20. Força

Castiel andava sozinho pela praça, mas seu pensamento ia longe. Samantha, sob seus conselhos, já havia voltado ao hotel, e ele quase agradecia por se ver livre da presença da garota, embora os seus melhores momentos fossem ao lado dela. Essa mistura contraditória de sentimentos se dava pelo fato de que ele gostava da garota mais do que deveria. A princípio, sua tarefa era trazê-la de volta à vida, mas uma vez tendo chegado perto de Samantha, Castiel não conseguiu mais se ver longe, e acabou por se tornar o seu anjo da guarda. O que o torturava, entretanto, era gostar dela mais do que como uma protegida, ou coisa do gênero. Ele sabia que era uma loucura sem tamanho, mas estava apaixonado por uma humana — uma humana com certo teor demoníaco no sangue, diga-se de passagem.

— Meu pai — ele disse, olhando para o céu — o senhor só pode estar brincando comigo.

E voltou a caminhar pela praça, enquanto a imagem delicada de Samantha dançava em sua mente.

Ela, que não tinha consciência dos sentimentos do anjo, chegou ao hotel, levando consigo um pouco da paz emprestada por ele. Encontrou Sam ao sofá, aparentemente pensativo.

— E Louise? — indagou.

— Continua no quarto, com aquelas roupas de bebê. Pelo visto será menino, ela está fazendo um enxoval todo azul.

— Se é que essa coisa vai ser uma criança. Tenho até medo de pensar no estrago que vai fazer à Louise quando resolver sair.

— Ela tem de abortar, Sammy, ou teremos que ficar protegendo o bebê do Alastair, ou ele o levará até Lúcifer e quebrará um dos selos. E eu lhe asseguro, Alastair é muito, mas muito forte.

— E como convencê-la?

— Teremos de forçá-la. Vou conseguir algum calmante injetável, forte o suficiente para fazê-la dormir durante o tempo necessário para… Para fazermos o necessário.

— Como assim, fazermos o necessário? Você é ginecologista, Sam?

Sam riu, mas um sorriso tão apagado, que seus lábios mal se arquearam.

— Então arrumaremos um que faça esse tipo de coisa. Bobby tem muitos contatos, quem sabe possa nos ajudar.

— Bobby? Quem é Bobby?

— Um amigo da família, nosso braço direito.

— Não, Sam, não vamos envolver mais ninguém. Nós mesmos cuidaremos disso.

Deu-se que, duas semanas depois, Sam e Samantha receberam, no hotel, uma mulher de expressão nada amigável, com olhos de quem já havia presenciado muita desgraça nessa vida.

— Onde está a garota? — indagou com sua voz ríspida, mas tediosa.

— Eu a levo até lá — respondeu Sam — mas antes é preciso sedá-la. Ela não quer abortar o bebê, sabe? Mas será melhor para a família, como eu disse…

— Não me interessa a história ou as precauções que vão tomar, vim apenas fazer o meu trabalho. Já retirei tantos diabinhos, e este será só mais um.

Samantha estremeceu de leve e Sam murmurou "realmente". Ele abraçava com firmeza a namorada, que soluçava. Ela não queria ser cruel daquela forma com a irmã, mas era o melhor a se fazer. Louise agradeceria posteriormente.

Quando a sinistra médica entrou no quarto, Louise estava dando corda no móbile que pendia acima do berço, olhando-o fascinada.

— Louise? — indagou a mulher.

Ela se voltou para a médica, com o olhar com um misto de calma e loucura, tão digno de Alastair.

— Veio ver meu bebê? — ela murmurou — Ainda vai demorar para nascer, mas posso te mostrar o enxoval, se quiser, está quase completo. Eu tinha umas economias para minha segunda faculdade, sabe? Mas achei melhor empregá-las com o…

— Eu não vim ver o seu bebê — rosnou a médica — vim levá-lo embora.

Ao contrário do que pensara Samantha, que estava encolhida a um canto com o rosto banhado por lágrimas, Louise não entrou em desespero, mas apenas sorriu e caminhou a passos decididos até a mulher.

— Levar o meu pequeno? — indagou, com a voz calma e arrastada — Eu acho que não.

Nisso, Sam a surpreendeu pelas costas, imobilizando-a. Louise simplesmente investiu com os ombros, jogando o rapaz longe, depois foi calmamente até ele e tirou a seringa de sua mão.

— Vamos ver quem é que vai dormir, Sam — ela disse com uma expressão maníaca, firmando o pé sobre o peito do rapaz, que começava a sentir o ar sumir.

E aplicou-lhe a injeção no braço, fazendo com que ele adormecesse quase imediatamente. Samantha gritou, não podia acreditar naquela força repentina da irmã, capaz de abater um caçador como Sam Winchester.

— Agora você — disse Louise voltando-se para a mulher, que, horrorizada, tencionava correr, mas a garota trancou a porta com um simples aceno de sua mão — imagino que já tenha tirado a vida de muitos inocentes, não é?

— É o meu trabalho — balbuciou.

— Um trabalhinho bem sujo, não acha? Para onde pensa que vai quando morrer?

— Pro inferno, não importa! — ela rosnou com a voz meio engasgada.

— Certa resposta — falou Louise com um grande sorriso, estendendo a mão direita — e quando chegar lá, terá a honra de se encontrar com Alastair e dizer-lhe pessoalmente o que tencionou fazer com o seu filho.

Dito isso, os olhos de Louise ficaram totalmente negros e ela reduziu a médica a um monte de cinzas. Samantha, se pudesse, teria entrado na parede. O horror brincava sinistramente em seu rosto.

— Você aí — disse Louise se dirigindo à irmã — pegue a vassoura e limpe essas cinzas, ou vão sujar as coisas do bebê.

Agindo da forma mais natural possível, Louise ergueu Sam do chão, colocando-o sobre uma das camas de solteiro.

— Ai, ai — disse para a irmã, que continuava petrificada — acho bom alugarmos uma casa, Sammy, pequena que seja, mas esse hotel está ficando impossível, não acha?

E olhou à sua volta, absolutamente sem ver os rastros da luta anterior.

— Sammy, lembra da torta de limão que você fazia na época do colégio?

A outra assentiu, sufocando-se com as lágrimas.

— Estou com vontade. Vou comprar os ingredientes, você faz pra mim?

Assentiu novamente, temendo recusar um pedido do que fora a sua irmã.

Mas Louise não estava absolutamente nada perigosa naquele momento. Apenas caminhou lentamente até a irmã e lhe enxugou as lágrimas, abraçando-a e beijando os seus cabelos, como a irmã mais velha e protetora que deveria ser.

— Eu te amo — falou — você e o bebê são o que restou de minha família.

E se retirou para o mercado, demorando mais do que o necessário.

Sam demorou quase uma hora para acordar, e quando o fez, estava com uma dor de cabeça insuportável. Samantha correu em seu auxílio e apalpou-lhe o rosto, querendo se certificar de que estava tudo bem.

— Não podemos mais atentar contra Louise — ele disse — o sangue de demônio da criatura se misturou ao dela, e ela tem a força de tal.

— Que faremos, então?

— Esperaremos o… Hãn… Bebê nascer e tentaremos protegê-lo ao máximo de Alastair.

— Protegê-lo com que força, Sam?

— Acho que eu tenho a solução.

Sam beijou a namorada nos lábios e deixou o hotel, em busca de um lugar para encontrar Azazel sem comprometer a segurança de outras pessoas.