Capítulo Treze
Palavras não ditas ficaram presas no ar, tensas assim como as posturas corporais de ambos agentes. Mark por parecer reviver o passado, Camila por querer se afastar de tudo aquilo. Contudo, agora que havia começado, ela parecia incapaz de pedir que ele parasse, de que ele não dissesse a verdade, por mais que seu corpo começasse a doer com as perguntas, com as feridas antigas, com os esqueletos no armário.
- Eu o estive caçando por fora antes de ser escalado para o caso Perez. - ele admitiu, fazendo uma careta - Meu emprego estaria arruinado caso alguém descobrisse, mas eu precisava de... - calou-se, balançando a cabeça - Tudo foi deixado de lado quando fui para a América Central e comecei a trabalhar contra Perez... E enquanto isso acontecia, Piersanti conseguiu informação suficiente para que descobrisse seus erros. Próximo ao período que Swan nos encontrou, o homem já tinha o que precisava para saber como me pegar, e quem atingir para conseguir seus feitos.
Mark se calou, talvez esperando alguma manifestação de Camila. Não existiu alguma. Ela continuou na mesma posição, com os olhos fixos nas próprias mãos.
- Swan já sabia sobre Piersanti quando fomos resgatados. Ele planejou todos os detalhes para que eu desaparecesse do mapa e maneiras que pudessem manter minha família segura. Piersanti tentaria seguir meu rastro, e com minha mãe e irmãos longe de seu alcance, ele tentaria focar apenas em mim, ou no que restava de informação para me seguir.
- E você concordou. - Camila finalizou por ele, a voz tão baixa que ele precisou se esforçar para escutá-la corretamente. Mark a estudou por alguns segundos antes de assentir.
- Sem pensar duas vezes. - não havia hesitação em sua voz. Como se achasse que aquilo poderia levantar qualquer resposta raivosa da Auror, acrescentou em tom mais firme: - Era a segurança da minha família. Eu não iria arriscá-los mais uma vez.
Camila apenas deu de ombros. Ao finalmente erguer o rosto, Mark foi de encontro a olhos inexpressivos. A Auror o encarou por alguns segundos, antes de murmurar por fim:
- Seus motivos não mudam em nada o que aconteceu anos atrás. Eu posso compreender a finalidade dos mesmos, e talvez suas razões - ela balançou a cabeça, e um pequeno sorriso enviesado surgiu às feições - mas o final é o mesmo. Você sumiu, você fugiu e eu encarei um processo que me fez levar a culpa por tudo. Eu quase perdi meu emprego, quase perdi tudo. Eu fui questionada a respeito da minha sanidade, da minha capacidade... Isso não -.
Camila se calou, erguendo-se. Seus ombros estavam caídos, seus olhos mais uma vez longe dos dele, incapacitados de encarar algo além do chão, da porta, de imagens e lembranças que ainda a assombravam. Todo o processo ainda estava marcado em sua vida como uma ferida aberta, sem mencionar o pânico que sentia sempre que qualquer coisa relacionada à Perez fosse mencionada em sua presença...
Ela parecia pronta para ir embora, mas as próximas palavras de Mark a imprediram de continuar:
- Eu queria ter contado. - ele sussurrou, subitamente constrangido - Digo, sobre Piersanti, no dia, antes de ir embora... Mas Swan, ele -.
- Você vai jogar toda a culpa em Swan, agora? - ela perguntou, seu tom apenas uma nota mais forte que a dele. Estava um de frente para o outro, separados por apenas alguns passos, não de frente para o outro. Por manter a cabeça baixa, Mark não viu suas expressões, parcialmente escurecidas pela falta de luz no aposento, mas viu o punho esquerdo fechar-se com vagar.
- Não. Ele sugeriu, mas fui eu quem concordou com tudo. - ele então ergueu o rosto, encarando-a. Ela não o copiou - Eu... Eu não a queria envolvida.
O punho fechou-se com mais força. Camila ergueu o rosto, o semblante carregado de um sorriso sem humor. Seus olhos fixaram nos dele, frios.
- Você podia ter dito isso. Eu não sou incapaz de compreendê-lo, caso falasse.
