Notas iniciais:

Queridos, peço perdão pelo atraso, se é que ainda tenho o direito. Mas desta vez foi por um motivo fora do meu alcance e não teve nada a ver com fuga de inspiração. O capítulo estava praticamente pronto, faltavam só uns arrematezinhos, e a besta aqui teve uma crise de asma, acabou na emergência, depois foram dias de recuperação lenta (não é só para o Dean que hospitais acontecem). Enfim. Agora que já posso andar serelepe por aí, voltei a lan para deixar o capítulo, um pouco maiorzinho para compensar.

Espero que gostem e deixem reviews.

Bjos e até mais.

CAPÍTULO CATORZE

A noite de sábado chegou e, como Dean previu, Sam não foi visitá-lo. Na tentativa de desviar sua própria atenção o loiro se dedicou aos novos exercícios ensinados por Lisa, específicos para a perna esquerda. Movimentos leves, que poderiam ser feitos com maior frequência e que acabaram por distrair o bombeiro de seus problemas emocionais. Cansado pelo esforço, resolveu se deitar e dormir logo depois do jantar.

Na casa da família Winchester, Mary, John e Sam se uniram para assistir um filme com pizza, não apenas para aproveitar a presença do mais jovem, como para comemorar por antecipação a alta do mais velho depois de quase um mês de internação e trabalho árduo pela sua recuperação.

- Finalmente, as coisas estão voltando aos seus lugares. Sam se dando bem na faculdade e no estágio, Dean se recuperando depois do susto que nos deu, e a gente podendo aproveitar um filme na TV com tranquilidade, sem o peso da preocupação e do medo sobre nossas cabeças – suspirou John antes de dar um gole na cerveja que tinha nas mãos.

Mary espiou Sam pelo canto dos olhos. O rapaz fez apenas um gesto discreto com a cabeça em concordância com o que o pai havia dito. Ele também estava feliz por Dean ter sobrevivido e, acima de tudo, por estar se recuperando. Ainda assim, havia algo do qual nem ele nem o irmão iriam se recuperar, algo despertado pelo incêndio e o medo da perda que ambos sentiram – Dean no momento do acidente e Sam quando o mais velho esteve em coma. Um amor incondicional, puro, intenso.

E proibido.

O trio continuou assistindo o filme, cada um perdido em seus pensamentos. John satisfeito com o retorno da normalidade, Mary disfarçando a tristeza por ver seus filhos sofrerem e Sam imaginando como seria o convívio com o loiro a partir de segunda-feira, quando ele voltasse para casa.

O domingo chegou e John sugeriu que os três fossem juntos visitar o primogênito.

- Graças a Deus será a última vez que iremos visitar Dean no hospital – disse sorridente, enquanto Mary terminava de preparar o almoço.

Sam chegou a ensaiar uma desculpa para ficar em casa, mas ela não foi aceita pelo pai.

- Eu não vou poder, pois preciso terminar de preencher a documentação da rematrícula para enviar a Stanford amanhã e...

- Puxa, filho, é de seu irmão que estamos falando! Você não pode deixar a papelada burocrática para preencher à noite?

- Mas é muita coisa e o prazo se encerra no final da semana, se eu não enviar amanhã o correio entrega atrasado, pai.

- Que diferença irá fazer uma horinha com seu irmão? – questionou John com um tom mais severo desta vez.

- É de meu futuro que estamos falando. Eu não quero perder a bolsa na universidade por ter que ficar pajeando Dean! – respondeu Sam, sem realmente pensar no que estava dizendo, nem no quão duro estava sendo com a situação.

- Tenha mais respeito com o irmão que arriscou a vida para salvar a sua, Sam! – rebateu o pai com agressividade.

- Fiquem calmos, vocês dois! Tenho certeza de que Sammy não quis parecer ingrato ou rude com o irmão, John. Não é, meu filho? – interveio Mary.

Sam consentiu com a cabeça. Ele não sentia nada daquilo que acabara de sair de sua boca, mas o desespero causado pela obrigatoriedade de ir ver o mais velho acompanhado de seus pais fez com que acabasse perdendo a razão.

- Não, mãe, a senhora está certa. Eu só estou nervoso com tudo o que aconteceu... -Vendo o olhar reprovador do pai, Sam acrescentou - Me desculpe, pai. Perdi a cabeça. Eu irei com vocês visitar o Dean.

- Bom. Então vamos almoçar e nos aprontar. A fisioterapia foi intensificada neste final de semana para que ele pudesse ter alta amanhã. Então ele não terá muito tempo livre.

