O SENHOR DOS DRAGÕES
By Dama 9
Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem. Pertencem ao Kuramada e outras empresas licenciadas, apenas Amélia, as valkirias, Aishi, Alanis, Cadmo, Aaron são criações únicas e exclusivas minhas para essa saga.
Este é um trabalho de fã para fã, sem fins lucrativos. Com único objetivo de entreter e agradar.
Boa leitura!
Capitulo 20: Os Quatro Dragões.
.I.
Fitou o teto com uma expressão de total desalento. Queria voltar para casa, mas Mime, Siegfried e Alberich haviam se unido contra si e gentilmente lhe obrigado a ficar no palácio a vista de todos, caso contrario teriam que também tomar "medidas drásticas" como acorrentá-la aos pés da cama, para mantê-la ali.
O pior de tudo é que não duvidava, alias, depois da forma com que o ariano lhe colocara para dormir, não duvidava de mais nada e olha que sempre o achou tão calminho. Conteve um breve suspiro, enquanto sentia a face corar novamente.
Não podia negar que gostava daquele lado mais ousado e atrevido do cavaleiro, mas também apreciava a calma e segurança de seu lado mais sereno. Bem, um lado que andava adormecido de uns tempos para cá, porque sempre que se encontravam pelo santuário, notava uma aura mais intensa nele, difícil de explicar.
-Ai. Ai. Ai... Onde eu fui me meter; Mia murmurou, pousando o braço sobre os olhos, enquanto tentava mudar o rumo de seus pensamentos.
Depois que os rapazes lhe deixaram ali, após contarem detalhadamente o momento que viram o cavaleiro de Áries jogá-la sobre seus ombros e se trancar com ela no quarto, algumas imagens bastante interessantes voltaram em sua memória; a jovem remexendo-se inquieta na cama.
Era estranho pensar naquilo, fora algo tão certo e espontâneo, não poderia dizer que era casual. Até onde conhecia do ariano, ele não era dado a flertes dissimulados, mas no santuário, embora seus encontros fossem sempre calorosos, quando ia rolar algo mais, algo atrapalhava, fosse alguém aparecendo no momento mais inoportuno, ou um celular tocando. Resumindo, até então, eles nunca haviam trocado um beijo daqueles que mexesse com todos os seus sentidos e lhe tirasse do prumo.
Instintivamente tocou os lábios com a ponta dos dedos, ainda sentia a mente dar voltas ao pensar naquele momento, Mú de Áries era uma caixinha de surpresas em todos os sentidos, quem poderia dizer que com apenas um beijo ele lhe deixaria ainda queimando por dentro, querendo mais?
Passou a mão nervosamente pelos cabelos, o que lhe deixava inquieta era o fato de que ele não beijara a Mia daquela forma tão quente e apaixonada, ele beijara a Amélia. Tudo bem que Mia e Amélia eram a mesma mulher, mas será que em outras circunstancias as coisas seriam iguais?
Bem, a questão era, ele beijaria Mia dessa mesma forma? Ou deveria levantar a hipótese de que ele era como a maioria dos homens que via por ai, que deixava o lado sedutor e fetichista para as amantes, enquanto agiam como verdadeiros padres, com as esposas?
-Que absurdo; ela resmungou, balançando a cabeça nervosamente para os lados.
Ficar trancada naquele quarto estava lhe fazendo mais mal do que bem, era melhor parar de pensar besteira, aquilo era insano. Era obvio que o ariano não era esse tipo de pessoa, o beijo entre eles simplesmente aconteceu. Só isso! –a jovem pensou, jogando as cobertas de lado.
Já estava perto da hora do almoço, não iria ficar ali dentro nem mais um minuto, se não iria enlouquecer, ou matar alguém; Amélia concluiu.
.II.
Conteve um breve suspiro, enquanto recostava-se melhor no sofá, os orbes violeta jaziam perdidos num ponto qualquer do teto, onde delicados anjos renascentistas voavam sob um plano de fundo azul celeste, tocando harpas ou rindo de trivialidades.
-Uhn! Que carinha é essa? –o cavaleiro perguntou, sentando-se ao lado dela, enquanto segurava uma xícara de café nas mãos.
-Estou pensando; Laura respondeu, enquanto distraidamente começou a tamborilar com a ponta dos dedos, em seu joelho.
-Em nada agradável pelo visto; Mú falou, tocando-lhe a testa, onde haviam vários vincados de tensão.
-Você vai voltar a Asgard em breve, não é? –a jovem indagou, voltando-se para ele.
-...; o cavaleiro assentiu.
-Então você pretende entrar nessa guerra?
-Eu não sei Laura... Eu realmente não sei; ele respondeu, enquanto levava a xícara aos lábios.
-Mas...;
-Ultimamente tanta coisa estranha vem acontecendo; o cavaleiro falou, recostando-se no sofá, enquanto apoiava a xícara em um dos joelhos. –Primeiro esse inferno astral fora de hora, ai apareceu àquela mulher quando eu estava indo embora de Asgard;
-Você disse que ela lhe lembrava alguém, já sabe quem é? –Laura indagou curiosa.
-Não, não sei; Mú respondeu com um suspiro frustrado. –Mas eu gostaria de saber, detesto ficar as cegas numa situação como essa;
-...; a jovem assentiu.
-Agora aparece aquele senhor no Tyller´s se denominando o lendário Ojesed. Ou eu estou ficando louco ou o mundo virou de ponta cabeça nas últimas setenta e duas horas; ele exasperou.
-E você ainda reclamava que as coisas andavam tranqüilas demais; ela falou rindo.