- Eu...! - ele queria dizer que a conhecia, que sabia como ela reagiria se soubesse a verdade, mas até mesmo em forma de pensamentos aquelas palavras soaram erradas de se pronunciar. Camila ficaria louca se ele dissesse isso.
- Eu já não estava no meu melhor momento para você inventar toda aquela história. - riu, mas o mesmo pareceu desvairado pela suposta emoção não chegar aos olhos - Você se lembra, não? Você se lembra do que me disse, sobre eu ter sido usada pelo seu Departamento assim como usávamos Perez?
Mark não respondeu. Não conseguiria fazê-lo; já era difícil o suficiente sustentar o olhar da Auror sem se sentir envergonhado, quanto mais responder qualquer coisa. Ele duvidava que desculpas seria o melhor a se dizer - na melhor das hipóteses, aquilo seria o gatilho para a fúria da Auror realmente transparecer.
- Vocês precisavam de um bode. - ela continuou, sua voz não diferente de alguém que conversava sobre o tempo, sua atenção não desviando mais para outros cantos ou móveis do aposento. Seus olhos continuariam fixos nele, daquele momento ao fim - Alguém que tomasse a culpa pelo seu Departamento, para que ele saísse ileso. É claro que vocês precisariam de alguém para supervisionar o trabalho, que auxiliaria e reportaria à chefia - e então eles escolheram você. Você sempre foi o queridinho de Swan, afinal. Mas eu estava fadada a me foder desde o início.
- Isso - isso não é verdade...
- Não? - Camila cruzou os braços com a pergunta carregada em deboche, e ergueu as sobrancelhas - Isso foi dito anos atrás, no dia anterior à liberação no hospital. Isso foi dito logo antes de você me olhar como se eu fosse uma estranha e dizer que não me conhecia, antes de sumir daquele hospital e surgir apenas anos mais tarde, logo antes de ser indicado como diretor. Como você pode me dizer hoje que isso é mentira?
Mark fechou os olhos por um breve momento, sentindo o rancor dela por trás daquelas palavras. Ela falava com tamanha exatidão que ele não duvidava quantas vezes ela havia revisado o momento em sua cabeça, e aquilo o incomodou sobremaneira. Todos esses anos, ele tinha apenas a sua versão sobre tudo o que acontecera naquele período, tendo uma leve noção do que acontecera a Camila após todo o julgamento.
Mas ainda sim, ele sabia da verdade. Camila apenas tinha o que lhe fora apresentado.
- Piersanti ainda estava solto quando fui indicado à diretoria. - ele murmurou - Eu não poderia arriscar -.
- Não importa. - ela retrucou, e Mark a encarou a tempo de observá-la tentar contornar a mesa, pronta para sair daquele lugar, afastar-se - Eu não deveria ter aceitado escutar a toda essa besteira. Eu vou -.
Ele segurou seu pulso por instinto, antes que ela pudesse realmente concretizar seus desejos.
- Você se meteria em problemas se eu tivesse dito a verdade. - Mark disse por fim, sua mão ainda a segurando, antes que ela se virasse para encará-lo (ou obrigá-lo a soltá-la) - Você teria tentado ajudar, mas isso poderia ter te colocado em problemas, e eu achei -.
Ela puxou o próprio braço com força, sentindo-se ultrajada. Ele não a segurou.
- Você achou? - ela soltou um riso desdenhoso, pequeno e ligeiramente alto, e balançou a cabeça. Seus olhos agora brilhavam com fúria crescente - Você achou? Eu já estava destruída o suficiente para você chegar e me tratar por idiota àquela época, e você ainda acha -.
- Era exatamente por isso! Você não conseguiria se defender se ele viesse atrás de você, e se Piersanti soubesse que eu -!
- Não fique assumindo o que eu poderia ou não fazer! - Camila ergueu o tom de voz, mas àquele momento nenhum dos dois pareceu se importar. Mark também começava a perder a paciência e o tom suave. Inevitável. - Eu sou Auror! Eu também o era na época!
- Isso não faz de você indestrutível, Camila!