A família almoçou em relativo silêncio. Assim que possível foram até o hospital, onde encontraram Dean em pé em frente à janela do quarto, de braços cruzados, olhando o movimento na rua em frente.

- Oi, filho. Há quanto tempo está em pé? – perguntou John.

- Não muito – respondeu enquanto se virava para encarar o pai. Quando percebeu que além de John e Mary Sam também havia chegado, o loiro sentiu-se aliviado, inseguro e tenso ao mesmo tempo.

Mary adiantou-se e deu um abraço no filho. Em seu ouvido sussurrou um "fique tranquilo, meu amor", o que acrescentou "desconfiança" à lista de sentimentos que tomavam conta de seu coração em conflito. Quando se soltou do abraço olhou a mãe nos olhos. Ela sorria de um jeito compreensivo, como se soubesse o que havia acontecido entre seus filhos. "Será que Sam contou à nossa mãe que eu o beijei? Meu Deus..." pensou o loiro, olhando a mãe com uma leve suspeita.

John interrompeu seus devaneios ao se aproximar para cumprimentar o filho também, com um sorriso que ia de orelha a orelha.

- Tão bom vê-lo de pé novamente, filho. Mas não vá se cansar demais, ok?

- Não vou, pai, fique tranquilo – disse, recebendo um forte abraço em resposta.

Então um silêncio constrangedor se instalou no quarto. Os pais esperavam que os filhos se cumprimentassem, como normalmente acontece quando dois irmãos se encontram, como normalmente acontecia quando seus filhos se encontravam. Em vez disso, Sam e Dean apenas se olhavam. O loiro com uma expressão apreensiva; o moreno demonstrando claro desconforto.

Foi o mais velho quem quebrou o silêncio.

- Hei, Sammy. Então, resolveu tirar o nariz do meio dos livros um pouco para me visitar pela última vez? – falou com um sorriso tímido.

- Puxa, Dean, falando assim parece tão mórbido... – respondeu o rapaz, olhando para os pés.

Então Mary resolveu ir ao socorro dos filhos antes que John desconfiasse que havia algo errado entre os dois.

- Que nada, Sammy, o Dean tem razão. Hoje, felizmente, é o último dia dele no hospital, já que amanhã terá alta logo cedo. – E, dirigindo-se para o mais velho, acrescentou: - Estamos todos muito ansiosos para tê-lo de volta, Dean.

- Eu também, mãe. Nem acredito que esse martírio vai acabar!

- Você ainda tem muita fisioterapia pela frente, não vá relaxar agora, filho – repreendeu John.

- Não vou, pai, pois quero voltar ao trabalho o quanto antes. Estou falando do hospital... não aguento mais ficar aqui, preso, com esse cheiro de álcool, os gemidos dos outros pacientes, esses malditos 'bips' que não param... não vejo a hora de poder dormir uma noite inteira sem ser interrompido por uma enfermeira me espetando ou cutucando, comer a comida da mamãe...

John sorriu. Esse era seu filho. Guerreiro, obstinado e "reclamão". Definitivamente, a vida havia voltado ao normal. Ao menos era o que o patriarca, em sua ignorância dos fatos, acreditava.