-Já disse, nunca mais falo isso, as últimas vezes que disse isso, só me meti em problemas; ele falou passando a mão nervosamente pela franja repicada.
-Ah, não reclame... Você sabe que quando as coisas estão calmas demais, você começa a ficar inquieto. Estou começando a achar que você precisa de um terapeuta, alias, o quanto antes, porque isso já esta virando síndrome de perseguição, daqui a pouco você vai até fazer parte daquela comunidade no orkut sobre a 'Lei da Conspiração'; a jovem completou, fazendo-o rir.
-Uhn! Estou começando a pensar mesmo que existe uma força maior por ai, conspirando para nos enlouquecer. Pelo menos a mim; ele respondeu lembrando-se da forma intempestiva como deixara Asgard.
Entretanto não podia ficar mais tempo lá, aqueles sonhos estavam surgindo com uma velocidade surpreendente e maior do que podia suportar. Não conseguia compreender o que eles significavam e porque tudo que tocava lhe dava um 'de já vu'.
E ainda tinha Amélia; ele pensou.
-Nenhuma pista da Mia ainda? –Laura indagou, notando-o silencioso.
-Não, estou começando a achar que ela não quer ser encontrada; Mú respondeu, franzindo o cenho, enquanto sentia o café descer frio e amargo pela garganta.
-Ou ela não pode aparecer; a jovem sugeriu de maneira enigmática.
-Sabe de alguma coisa, Laura? –o ariano indagou, voltando-se para ela com as finas sobrancelhas arqueadas.
-Eu estive pensando em algo, mas sei lá, pode ser besteira a minha; ela falou, balançando a cabeça levemente para os lados como se quisesse afastar os pensamentos da mente. –Todos nós temos os nossos segredos Mú e alguns, muitas vezes não temos coragem para contar, ou tememos que ao contarmos, as pessoas não irão entender; a jovem falou acomodando-se melhor no sofá, de forma que ficasse de frente para ele e pudesse apoiar o braço no encosto.
-Aonde você quer chegar com isso? –o cavaleiro indagou, ponderado.
-Você é muito seguro do que quer, alias, tão seguro que as vezes chega a ser irritante; Laura falou com um fino sorriso nos lábios, diante do olhar confuso do cavaleiro. –Mas nem todos são assim, alguns desejam as coisas, mas não sabem como lutar por elas. Outros lutam por coisas inalcançáveis e se perdem no caminho;
-Não entendo; Mú balbuciou.
-Talvez o fato da Mia ter sumido, não quer dizer que ela não goste de você ou que até mesmo, não confie em você. Quem sabe, ela apenas não esta segura de si mesma no momento e vendo você, sempre agindo de maneira segura, sem hesitar diante daquilo que quer. Pode tê-la deixado com um pouco de medo por não conseguir ser assim e não atingir as suas expectativas; Laura falou.
-Mas...;
-É claro, não é algo que você faça por querer; Laura cortou antes que ele continuasse. –Porque nós sabemos que você conquistou essa confiança toda a duras penas. Dando tudo que tinha, em apostas altíssimas contra o 'destino'; ela continuou. –Mas nem todos viveram as mesmas experiências que você, tão pouco compreendem quais são as coisas que lhe motivam;
-...; ele assentiu silenciosamente.
-Sei que você fica preocupado, mas de tempo ao tempo. Quem sabe esse momento que a Mia se desligou de tudo e de todos que se preocupam com ela, seja o necessário para que ela possa confiar em si mesma e naquilo que sente; ela falou apoiando a mão sobre o ombro dele.
-Você nunca erra, então não vou me preocupar; ele falou com um fraco sorriso nos lábios.
-Não é que eu nunca erro; Laura falou gesticulando casualmente. –Eu sou apenas precavida e gosto quando as coisas saem do meu jeito; ela completou com um sorriso que estava longe de ser inocente.
-Certo, e Celina, como estão se saindo? –Mú indagou, colocando a xícara já vazia em cima da mesa de centro.
-Bem, ela esta descansando um pouco no quarto, acho que ontem foi um dia agitado para ela; a jovem comentou. –Fomos ao Museu Britânico e ela fez uma infinidade de perguntas, então você já sabe como ela ficou cansada depois; ela explicou.
-Sim, tem planos para hoje?
-Estava pensando em levá-la ao cinema, fiquei sabendo de alguns lançamentos interessantes, que vale a pena conferir; Laura respondeu, dando um baixo suspiro. –Mas estamos nos distanciando do assunto principal;
-Eu sei; ele falou. –E sei também o que você esta pensando, mas não tenho resposta para isso;
-Mú é muito perigoso, você nunca esteve em Asgard antes, não caia de pára-quedas no meio dessa guerra; ela falou preocupada.
-Se eu decidir, quando eu decidir. Eu aviso você, pode ter certeza; ele falou, dando-lhe um abraço apertado. –Minha amiga, parece que nos últimos anos só venho lhe dando preocupações; o ariano comentou pensativo.
-É, eu já estou até com cabelos brancos por sua culpa; ela falou fungando, ao sentir os orbes marejarem. –Mas eu te amo, mesmo no inferno astral quando você me deixa doida;
Sorriu, abraçando-a ainda mais forte, o clima de tensão era pesado, mesmo ali em Londres e nem todas as pessoas fossem capazes de sentir, a natureza se rebelava contra o que acontecia em Asgard, agora era imprescindível que aquela guerra chegasse ao fim. Nem que precisasse se envolver nisso, para tanto.
.III.