Ela balançou a cabeça diante daquelas palavras, o rosto contorcido em frustração. Ignorando as palavras do Auror, ela fechou os punhos e os ergueu um pouco, uma atitude inconsciente enquanto retrucava:
- Você deveria ter dito! Acha que depois de anos, após toda aquela mentira e tudo aquilo eu vou apenas -.
- Você não teria me deixado simplesmente sumir! Você tentaria conseguir informações minhas se soubesse da verdade, você tentaria ajudar e acabaria se matando no processo! - ele gritou, interrompendo-a - Você acha que eu não a conhecia, Camila? - perguntou em voz mais baixa, indignada - Foi assim com Perez. Por que seria diferente com Piersanti?
A Auror tensionou visivelmente à menção do nome de Perez. Ela negou com a cabeça uma vez, e depois outra, e Mark percebeu suas tentativas de retrucar alguma coisa, todas sem sucesso. Por fim, ela deu às costas e saiu do aposento, em silêncio.
Ele não a impediu dessa vez.
Camila caminhou com passos endurecidos e apressados pelo corredor. Seus pensamentos giravam em uma confusão de informações e lembranças; sentia-se tonta, carregada de vertigem, chegando a não suportar a si própria.
Via Perez, via seu passado, via gritos, todo o inferno que fora obrigada a passar. Via mentiras, mentiras, mentiras que a obrigavam a reviver o passado, a tomar uma decisão sobre ele, sobre todos, sobre Mark-.
- Chefe?
Ela ergueu o rosto, surpresa, quase assustada; não percebera que andara de cabeça baixa até então. Seus olhos caíram sobre os castanhos de Miguel Ortiz, um novato no Departamento brasileiro. Camila não conseguia se lembrar quando havia o chamado até o Unificado àquela noite, e a questão ficou esquecida em meio a tanta bagunça quando ele comentou:
- Cooper acabou de assinar a papelada e despachar o corpo do garçom para o Reino Unido. Ele quis saber se você precisa dele para mais alguma coisa, ou se ele pode voltar com os patologistas.
Por alguns segundos, Camila apenas o encarou, e seu cérebro pareceu apagar qualquer informação a respeito de qualquer coisa. Foi preciso que fechasse os olhos e balançasse a cabeça para sair de seu estupor e, respirando fundo, respondesse com mais firmeza:
- Não, diga que ele está liberado. Os agentes do Unificado podem tratar das questões do Unificado, e ele pode descansar.
- Está tudo bem com você? - Ortiz perguntou com o cenho franzido, mas em seguida pareceu se arrepender de sua curiosidade, devido sua falta de familiaridade com o trabalho e sua chefia. Enrubescendo, o rapaz engasgou e parecia pronto para se desculpar quando a Auror apenas balançou a cabeça e abriu um pequeno sorriso, afastando-se dele após colocar a mão sobre seu ombro enquanto próxima a ele.
- Preciso apenas de um pouco de café, não se preocupe.
Richard Cooper já havia perdido as contas do número de vezes que havia xingado Camila no dia.
Eram murmúrios e grunhidos, todos dirigidos com ferocidade à Auror que não estava presente. Andando de um lado para o outro, distribuindo ordens e tentando arrumar a bagunça que a mulher havia deixado com àquela atitude...
Helena o assistia em silêncio, observando suas atitudes com curiosidade.
- A Polícia acabou de ser avisada, e o superintendente deixou claro que cooperará o máximo conosco. - Eduardo Correia respondeu com eficiência, o desgosto que nutria por Richard esquecido em meio à toda a confusão. O Auror era, afinal, o subdiretor - Ele fará o necessário para retirar qualquer informação sobre Camila de seus subordinados, e dirá para a imprensa que ela era apenas uma civil que fornecia informações para a garota sobre a rua. Além disso -.
- Isso já era previsto, isso já era previsto. - Richard o dispensou irritado, andando de um lado para o outro - E a menina? O que eles farão com a menina?
Eduardo Correia franziu o cenho, confuso.
- O que você quer dizer com isso? A menina continuará com eles, é claro. É investigação deles, afinal -.
- Você acha que isso é uma situação normal? Ou você acha que Camila foi realmente uma potencial casualidade em tudo isso? - ele parou, fuzilando o bruxo com o olhar, que se encolheu diante de tanta irritação - Ela não anda entre os trouxas simplesmente porque sentiu vontade de novos ares!
