofá e acabei pegando no sono. Que horas são? – perguntou, esfregando os olhos.

- Deve ser umas duas e meia, três da tarde. – Jensen respondeu, dando passos tímidos pelo vestíbulo de entrada da casa.

- Pode ficar a vontade, Jensen. – disse Misha estendendo a mão para pegar o casaco do garoto, que pendurou junto aos que estavam por ali. – Não repare a antiguidade da casa. – acrescentou.

Jensen passou para a sala de estar e seus olhos correram o ambiente. Não poderia ser mais diferente do que o apartamento de Mike e a cobertura dos Rosenbaum. Tudo ali era cheio de história, o loiro podia perceber, e era muito aconchegante. As cores eram mais escuras, dando um ar ligeiramente melancólico, mas ainda assim havia elementos que traziam leveza, como os porta-retratos com fotos sorridentes e flores discretas. A lareira estava acesa e Jensen se sentiu acolhido pelo calor.

- Uau, é uma linda casa, professor. – o loiro elogiou. – Digo, Misha. – mudou, quando percebeu que usara aquela palavra, lembrando-se do acordo que tinham feito, que dispensava aquelas formalidades fora do ambiente escolar. – Muito aconchegante.

- Obrigado, Jensen. – Misha disse, com um sorriso. – Costumava ser bem mais bagunçada e cheia, mas hoje só restei eu da família Krushnic para cuidar do legado.

- Krushnic? – Jensen perguntou, estranhando o nome.

- É o sobrenome original da minha família. – Misha explicou. – Minha ascendência é Romena. Meu pai veio pra cá na época da Segunda Guerra e acabou mudando o nome e o sobrenome.

- Puxa, que legal. – o loiro falou. – Isso explica o seu nome.

- Meu irmão Sasha e eu fomos escolhidos para carregar o legado dos nomes europeus na família. As meninas deram mais sorte. – acrescentou, rindo.

- Eu gosto de "Misha". – disse Jensen, quase sem pensar e imediatamente sentiu o rosto esquentar. Virou o rosto para um porta-retratos qualquer, fingindo grande interesse.

- Obrigado. - Misha agradeceu, sorrindo. – Hoje eu também gosto, mas na época da adolescência...

- Hm, imagino! – o loiro falou, lembrando que alguns de seus colegas costumavam fazer gracinhas como nome do professor.

Um breve silêncio se fez por alguns instantes e Jensen realmente reparou no porta-retratos para o qual estava olhando. Estava em meio a outros com fotos de família, ele podia ver pela semelhança das pessoas, mas o rapaz da foto era diferente e havia na foto um clima completamente diferente – era uma fotografia de casal, com certeza, e muito bonita.

- Quem... quem é? – se viu perguntando, antes que pudesse se controlar e apontando a foto de Misha e do rapaz. Sentiu o rosto queimar com a vergonha da indiscrição. – D-desculpe. – disse, logo imediatamente.

- Ah, esse é o Matt. – Misha respondeu, num tom natural, que tranquilizou um pouco o outro. – Lembra que eu te falei que eu só me assumi na época da faculdade?

- Aham. – fez Jensen.

- Matt era meu namorado nessa época. – disse Misha. – Nos conhecemos logo quando entrei na NYU. Foi com ele que eu me descobri melhor e acabei me aceitando.

- Ele... – a pergunta pairou no ar, Jensen novamente querendo se beliscar por estar sendo tão indiscreto.

- Ele faleceu, há muito tempo, antes mesmo de terminarmos a faculdade. – o outro respondeu, tranquilo. – Um tipo raro de câncer. Mas fomos muito felizes juntos, sabe? Tenho muitas boas recordações com ele, por isso ainda deixo essa foto aí, junto com a dos meus pais, dos meus avós, dos meus irmãos.

O professor sorriu de uma maneira que Jensen nunca havia visto antes, algo que tinha seu quê de tristeza, de nostalgia, mas ao mesmo tempo de felicidade. Inevitavelmente pensou no irmão falecido e compreendeu exatamente qual era o sentimento e acabou sorrindo da mesma maneira Misha percebeu e por um instante os olhos dos dois se encontraram, um instante que estranhamente pareceu se alongar, mas de uma forma extremamente agradável.

