Notas iniciais:

Olá! Eis o penúltimo capítulo! Boa leitura ;-)


Capítulo 14 A voz na escuridão

A primeira coisa que a consciência de Sherlock percebeu ao retornar foi que seu corpo estava deitado de papo para o ar num chão muito frio e que o lugar em torno dele estava profundamente silencioso. Ele não precisou abrir os olhos para saber que obviamente não estava mais em Foreign & Commonwealth Office.

Com disciplina e calma determinada, Sherlock tomou algumas respirações profundas antes de forçar os olhos a revelar algo do ambiente e a primeira coisa que suas retinas identificaram foi a melancólica imagem de uma claraboia no teto logo acima dele, através da qual uma estranha luz leitosa e difusa descia banhando-o como véus de seda transparente em meio a opressora escuridão circundante.

Ele piscou algumas vezes focando alguns avantajados flocos de neve rodopiar graciosamente acima da claraboia. Estava começando a nevar. Apesar do profundo silêncio que o cercava, Sherlock sentia estar sendo observado de algum lugar no meio da escuridão densa que engolia as áreas em volta da fraca claridade fornecida pela vidraça no teto acima dele.

O detetive, com notável dificuldade, levantou-se cauteloso olhando em volta enquanto tateava um calombo atrás de sua cabeça, ponto sensível onde fora atingido e levado à inconsciência. Ele não conseguia deduzir com precisão onde estava, poderia ser qualquer lugar nos arredores de Londres, mas algo no ar empoeirado com sua aura de esquecimento lhe dizia que aquele certamente era algum galpão antigo e abandonado na velha área industrial do Leste de Londres.

Depois de tentar identificar qualquer companhia no ambiente sem nada divisar nos arredores, sua memória lhe trouxe a terrível memória do sapato Chistian Louboutin, couro negro, salto alto, fino e solado vermelho encontrado perto do rifle sniper. A lembrança lhe causou súbita indignação misturada com descrença. Ele se negava a crer que esse tempo todo ele esteve perseguindo pistas deixadas por alguém tão conhecido. Teria ele sido feito de tolo mais uma vez pela mesma pessoa?

Enquanto ele refletia sobre a dona do sapato de sola vermelha, seus ouvidos captaram um baixo rumor de passos em algum ponto em torno dele. Alguém se movera nas sombras.

– Adler? – Sherlock chamou com voz áspera enquanto apurava a vista para tentar identificar onde a mulher estava.

– A Srta. Adler, não está aqui, Sr. Holmes. Mas pelo menos os sapatos dela foram úteis o suficiente para distraí-lo. O senhor foi um alvo muito fácil enquanto perdia tempo observando esse item. Ela os deixou para trás, durante uma fuga no oriente há um bom tempo. Pelo visto não julguei mal mantê-los comigo para um possível uso prático em relação a você. – respondeu uma voz claramente masculina vinda de um ponto obscuro a oito metros adiante do detetive.

Sherlock firmou a visão o máximo que pôde no ponto a sua frente na esperança de identificar o seu interlocutor, mas tudo o que conseguiu distinguir foi o contorno de um corpo magro e alto, aparentemente trajando um sobretudo que lhe dava um ligeiro ar de cabide.

– Onde a Mulher está? – Sherlock indagou encarando o homem que continuava imerso na escuridão.

– Na minha lista de tarefas a cumprir. Já deve ter percebido que sou um profissional muito disciplinado. Tem gente muito insatisfeita com sua interferência passada em assuntos internos no oriente. Em breve garantirei que o criativo conto da morte de Irene Adler por radicais árabes se torne uma verdade. Afinal, eu fui pago para concluir esse serviço para eles. Devia saber que ninguém recebe uma sentença de morte dada pela organização radical do médio oriente e escapa para contar sua façanha. Você cometeu um grave erro se intrometendo. O amor, Sr. Holmes, é um veneno, um doce, mas mata você do mesmo jeito. – O homem concluiu com indisfarçado deboche.

– Interessante, mas algo me diz que isso não foi tudo o que veio fazer em Londres. – Sherlock afirmou ainda procurando identificar o homem a alguns metros adiante dele. Havia algo naquela voz que forçava seu cérebro a lembrar de seu dono, mas ele ainda não conseguia associar o padrão vocal. Ele conhecia. Mas de onde?

– Tem razão. Minha missão era complexa. Tinha uma linha profissional e uma pessoal.