Mas o que o deixava mais furioso era que ele não tinha a menor ideia do que a Auror fazia no Mundo Trouxa. E, em meio a toda a confusão que ela deixara para ele limpar, Richard não tinha exatamente muito tempo para descobrir a respeito de suas ações e pensamentos sobre o assunto.
Eduardo Correia pareceu incerto sobre como proceder por alguns segundos, mas então inspirou fundo e continuou:
- Também recebemos notificações do Ministério da Magia e de jornalistas. - Richard grunhiu, fechando os olhos e abaixando a cabeça, com as mãos nos quadris - O Diário Bruxo, aliás, gostaria que o senhor desse uma coletiva ainda hoje, para que saia logo amanhã as notícias -.
- Marque para às cinco. - o Auror o interrompeu, ainda na mesma posição, ainda com os olhos fechados - Sobre o Ministério, envie nota dizendo que o Departamento assume quaisquer responsabilidades que as ações de Camila hoje causaram. Estou disposto à conversas quando eles quiserem.
Helena cruzou os braços, encostando-se à escrivaninha do Auror, sentindo o clima ficar sutilmente mais carregado no escritório.
Eduardo parecia escolher as palavras certas. Por fim, começou incerto:
- Com todos os problemas que o Departamento têm passado por causa de Brosseau, você acha realmente sensato assumir a responsabilidade... - ele se calou, mas a pergunta já estava óbvia para todos os presentes. Richard inspirou fundo, finalmente abrindo os olhos.
- Camila estava em operação. - disse por fim, mantendo seu tom firme e resoluto - De acordo com as normas, somos nós quem temos que assumir qualquer culpa que possa existir, de qualquer modo.
- Nem você tem certeza disso. - o secretário debochou, subitamente de volta ao seu humor que não tragava o Auror. Contudo, Richard não estava em seu melhor estado de espírito para dispensá-lo como todas as vezes.
- Não discuta a minha autoridade, Correia.
Helena estremeceu diante da forma que o bruxo encarava o secretário. Ela não estava acostumada a vê-lo tão ebulitivo, pois nunca o vira realmente em serviço. Claro, já fora sua patologista algumas vezes, já o vira em cenas de crime, mas próximo a ela o Auror sempre fora mais espirituoso e com grande facilidade para sorrisos que nada significavam.
O secretário se empertigou, erguendo o queixo em súbito orgulho e silênciosa afronta.
- Não faria tal coisa, senhor.
Seu tom dizia outra coisa, no entanto.
- Contate Antônio Carlos, também, e diga que o quero aqui em menos de quinze minutos. - disse Richard secamente, dando às costas ao bruxo, num claro sinal que o dispensava.
- Claro, senhor.
Helena se surpreendeu com a audácia do homem. Richard continuou de costas ao secretário, seus olhos fixos nos da bruxa, como se buscando qualquer coisa que pudesse distraí-lo, segurá-lo de seguir seus pensamentos revoltados. Seus lábios estavam comprimidos em uma fina linha.
A porta se fechou. Richard fechou os olhos e bufou.
- Filho da -.
- Eu levo em conta então que você não vai comigo encontrar com minha irmã? - ela perguntou, mais para distraí-lo de sua raiva do que realmente para obter uma resposta. Com tudo que Richard precisava resolver, era óbvio que ele não a acompanharia mais, apesar de ter sido essa a ideia inicial.
- Eu - o que? - ele perguntou, encarando-a subitamente como se tivesse acabado de reconhecê-la ali. O que era bizarro, considerando que ele a encarava até então... - Não, não, eu vou ficar. Com tudo o que aconteceu, alguém tem que arrancar as informações dos outros e limpar toda essa bagunça.
- Foi muito... Gentil da sua parte não deixar que toda a culpa não caísse sobre Camila. - Helena disse em voz baixa.
- Eu só espero que eu não me arrependa disso mais tarde. - o Auror resmungou.
O celular de Helena tocou, sobressaltando-a. Richard apenas a assistiu atender o telefone. Ao final da ligação, inspirou fundo e disse ao Auror:
- Karen acabou de sair do hospital com Camila. Elas estão a caminho de casa.