Observou-a conversar animadamente com Isadora, desde que haviam voltado de Dream Village há pouco mais de duas semanas, Aaliah transpirava animação. Conteve um fino sorriso, enquanto sentava-se numa das cadeiras de vime.
Ela e Isadora estavam discutindo os arranjos que seriam feitos para decorar o último templo, o aniversario de Aioros estava chegando e o cavaleiro e Saori, haviam decidido passar a data no santuário.
Por conseqüência, todos estavam se mobilizando pra fazer alguma coisa. Suspirou relaxado, era bom viver num ambiente tranqüilo e de paz, embora sentisse que algo no ambiente não estava certo.
Depois da União Dourada, começava a notar algumas peculiaridades, não sabia ao certo o quanto disso tinha a ver com Asgard, mas era preocupante. Só esperava que aqueles que foram para lá, voltassem em segurança e conseguissem uma forma de resolver os problemas de maneira rápida e sem perdas.
Desviou o olhar da noiva, quando um barulho estridente, emitido pelo celular, lhe chamou a atenção. Franziu o cenho, vendo que não aparecia número algum ali, apenas 'restrito'.
-Alô?
-Shaka, sou eu, Mú... Como vai?
-Bem e você? –ele indagou surpreso por aquela ligação inesperada.
-Bem... Mas você por acaso esta ocupado? –o ariano indagou.
-Não no momento, por quê? Aconteceu alguma coisa? –Shaka perguntou.
-Preciso de um favor Shaka, é importante; ele falou por fim.
Franziu ainda mais o cenho, para o cavaleiro lhe ligar e ainda pedir um favor, era porque ele deveria estar com algum problema muito serio. Em dias comuns, jamais ouviria de Mú de Áries as palavras 'Preciso de um favor' e 'Shaka' na mesma frase.
-Claro, mas o que aconteceu? –o virginiano perguntou, vendo que Isadora e Aaliah, voltaram os olhares em sua direção.
-Preciso ir até um templo na Índia, mas não posso ir sozinho; Mú respondeu.
-Mas por quê? –Shaka perguntou surpreso.
-É uma longa história, mas agradeceria se você e o Leo pudessem ir junto, tenho pouco tempo agora;
-Tudo bem, vou falar com ele. Quer que lhe encontre aonde? –Shaka perguntou levantando-se.
-Você já esteve lá antes, mas vou esperá-los no Tibet; Mú falou.
-Certo, até mais...;
-Shaka; o ariano o interrompeu.
-Sim?
-Obrigado; ele falou antes de desligar.
Desligou o celular, duas vezes mais preocupado. Seu sexto sentido lhe dizia que sabia o que Mú queria justamente naquele templo na Índia, mas por quê? Era a pergunta de um milhão.
-O que aconteceu Shaka? –Aaliah perguntou preocupada.
-Vou precisar dar uma saída pra resolver umas coisas; ele falou tenso.
-Tudo bem, papai daqui a pouco passa por aqui e eu pego uma carona com ele, de volta pro santuário; a jovem falou.
-Volto logo, prometo; o cavaleiro sussurrou, pousando um rápido beijo em seus lábios. –Até mais, Isa;
-Até; ela respondeu, quando ele saiu rapidamente da loja.
-Estranho, o Shaka estava muito tenso; Aaliah falou preocupada.
-Só podemos esperar que ele conte o que aconteceu depois; Isadora falou calmamente.
-Já que não tem outro jeito; ela resmungou.
.IV.
Desligou o telefone e deitou-se de costas no catre. De onde estava podia ouvir o som ágil dos dedos de Samantha correndo sob o teclado do note book. Ela estava fazendo o relatório da última descia as tumbas no Templo dos Reis e parecia perdida em seus próprios pensamentos para notar que era observada.
De soslaio, viu-a acomodar-se melhor sobre o catre, cruzando as pernas e mantendo o computador apoiado quase sob os joelhos, enquanto arrumava distraidamente os óculos de aros finos sob a pontinha do nariz.
Observou-a calmamente, nos últimos dias pegara-se varias vezes fazendo isso, ela estava bem menos na defensiva do que no primeiro dia, mas ainda tinha suas reservas quanto a sua presença ali.
Agora sua missão no Egito chegara ao fim e deveria partir, mas nos últimos dias pegara-se ponderando demais sobre isso. Como se não quisesse ir, mesmo sabendo que chegara ali com uma missão que deveria ser cumprida.
A maneira intempestiva com que deixara o Japão ainda lhe daria muitas dores de cabeça, principalmente depois de ouvir dos irmãos e amigos nos últimos dias, a proporção do susto que lhes dera.
Ikki fora bastante enfático ao mencionar a longa conversa que teriam assim que colocasse os pés no aeroporto, Pandora por outro lado compreendeu seu lado, mas também, disse que se lhe desse um susto desses de novo, iria lhe despachar para o reino de Hades e definitivamente, lá era o último lugar no mundo que desejaria estar.
-Seu irmão é assim, sempre possessivo? –a voz de Samantha despertou-lhe de seus pensamentos.
-Como? –Shun indagou, voltando-se para ela, enquanto virava-se no catre e apoiava um dos braços sob o mesmo.
Sem desviar os olhos da tela ela continuou a digitar o relatório, antes de comentar.
-Dava pra ouvir daqui as promessas de morte lenta e dolorosa; ela comentou, mais uma vez arrumando os aros finos sob o nariz.