– Como assim? Você Tinha alguma rixa pessoal com o Cadete Suna? Por isso o matou?

– Não, não se faça de tolo, Sr. Holmes, por que eu não o tenho como tolo. Sei que é muito esperto. A morte de Akay Suna foi a parte profissional da minha missão. Suna era um infiltrado, mantinha o governo turco informado das ações de um grupo radical árabe. Os radicais descobriram esse fato graças a você. Depois do incidente com Adler em Karachi, ficou óbvio que o estranho homem inserido clandestinamente dentro da equipe noturna de execução, recebeu ajuda para estar lá, atrapalhar a missão e eliminar o grupo de carrascos. Foi feita uma investigação, demorou um pouco, mas eles chegaram à identidade do traidor. Obrigado por revelá-lo, Sr. Holmes, se não fosse por você, provavelmente Suna nuca seria descoberto.

Essas informações fizeram um calafrio percorrer o corpo de Sherlock, era isso que sua mente tentava fazê-lo lembrar quando ele encarava os olhos do cadete nas fotos do dossiê da Yard e da casa do Sr. Riley? Ele não viu o rosto de ninguém naquela noite no deserto e instintivamente sua mente o fez procurar por algo familiar nas furtivas fotos de árabes encapuzados contidas no discreto dossiê de capa negra que John chegou a encontrar em sua bolsa antes de irem para Glasgow. Suna era o homem de turbante negro e rosto oculto por um véu escuro transpassado que o ajudou naquela noite? Era impossível ver-lhe a face, mas os olhos...

Sherlock lembrava claramente daquela noite. O tempo corria contra ele, a situação era complicada. Ele era um estrangeiro numa terra coberta pela tensão de grupos radiais rivais. Ele se valeu descaradamente de alguns favores que alguns contatos lhe deviam, e um dos contatos o havia levado no meio da escuridão do deserto para um ponto há dois quilômetros da cidade e o apresentou para um rapaz trajado à maneira árabe, com o rosto oculto pelo véu do turbante passado à frente do rosto, desvelando apenas os olhos. Sim, aqueles olhos, eram os olhos do homem que o infiltrou no grupo de radicais por algumas horas... Fora tempo suficiente para salvar Irene.

Depois daquela noite em Karachi, ele tinha descartado a imagem daqueles olhos de sua memória, pensou que nunca mais voltaria a vê-los.

Então aquele rapaz era Suna. Ele fez parte do grupo de execução junto com Sherlock e seguiu junto com outros três homens até uma área erma do deserto para cumprir com a ordem de eliminar Irene. Suna o ajudou a eliminar os executores depois que avisou para Adler sair correndo, ele não teria realizado a tarefa sozinho. O turbante negro com envelhecidos vestígios de sangue e areia desértica deixado pendurado na velha ameixeira preta de frente para a janela do cadete fazia sentido agora. Era um símbolo de um velho crime emergindo para cobrar seu pedágio ao Sr. Suna.

– Então Suna foi punido por ter me ajudado. – Sherlock concluiu.

– Esse era apenas um dos crimes do Sr. Suna para com a célula radial onde ele ousou entrar para captar informação para o governo turco. Além de atrapalhar a aplicação de uma sentença, introduzir um estranho no grupo e ajudar a matar três militantes pertencentes ao grupo de execução naquela noite, Suna roubou um item com uma informação muito importante.

– O livro com a codificação. – Sherlock indicou.

– Exatamente, a informação era ultra-confidencial e precisava ser recuperada.

– O Sr. Suna não facilitou para você. – Sherlock disse dando um passo à frente para tentar identificar o dono da voz, mas percebeu que quase que imediatamente ao seu movimento, o homem recuou alguns passos, deixando claro que estaria pronto para ocultar-se ainda mais se o detetive insistisse em encontrá-lo.

Aquilo era um jogo, um jogo que ele já havia jogado outras vezes e conhecia todas as regras. Eram invariáveis. Se ele havia sido arrastado até ali, era óbvio que o seu raptor iria se identificar em algum momento, mas antes iria brincar com a sensação de poder que as sombras e o mistério lhe conferiam. O detetive resolveu ter paciência.

– Realmente o Sr. Suna não ajudou muito, mas ele tornou as consequências muito piores. Ele condenou à morte cada pessoa pela qual o item passou. – Explicou a voz que se tornava cada vez mais familiar.