A certa magia do momento foi abruptamente quebrada pelo som da campainha e, embora não dissessem, os dois lamentaram. Misha suspirou e voltou-se para a porta.

- Estava demorando... – resmungou, e Jensen ficou sem entender.

Assim que ele abriu a porta, uma senhora que lembrava muito aquelas velhas que tem centenas de gatos em filmes e seriados irrompeu pela porta, trazendo nas mãos uma vasilha de plástico. Ela bateu os olhos em Jensen e abriu um sorriso e logo disse, numa voz meio rouca e carregada de sotaque, mas simpática:

- Ora, ora, parece que eu acertei em trazer os biscoitos agora, justo quando você tem visita! Quem é esse rapaz tão bonito?

- O Jensen é um a...migo, Sra. Novak. – disse Misha. Já ia dizer aluno, mas dessa vez foi ele quem se lembrou do combinado antiformalidades. Além do mais, Jensen estava ali como seu amigo de fato.

- Nossa, mas que amigo jovenzinho! – a senhora disse. – Faz bem, faz bem, meu filho. Melhor que aquele velho ranzinza que você insiste em ter por perto.

Misha revirou os olhos pelas costas das velhas e Jensen teve que segurar o riso, pois logo percebeu que ela se referia ao Sr. Beaver. A senhora se adiantou e estendeu uma mão enrugada para ele.

- Katya Novak. – apresentou-se. – A moradora mais velha do bairro. – fez questão de dizer.

- Jensen Ackles. – o garoto pegou a mão da mulher, delicadamente.

- Eu só vim trazer uns biscoitinhos pro Misha, sabe? – ela falou, indicando a vasilha nas mãos. – Ele fica aqui, tão sozinho, eu que acabo cuidando dele, não é filho?

- É, Sra. Novak. – Misha disse, entre o educado e o exasperado e outra vez Jensen teve vontade de rir. – É. Mas, o Jensen e eu estamos ocupados agora, trabalhando na reforma da biblioteca. Pode deixar os biscoitos aí, que a gente come depois.

- Ah, estão ocupados. – a senhora disse, a voz parecendo desapontada, mas os olhos argutos perscrutando tudo no lugar. – Que pena! Eu... eu volto depois, então. Aposto que o Jensen aqui ficaria muito satisfeito de ouvir umas histórias, não ficaria?

- Eu... ah... – Jensen não sabia o que responder, mas Misha logo interveio.

- Vamos ficar ocupados um bom tempo, Sra. Novak. Outro dia, quem sabe. Obrigado pelos biscoitos...

Pegando a vasilha, o moreno conduziu a senhora, que não conseguiu esconder uma ponta de descontentamento, até a porta. Quando ela bateu, os olhos azuis se voltaram para os verdes de Jensen, que pareciam confusos.

- Essa é a Sra. Novak, a minha vizinha. – explicou. – Ela é uma graça, realmente cuida um pouco de mim, mas é um tanto... bisbilhoteira.

- Eu percebi. – disse Jensen, divertido. – E percebi também que ela não gosta nem um pouco do Sr. Beaver.

- Acredite, o sentimento é mútuo. – disse Misha, indo por um corredor até a cozinha, para deixar a vasilha trazida pela Sra. Novak. – E você não imagina como é quando os dois se encontram. – disse, ao retornar, mastigando um.

- Isso eu gostaria de ver. – comentou Jensen, sorrindo.

- Não, não gostaria. – o outro disse, categórico e logo em seguida os dois caíram na risada. – Bom, mas acho que podemos ir dar uma olhada na biblioteca, o que acha?

- Claro! – disse Jensen. – Vamos lá.