-Não, Ikki só é bastante protetor, dificilmente ficamos muito tempo separados e ele não consegue simplesmente não se preocupar; Shun explicou, voltando a deitar-se e deixou os olhos vagarem pelo teto da tenda. –Durante uma época fomos obrigados a ficarmos separados e nenhum de nós dois agora, quer que isso volte a acontecer, por isso ele se preocupa;
-Aquela mulher falou algo parecido ontem quando estava berrando com você ao telefone, metade do acampamento ouviu; Samantha falou.
-Pan também, ela é... Bem, minha irmã mais velha também; ele falou um pouco hesitante. –Não gosto de preocupá-los;
-Acho que é a sina de todos os irmãos; Samantha falou salvando os arquivos e desligando.
-Talvez, mas de qualquer forma, preciso lhe perguntar algo; Shun começou hesitante.
-O que? –ela perguntou curiosa.
-Preciso voltar ao Cairo amanhã, surgiram alguns problemas na fundação que só eu posso resolver e preciso estar lá, por isso vou ter de voltar; o cavaleiro comentou, sem notar o olhar desapontado da jovem.
Nos últimos três dias haviam feito um grande progresso nas pesquisas e mesmo que quisesse, não podia negar que gostara de tê-lo como parceiro nas escavações. Shun parecia saber muitas coisas sobre mitologia e história e havia conquistado a todos ali com seus modos atenciosos e gentis.
Apenas James não se deixara conquistar, mas esse era um caso a parte. A verdade era que havia se acostumado com a presença intensa de Shun no acampamento e nas escavações. Saber que ele iria partir trazia uma estranha sensação de perda para si.
-Eu tenho algumas coisas para buscar no museu, posso levá-lo se quiser? –ela sugeriu casualmente.
-Eu agradeço; ele falou com um fino sorriso nos lábios.
-Pretende voltar algum dia ao Egito? –Samantha indagou casualmente, enquanto guardava o note book.
-Sim, gostei muito daqui; Shun comentou sem notar o ar aliviado dela. –Quero ter a oportunidade de voltar e conhecer todos os lugares. Tudo aqui é tão fascinante e transpira história, é impossível não se deixar contagiar;
-É, é mesmo; ela balbuciou, vendo-o descansar as mãos sob o abdômen e lutou para não suspirar de maneira indiscreta.
Ah! Como diriam suas primas, se lugar de mulher era no tangue, não iria ficar nem um pouco brava de lavar roupa ali; Samantha pensou vendo-o mover as mãos de maneira suave sob o tecido branco da camisa, os toques seguiam o ritmo de seus pensamentos e podia ver com perfeição o tecido amoldar-se ao corpo como uma segunda pele, cada vez que seu peito descia e subia com a respiração ritmada.
-Queria ter mais tempo, mas infelizmente tenho de voltar; Shun falou mais para si, do que propriamente para ela. –Mas me diz, quanto tempo ainda vão as pesquisas?
-Talvez dois meses, mas elas podem durar mais de um ano. Para essa, muitos cálculos e pesquisas foram feitos no Cairo, então temos muito material adiantado, é possível que dure menos, não sei; ela comentou.
-Você acha que teria algum problema se no final do mês eu voltasse? Gostaria de saber como vão as coisas e fiquei curioso para ver todo o material que vocês estão coletando; ele falou empolgado.
-Não, a equipe não fará objeções; Samantha garantiu. Muito menos ela, que mesmo não admitindo, mas já estava sentindo sua falta. –Mas agora é melhor descansar, teremos de acordar bem cedo amanhã;
-...; ele assentiu, apagando a chama do lampião próximo a seu catre e murmurando um baixo "Boa noite", dormiu. Sem notar
.V.
O salão caiu no mais completo silencio, guerreiros deuses e valkirias trocavam olhares confusos, depois de ouvirem o que Flér dissera. A jovem convocara uma reunião de emergência assustando a todos, que imaginaram que a guerra já havia começado e no fim, a coisa era bem diferente.
-Você quer nos matar do coração, fazendo isso é? –Alberich exasperou, sendo contido por Aldrey.
-Eu gostei da idéia dela; a jovem comentou docemente.
-Tudo bem, é interessante, mas ela não precisava nos assustar desse jeito; Anieri exasperou.
-E você não seja chata; Ceres rebateu. –Se ela tivesse apenas pedido a vocês que viessem aqui, um ou outro iria dar um jeito de não aparecer; ela completou lançando-lhes um olhar acusador.
-De qualquer forma, estão faltando Amélia e Siegfried, alem da própria Hilda; Shido comentou dando de ombros.
-Siegfried ficou de distrair minha irmã para que pudéssemos cuidar de tudo e Amélia, ainda não esta em condições de se levantar. Alana tomou algumas providencias para fazê-la ficar de repousou; Flér explicou. –Mas ela já esta a parte disso e disse que ajudará;
-Já que é assim, não tenho porque me opor; Fenrir falou dando de ombro, sendo seguido por Thór e Haguen.
-Todos precisamos de uma pausa em toda essa tensão; Haguen comentou.
-Certo! Certo! Nós também ajudamos; Coralina falou, manifestando-se pela primeira vez desde que chegara ali. –Hilda é quem vem a mais tempo, tendo que segurar as pontas por aqui, ela merece um tempo para esquecer do resto do mundo, então voto pela festa de aniversario. Alem do mais, de qualquer forma, vai ser bom para todos; ela completou.
-Eu concordo; Ceres falou lançando um olhar agradecido a irmã. –Alguém se opõe?
-Não concordo com uma festa num período tão conturbado; Loki falou, chamando a atenção de todos, que lhe lançaram olhares tão furiosos que ele encolheu-se. –Mas vocês têm meu total apoio; ele apressou-se em completar.
