Capítulo QUATORZE

Ela o seguiria, disso todos podiam ter certeza. Não se tratava daquilo, de abandoná-lo, de virar as costas e ir embora. Ainda que fosse para uma armadilha, ela preferia segui-lo a permitir que ele fizesse isso sozinho. Ela teria a chance de defendê-los caso necessário. Fizera isso antes, faria isso agora. Defender não apenas ele, mas todo o time, que se via de mãos atadas sobre qualquer que fosse a situação que se apresentava diante deles agora. A única pessoa ali cuja fé era inabalável na pessoa de Coulson era Skye, mas isso era perigoso. May e Ann sabiam que um pouco de duvida era sempre bem vinda, e isso não significava menos amor.

Em seu quarto, ela dissipou parte da frustração com um soco bem dado na parede. Imaginou que seus ossos se esmagariam com aquilo, mas apenas serviu para que o tiro em seu braço latejasse ainda mais. Respirou fundo. Aquela mulher perdendo o controle não era ela e jamais seria. Melinda May era feita de outro tipo de fibra.

Quando Ann chegou ali, apenas deslizou a porta do bunker bem devagar e observou May sentada na cama com a cabeça enfiada nas mãos. Sabia que talvez a melhor coisa fosse deixa-la sozinha e voltar depois.

-Eu... –May murmurou, quase não querendo pronunciar as palavras- Eu preciso de um abraço. Um abraço seu.

-Oh, Mel... –ela suspirou e sentou-se junto da outra, agarrando-a com força. Daquele modo, as defesas de May estavam despedaçadas, e ela chorou por um instante sem culpas ou receio por estar demonstrando aquilo. Era Ann, e ela sempre seria seu porto seguro.

-Eu errei tanto, Ann... –disse com o rosto contorcido e úmido de lagrimas- Errei imaginando que acertava, mas eu não podia...

-Não, não podia. –Ann murmurou, secando as lagrimas dela- Você realmente fez uma merda muito grande aqui, mas nada que não tenha conserto. Você mentiu pra ele, você se aproximou dele e reportou os passos dele pra Fury.

-Mas eu não me aproximei dele para isso! Já éramos próximos antes do sequestro, nós sempre fomos...

-Eu sei disso. Mas pode ter certeza que ele não pensa assim. Tenha certeza de que na mente dele, e todos nesse avião, você o seduziu para poder observar mais de perto. Ninguém está com uma boa impressão de você agora.

-Nem você?

-Bom, eu conheço você. Eu sei como sua mente funciona. Eu sei que mesmo tendo errado aqui, você não fez por mal. Mas eu não sei como defende-la diante de você mesma. Eu mal soube o que dizer, fora o obvio, pra fazer meu pai pensar melhor a seu respeito.

-Você não tem que fazer nada disso. –ela balançou a cabeça e terminou de secar o rosto- Você não precisa se envolver. As coisas são como tem que ser. E quem quiser pensar mal de mim, que se sinta meu convidado.

E mesmo considerando que aquela missão era uma potencial emboscada, ela o seguiu até o fim. Mesmo com os olhares tortos da equipe, mesmo imaginando que aquele esforço era muito para Ann, devido ao seu estado atual, mesmo sabendo que ela podia não ser o bastante para conter os danos. Andaram na neve por quilômetros e quilômetros. E quando Phil duvidou de si mesmo, ele descobriu que não tinha razão para isso.

May estava atrás de uma pedra, segurando uma Ann ofegante nos braços. Ela continuava insistindo que estava bem, mas parecendo ainda muito fraca. May imaginava que seus músculos estariam atrofiados devido a falta de uso, que seus nutrientes estariam ainda se reestabelecendo. Aquela longa caminhada na neve cobraria seu preço, disso ela já sabia. Mas por sorte, Phil tinha razão, e agora May podia colocar Ann numa cama aquecida, como se ela ainda fosse aquela adolescente de anos atrás.

-Beba. –e lhe entregou uma caneca de chá fumegante.

