Uma segunda chance

Capítulo 20 – Primeiro mês

Após o primeiro dia em casa, Peter notara que os outros membros da alcateia não mais pisavam em ovos ao seu redor. Era quase como se nada tivesse acontecido. Quase era a palavra-chave. Havia certa tensão no ar. E não demorou muito para que Peter descobrisse o por quê.

Por mais que tentassem disfarçar, os adolescentes estavam estressados. Não se notava muita diferença em Jackson e Scott, que sempre discutiam. Mas a mudança em Isaac era gritante. Não dormia direito, não comia direito, resmungava e estava constantemente de mau humor.

Sem ter com quem conversar, já que John estava trabalhando direto na Delegacia, Peter dividiu suas preocupações com Laura. Achava que ela poderia ter uma ideia melhor do que se passava com Isaac já que era mais nova.

-Está dizendo que talvez eu me comunique melhor porque penso como eles? Isso é ofensivo, sabia? – gritou Laura.

Dizer que Laura ficou aliviada em ajudar, após se acalmar, foi pouco. Desde que ela o encontrara da última vez perdido em sua própria mente, mergulhara em sua pesquisa "secreta" e conhecera mais uma personalidade bizarra dele, que atendia pelo nome de Pi.

Pi era uma adolescente de quinze anos que era, em sua essência, uma piriguete. Era vulgar, promíscua, extremamente desagradável e odiava Peter com fervor. Laura, que a viu, disse que ela era muito parecida com Peter, fisicamente. Era como uma versão mais nova do sexo oposto. Por consequência, era parecida com a própria Laura, e ela odiava a semelhança.

Então, Laura começou a trocar de lugar com Peter sempre que possível. Os adolescentes realmente relaxaram com Laura. Eles voltaram a rir. A casa parecia um lar novamente. A diferença é que só era assim em sua ausência.

Com essa dinâmica com Laura, Peter podia descansar. Estava sempre com sono, e com ela ali, tinha certeza de tinha sempre alguém cuidando dos garotos. Afinal, a alcateia de alfas ainda estava na cidade e eles ainda poderiam querer reivindicar o território dos Hale, já que eles não tinham nenhum alfa oficial no momento, só um pré-adolescente em "treinamento".

Com o passar dos dias, Peter foi obrigado a colocar sua vida nos eixos novamente. Finalmente marcou a primeira consulta com uma obstetra que Melissa indicara, e que soubera e se interessara sobre seu caso e começou a sair novamente para fazer compras e tarefas do dia-a-dia.

Ele sabia que olhares indiscretos o acompanhariam o trajeto inteiro. Beacon Hills era uma cidade pequena, e o que lhe acontecera fora um choque para a vidinha pacata dos moradores de lá. Mas realmente não estava preparado para as inúmeras revistas e jornais com fotos e matérias sobre sua vida inteira, inclusive sobre sua gestação. Ele tinha virado a aberração da cidade em questão de dias.

Ele sentiu o coração disparar, o suor frio e quando piscou estava dentro uma casa muito parecida com a sua, mas que não era a sua. Não conhecia a garota que o olhava com um sorrisinho malvado.

-Foi bem fácil escapar dessa vez, não é? – ela perguntou ao se levantar e ir a sua direção – Sair e deixar outro lidar com uma situação desagradável em seu lugar? – continuou, murmurando sensualmente em seu ouvido – Acho que anos de prática levam à perfeição, não concorda? – afirmou ao descer a mão pelo seu abdome e desabotoar o botão de seu jeans, fazendo-o olhá-la assustado.

-Pi, eu não acho meu giz azul – falou uma voz fina que vinha do corredor.

A garota ao ouvir a voz da criança afastou-se completamente e sua expressão perdeu todo o rancor anterior ao virar-se na direção da criança que agora entrava no ambiente.

-Já procurou no seu quarto, Pete? – ela perguntou se abaixando, com um sorriso no rosto.

-Já. Não achei em lugar nenhum. Ele sumiu – o garotinho respondeu e começou a chorar.

Então esse era Pete. Uma cópia quase exata do seu eu com seis anos.