A visita foi longa o bastante para que os Winchesters combinassem os detalhes para o dia seguinte e curta o bastante para que não houvesse tempo hábil para uma nova cena constrangedora. As semanas seguintes seriam, com certeza, as mais difíceis para Sam e Dean.

~~~D&S~~~

Na manhã seguinte Mary chegou ao hospital com uma sacola contendo uma muda de roupas para que Dean pudesse voltar para casa. Ao chegar ao quarto do filho, o encontrou mais uma vez em pé na frente da janela com os braços cruzados, pensativo.

- Bom dia, meu filho. Pronto para ir pra casa?

- Mais do que pronto! – respondeu o loiro com um suspiro. Então ele olhou para a mãe que tinha novamente aquele sorriso do dia anterior, o mesmo que havia despertado suspeitas em Dean. Ele resolveu aproveitar o fato de estarem sozinhos no quarto, mas não sabia como perguntar sobre os motivos dos olhares diferentes – na opinião dele -, que ela o dirigia. – Mãe...

Enquanto Dean sussurrava o chamado encarando os azulejos do piso, Mary se aproximou, acariciou o rosto do filho e disse carinhosamente:

- Sim, Dean, o Sammy me contou sobre o beijo.

Assustado, Dean encarou a mãe com os lindos olhos verdes arregalados e a respiração suspensa. Como ela poderia agir tão calmamente diante de uma coisa dessas era o que o rapaz tentava descobrir.

- Não se assuste assim, meu amor. Não condeno o que está acontecendo entre vocês. O Sammy me confessou que o ama de um jeito diferente e depois do beijo que você iniciou imagino que seja recíproco...

- Mãe, eu... – interrompeu Dean.

- Dean, não se envergonhe. Vou lhe dizer o que já falei para o Sammy. O amor de vocês é lindo, como todo amor. O que me preocupa é que, por causa das convenções sociais e das leis não poderá ser posto em prática e vocês irão sofrer, muito, meu amor. E eu não quero que vocês sofram...

- Como a senhora pode estar tão serena diante de uma situação dessas?

- Me desesperar não vai resolver nada, meu anjo.

- Mas... eu

- Filho. Confio em vocês. Sei que vão encontrar uma maneira de superar isso juntos. E vocês podem contar com o meu apoio e minha discrição.

Dean deu mais um suspiro, um misto de desânimo e tristeza. Aproximou-se da mãe, abraçou-a com carinho e chorou em silêncio. Mary,também em silêncio, mais uma vez orou para que Deus protegesse seus filhos deste sofrimento.

Assim que o loiro se recuperou da crise de choro, afastou-se da mãe, deu um sorriso sem graça e enxugou o rosto com a mão esquerda.

- Você não precisa ter vergonha de mim, meu amor.

- Eu sei – sussurrou Dean. E para mudar de clima desconversou: - Cadê minhas roupas?

- Aqui. Trouxe aquela calça jeans que você adora, uma camiseta cinza e a camisa bordô que eu amo.

Neste momento entrou uma enfermeira com a bandeja do café da manhã.

- Ué? Não vou pra casa? – perguntou Dean com uma expressão que mesclava decepção e susto.

- Vai, mas antes vamos te alimentar que é pra você não sair por aí falando que a gente te tratou mal – brincou a enfermeira.

Aliviado Dean sorriu, sentou-se na cama e comeu, enquanto Mary recolhia seus pertences espalhados pelo quarto. Logo em seguida doutor Novak chegou com o formulário de alta nas mãos.

- Então, Dean, pronto para ir para casa?

- Tem muita gente me perguntando isso ultimamente – respondeu sorrindo.

- Bem, vou encarar isso com um sim. Aqui estão os papéis de liberação, as receitas para o caso de sentir alguma dor ou desconforto, meu telefone em caso de emergência e... bem, tem mais gente querendo se despedir.

Liderando um grupo de funcionários do hospital Missouri, a chefe das enfermeiras, entrou no quarto com um sorriso nos lábios e lágrimas nos olhos. Era um dos raros momentos de emoções boas que ela dividia com seus colegas, quando um herói da cidade que havia feito parte do cotidiano deles finalmente era liberado depois de quase um mês de recuperação difícil.

- Dean, seu moleque – começou Missouri com suas brincadeiras características. – A gente vai sentir saudades do seu jeitão "reclamão" e rabugento, mas isso não é pretexto para querer voltar, viu?

- Pode dei...

- Eu não acabei ainda! – interrompeu a mulher, arrancando risadas de todos. – Nós reunimos um dinheirinho para comprar uma lembrança para que nunca mais se esqueça de nós. É bem simples, mas com carinho.

Dean, pela primeira vez, ficou sem palavras. Abriu o pequeno embrulho com cuidado. Era uma caixa de madeira pintada artesanalmente de marrom escuro e decorada com rótulos de vários tipos de bebidas. Dentro havia outras coisas com um bilhete explicativo.

"Querido Dean,

Sua bravura no resgate de vítimas do incêndio do Fórum, entre elas seu irmão, te trouxe para nosso convívio por quase um mês. Durante este período você nos conquistou com esse jeito mandão, mal-humorado e doce ao mesmo tempo. Com esses agradinhos queremos que saiba que você estará para sempre em nossos corações, mas esperamos que o próximo encontro seja em circunstâncias melhores.

Dos amigos da ala de recuperação semi intensiva e CTI."

Dean ergueu o olhar repleto de lágrimas e começou a tirar os presentes de dentro da caixa, enquanto acompanhava as descrições grudadas em cada item. Havia um pote de gel de cabelos "para que o bombeiro mais lindo de Lawrence possa voltar à ativa com o mesmo charme de antes"; um baralho "para matar o tempo enquanto o alarme do quartel não soa"; uma garrafinha de bolso de metal "para levar consigo um pouco de calor no inverno"; um relógio novo "para não perder a hora do trabalho" e um cordão preto com um pingente estranho, semelhante a uma carranca, que não tinha bilhete.

Intrigado, Dean encarou Missouri mordiscando o lábio inferior, claramente intrigado pelo pequeno objeto.

- Isso é um símbolo de proteção, Dean. Carregue sempre consigo para que a gente não precise mais limpar essa sua bunda branca.

Mais gargalhadas, muitos abraços e agradecimentos depois, o jovem foi definitivamente liberado. Estava na cadeira de rodas sendo empurrado pela mãe pelo corredor até a saída, quando Lisa chegou correndo.

- Ufa. Quase não te alcanço para me despedir.

- Mas nos vemos na quinta-feira para a fisio...

- Eu sei, mesmo assim... – disse a morena, abaixando-se pra deixar um beijo no rosto do bombeiro que ficou de certa forma desconcertado. – Até mais.

- Até mais – respondeu o loiro com seu sorriso de cantinho.

Enquanto empurrava o filho o restante do caminho Mary sorria, não apenas pela alegria de vê-lo voltando para a casa, como pelo clima que surgiu quando a jovem terapeuta beijou Dean. Se por um lado isso a deixava aliviada em relação ao mais velho, a deixava ainda mais preocupada com o sofrimento do caçula.