– Eu conheço você? – o detetive inquiriu incomodado com o padrão de voz que suscitava em sua mente a necessidade de lembrar-se de alguém, mas quem?

– Pode-se dizer que não sou um completo estranho para você. Já nos vimos um par de vezes, mas talvez não tenha me julgado importante o suficiente para se lembrar quem sou imediatamente só de ouvir a minha voz. Mas tenho certeza que do meu rosto, você não esqueceu. – disse o homem se movendo das sombras como se fosse uma entidade se materializando enquanto caminhava para mais perto do foco de claridade oferecido pela claraboia no teto. Enquanto seu corpo ganhava formas mais discerníveis, o homem continuou a falar. – Tive duas ótimas oportunidades de matar você, uma no bosque e a outra no Foreign & Commonwealth Office. Mas o que dizer de um assassino que deixa duas oportunidades como essas passar? – o homem disse alinhando o cachecol de lã sintética azul em volta do pescoço, ainda envolto pelas sombras a dez passos de distância do detetive.

– Me diga você. – Sherlock incitou encarando o homem que se aproximava lentamente como um predador cauteloso.

– É simples. Esse assassino não o quer matar de verdade. Não ainda. Se eu quisesse matar você, já estaria morto. – a presença masculina concluiu finalmente mergulhando no ponto iluminado do lugar, expondo-se diante dos olhos francamente surpresos do detetive.

A identidade revelada diante dos olhos de Sherlock o fez congelar por alguns segundos, se questionando sobre a realidade do que estava vendo. Nem na sua mais louca dedução poderia conceber autoria daquelas mortes à pessoa diante dele.

– Tom? – Sherlock pronunciou o nome com alta carga de descrença.

– Olá, Sr. Holmes, há quanto tempo! – o homem saudou encarando-o com olhos ligeiramente saltados, oferecendo-lhe um sorriso de crocodilo ansioso. – E corrigindo, Tom era uma identidade falsa. Uma que usei para me aproximar da sua amiguinha patologista. Meu nome é Moran, Sebastian Moran. Ex-atirador de elite do exército britânico, perito em armamento militar e braço direito de Jim Moriarty, ou melhor, ex-braço direito de Moriarty, você matou meu chefe, lembra? – o homem esclareceu torcendo ligeiramente os lábios finos.

Sherlock pestanejou repetidamente expressando sua óbvia confusão diante da revelação e das informações oferecidas, o que deixou o outro homem mais satisfeito e estimulado a falar enquanto se deliciava com a expressão surpresa do detetive.

– Eu parecia tão inofensivo, não parecia? Um homem aborrecidamente comum. – Moran riu-se. – O insignificante noivo de Molly Hooper. Naquela época, eu estive ansioso para estar na frente de Sherlock Holmes, olhá-lo nos olhos e apertar sua mão, ver se passava no teste do exímio observador que era o detetive Sherlock Holmes. Jim Moriarty conseguiu passar pelo mesmo teste, não foi? Ele apostou comigo se eu seria capaz da mesma façanha, naquele tempo. Foi muito divertido observar sua incapacidade de ver um assassino treinado bem diante dos seus olhos. Sabe qual a habilidade essencial para profissionais como eu, Sr. Holmes? Deve-se saber passar por inofensivo diante de pessoas observadoras como o senhor. – o homem afirmou chegando um pouco mais perto do detetive, parando a quatro passos antes de continuar sua fala. – Qual é a sensação? Olhar para alguém que parecia sem importância e descobrir que deveria ter dado mais atenção a esse sujeito? Tomado mais cuidado? Vamos, Sr. Holmes, diga algo, não é bom ficar aqui falando sozinho, estou começando a ficar aborrecido.

– O que te levou a trabalhar para o Moriarty? – Sherlock indagou ainda meio desnorteado como se tivesse levado outro golpe na cabeça.

– É uma pergunta interessante, porém, surpreendente. Eu imaginei que ia querer saber quais são os meus planos imediatos com você. Enganei-me. – Moran comentou com um arquear brincalhão de sobrancelhas. – Bem, Sr. Holmes, para responder sua pergunta, vou primeiro lhe dizer o que me levou a entrar para o exército. Geralmente há quatro tipos de pessoas que buscam entrar para as forças armadas. O primeiro tipo entra para manter a tradição da família. O segundo o faz por puro patriotismo, quer servir o país. O terceiro quer apenas um emprego, pois não conseguiu sorte em outro lugar, e o quarto tipo, bem, o quarto quer apenas um meio legal para poder matar pessoas porque não se satisfazem em desperdiçar munição com garrafas, melões e alvos de papel.