-Frouxo; Bado falou em meio a uma tosse.
-O que disse, Bado? –Loki indagou em tom mortal.
-Idiota; Shido falou no mesmo tom.
-Parem com isso; Alberich falou, vendo que até Fenrir, Thór e Urs pretendiam entrar no meio. –Todos estão de acordo, então daqui a três dias faremos uma festa para comemorar o aniversário de Hilda, independente dessa história de armadura ou não; ele falou taxativamente.
-...; todos assentiram concordando. Embora eles mal soubessem o que o destino lhes reservava para isso.
.VI.
Índia / Uttar Pradesh – Cidade de Cássia...
-Ta ai um lugar que eu nunca pensei que fosse voltar novamente; Aiolia comentou, enquanto atravessavam as elevações de solo para se aproximarem do templo.
O templo de Kushinagara ainda estava intacto e sobrevivera não apenas ao tempo, mas a batalha travada em suas portas a mais de treze anos atrás quando os titãs de Chronos invadiram a Terra.
-Essa é a primeira vez que venho aqui; Mú comentou, enquanto olhava distraído para a paisagem a sua volta.
-Esse templo é um dos mais antigos da Índia; Shaka explicou enquanto avançavam. –E o único que se enquadra naquilo que você quer; ele completou voltando-se para o ariano.
Deu um baixo suspiro, enquanto detinha seus passos na entrada do templo, dali podia ver os entalhes nas pedras representando divindades antigas e um poder tão velho quanto o próprio tempo.
Lembrava-se de Aiolia ter comentado uma vez que escoltara Shaka até Kushinagara para que o mesmo pudesse fazer a liberação total de seu cosmo na batalha contra os titãs, naquela época não havia dado tanta importância a isso, mas agora. Era algo necessário se quisesse recuperar aquela armadura.
Ojesed dissera que apenas Deus podia dar vida a alguma coisa, mas que o cosmo, quando elevado a extremos, seria capaz de produzir a luz da esperança, como ele chamara. Uma luz tão intensa capaz de levar vida e calor aos cantos mais sombrios do mundo.
Embora a armadura de tigre fosse o lado positivo do equilíbrio, ela estava dormindo num mar de escuridão e precisava ser trazida de volta.
-Tem certeza que isso é mesmo preciso? –Aiolia indagou, parando a seu lado. -
Quem sabe se nós três pedíssemos a Athena, poderíamos usar o Exclamação; ele sugeriu.
-Esse é um golpe proibido, não seria justo pedir algo assim a Saori; Mú respondeu, sabendo que a jovem ficaria dividida entre as regras e amizade se lhe impusessem essa escolha.
-Eu poderia fazer isso se quiser, assim o risco será menor? –Shaka falou preocupado.
Embora os cabelos do cavaleiro estivessem lilases agora ele bem sabia, pela vibração do cosmo de Mú que o cavaleiro estava em meio a um inferno astral. Alias, já havia reparado há muito tempo, que todo ano, quando esse período chegava, o ariano deixava o santuário por pelo menos três dias.
Ninguém nunca havia lhe questionado o motivo do sumiço repentino, mas agora sabia que ele preferia se afastar para não colocar ninguém em risco. Mesmo estando no santuário, sentira o cosmo dele vibrar a milhas dali, quando ele chegara em Asgard.
Eram poucos os cavaleiros que atingiam essa potência de cosmo, sem se corromperem. Por isso estava preocupado com o limite que tal poder exerceria sobre ele. Mú tinha um autocontrole impressionante, mas não era com isso que se preocupava e sim, com seu limite físico. Poder de mais acumulado em seu corpo, colocaria em risco sua saúde, porque antes de ser um cavaleiro, ele era um humano comum.
-Vai ficar tudo bem Shaka, mas obrigado mesmo assim; Mú falou com um fino sorriso nos lábios como se houvesse lido seus pensamentos e soubesse de suas preocupações.
Em outros tempos jamais estariam os três ali, em frente aquele templo decidindo quem iria entrar.
-Só peço a vocês que mantenham a barreira mesmo que algo aconteça lá dentro; ele completou.
-Não se preocupe, estaremos aqui quando você voltar; Aiolia falou pousando a mão sobre seu ombro. –Afinal, amigos são pra isso; ele completou com um fino sorriso nos lábios.
Olhou a porta do templo abrir-se a sua frente, tudo lá dentro estava escuro, a não ser por um pequeno filete de luz que recaia sobre um altar. Com passos decididos entrou no templo, ouvindo o ranger das portas fechando-se a suas costas.
A partir dali o desafio seria enfrentado apenas por si, ninguém poderia tomar seu lugar, não quando já decidira o que precisava fazer para despertar a armadura. Um dia um amigo lhe disse, não se paga o mal com o mal, tão pouco faz-se escuridão com luz, mas havia uma forma de criar a luz a partir da escuridão.
Einstein uma vez disse que escuridão era apenas ausência de luz, mas até mesmo nas sombras existia uma pequena centelha de luz e iria expandi-la até cobrir toda aquela terra de gelo com raios dourados; ele pensou ao cruzar a entrada escura e aproximar-se do altar.
.VII.
Atravessou os infinitos corredores do palácio tentando encontrar seu quarto novamente. Assim que descesse para o jantar iria pedir a Alana um mapa descente daquele lugar se não perderia mais uma hora tentando encontrar alguma sala.
Suspirou cansado, estava agitado pela nova descoberta e não sabia o que fazer ainda com a informação, ou como proceder após ela. Sennar já lhe questionara sobre o que estava acontecendo, mas não era algo que estivesse disposto a compartilhar com o mago, embora se conhecessem há muito tempo, ali em Asgard, eram poucos aqueles que poderia confiar.