J & M

O frio mês de Janeiro foi passando e, assim, as aulas retornaram. Depois dos incidentes da última sexta feira de férias, a vida de Jensen pareceu entrar em uma espécie de calmaria que ao mesmo tempo em que agradava o loiro, o preocupava: em casa, embora seu pai pouco falasse com ele e o clima às vezes fosse carregado de tensão, tudo parecia ter se tranquilizado, com Alan arrumando um trabalho temporário e bebendo bem menos; na escola suas notas haviam melhorado e o trabalho no restaurante o agradava muito, mantendo-o longe de casa tempo suficiente para não ver muito o pai e ajudando nas contas, além da amizade com os colegas e até mesmo o Sr. Beaver. Aos domingos, seu dia de folga, ele ia até a casa de Misha, trabalhar na biblioteca – o que ele nem considerava um trabalho, já que adorava as horas passadas entre os livros, alguns bem antigos e até raros, organizando-os e colocando-os nas estantes que ele e o professor haviam montado juntos; adorava também as visitas da Sra. Novak e as histórias que ela contava, mais divertido com as expressões que Misha fazia pelas costas da velha que tudo. E, claro, havia Mike.

Eles se viam todos os dias da semana, depois do expediente de Jensen no restaurante, quando o jovem estudante de direito levava o namorado para casa (quase todas as noites, já que algumas vezes Jensen "dormia na casa de Jared"). Para evitar problemas com o pai, o loiro pediu ao outro que o deixasse sempre a uma distância segura de casa, mas explicando apenas por alto o motivo. Mike parecia saído de um conto de fadas, e cada momento com ele era maravilhoso. Mesmo a um contragosto inicial do loiro, ele o levava aos lugares mais incríveis de Nova York – e Jensen sabia que se não firmasse o pé algumas vezes, de outros lugares do país e do mundo.

No Dia dos Namorados, eles foram novamente para a cobertura dos Rosenbaum em Tribeca. Como sempre, Michael havia preparado tudo para uma noite romântica e ao mesmo tempo muito quente. Jensen havia juntado um pouco de dinheiro e comprado para ele uma corrente de ouro, parecida com que ganhara quando aceitara o pedido de namoro do outro e Mike – apesar de querer ter comprado Nova York inteira para ele – lhe deu uma edição rara de O Hobbit, livro favorito de Jensen.

- Não venha dizer que é exagerado e nem foi muito caro, só tive que usar os contatos certos entre as amizades da mamãe. – o moreno disse, antes que Jensen protestasse. – Mas mesmo que fosse, eu pagaria qualquer preço para ver esse brilho nos seus olhos. – acrescentou, sorrindo.

Jensen olhou do livro para o namorado, ainda incapaz de acreditar que aquilo estava acontecendo em sua vida. Queria muito recusar o presente, mas ao mesmo tempo sentia que não conseguiria, tanto pelo livro em si quanto pelo que ele significava. Mike o fazia se sentir amado e precioso para alguém – e não podia negar que isso era maravilhoso. Ele então sorriu e abraçou Mike, beijando-o longamente.

- Mas esse não é o único presente que eu quero te dar hoje. – o moreno disse.

- Mike... – Jensen já começou em tom de advertência.

- Confie em mim, Jensen. – o outro respondeu, tirando o livro das mãos do outro e colocando-o de lado na enorme cama da suíte principal, onde estavam.

Sem descolar os lábios dos lábios do loiro, Michael deitou-o na cama, ajustando as posições para que os corpos se encaixassem. Estavam nus, porque a troca de presentes aconteceu no meio da noite, depois de um jantar muito elaborado e romântico. Jensen entreabriu as pernas e quis levantá-las, mas Michael o impediu, tornando a fechá-las e prendendo-a por entre as suas. A boca do mais velho desceu pelo pescoço e pelo peito do mais novo, beijando e mordiscando o corpo quente e eriçado, até chegar ao membro já em riste, engolindo-o por inteiro.

Jensen fechou os olhos e arfou, envolvido pelo calor da boca de Michael. Entre os movimentos de ir e vir do outro, não percebeu quando ele alcançou o criado mudo e apanhou um preservativo, que habilmente foi colocado em seu membro. O coração do loiro acelerou mais um pouco, nunca tinham feito aquilo daquela maneira – era sempre Mike quem o possuía, e ele gostava disso. De repente se sentiu um pouco nervoso, mas o brilho de desejo no olhar do outro, agora cravado no seu enquanto ele se posicionava por cima de seu corpo acendeu nele uma chama que ele dissipou o nervosismo.