Uma culpa o invadiu quando ele o viu. Não conseguiu encará-lo e desviou o olhar para um aparador na sala. Queria fazê-lo se sentir melhor. Fechou os olhos e quando os abriu novamente viu o giz de cera azul em cima do aparador. Sem pensar, pegou-o e entregou ao garoto que sorriu e saiu correndo da sala.

-Acha que consegue apagar o inferno que fez da existência dele com um giz de cera? – perguntou a garota, rindo desdenhosamente – Você é ridículo!

-E você é uma vaca – retrucou Júnior, que entrou na sala, obviamente à procura de Peter – Você devia ir lá fora – sugeriu.

Peter o encarava como a quem via um fantasma. Júnior era ele com vinte anos.

-Acho que ele está em choque, Laura – comentou o rapaz e olhá-lo nos olhos.

Peter se afastou instintivamente. Os olhos de Júnior pareciam sem vida.

-Ah, mas que merda! – ele ouviu Laura praguejar – Acho bom eu não ter que ir aí te buscar, Peter! Move essa bunda gorda e vem pra cá agora antes que eu mate esse parceiro de merda que você escolheu!

-Venha comigo, eu te ajudo – ofereceu Júnior, ao pegar seu braço e conduzi-lo até onde Laura estava.

Os dois foram caminhando e Peter não pôde evitar olhar de vez em quando por cima do ombro. Aquilo tudo era muito surreal.

-Você devia me agradecer por fazer o seu papel! – afirmou Laura, enfiando o dedo na cara de John.

-Desde quando meu papel é levá-lo até um supermercado e deixá-lo ter um ataque de pânico? – retrucou o xerife, encarando os olhos vermelhos de Laura.

-Ele só queria um pouco de normalidade. Voltar a fazer as coisas que fazia antes... antes dessa merda toda! Como ele poderia imaginar que quase todas as publicações da banca seriam sobre ele?!

-Normalidade? Ele é um homem grávido que uiva para a lua uma vez por mês e que têm várias personalidades e uma sobrinha maluca que divide o corpo com ele. É uma aberração ambulante – gritou John em retaliação.

Os adolescentes que assistiam a cena ficaram horrorizados com a falta de tato de John. Lydia olhava para o lobisomem com a mão na boca.

-Então, é isso que realmente acha – comentou Peter encarando John, que arregalou os olhos quando viu os olhos azuis de Peter e não os vermelhos de Laura.

-Não foi isso que eu quis dizer – disse o xerife, sem graça.

-Foi sim. Talvez se não tivesse com raiva, teria se dado ao trabalho de falar com um pouco mais de tato – comentou Peter, ao passar a mão pelo rosto e ir para a geladeira – Quanta lasanha! – comemorou ao tirar uma travessa de vidro para esquentar, quebrando totalmente o clima chato que se instaurara na casa.

Talvez devesse acrescentar transtorno bipolar à sua lista gigante de problemas.

Após finalmente ler as "notícias" sobre sua pessoa, Peter desconfiou que algumas poderiam serem verdades. Não que ele tivesse feito um décimo do que estava descrito ali, mas depois de conhecer Pi achava que ela era perfeitamente capaz de ter feito aquilo e muito mais. Laura concordava com ele. Sabendo que dificilmente poderia processar inúmeras testemunhas oculares das indiscrições de Pi por difamação, Peter decidiu simplesmente ignorar. E isso irritou profundamente Isaac e Jackson.

Os dois jovens lobisomens não entendiam de jeito nenhum como Peter podia ignorar tais absurdos sobre sua pessoa. Para eles, era o mesmo que pedir por mais. Mas como Peter poderia explicar para seu filho adotivo que não faria nada porque havia grandes chances de tudo ser verdade? Uma dúvida com relação ao passado de um pai é uma coisa. Uma certeza absoluta de que seu passado era negro era outra completamente diferente.

As discussões com Isaac cessaram com os ataques de sono que acometiam Peter quase o tempo todo. Bastava ele encostar-se a algum lugar, fosse o sofá ou o balcão para pegar no sono. E por isso, Laura tornou-se uma presença quase que constante na casa Hale. Mas mesmo assim, Peter não conseguia descansar, já que toda vez que dormia, acordava na casa estranha com a presença nada agradável de Pi, que adorava contar todos os detalhes sórdidos de suas aventuras descritas nas revistas. Ela se achava uma subcelebridade.