Fréya apagara sua memória por algum motivo, que infelizmente ainda não sabia qual era, mas talvez outra pessoa pudesse saber de algo; ele pensou no momento que sentiu o celular vibrar em seu bolso.
Parou de andar e atendeu o aparelho, mal notando alguém que vinha na direção oposta e que se escondeu rapidamente entre um dos pilares.
-Alô;
-Algo me diz que você estava pensando em falar comigo; a voz animada de Aishi soou do outro lado.
-Verdade? –ele indagou sorrindo.
-Isso mesmo, alias, Kamus esta morrendo de curiosidade para saber por que você estava tão aéreo minutos atrás? –Aishi comentou.
-Ahn! Aconteceu uma coisa, por isso não pude falar com você aquela hora; o aquariano respondeu.
-Uhn! Agora sou eu que estou ficando curiosa; a geminiana falou.
-Uma das coisas é que eu ainda estou com vontade de prender Anteros em um esquife de gelo, por todo o estresse que me causou; o cavaleiro brincou, embora não abandonasse essa possibilidade ainda.
-Você não é o único, mas continue, qual a outra coisa?
-Não acho apropriado falar por telefone; Aaron respondeu. –Mas preciso conversar muito com você;
-Aaron, tem a ver com Fréya? –Aishi perguntou em tom sério.
-Tem, confesso que eu tinha meus motivos para vir até aqui quando você me pediu para acompanhar o Dohko; ele falou encostando-se numa parede e mantendo os olhos baixos e perdidos. –Eu...;
-Não precisa falar sobre isso, se lhe deixar desconfortável, Aaron; a jovem falou em tom sério.
-Não é isso Aishi, é que...; ele falou dando um pesado suspiro. –Aconteceram muitas coisas depois que você deixou o Santuário daquela vez e esse sumiço da Fréya estava me deixando louco;
-Estava? Então você...; Aishi parou, ao concluir o que ele queria dizer. –Você a encontrou?
-Sim, aquela hora que estávamos conversando; Aaron explicou. –Não sei o que Anteros fez, mas algumas coisas não podem ser apagadas, mesmo com as flechas dele; ele comentou com um fino sorriso nos lábios.
-Entendo; ela murmurou pensativa. –Onde ela está?
-Aqui mesmo; ele respondeu passando a mão levemente pela franja despenteada. –Mas prefiro conversar melhor com você, quando chegar;
-Tudo bem, daqui dois dias Kamus e eu estamos chegando a Asgard; Aishi respondeu.
-Certo, até lá não deixe de dar uma passada no Hermitage, você vai gostar da arquitetura do museu; ele falou sorrindo.
-Pode deixar e você, se cuide... Se as coisas pesarem demais nos avise. Minha intuição ainda me diz que você não quer comentar, mas algo muito serio esta lhe perturbando e isso não tem nada a ver com Fréya; Aishi falou.
-Não, não tem... Mas não quero aborrecê-la com isso. Aproveite a viagem e faça Kamus lhe mimar muito; ele brincou.
-Mais do que ele já esta? –ela indagou rindo.
-Nada mais do que justo; a voz do aquariano soou do outro lado.
-Com certeza; Aaron concordou.
-Não é justo, dois aquarianos contra mim...; ela falou em tom de brincadeira.
-A união faz a força; ele respondeu.
-Nos ligue se precisar; Aishi completou.
-Pode deixar, se cuidem; ele respondeu antes de desligar.
Balançou a cabeça levemente para os lados, quem diria que as coisas tomariam esse rumo, quando tudo era tão incerto no passado.
-Que ironia; Aaron murmurou desencostando-se da parede e voltando-se para o caminho que pretendia seguir, quando seus olhos encontraram-se com duas gemas âmbar.
-Realmente, uma grande ironia; Alanis falou sarcástica. –E depois dizia que não tinha nada com essa tal Aishi; ela falou aproximando-se a passos calculados.
-Não vou discutir isso novamente com você, Alanis; Aaron falou em tom frio.
-Não, é claro que não. O todo poderoso e intocável Aaron de Aquário não se rebaixa ao ponto de dar explicações; ela retrucou com um olhar estreito.
-Aonde quer chegar com isso Alanis? –ele indagou, tentando manter a calma.
-Você é patético, não sei como eu-...; ela parou no momento que sentiu as costas chocarem-se contra a parede e os orbes do cavaleiro cravados sobre si, sem que ao menos soubesse como ele se movera tão rápido.
-Há muito tempo sua opinião deixou de fazer alguma diferença na minha vida; o aquariano falou em tom glacial em sou ouvido. –Alias, espero não ter de lembrá-la, de que foi por sua única e exclusiva vontade;
-Não se faça de santo Aaron, pelo menos não para quem lhe conhece; Alanis rebateu, tentando conter um breve estremecimento que correu por seu corpo ao sentir a respiração quente roçar-lhe a face e a essência embriagante de CKone chegar até si.
-Tem certeza que me conhece? –ele indagou deixando a ponta dos dedos acariciar suavemente a face da amazona e deter-se sobre o queixo, erguendo-o delicadamente, fazendo-a lhe encarar. –Eu acho que não; o cavaleiro falou com um olhar sedutor e intenso, antes que ela pudesse responder.
-Aaron; Alanis murmurou tentando se afastar, mas ele lhe impediu, aproximando-se ainda mais e encurralando-a.