-Oh! Alfazema, meu favorito! –Ann tomou o primeiro gole- Obrigada.

-Descanse agora. Estaremos seguros aqui por enquanto. Eu estou indo buscar o Bus.

-Você vai ficar aqui?

-Essa é possivelmente a ultima base segura da SHIELD. Eu ainda me considero uma agente. Então sim.

-Independente do meu pai e toda sua má atitude?

-Ele está completamente em seu direito. –ela suspirou.

-Sim, eu não nego isso. Mas conhecendo você, eu diria que mesmo gostando dele...

-Chega. –ela pediu baixinho- Eu não quero mais falar sobre isso. Você já falou com Tony Stark? Ele estava indo atrás de você logo que descobriu sobre você ter sido presa.

-Não. –ela disse, mal podendo conter a euforia que surgiu ao saber daquilo- Eu também não sei se eu poderia... quero dizer... O Tony provavelmente rastrearia essa chamada e apareceria aqui, comprometendo o esconderijo. Não, melhor não...

-Essa é uma linha segura. Segura padrões SHIELD. –ela lhe entregou um celular- Ele pode até conseguir rastrear isso, mas vai ter um pouco de trabalho.

Ann olhou pro celular em sua mão e pensou por um instante. Tony e ela tinha uma longa historia, e essa historia tinha acabado para o bem de ambos. Ele agora estava feliz com Peper Potts, e era bom que ele continuasse assim. Ele tinha destruído dezenas de armaduras apenas pra deixa-la feliz. Ao mesmo tempo que viera voando como um foguete para ajudar Ann quando seu pai sumiu. Se ela permitisse, aquela historia continuaria se arrastando, e mesmo querendo muito falar com ele, nem que fosse por um instante, ela devolveu o celular a May.

-Outra hora. –e tomou um novo gole do seu chá.

Nesse momento, Phil abriu a porta e olhou para dentro do quarto. Parecia estar esperando achar Ann sozinha, e considerava que estender-se na cama que havia ao lado da dela seria uma excelente ideia, mas May estava ali.

-Eu volto outra hora. –ele disse.

-Não. –May retrucou com a voz firme- Eu estou indo buscar o Bus. Vocês podem conversar a vontade.

E depois de beijar Ann na testa, ela ergueu-se da beira da cama e passou diretamente por ele sem dizer nada. Coulson estava se preparando pra outra longa conversa sobre motivações e coisas do tipo, mas aquilo não aconteceu. Ela não ouviria mais nada daquilo, estava bem claro. Fechou a porta atrás dela quando ela passou.

-Você está melhor?

-Eu estou bem. –Ann respondeu- Seria muito interessante que vocês parassem de me tratar como uma adolescente.

-Eu trouxe algo pra você. –ele disse retirando um celular do bolso.

Ann sorriu, imaginando o que aquilo queria dizer.

-Deixe-me adivinhar... Você quer me dar a chance de ligar para o Tony.

-Não é algo que acalente meu coração, mas é algo que pode ser bom pra você. –ele sorriu e deu de ombros- Pensei que você fosse se animar, ele quase estapeou Victoria Hand pra tirar você da Geladeira, que é bem mais do que eu mesmo fiz.

-Eu não sairia de lá sem cumprir minha pena. Não foi uma prisão arbitrária.

-Sim, disso May me advertiu. Eu às vezes esqueço sobre seu senso de justiça e dever. May certamente a conhece melhor do que eu.

-Não seja tolo. Meu senso de dever e justiça é bem semelhante ao seu.

Eles fizeram silencio.

-Eu imagino que ainda assim você devesse telefonar, nem que fosse para agradecer.

-E quando você vai agradecer Mel por tudo o que ela fez?

Coulson a encarou parecendo bem pouco paciente. Sim, Ann sempre tinha uma maldita resposta na ponta da língua. E do modo dela de pensar, May não estava completamente errada. Ele discordava. Esperava dela nada mais do que a mais intensa confiança e lealdade. Ela havia falhado. Aquilo era algo que, para ele, parecia não ter conserto.