Richard tinha a exata certeza que os braços de Helena seriam mais relaxantes que sua própria cama. Por esse motivo, ao finalmente terminar seu serviço no Departamento às dez para as onze da noite, seu único pensamento era no destino que escolhera para àquela noite.
Sua cabeça parecia latejar. As vozes dos jornalistas, todas ao mesmo tempo, ainda pareciam trovejar em sua cabeça. Perguntas, perguntas, perguntas, todos o encarando como se fossem lobos atrás de sua caça, todos loucos por uma história, por um drama.
Todo mundo adora um drama.
Também tinha a conversa com o representante do Ministro, e Jesus, ele sabia que a conversa com o homem no dia seguinte seria desagradável. Quando conversava com o rapaz subordinado ao Ministro, marcando sua ida ao Ministério, Richard escutara com clareza as palavras rígidas e furiosas do homem ao fundo. Os xingamentos, o desprezo... É, definitivamente ele teria prolemas.
Ele só esperava que os cortes no Departamento não se tornassem ainda maiores.
Recostando-se contra o material frio do elevador, o bruxo ignorou o pequeno zumbido enquanto seguia até o térreo. Fechou os olhos e esfregou uma das mãos no rosto, soltando um gemido baixo em seguida.
Caramba, ele queria esganar Camila. Ela nunca fora de tomar atitudes precipitadas como aquela - sumir sem avisar alguém, tomar decisões sem pensar nas consequências... Não. A Auror sempre fora organizada demais, rígida demais para agir daquela maneira. Nem quando novata a mulher teria agido assim, Richard vira seu histórico. O que diabos dera em sua cabeça então para fazer tudo aquilo?
As portas se abriram, e o bruxo balançou a cabeça, sentindo-se exausto. Agira o dia inteiro pensando nas melhores intenções que Camila poderia possuir, mas agora não se sentia certo a respeito delas. Não compreendia-a, afinal - não enquanto ela agisse daquela maneira, tão fora de si.
Retirou a varinha do bolso, e em um giro estava próximo ao prédio de Helena. Caminhou por menos de um minuto pela rua fria e vazia, e sorriu para o porteiro quando o mesmo permitiu sua entrada. Ele, um homem de meia-idade, já o admitira tantas outras vezes, então não havia muito de surpreendente na situação - Richard perdera as contas do número de vezes que trabalhara em casos e casos com Camila naquele apartamento, com planilhas e trabalhos espalhados sobre a mesa de jantar.
A única diferença era que Richard, dessa vez, não usaria aquele curioso passe para trabalho... E aquilo provavelmente custaria suas chances do porteiro recebê-lo tão abertamente, caso Helena se irritasse com aquilo e o expulsasse de sua casa.
Mais uma vez, encarou um elevador e suspirou de alívio pela primeira vez no dia ao se deparar com a conhecida porta em madeira escura, com a numeração em bronze.
Antes que pensasse em algum feitiço - ou procurasse pela chave reserva que Camila sempre mantinha escondida debaixo do tapete e protegida por um feitiço do camaleão, a porta se abriu, e Richard se surpreendeu com a figura que parecia pronta para sair de casa.
Camila e ele se encararam por segundos, ambos surpresos.
- O que você está fazendo aqui? - ela perguntou, ao mesmo tempo em que ele questionava:
- O que você está fazendo?
Ao fundo, Richard escutou Helena dizer:
- Eu tenho certeza que você pode resolver tanto agora quanto amanhã, então por que diabos... Richard? - ela perguntou ao se aproximar da porta, surpreendendo-se também com a presença do Auror.
- Você ia sair? - ele disparou a pergunta, dirigindo sua atenção para Camila, que o encarou impassível. Para alguém que havia tomado um tiro e causara um inferno dos grandes, ela parecia quase inalterada.
Aquilo o irritou.
- Preciso contatar Antônio Carlos, e resolver outras coisas. - ela respondeu, dando um passo à frente, como se esperando que ele lhe desse espaço para passar. Isso não aconteceu, entretanto; Richard continuou parado no mesmo lugar, estudando-a com incredulidade - Saia da frente, Richard.