~~~D&S~~~

No final da tarde, quando Sam chegou do trabalho e foi surpreendido pelo cheiro de carne assada. Foi até a cozinha e viu a mãe preparando massa caseira, um molho encorpado e queijo ralado enquanto o forno fazia seu trabalho.

- Hum, que delícia!

- Oi, filho! Estou fazendo um jantarzinho especial para o Dean. Ele merece depois de passar quase um mês comendo aquela coisa insossa do hospital que até pode fazer bem para a saúde e ajudar na recuperação, mas não se compara com comidinha caseira – gabou-se Mary.

- Verdade, mãe. Falando em Dean, onde ele está?

- Terminando o banho.

- Ele cantou?

- Cantou – respondeu Mary, sorrindo.

- Isso significa que voltou mesmo tudo ao normal – aceitou Sam, sorrindo.

- Estão falando de mim? – disse Dean da porta.

- Claro, convencido. Sente-se aqui para não se cansar – disse a mãe apontando uma cadeira. Sam, a essa altura, havia se afastado e se encostado no balcão próximo da geladeira. Vendo o constrangimento do rapaz Mary foi em seu socorro. – Sam, por que você não vai tomar seu banho também antes de o jantar ficar pronto?

- Está bem, mãe – respondeu o rapaz com um sorriso de agradecimento. Assim que ele saiu da cozinha Dean suspirou.

- Deus, isso está sendo estranho... e tudo por minha culpa!

- Não diga isso, querido. Não há culpados nessa situação.

- Como não, mãe? Eu não devia ter cedido e o beijado. Devia ter sido mais forte...

- Dean, o amor acontece. Não se culpe pelo que houve. Trate de tentar encontrar um jeito de evitar o sofrimento de vocês a partir de agora, que é isso que mais me preocupa.

- Eu sei. Vou me comportar. Mas e o clima ruim, o que vamos fazer?

- Disfarçar, querido. Disfarçar. Antes que seu pai perceba.