Devagar, Michael desceu os quadris e Jensen foi sentindo seu corpo invadindo o dele, abrindo caminho, sendo envolvido por um calor e uma sensação que ele jamais sonhara em sentir. Mike parecia saber bem o que fazer, controlando a velocidade até que o outro estivesse por inteiro dentro de si, para então – a princípio vagarosamente – movimentar-se para cima e para baixo. Enlevado, Jensen deixava que o outro controlasse a situação. Mas, a medida que o calor ficava mais intenso e o suor começava a porejar a pele de ambos os rapazes, o instinto começou a dominar o mais novo e, com as mãos nos quadris de Michael, o loiro passou a ditar o ritmo e a intensidade dos movimentos.

Michael abaixou o tronco, colando sua pele suada na pele de Jensen e eles se beijaram. Jensen ajustou as pernas para poder movimentar-se, agora com o controle total, indo e voltando com rapidez e com força – arrancando gemidos de Mike, abafados contra sua própria boca. Suas mãos passeavam por todo o corpo do moreno, enquanto o tesão e o êxtase cresciam exponencialmente. Ele queria que tudo durasse uma eternidade, mas sentia que estava se aproximando rapidamente do ápice – e isso apenas o fazia subir e descer os quadris mais rápido e mais forte, até que, com um grunhido gutural, sentiu o gozo explodir dentro do outro. Continuou estocando, buscando mais daquele prazer insano, enquanto Mike escorregava a mão entre seus corpos até o próprio membro e logo também atingia o orgasmo, o sêmen jorrando fartamente entre ele e Jensen.

Aos poucos, Jensen foi parando de se mexer, os espasmos que percorriam seu corpo cessando e a respiração acelerada se acalmando. Os lábios de Michael estavam colados nos seus. Depois de um tempo nessa posição, os dois se recuperando, o mais velho rolou para o lado e retirou o preservativo, jogando-o de lado. Deitou-se ao lado do loiro, ambos de olhos fechados e ainda resfolegantes. Quando Jensen por fim abriu os olhos, encontrou os penetrantes olhos azuis do outro nos seus – e isso o fez estremecer um pouco.

- Jensen... – Michael disse, baixinho. – Eu te amo.

Jensen sentiu uma onda de choque percorrer seu corpo, diferente da que havia feito o mesmo poucos instantes antes. Era algo gelado e quente ao mesmo tempo, era extasiante e aterradora. Tentou desviar o olhar, mas os olhos de Michael eram poderosos demais. Sentiu a boca se mexer e quis acreditar que sua voz saía por entre os lábios, mas sabia que não era verdade. Enquanto ainda estava paralisado, Mike aproximou-se e o beijou, primeiro suavemente, depois com um pouco mais de intensidade a medida que o loiro correspondia. Depois do beijo, em silêncio, o mais velho se aninhou no peito do mais novo e puxou o cobertor sobre os dois e fechou os olhos. Jensen o abraçou, mas seus olhos continuaram abertos.

J & M

- Ele disse o quê? – a voz de Jared soou tão alto que Jensen teve certeza que as pessoas do outro lado da rua tinham ouvido o amigo gritar ao telefone.

- Ele disse o que você ouviu, Jay. – o loiro respondeu.

- E só agora você está me contando? E por telefone? – a indignação do outro era quase palpável através da linha.

- É, Jared. – Jensen disse, caminhando um pouco mais lentamente, pois já estava quase chegando ao seu destino. – Eu... eu estava processando a coisa ainda, oras. E estou te falando pelo telefone exatamente por causa da reação que você está tendo nesse momento.

Jared bufou do outro lado da linha. Jensen contara ao amigo, três semanas antes como fora a noite do dia dos namorados e a sua "outra primeira vez", mas omitira a parte do "eu te amo" que ouvira da boca de Mike. Em parte porque sabia que o que já tinha contado era material suficiente para o amigo enchê-lo de perguntas e depois de gozações, em parte porque não conseguira responder aquelas três palavras.

- E o que você respondeu? – Jared perguntou.

- Esse é o problema. – Jensen admitiu. – Eu não respondi nada. Acho que fiquei em estado de choque e fiquei calado. Então ele me beijou, deitou no meu peito e dormiu. Depois não falamos sobre o assunto e ele não repetiu a frase...