E ela ainda teve a cara de pau de mandar.
- Não há o que resolver agora. - ele disse com os dentes cerrados, procurando se acalmar - Como Helena disse, o que você pode fazer é limpar toda sua sujeira amanhã de manhã. Já fiz sua parte por hoje.
Camila cruzou os braços, encarando-o em desafio. Richard estava pronto para lhe passar um sermão quando percebeu a postura da bruxa, bem como a palidez de sua pele e as marcas escuras que começavam a formar abaixo dos olhos.
Cansaço. Por um segundo, o Auror pareceu encontrar as respostas para as perguntas anteriores - as atitudes da mulher, suas decisões desajeitadas, suas ações que se tornavam mais e mais parciais.
- Camila, por favor. - Helena pediu com voz suave - Acabei de fechar seu ferimento...
Ela fechou os olhos, deixando que um suspiro pesado passasse pelos lábios. Richard sabia que Helena havia ganhado sobre a irmã - a bruxa poderia pisar sobre a cabeça de milhões para fazer o que considerava certo, mas sempre fora incapaz de seguir com algo que pudesse chatear suas irmãs.
- Está bem, está bem. - ela murmurou, afastando-se um passo da porta. Abrindo os olhos e tornando sua atenção para Richard, comentou: - E você ainda não disse o que está fazendo aqui.
Até então, a ideia de relaxar com Helena em seus braços fora nada mais que um desejo seguido quase que de maneira religiosa. Dizê-lo em voz alta para um membro da família da legista, entretanto, era embaraçoso e subitamente ele se sentiu idiota.
- Eu... Queria saber como você estava. - ele mentiu, seus olhos presos por um segundo em Helena antes que respondesse para a Auror.
Camila girou os olhos.
- É, claro. - resmungou, largando-se no sofá sem nenhuma delicadeza. Helena, sem muita opção, o deixou passar, e fechou a porta assim que ele se dirigiu à sala - Eu estou bem. Ótima. Agora, o que você tem para dizer?
Nada. Eu só queria dormir. Com a sua irmã.
- Na verdade é você quem tem as novidades por aqui. - o bruxo retrucou, erguendo as sobrancelhas - Que diabos foi tudo isso, Camila?
- Será que vocês não podem falar mais baixo? - uma voz soou do corredor, e logo Karen apareceu na sala, vestindo um pijama bonito e feminino, com seus cabelos escuros e longos dançando em suas costas. Ao perceber Richard, a mulher não se envergonhou com sua aparência ou se afastou, ao contrário - Richard! - ela exclamou, sentindo-se agradavelmente surpresa.
Isso porque era para falarmos mais baixo, Camila pensou, girando os olhos.
- Oi, Ká.
- Você veio brigar com a Mila também, eu suponho? - quis saber a irmã, e continuou antes que Richard pudesse responder - Quero dizer, eu não posso te culpar - ela quase me deu um ataque com toda essa loucura.
- Na verdade, eu -.
- Imagine só, eu estava fechando um contrato milionário quando recebo um telefonema dizendo que minha irmã caçula tomou um tiro no centro da cidade! - continuou indignada, não se importando realmente se o bruxo prestava ou não atenção em suas palavras - Como se já não bastasse o medo dela morrer por uma Maldição Imperdoável, agora também preciso me preocupar com ela recebendo tiros quando se mete no Mundo Trouxa.
- É, bem -.
- É claro que logo me explicaram o que aconteceu, mas mesmo assim. Foi uma sorte que Mark fosse tão gentil de permanecer ao lado dela enquanto eu não chegava - e essa cabeçuda, essa cabeçuda ainda teve a coragem de me dizer que não queria que ele estivese lá, por favor! Ele a salvou! Além disso, estava tão preocupa -.
- ... O quê?
Karen se calou diante do tom utilizado pelo bruxo. Ele parecia indignado, quase revoltado. Confusa, seu olhar foi dele para a irmã caçula, que agora tinha os braços cruzados e parecia pronta para suspirar de tédio.
- O que diabos Rutherford estava fazendo ali?
- Ele me encontrou. - Camila respondeu desinteressada, encolhendo os ombros.