-Antes de julgar os outros, coloque numa balança o que realmente importa em sua vida; Aaron falou. –O que vai fazer a diferença no fim;
-Sei muito bem o que faço da minha vida, Aaron. Não preciso que você me diga o que fazer; ela vociferou.
Serrou os orbes de maneira perigosa, estava furiosa, não apenas pela forma como ele estava agindo, mas pelas poucas informações que conseguira captar daquela conversa ao telefone.
Ele estava falando com Aishi de novo, novamente ouvia o nome dessa mulher. O nome que julgara ter apagado de sua vida depois de todos aqueles anos. Jamais iria se esquecer da forma como ele mentira, dizendo que a amazona de cabelos dourados estava no santuário por causa de Kamus.
Achava aquilo uma mentira tão grande, principalmente depois de ver a forma carinhosa com que ele falava com ela ao telefone, mas o que mais lhe enfurecia é que mesmo ele sendo um traidor, não era tão imune a presença do cavaleiro quanto pensou que seria depois de todo aquele tempo.
Estava agitada, queria gritar e no mínimo, esganá-lo por lhe causar toda aquela ansiedade e inquietação. Pousou as mãos espalmadas sob o peito do cavaleiro com a intenção de empurrá-lo, mas sentiu-se congelar quando os lábios dele colaram-se aos seus.
Com uma delicadeza desconcertante, envolveu-lhe a cintura, puxando-a de encontro a si. As mãos que pretendiam afastá-lo, instintivamente contornaram o pescoço do cavaleiro, indo prender-se aos fios negros que caiam sobre sua nuca.
Um fraco gemido escapou dos lábios da amazona ao sentir a língua quente deslizar por sua boca, causando uma reação explosiva. A irritação foi substituída pela excitação e a consciência de que aquilo não deveria estar acontecendo se perdeu.
Estreitou os braços em torno dela, enquanto uma das mãos ocupava-se em acariciar-lhe os cabelos. Encostou-se a parede, temendo que as pernas não conseguissem lhe segurar. Uma onda de letargia lhe envolveu, fazendo um arrepio intenso correr pelo meio de suas costas.
Afastou-se lentamente, vendo a face antes alva da amazona tornar-se rosada, abriu e fechou os olhos seguidas vezes até de conseguir desanuviar a mente, antes de ser apenas uma desforra, surpreendera-se ao constatar o quanto esperara por aquilo.
Anos atrás, quando seu relacionamento com Alanis havia começado, respeitara a missão da amazona e também não se permitiu cruzar a linha de segurança que o fazia ponderar as possibilidades e esperar que ambos se desligassem do santuário para poderem realmente pensar em ter uma vida juntos.
Jamais a vira de mascara até poucos dias atrás, alem de ficar surpreso com tudo o mais que aconteceu, nunca pensou o quanto ela excederia suas expectativas. Ah! Aquilo definitivamente não deveria estar acontecendo, não apenas por sua reação, mas também por que prosseguir com isso seria trair um amigo muito querido.
-Você pode saber o que faz com sua vida, mas ouça um conselho pelos velhos tempos Alanis; Aaron falou num sussurro enrouquecido. –Cadmo é meu amigo e eu sei a quem devo minha lealdade, ouse magoá-lo e você vai saber que não é nada agradável me ter como inimigo; ele completou antes de afastar-se completamente ao ouvir o som de passos se aproximando.
Deu-lhe as costas e com um movimento gracioso arrumou a camisa amarrotada, deixando-a impecavelmente lisa sobre seu corpo novamente.
-Aaron, finalmente te ach-...; Cadmo parou ao vê-lo se afastando, mas não viu o momento que Alanis se escondeu entre os pilares saindo do campo de visão dele. –O que será que deu nele? –ele indagou, sentindo a tensão no ambiente.
Ouviu os passos de Cadmo se afastando do corredor e esperou o momento certo para sair dali sem ser vista. Ainda sentia o corpo tremulo pelos momentos de tensão, entretanto, jamais iria admitir que agora estava realmente com medo do que Aaron poderia fazer se descobrisse que aquela história de 'namoro' não passava de uma encenação, mesmo que algumas coisas estivessem fugindo ao limite da razão nos últimos dias.
.VIII.
Aproximou-se da porta do quarto com passos extremamente cautelosos, é claro que poderia usar outro método para saber o que estava acontecendo do outro lado, mas eles não eram tão seguros quanto à boa e velha forma de espiar pelo buraco da fechadura.
Sabia que ela ainda deveria estar aborrecida por causa de seus comentários mordazes, mas quando é que ela iria entender que lhe fervia o sangue saber que ela andava toda suspiros por causa daquele cavaleiro?
Bufou exasperado, enquanto abaixava-se para olhar através do buraquinho, ouvia o som de passos agitados do outro lado, mas não conseguia imaginar o que ela fazia.
Alias, só estivera naquele quarto uma vez quando fora entregar a ela uma blusa que trouxera da lavanderia e a jovem lhe expulsara de lá a base de sapatos e bolsas voadoras.
Franziu o cenho, não conseguiu enxergar muito bem por causa da alguma coisa que estava pendurada na maçaneta do outro lado, a luz estava apagada, mas isso não queria dizer nada, ela podia muito bem se locomover no escuro. Trincou os dentes exasperado, essa agitação toda estava lhe matando de curiosidade.
Tão imerso que estava em suas conjecturas, não viu a maçaneta virar e a porta se abrir. Assustado e com pressa em recuar, inclinou-se para trás, mas diante do grito da jovem foi ao chão.
-O que esta fazendo? –Jéssica perguntou apoiando-se na porta.