Quando Sam terminou seu banho e desceu John já havia chegado do trabalho e se unido a Mary e Dean na cozinha. Conversavam sobre os últimos resultados da NBA e as expectativas para o campeonato de futebol tão animadamente que os irmãos não precisaram se esforçar muito para manter as aparências de normalidade. O jantar transcorreu tranquilamente, foi seguido por uma partida de futebol na televisão, e quando a família se aprontou para dormir, Mary olhou pela última vez para os filhos com um sorriso sereno nos lábios. Talvez não seria tão difícil assim fazer com que a vida dos Winchesters voltasse ao normal.

~~~D&S~~~

Na quarta-feira Sam foi liberado do trabalho depois do almoço para recuperar horas extras feitas na terça, quando ficou no Fórum até tarde da noite. Chegou em casa e teve a sensação que ela estava vazia tamanho o silêncio. O pai certamente estava na oficina tentando colocar em dia o trabalho acumulado nas últimas semanas em que passou boa parte do tempo no hospital. Mary, por sua vez, deveria estar na escola em que alfabetizava adultos voluntariamente duas vezes por semana.

Restava Dean. Ainda assim não se ouvia um ruído sequer pelo ambiente. Certamente o mais velho estava quieto demais para seu normal, o que deixou Sam preocupado. Então, contrariando todos os instintos que diziam para que fosse direto ao seu quarto, ele foi até o escritório onde o irmão estava temporariamente instalado. Deu duas batidas leves na porta e esperou uma resposta que não veio. Tentou mais uma vez, com um pouco mais de força e nada. Resolveu abrir uma fresta e espiar. O que viu foi Dean deitado de costas, com a respiração acelerada embora estivesse dormindo. Ao chegar mais perto percebeu o suor encharcando a camiseta do irmão. Era claro que o loiro estava tendo um pesadelo.

- Dean? – chamou o caçula, tocando de leve no ombro do irmão que não esboçou reação. Tentou mais uma vez, desta vez chamando um pouco mais alto. Ele não esperava que Dean acordasse de um pulo, gritando seu nome.

- Sammy!

- Hei, hei, hei, está tudo bem, estou aqui, Dean.

Por alguns instantes o loiro pareceu desnorteado. Ofegante e visivelmente assustado, ele olhou para Sam e tratou de acalmar sua respiração enquanto sentava-se na cama.

- Sam?

- Está tudo bem, Dean. Foi só um pesadelo.

- Er... eu... ando tendo pesadelos ultimamente, deve ser por causa do incêndio. Efeito colateral, acho... – disse Dean, dando um sorriso de cantinho na tentativa de parecer mais confiante e tranquilo do que realmente estava.

- Que pesadelo é esse, Dean?

O mais velho parou por alguns instantes, instalou-se melhor na cama, encostando-se na cabeceira, e olhou para o jovem à sua frente com receio do que poderia significar abrir seu coração a Sam.

- Dean? – insistiu o caçula. – Confie em mim. O que tem nesse pesadelo que te incomoda tanto?

- Vejo você aparecer para mim em chamas, apontando em minha direção e gritando que eu sou o culpado pelo seu sofrimento... – respondeu timidamente o mais velho, mais uma vez encarando as mãos em seu colo.

- E você está envergonhado por quê? Acha que seu pesadelo está certo?

- Eu... não... Sam, você não pode negar que tenho feito você sofrer...

- Hei, Dean. Você sabe que pesadelos são apenas frutos dos medos que guardamos no nosso inconsciente, certo? E você não precisa ter medo, Dean, pelo contrário! Você salvou minha vida e eu jamais poderei agradecer... – tentou desconversar o moreno.

- Sammy. Não posso evitar... meu maior medo é não ser capaz de te proteger, de evitar seu sofrimento e, pior... não suporto a dor que sinto só de imaginar o que eu causei a você...

- Você não me causa sofrimento, Dean... nunca mais diga isso!

- Não minta pra mim, Sammy. Eu vi em seus olhos a dor que eu causei naquela noite, no hospital, quando você foi me amparar e eu...

- Dean! Não diga isso! – insistiu Sam para que o loiro mudasse de assunto.

- Me desculpe, Sammy. Eu não deveria ter feito aquilo, foi irresponsável, inconsequente...

- Dean, por favor, pare...

- Você acha que não percebi que está diferente comigo por causa disso? Que não percebi que tem nojo de mim?

- DEAN! EU TE AMO, PORRA! Não é nojo o que sinto, é amor! O que me entristeceu foi você ter se arrependido do beijo, não o beijo em si. Será que você não entende?

A explosão de Sam surpreendeu ambos. Dean o olhava com espanto, os olhos verdes brilhantes e extremamente abertos. Sam, ao se dar conta do que havia acabado de admitir, levantou-se da cama e estava saindo do escritório quando ouviu Dean responder baixinho:

- Eu também te amo, Sammy.

O jovem parou, ainda de costas para o irmão, tentando descobrir se o que acabara de ouvir era verdade ou apenas fruto de sua imaginação. Então, lentamente virou-se e encarou o verde dos olhos do irmão com um misto de surpresa e admiração, dúvida e entendimento.

- Me desculpe, Sammy. Por ter te magoado de algum jeito... eu pedi desculpas não porque me arrependi de ter te beijado, mas porque achei que você tivesse... você pareceu tão surpreso e enojado e eu fiquei com medo de que meu ato impensado fosse te afastar de mim, porque eu sei que isso não é certo, estar apaixonado pelo irmão, muito menos ficar por aí beijando um irmão na boca, mas eu...

Sam se deixou embalar pela cascata de desculpas e explicações que saíam desordenadamente da boca de Dean, com sua voz rouca e preocupada. Aproximou-se da cama e sentou-se na beirada.

- Dean. O amor não escolhe. O amor acontece.