-Será que eu posso... –ele indicou a cama ao lado da filha- Tirar um cochilo antes de precisar lidar com o que quer que seja?

-Claro. –ela sorriu- Embora essa cama seja para Skye, eu acredito. Disseram que eu dividiria quarto com alguém.

-Skye e Simmons foram colocadas juntas. Fitz está com Trip, isso não parece que vá dar muito certo. Eu tenho meu próprio escritório, May deve estar na mesma situação, então...

-Nesse caso, sinta-se a vontade.

E ele realmente tirou o paletó, a gravata e deitou-se por um longo momento. Ann também aprontou-se para descansar, imaginando que aquele cansaço constante precisaria, em algum momento, passar. Coulson estava exausto o bastante para cair no sono sem muito esforço. Estava com medo dos pesadelos, e escolheu render-se ao sono junto de Ann, porque agora já não tinha May para acalmar seus pavores. Ann era família e mesmo que aquilo pudesse parecer estranho pra ela, ele se sentiria menos incomodado caso fosse ela a despertá-lo.

Mas não foi assim que aconteceu.

De volta ao esconderijo, depois de usar uma moto de neve para chegar até o avião e leva-lo até ali, ela encontrou Simmons, que lhe disse que Ann tinha apresentado um pouco de febre. Mas já estava medicada.

-Coulson está com ela, mas está descansando. Eu só soube que ela estava com hipertermia quando os sensores que deixei nela indicaram isso. –Simmons mostrou no tablet. –Mas ela está bem. O sistema imunológico está comprometido por ter passado tanto tempo presa... mas ela está bem. Vamos cuidar disso. Não deve ser mais do que um resfriado.

May imaginou se deveria ou não ir até lá. Phil estava com ela, Ann estaria bem, com certeza. Uma febre não é nada grave... mas e se ela precisasse de algo e estivesse pouco estimulada a despertar o pai? Havia algo em May que existia apenas para Ann. Era seu lado maternal, o lado que ela reprimiu por tantos anos e que Ann tomara inteiramente pra si. Não havia forma de que May soubesse de Ann febril e não fosse até lá.

Ela abriu a porta bem devagar, e encontrou Ann adormecida, bem enroscada no seu cobertor. Ao lado dela, Phil também dormia, mas nesse caso havia bastante inquietação. Como sempre. May sentiu a temperatura da testa de Ann e viu que era tolice. Simmons tinha os dados precisos e já tinha dado a medicação correta. Não fazia logica sentir o calor da pele dela, mas parecia ser necessário. Nem tudo na vida é algo baseado em logica.

-Por favor... –Coulson gemeu baixinho, como sempre em seus pesadelos- Deixe-me em paz, por favor, parem com isso...

E o instinto protetor foi superior a qualquer resquício de amor próprio naquele momento. May sentou-se na cama ao lado dele e afagou o peito suavemente.

-Shhh... Está tudo bem, Phil. –murmurou baixinho, curvando-se sobre ele, acariciando seus cabelos- Está tudo bem, acorde... Isso mesmo, fique tranquilo.

Quando ele abriu os olhos, viu que estava instintivamente quase agarrado a ela. Sua mão foi até a nuca de Melinda e a segurou, mantendo suas testas unidas por um instante. Ela suspirou e agora o abraçou livremente. Sorriu, imaginando que ele estaria começando a deixar a magoa passar.

-Obrigado. –ele disse agora mais calmo, soltando-a e tentando sentar-se.

Ela o encarou sem entender, a frustração voltando a surgir em seu peito. Ela ficou de pé, tentando não demonstrar o que sentia. Ele sentou-se na cama e a observou.

-Você está se sentindo enganada? Desapontada?

Ela não respondeu, continuou de costas pra ele e apenas esperou.

-Bem, imagine como eu estou me sentindo então. –e pegando o paletó e a gravata saiu do quarto.