– E você é certamente do quarto tipo. Deduzo que teve problemas enquanto servia o exército britânico por causa disso. É óbvio que foi dispensado com desonra. Estou enganado? – Sherlock declarou já recuperado do choque de descobrir que o esquisito namorado de Molly Hooper era um assassino mercenário e ex-agente do crime de Moriarty.

– Está correto... Alguns dos meus superiores eram pessoas de mente fechada. Mas Moriarty soube valorizar as minhas habilidades. Ele me pagava muito bem para fazer aquilo que eu amo fazer.

– Matar pessoas. Por isso trabalhava para ele. – Sherlock concluiu encarando aquele homem que esteve por mais de uma vez diante dele como um inocente e tosco arremedo do próprio Sherlock. Pobre Molly, pensou o moreno. – Se sua tarefa é matar, por que me atingiu de raspão no bosque? Você estava em vantagem, podia ter terminado o serviço ali.

– Tem Razão, eu não erraria aquele tiro. Mas, como já mencionei, ainda não era a sua hora de morrer. Sabe qual o melhor ponto para atingir e matar alguém? – Moran indagou encarando avidamente o detetive como se aguardasse que ele pudesse responder, mas não deu-lhe espaço suficiente para isso. – Oh, é aquele ponto exato onde o crânio se encontra com a medula. Crave uma bala bem ali e verá uma enorme quantidade de sangue fluir rapidamente... é simplesmente fatal. Eu chamo de morte misericordiosa. A vítima nem tem tempo de assimilar o que houve, mas nem sempre é possível alvejar esse ponto, as adversidades de distância, clima e visibilidade podem me forçar a utilizar outros alvos vitais no tronco da vítima, e isso nem sempre leva a uma morte imediata, acredito que a pessoa chega a ter uns cinco ou dez segundos para agonizar e saber o que está acontecendo. No entanto, asseguro que uma vez traçado o ponto, o efeito é sempre eficiente. E foi exatamente isso que eu fiz hoje mais cedo.

– A Rainha! Você matou a Rainha! – Sherlock exclamou subitamente recordando desse ponto dos fatos que o choque do momento presente havia suplantado até ser evocado por Moran.

– Infelizmente, não. Mas minha ação não foi de todo um fracasso. A ponte de Londres pode ter permanecido de pé, mas o esteio oculto do governo britânico foi quebrado. – o assassino afirmou entre satisfeito e resignado.

– O que quer dizer com isso? – o detetive perguntou com um súbito mau pressentimento correndo seu corpo.

– Mycroft Holmes, em um arroubo patriótico interpôs seu corpo diante de Elizabeth II. Ele foi atingido no lugar da Rainha e está seguramente morto. É uma compensação razoável. Isso vai desestabilizar um pouco o serviço de segurança e políticas internas da Grã-Bretanha por um tempo.

Sherlock sentiu-se esmagado pela informação. Ele desejava desesperadamente não acreditar no que Moran lhe dizia, mas ele havia ouvido o tiro, chegara tarde demais na sala onde o atirador estava. O disparo letal fora efetivado, mas não ceifou a Rainha da Inglaterra, matou seu irmão.

– Meus pêsames, Sr. Holmes. – Moran ofereceu cinicamente seus cumprimentos.

– O que você quer de mim? – Sherlock murmurou com olhos ardendo em lágrimas ainda não derramadas, sentindo o coração pesado enquanto tentava assimilar a ideia de que o irmão estava morto.

– Eu acho que é bem óbvio e que você já sabe a resposta, mas quer ouvir de mim de qualquer maneira. Eu entendo isso, sabe? Ouvir a morte ler o seu nome no livro dos mortos faz a coisa se tornar real de fato.

– Vai me matar agora?

– Sim.

– Por que só agora? Poderia ter feito isso antes, o que te impediu? O que estava esperando?

– Paciência e senso de oportunidade fazem um bom assassino. O seu irmão estava usando de forma bastante descarada a força de segurança especial do governo para dificultar o acesso de desafetos a você. Deve ter percebido vizinhos novos, gente diferente em torno da Baker Street, para ser sincero, eu acho que tinha seguranças até debaixo da sua cama.