- Uau, Jen. – Jared disse. – Isso é uma situação meio complicada. Você acha que ele ficou chateado com você?

- Não sei, Jay. – o loiro disse, sincero. – Talvez sim, mas ele não demonstrou. Mas eu simplesmente não consegui. Quer dizer, eu adoro o Mike, estar com ele é maravilhoso, mas... eu não sei.

- Acho que entendo. – Jay disse. – Bom, acho que se ele não mudou em nada, talvez ele também entenda. Afinal, ele é seu primeiro namorado e ele é mais experiente que você.

- É. Talvez... – Jensen disse, mais para si mesmo que para o amigo. – Escuta, Jay, eu preciso desligar. Acabei de chegar na casa do Misha. Depois a gente se fala, tá?

- Okdok, então. – disse Jared. – Divirta-se com seus livros. – acrescentou, em um tom deboche.

- Palhaço. – Jensen disse, antes de rir junto com o amigo e tocar a campainha.

Misha atendeu a porta sorridente, depois de alguns instantes. Naquele dia a Sra. Novak tinha chegado mais cedo com os tais biscoitos e ele aproveitou para despachar a vizinha enquanto Jensen entrava na casa.

- Você demorou hoje, Jen. – o professor disse. Jensen sorriu quase imperceptivelmente ao ouvir o outro chamá-lo por aquele apelido. Naqueles dois meses de trabalho aos domingos a amizade e a cumplicidade entre dois tinha crescido bastante.

- Eu estava ao telefone com o Jared, andei mais devagar. – o loiro explicou.

- Meu pai celeste, não sei como vocês conseguem ter tanto assunto! – Misha caçoou. – Já não basta nas minhas aulas, ainda se falam pelo telefone!

- Eu nem converso na sua aula, bobo! – Jensen retrucou, mas riu. – E é culpa do Jared, ele é que fala pelos cotovelos.

- Eu sei, eu sei. – o outro disse, rindo também.

Antes de irem para a biblioteca, os dois foram para a cozinha, tomar um chá e aproveitar os biscoitos da Sra. Novak. Havia um quê de procrastinação naquele gesto, porque o trabalho de restauração da biblioteca deveria se concluir naquele domingo. Na verdade, teria sido antes, se, embora o loiro tivesse passado a chegar cada vez mais cedo à casa do professor, Misha e Jensen não ficassem perdidos em longas conversas sobre esse ou aquele livro que tinham encontrado ou aquele vinil antigo que o professor vira no centro durante a semana e comprara, se não dessem corda para as interrupções da Sra. Novak (que além dos biscoitos costumava trazer bolos, doces e outras guloseimas) ou às vezes simplesmente conversando sobre coisas sobre si mesmos. Depois de se demorarem na cozinha, depois de um acordo tácito, ambos perceberam que não havia mais como adiar. Com um suspiro, Misha colocou as louças sujas na pia e rumaram para o cômodo, que agora tinha outra cara.

As estantes novas e brilhantes estavam cheias novamente com os livros, devidamente organizado por assunto e ordem alfabética dos autores. Empolgado, Misha também fizera uma nova escrivaninha, com a ajuda de Jensen, e agora ela estava com os últimos tomos que precisavam ser colocados nos lugares, ao lado de duas poltronas meio vintage que ele tinha visto num mercado de pulgas do Brooklyn.

- Bom. – disse Misha, pegando o último livro, um volume velho de enciclopédia que ele achara no sótão e resolvera acrescentar a coleção principal. – Acho que é isso. – acrescentou, num tom que não podia deixar de ser triste. – Quer ter a honra?

- N-não, a biblioteca é sua, Misha. – Jensen recusou.

- Ah, Jen, eu insisto. – Acho que sem você eu não teria paciência pra organizar tudo.

Jensen sorriu e pegou o livro. Ele deveria ficar no alto da estante da esquerda, então o loiro subiu os degraus da escadinha de madeira – feita também por eles – para alcançar o lugar correto. Mas, no momento em que ia colocar o tomo no lugar, uma mariposa saída sabe-se lá de onde voou e assustou o rapaz, que se desequilibrou e caiu para trás.