Algumas vezes, Peter preferia ficar na companhia horrível de Pi para que Laura pudesse ficar com Derek, que parecia adorar a irmã cada dia mais, e que infelizmente não parecia sentir muito a falta do pai adotivo. Só voltava mesmo quando John chegava, já que o relacionamento entre ele e Laura deteriorara bastante desde a última discussão. Para evitar mais uma tragédia em família, Peter assumia seu lugar quando ele voltava do serviço. Mas era estranho. Ficava tanto tempo fora que se sentia "visita" em seu próprio corpo.

Um dia, Isaac voltou mais cedo para casa. Tinha tomado uma suspensão por agredir um garoto no corredor. Quando o viu mais cedo em casa, Peter se desesperou e tentou tomar posse de seu corpo de volta, mas não conseguiu. Laura estava bloqueando-o. Mas como?

-Aqui diz que você agrediu um garoto – Laura comentou – Por quê?

-Porque ele estava falando merda sobre o Peter – respondeu Isaac, com um sorrisinho sinistro – Mas não acho que ele vá falar de novo tão cedo – completou.

Peter assistia horrorizado à Laura dar um sorriso aprovando a atitude do garoto. Nenhuma represália sequer. Talvez deixar Laura no comando tanto tempo não fosse uma boa ideia.

Finalmente chegou o dia de sua consulta e Peter estava nervoso. Os minutos passavam e nada de John chegar. Decidiu, por fim, ligar para ver se ele já estava a caminho.

-Stilinski – respondeu John ao atender o celular.

-Sou eu. Você já está chegando? A consulta é dentro de quarenta e cinco minutos – disse Peter, ansioso.

John passou a mão pelo rosto. Tinha esquecido completamente.

-Olha, não sei se vai dar para ir. Estou atolado de serviço aqui – comentou ao olhar sua mesa. E não era mentira, realmente estava cheio de serviço. Obviamente que não era nada urgente, mas Peter não sabia disso, não é?

-Sério? – John podia ouvir o tom desapontado de Peter e isso o incomodava – Talvez seja melhor eu remarcar – sugeriu Peter, pensativo.

-Não – John respondeu rapidamente. Sentia-se mal por ter esquecido a consulta, mas a verdade era que realmente não queria ir – É melhor ir e ver se está tudo bem com você e com o bebê – opinou, torcendo para que ele aceitasse.

-Farei isso. Vejo você à noite – Peter se despediu e desligou.

John viu a chamada encerrada e suspirou. Sentia-se um canalha por não conseguir dizer como realmente se sentia.

Adam estava indo para casa quando parou numa banca para levar o jornal do dia. E se sentiu um lixo quando viu que a maior parte do que foi impresso pela mídia na verdade eram pedaços de sua conversa no refeitório com sua parceira do dia em que foi ao hospital pegar o testemunho de Peter. Como pôde ter sido tão idiota a ponto de sair falando asneiras daquele tipo para quem quisesse ouvir? Era um milagre que ninguém tivesse ligado essas reportagens a ele e sua parceira. Além de ter sido extremamente grosso e acusado a vítima de ter provocado um ataque tão violento, ainda deu margem para esse tipo de publicação. E tudo por quê? Dor de corno por ver que sua paixonite de adolescência preferiu um relacionamento com seu superior e nem sequer lembrava-se do que tiveram no passado?

-É, papai. O senhor estava certo. Amor de pica onde bate, fica – resmungou Adam, consigo mesmo ao colocar o jornal debaixo do braço e andar em direção ao seu carro.

Peter tinha estacionado seu carro e respirava fundo tentando tomar coragem para entrar.

-Você sabe que ele mentiu, não é? Ele deve ter se esquecido da consulta – comentou Laura venenosamente – Deve ser coisa da idade – riu.

-Não está ajudando – respondeu Peter em voz baixa, respirando fundo.

-Ignore-a. Ele não esqueceu – disse Pi, tentando colocar panos quentes – Deve estar fodendo uma vadia enquanto você está aqui, cuidando da cria dele – riu a adolescente. Laura ficou tentada a se juntar à gargalhada.