– Oh, espero que não. – Comentou Sherlock forçando uma ironia humorada que estava longe de sentir.

– Bem, o tempo e a falsa calmaria sempre foram excelentes ferramentas para expor a presa para o abate. Precisava que confiasse na ideia de que havia dissolvido toda a rede do Moriarty, eliminado todos os potenciais perigos. Mantive-me quieto. Estudando o terreno. Você não era só um serviço a ser executado em nome de uns radicais terroristas chateados pela sua ceninha de príncipe resgatando a princesa no deserto. Se fosse, já estaria morto de forma limpa e rápida.

– Então o que eu sou?

–Você é a parte pessoal da minha missão. Sabe quantos administradores do submundo dariam para estar no meu lugar? Matarei todos eles de inveja e vingarei Moriarty apropriadamente.

– Vingança. – Sherlock resumiu.

– Óbvio.

– Então, o que acontece agora? Você olhará bem nos meus olhos e plantará uma bala em minha cabeça depois de ter dado o seu entediante discurso de vingança?

– Não, como eu disse, isso não é só um serviço, é pessoal. Jim iria querer isso com estilo. – Moran disse abrindo um sorriso, expondo dentes pequenos e longos que lembravam a arcada de um crocodilo emergindo na lagoa. – O Dr. Watson mataria por você? – ele indagou mudando o rumo da conversa de forma estranha e repentina.

– Ele já fez isso por mim, mais de uma vez. Então, sim, é claro que ele mataria por mim e se eu não sair vivo daqui, ele certamente vai te caçar e matar. – Sherlock respondeu de modo quase feroz.

– Fico muito feliz por saber disso, Sr. Holmes, me dá a certeza de que eu não estava errado. – Moran falou com uma expressão tão satisfeita que causou um mal-estar em Sherlock.

– Do que está falando?

– Dele. – Moran disse apontando para o canto escuro onde ele esteve oculto vários minutos antes e de lá a pessoa menos provável emergiu para a luz da claraboia.

– John? John! Cuidado, Tom é o assassino! Ele é perigoso! – Sherlock alertou.

– Perigoso? – Moran riu-se – Estou lisonjeado. – ele disse olhando de relance para onde John havia emergido das sombras logo atrás dele.

O corpo do médico revelava uma postura férrea, o tipo de postura tantas vezes assumida em campo de batalha. Coluna hirta, ombros alinhados, um soldado pronto para uma reação rápida e eficiente. Moran e Sherlock não estavam na presença do médico, mas do militar John H. Watson, Capitão do 5º Regimento de Fuzileiros de Northumberland.

– Faças as honras, Dr. Watson. – Moran falou pondo as mãos nos bolsos do seu sobretudo.

John eficientemente puxou sua arma do cós traseiro de sua calça e apontou em linha reta nas costas de Moran que permanecia entre Sherlock e o médico. O assassino estava numa posição desvantajosa e indefesa entre os dois homens e parecia tranquilo em relação ao fato.

– Isso será muito interessante. – Moran disse olhando para Sherlock com uma expressão maníaca.

– É claro que vai, se por interessante você define levar um tiro no meio das costas. – Sherlock ironizou tendo observado o sorriso de mora morrer um pouquinho como quem acabasse de perceber algo importante.

– Oh! De fato, estou atrapalhando o Dr. Watson. – o homem disse com uma fingida cara de consternação e saiu de entre Sherlock e John. – Faça as honras, Capitão. – ele concluiu batendo continência para o médico antes de se afastar.

O médico avançou três passos à frente mantendo a arma em punho formando uma mira perfeita para o peito de Sherlock.

– John? O que está fazendo? – o detetive perguntou com vívida perturbação.

– Ele está comprovando o seu ponto, Sr. Holmes. Ele está matando pelo senhor. – Moran explicou deixando o detetive mais confuso.

– O que você fez com ele? – o moreno quis saber observando atentamente o marido que estava longe de parecer normal.

– Escopalamina. – Moran disse como se o termo explicasse tudo.

– A droga da sugestibilidade. – Sherlock concluiu respirando profunda e nervosamente como se esperasse acordar de um pesadelo muito vívido.