- Jensen! – Misha exclamou e se adiantou, aparando a queda do outro, que na verdade não era muito alta, mas poderia machucar se ele batesse no chão de mau jeito.

Com o gesto, os joelhos do professor cederam e os dois caíram, meio embolados. Quando deram por si, depois do susto, seus rostos estavam tão próximos que Misha conseguia ver claramente as sardas no rosto de Jensen e o loiro as pequenas marcas ao redor do olho do outro, que se acentuavam quando ele ria. As respirações ofegantes de ambos se misturavam, as bocas muito próximas, quase se tocando. As íris azuis e verdes se encontravam e desencontravam rapidamente, indo de si para as os lábios logo abaixo, enquanto os corpos embolados estavam completamente paralisados.

Foi Jensen quem primeiro conseguiu quebrar aquele congelamento, talvez porque, em um flash lembrou-se de Mike e das palavras ditas na noite do Dia dos Namorados. Afastando-se e desvencilhando-se do professor, colocou-se de pé. Misha fez o mesmo logo em seguida.

- E... eu acho que eu vou indo, professor. – Jensen disse, encarando o painel atrás do ombro de Misha. – Tenho... tenho umas coisas da aula de Matemática pra terminar ainda, não posso demorar.

- T-tudo bem. Eu termino tudo aqui. – disse Misha, olhando para o chão, enquanto o garoto saía do aposento, quase correndo.

O professor ficou ali parado, ao lado do livro caído, as páginas abertas, a escada de madeira tombada. Geralmente ele levava Jensen de carro até a estação do metrô, mas simplesmente não conseguiu dizer ou fazer mais nada. O coração do professor batia muito forte e ele sentia o sangue latejando nos ouvidos, as pontas dos dedos ligeiramente trêmulas e geladas – ao mesmo tempo em que o peito estava quente e arfante. Estava meio atordoado e tentou se convencer de que tinha pela queda de Jensen em cima dele. Foi então que percebeu que nem sequer tinha perguntado se o garoto tinha se machucado. Com uma dose de esforço, conseguiu se mover até a porta de entrada – que havia batido alguns instantes antes.

- Jensen! – chamou, mas o garoto já estava longe demais para ouvir, ou fingira que não ouvira. Misha demorou-se na soleira, observando-o enquanto andava rapidamente, até virar a esquina da rua, o vento soprando-lhe os cabelos.

Já longe da casa, Jensen concentrava seus recursos mentais para fazer mover as pernas o mais rapidamente que podia. Não sabia se tinha se machucado ou não, mas não importava muito no momento – estava conseguindo andar e se afastar, isso era sua prioridade. Sua respiração falhava um pouco, enquanto os pulmões tentavam acompanhar seu ritmo acelerado, as pernas doíam e o rosto ardia um pouco por causa do vento ainda frio de fim de inverno, mas ele não diminuiu o passo até alcançar a estação do metrô e passar pelas catracas.

Jogou-se num banco de concreto meio sujo, meio trêmulo, o peito subindo e descendo rapidamente, o rosto suado e com flashes passando rapidamente em sua cabeça: Mike, "eu te amo", a mariposa, a queda. Em sua cabeça, ecoava a mesma pergunta que ecoava na mente de Misha, que tinha finalmente tinha voltado para dentro de casa e estava sentado na sala: o que tinha acontecido ali?


Nota da Anarco: Confesso que quase chorei quando recebi esse capítulo... Como podem ver, estamos vivos e cheios de saúde... Espero que dessa vez meu querido Cassboy consiga a inspiração e força de vontade necessária para terminar a história. Meta de vida! Haha.

Espero que alguém ainda queira ler, depois de tanto tempo. Dou minha palavra de que o próximo capítulo sai em pouco tempo, já está a caminho. Beijo!

Nota do CassBoy: Yaaay! Depois de séculos, atualização dessa história XD E uma bem grande, pra tentar compensar. Espero que os leitores ainda estejam por aí e não tenham perdido as esperanças de ver Misha e Jensen juntos (o que parece perto, não? Será...? Muahahaha!). O próximo capítulo está sendo preparado com muito amor e carinho, podem aguardar coisas boas ;)