- Simples assim? Ele a encontrou? Enquanto um Departamento inteiro não tinha a menor ideia de onde você se encontrava, mesmo quando utilizados o setor de vestígios mágicos para encontrar algum rastro seu?
- Eu não estava usando magia, foi o que a menina disse para... - ela se calou, e franziu o cenho. As palavras de Mark ficaram presas em sua cabeça, junto com a recente noção que aquela situação significava: a menina dissera para que ela não usasse magia. De início, ela apenas chegara à conclusão de que os envolvidos naquela história toda pudessem ser bruxos (o que era relativamente óbvio, considerando os vestígios encontrados no apartamento onde Claire fora assassinada), mas agora...
Tch. Camila sentiu-se imbecil, questionando-se por quê diabos tudo lhe parecia tão nublado ultimamente. Já não bastava a crescente sensação de que Mark estava certo, afinal - agira impulsiva e estupidamente, e aquilo se tornava cada vez mais inquestioná considerada a possibilidade de uma armadilha, como dissera à Mark no hospital - mas ela não havia considerado tudo tão a fundo.
E se fora obrigada a não usar magia justamente para que não a encontrassem?
-Então como diabos ele a achou? - Richard quis saber, aproximando-se dela com ferocidade.
- Eu... - ela começou, mas silenciou-se ao perceber que nunca havia realmente perguntado como Mark havia a encontrado. Franziu o cenho. Jesus, quanto mais ela estava deixando passar? - ... Eu não sei, eu -.
- Ah, você não sabe! - ele balançou a cabeça, dando-lhe as costas e caminhando até próximo de Helena, que os assistia em silêncio e com as expressões surpresas - Francamente, Camila, você não pode ter sido tão cega a respeito dele, mesmo -.
Ele se calou, passando a mão pelos cabelos, bagunçando-os em sua irritação.
- Esse cara, esse cara - eu quero uma autorização, vou usar Veritaserum nesse desgraçado amanhã mesmo!
O tempo não era um dos mais agradáveis, em sua opinião. Apesar do ar frio - de acordo com o que entendera nos jornais, as baixas temperaturas batiam rercordes a cada dia àquele mês -, a cidade mantinha um ar úmido demais para seu gosto.
Esse era o problema com praias. Esse era um dos motivos que o faziam detestar praias.
Seguiu em silêncio, seu passo contra o chão irregular e antigo sendo o único som ecoando em seus ouvidos, em um tom baixo e constante. Com as mãos no bolso do paletó, o queixo erguido, o homem caminhou até que avistasse a figura feminina encostada em um velho container. Ela não lhe deu atenção até que ele perguntasse:
- Algum motivo especial para escolher o Porto de Santos, Hellen?
Hellen se virou. O pouco de luz proveniente do cais, relativamente próximo a eles, iluminava pouco sua figura, trazendo mais cor aos seus cabelos vermelhos como sangue. Seus olhos castanhos o estudaram por breves segundos, sempre atentos, sempre desconfiados, e por fim ela apenas encolheu os ombros.
- Desculpe, eu não o conheço.
O homem quase sorriu. A mulher não deixara transparecer sua nacionalidade por trás daquelas palavras. Quando muito, alguém a teria notado como proveniente do Nordeste.
Ela não havia mudado em nada, afinal. Sempre metódica, sempre muito boa.
- Não, acredito que não. - ele comentou desinteressado, aproximando-se mesmo assim - Podemos nos apresentar agora. - a tal Hellen continuou o estudando com cautela, e ele sabia que ela segurava a varinha com firmeza por dentro do bolso do bonito casaco marrom - Eu sou -.
- Ou você pode ir embora. - ela retrucou azeda, interrompendo-o.
Não se intimidou. Agora próximo a ela, o suficiente para que ambos pudessem alcançar um ao outro com as mãos, ele informou com certa indiferença:
- Há apenas uma informação pessoal fora de seu dossiê. - desviando seus olhos dos dela, o homem encarou o pequeno vislumbre da iluminação do cais, razoavelmente longe deles - Teoricamente, isso não deveria acontecer, mas o pedido foi em prol da segurança de um terceiro, incapaz de defesa. Esse documento está protegido por duas maldições de nível alfa dentro do escritório de seu chefe, e apenas ele, ou chefes anteriores a ele, sabem desses papéis.