– Exatamente. Seu companheiro já se mostrou bastante suscetível às influências de comandos mentais reforçados por drogas um tempo atrás. Digamos que o Sr. Watson foi exposto a uma dose razoável de escopalamina e depois conduzido por bom especialista a acreditar firmemente em uma terrível informação.

– O que foi dito a ele? – Sherlock indagou sentindo gelo substituir seu sangue nas veias.

– Oh, John Watson foi informado de que o amado marido, Sherlock Holmes, foi morto pelo atirador que estavam investigando. Devia tê-lo visto depois de ouvir essa história. – o homem fez uma expressão de pena. – ele ficou devastado. Mas a devastação do Dr. Watson foi rapidamente substituída pela esperança de vingar a morte de Sherlock Holmes. E ele ficou muito animado com a perspectiva. Nesse momento, tudo o que John Watson acredita estar diante dele é o assassino do marido. Ele não o reconhece agora. Ele vê apenas um estranho que matou o seu companheiro e que merece morrer por isso. Watson só vai acorda do transe provocado pela droga algum tempo depois de concluir a tarefa, então vai descobrir que ele é o verdadeiro assassino de Sherlock Holmes. Que trágico, não? Acho que vou me aventurar a escrever romances. Ando muito criativo para tragédias. Me diga, ele se mataria depois de se dar conta que matou você? Bem, acho que vou ficar por aqui por mais um tempo e esperar o efeito da droga passar para verificar esse ponto.

Sherlock sentiu-se nauseado com a situação que se estabelecia diante dele. Aquele plano era doentio, desumano e absurdo. Seu coração disparou no peito, alarmado com o que estava prestes a ocorrer e com o que poderia ocorrer depois da conclusão do ato. Ele tinha que tentar despertar John dos efeitos da droga.

– John! Sou eu, Sherlock! – o detetive gritou removendo seu casaco e cachecol para deixar sua figura mais nítida debaixo da luminosidade difusa da claraboia. – Eu não morri, você não está diante do assassino. Desperte!

John moveu-se levando a mão esquerda para apoiar a arma firmemente empunhada pela direita, contraindo ligeiramente os músculos faciais em torno dos olhos, firmando regiamente a mira. Sua expressão era a máscara letal de um soldado pronto para eliminar um alvo perigoso.

– Por favor, não... – Sherlock murmurou derrotado com lábios trêmulos, e o tremor dos seus lábios não era de medo, era de angústia pela devastação que John sentiria depois de constatar o que fizera.

John inspirou fundo, inflando o peito compacto e prendeu o ar nos pulmões. Esse era o momento, o instante em que um atirador suspende a expiração para não errar seu alvo.

Sherlock fechou os olhos, rememorando rapidamente alguns momentos de imensa felicidade sentida ao lado do homem prestes a matá-lo. Que o amor que o arrastou de uma vida solitária e fria para uma relação quente e plena, fosse sua última lembrança consciente, e não o sujeito de expressão letal apontando-lhe a arma que o mataria.

– Eu perdoo você, John... – Sherlock murmurou mantendo na mente a sensação dos beijos do marido e esse foi o seu último pensamento conexo.

Num bater de coração, o som hediondo de três disparos firmes rasgou o silêncio do ambiente e Sherlock sentiu o impacto dos três projéteis em seu peito fazendo-o tombar para trás, agonizando, afogado no horror que selava o seu destino.

O cano da arma de John Watson estava quente com as três deflagrações e ele parecia muito satisfeito. Moran também.

Com um último fiapo de consciência esvaindo como biscoito de amido no leite quente, Sherlock percebeu John e Sebastian se aproximarem de onde ele estava caído, então o detetive ouviu um quarto disparo e um corpo caiu pesadamente ao seu lado.

Ele quis gritar, não se importava em morrer, mas não queria que a vida de John acabasse ali também. E o cadáver ao seu lado foi sua última percepção antes que o nada o devorasse com fome assassina.


Notas finais:

Bem... que tragédia isso que aconteceu, não é? (autora começa a recuar de mansinho pronta para sair correndo ao menor sinal de bandas de tijolo em sua direção). Finalmente soubemos quem estava causando tanta confusão. Parabéns ao pessoal que teorizou coisas bem próximas do que realmente a trama estava querendo entregar no final. Espero que estejam se divertindo até aqui. No próximo capítulo, o último desta fic, irei apresentar-lhes explicações sobre a matança geral neste capítulo. Aguardo seus comentários, beijos!

.