Peter fechou os olhos com força e colocou a mão na maçaneta.

Passaram só alguns minutos até que ele saísse de volta por onde entrara.

Adam estava passando com o carro quando viu um homem sair apressado de um consultório. Deu uma risadinha achando se tratar de algum chocado com a ideia de um bebê até que reconheceu a pessoa. Era Peter Hale.

-Mas por que ele estava se sentando do lado de fora do consultório? Não tinha lugar lá dentro? – ponderou Adam curioso.

Ele olhou para o estacionamento e viu que estava quase vazio. Achou estranho e parou seu carro e estacionou. Ficaria ali só para ter certeza de que estava tudo bem. Não era nada demais.

Peter olhava a porta do consultório com uma raiva contida. Afinal, quem aquela baleia grávida de óctuplos achava que era? Tinha um monte de lugar sobrando na sala de espera. Eles não precisavam sequer conversar. Só ficariam no mesmo recinto, separados por vários assentos e revistas. Mas, aparentemente, partilhar do mesmo oxigênio era pedir demais. Já que ele era uma "abominação" que poderia lhe passar alguma doença contagiosa.

Após quarenta minutos ouvindo discussões entre sua sobrinha e seus alter egos, a senhora muito grávida saiu do consultório fazendo questão de passar por Peter e virar-lhe a cara. E ele finalmente pode enfim fazer sua consulta.

Quando Adam o viu entrar, virou as chaves na ignição. Mas após uma breve hesitação, desligou novamente o carro. Esperaria o outro sair, só para ter certeza. Ele reclinou o carro e ligou o som.

Como era a primeira consulta, a obstetra procurou conhecer mais sobre o histórico de Peter e sobre sua condição do que outra coisa.

Dizer que ficou surpresa com o fato dessa ser sua segunda gestação era ser gentil. Quando ele disse que ele mesmo fez o parto, em casa e sozinho, ela se levantou, deu a volta na mesa e lhe abraçou.

O resto da consulta passou voando com os dois conversando. A doutora Janice não tinha papas na língua, falava palavrão, mas era muito carinhosa e atenciosa. Peter poderia facilmente se acostumar com isso.

Quando finalmente saiu da consulta, já estava anoitecendo. Peter foi até o seu carro e reparou que seu pneu traseiro estava murcho. Ao se aproximar da traseira do carro, percebeu que o outro pneu traseiro também estava murcho.

Tirou o celular do bolso e ligou para John. O telefone tocou, tocou e caiu na caixa postal. Ele tentou mais algumas vezes sem sucesso. A única coisa que conseguiu foi acabar de vez com a bateria de seu celular.

-Ah, mas que merda! – reclamou, chutando o pneu do carro. Deu uma bufada, colocou o celular no bolso e saiu caminhando em direção à sua casa. Eram somente sete quilômetros, não demoraria muito.

Ele conseguia andar até a metade do quarteirão quando começou a chover. Continuou andando, mas a chuva em poucos minutos ficou torrencial.

Ele viu um carro andando devagar ao seu lado, e continuou a caminhar. Apressou o passo.

-Peter! – o motorista abaixou o vidro e o chamou – Você quer carona?

Peter não reconheceu a voz e parou para ver quem era. Não reconhecia o carro.

-Adam? – perguntou ao colocar a mão em cima dos olhos, impedindo a chuva, para conseguir vê-lo.

-Eu sei que não fui a pessoa mais educada na última vez que nos vimos, e eu sinto muito, ok? Mas não acho que deva ficar tomando chuva no seu estado – Adam falou com uma cara emburrada. Parecia contrariado em admitir que fizera algo errado.

Peter o olhava atentamente e percebeu que ele estava sendo sincero. Ele então abriu a porta e entrou.

-Obrigado – agradeceu Peter, dando um pequeno sorriso.

-Não por isso – respondeu Adam com o rosto sério, mas sentia o coração bater um pouco mais acelerado.

Fim do cap. 20

N/A: Peço desculpas pela demora na postagem. Depois de tanto tempo sem postar nada, espero não ter perdido o jeito.