Hellen o escutou em silêncio, sua atenção nunca longe da dele. Procurava respostas, procurava sinais de que algo estava errado. Por fim, não encontrando nada, a mulher suspirou e cruzou os braços, deixando a varinha esquecida dentro do casaco.
- Rutherford. - ela murmurou, reconhecendo-o então.
- Pensei que agora você me torturaria. - Mark disse com sarcasmo, relaxando em sua postura.
- Veritaserum não arrancaria uma resposta tão precisa, a menos que a pergunta fosse específica. - a mulher respondeu com tom levemente entediado - E, como você disse, não há muitas pessoas que saibam dessa documentação para que a notícia se espalhe... Mas se você espera por alguma tortura, isso pode ser arranjado.
O ex-diretor decidiu ignorá-la naquele comentário.
- Madison disse que você pode ter algo de interessante.
Hellen suspirou, fingindo tristeza.
- Sempre tão negócios. - ela reclamou, e ele percebeu o brilho zombeteiro em seus olhos escuros - Mas é, posso ter algumas informações que chamem sua atenção... Apesar, é claro, de tudo isso ter sido feito em dois dias, já que vocês da chefia sempre são tão caprichosos e tomam suas decisões de última hora.
Mark a encarou com seriedade, decidindo ignorar aquela crítica também. Com as mãos no bolso, estudou-a, esperando que ela continuasse. Incomodada por não ter arrancado qualquer informação do bruxo, ela girou os olhos e entregou:
- Há algumas movimentações no Nordeste. - admitiu, tornando a esconder as mãos no bolso do casaco por causa do frio - Não consegui muita coisa, não tive tempo o suficiente para isso... Mas, como disse, talvez seja algo que atraia seus olhos.
- Continue.
- Talvez um grupo novo. Eles importam e exportam - há alguns nomes que parecem interessados. Você sabe, peixes grandes na área. - ela o informou com indiferença - Mas também, se Perkins não estiver errado, eles, apesar de serem um grupo novo, são de ramificações antigas. Já possuem certa fama.
Hellen retirou um frasco do bolso, algo pequeno e com ligeira aparência de tubo de ensaio. Estendeu-o à Mark, que o aceitou sem grandes demoras.
- Se Claire estava nesse meio, não vai demorar até o nome dela despontar em algum canto. Informações sempre vazam. - a bruxa comentou enquanto o homem continuava com os olhos fixos no conteúdo branco-prateado do frasco - Isso é só uma ambientação. - ela o avisou - Já disse que ainda não conseguimos informações o suficiente. Você e Madison sempre decidem as coisas de última hora, isso deixa qualquer um com a corda no pescoço.
- Não posso dizer que isso foi um capricho, dessa vez. - o homem murmurou, encolhendo os ombros. Escondeu o frasco dentro do bolso do paletó e encarou a ruiva - Não sabíamos de nada, antes.
- É, eu sei. - Hellen concedeu. Inspirando alto, afastou-se dele em dois passos antes de dizer: - Bem, nos encontramos em breve, chefe.
- Não me chame assim.
- Sente falta? - ela perguntou zombeteira, deixando os dentes à mostra com um sorisso maldoso. Mark girou os olhos, ignorando-a - Bem, não posso evitar. Eu ainda o vejo como meu chefe, por mais que isso doa em meu orgulho.
- Que seja, Hellen. - ele murmurou, dando-lhe as costas.
Um estalo, e ambos sumiram.
Continua.
NOTAS: Fanfic provavelmente em Hiatus agora até fevereiro de 2011, se tudo der certo. Desculpem o incômodo, mesmo! Mas as coisas agora estarão realmente corridas - essa semana foi a última que usei para o ócio, mesmo que não pudesse porque han, as aulas já começaram.
Mas se tudo der certo, esse será o último ano de cursinho.
Desejem sorte! :D
próximo capítulo: lembranças, interrogatórios, assuntos pendentes e... Informações, muitas informações. Boas e ruins.