-Eu, bem...; Aidan balbuciou, sem saber o que fazer. –Ahn! Você acreditaria se eu disse que perdi um botão da minha camisa aqui e que eu estava procurando-o? –ele indagou com um sorriso deslavado.
-Não; ela limitou-se a responder, enquanto fitava o vampiro.
-Mas é verdade; Aidan falou veemente, com o olhar mais inocente que conseguiu forjar.
-O que pretendia olhando pelo buraco da fechadura, Aidan? –Jéssica perguntou, recostando-se no batente da porta, enquanto ele levantava-se.
-Eu já disse, eu est-...; ele parou confuso, ao ouvi-la rir. Voltou-se para a jovem e sentiu que se fosse um desenho animado, veria piscar uma grande interrogação em cima de sua cabeça agora.
-Essa é mais velha do que eu; a jovem falou balançando a cabeça levemente para os lados. –Mas você, se machucou? –ela indagou vendo-o distraidamente esfregar a mão sobre o ombro, onde possivelmente deveria ter batido.
-Ah! Não... Não foi nada; ele apressou-se em dizer, confuso com a mudança de humor.
Nos últimos três meses, sempre a sentira na defensiva e com um pé atrás sempre que se aproximava, mas ela se mostrava outra pessoa quando estava com Diana. As duas pareciam se divertir muito quando saiam e era estranho ver a atmosfera de tensão que se erguia, quando estavam apenas os dois. Mas até então, nunca ficara reparando nas mudanças rápidas de humor dela.
-Se você diz; ela falou dando de ombros, enquanto voltava para dentro do quarto e pegava uma mochila que deixara sobre a cama.
-Porque isso? –ele perguntou curioso.
-Vou ter de ir a Asgard resolver uma coisa, mas como não vou ficar mais do que necessário, só vou levar isso; ela respondeu fechando a porta e passando por ele.
-Asgard? – Aidan falou entre dentes, sabendo perfeitamente quem estava em Asgard.
-Mú me pediu um favor e eu não iria dizer 'não' a ele; ela completou seguindo pelo estreito corredor.
-Espero que você não esteja pensando em ir até lá sozinha; Aidan falou enfezando, seguindo atrás dela.
-E porque não? –Jéssica perguntou casualmente, enquanto pegava o celular e a carteira que deixara em cima do aparador da sala.
Embora o apartamento em Paris fosse temporário, fora inevitável deixar o lugar com um 'Qzinho' de seu. Inclusive depois que colocara alguns vasos de lírio branco, tulipas e gérberas espalhados pelo quarto que usava como ateliê e a sala.
-Por quê? E você ainda pergunta? –ele exasperou.
-Aidan não vou discutir com você; ela falou encaminhando-se em direção a porta. –A passagem já está marcada;
-Tem uma maneira mais rápida de você chegar lá, já que não tem outro jeito; o vampiro falou torcendo o nariz contrariado.
-Verdade? Como? –Jéssica indagou casualmente.
-Já que não tem outro jeito, vou com você; ele falou dando um suspiro cansado.
-Posso muito bem ir sozinha, você não tem que se preocupar com isso; ela falou calmamente.
-Ah ta! E quem vai te proteger de algum pervertido? Aquele abutre a quem você chama de 'amigo'? –Aidan escarneceu. –Não mesmo; ele falou parando ao lado dela e segurando-a pelo braço, de forma que a impedisse de se afastar.
-Olha aq-...; antes que a jovem pudesse completar o que pretendia dizer, os dois já haviam desaparecido.
.IX.
Ouviu o som das turbinas funcionarem e o motor se aquecer. Apoiou a cabeça sobre a janela a seu lado e afastou um pouco a cortina, vendo as janelas da sala de embarque ocupadas por muitas pessoas.
Buscou por uma em especial entre tantos rostos desconhecidos, mas não a encontrou. Fechou a janela e baixou os olhos para um lenço branco que tinha preso fortemente entre os dedos.
Abriu a mão e com cuidado afastou o lenço, de forma que pudesse ver o delicado pingente em forma de gato. O objeto dourado cintilou em sua mão. Conteve um suspiro exasperado, lembrando-se das misteriosas palavras de Ojesed.
Quando começara aquela busca, jamais pensou que fosse encontrar alguém tão interessante e carismática quanto Samantha, alias, alguém que fosse capaz de lhe desviar de seus objetivos, mesmo ele tendo completa consciência da importância de sua viagem ao Egito.
Prometera voltar logo e acompanhar o final das pesquisas e escavações, mas apenas aqueles minutos que estivera fazendo o chek-in, teve vontade de desistir e ficar.
Guardou o pingente no lenço novamente e colocou-o no bolso interno da jaqueta. Ouviu a voz da comissária de bordo instruir a todos os passageiros sobre a colocação do cinto e minutos depois o avião levantava vôo.
Dali a algumas horas estaria desembarcando no Japão novamente e sabe-se lá o que viria depois.
-o-o-o-o-o-o-
O frio era intenso naquela região, jamais pensou que sentiria falta do aconchego de sua casa, mesmo tendo partido há apenas algumas horas. Olhou para todos os lados e só viu neve.
A caminhava até o castelo seria longa, ainda mais com o marido naquele mau humor.
-Radamanthys, eu disse que você não precisava vir; Pandora falou, enquanto seguia a passos cuidados pela neve.
-E deixar você entrar na toca do lobo sozinha, que espécie de marido você acha que eu sou? –ele exasperou enrolando-se na pesada blusa que vestia, tentando impedir o vento gelado de tocar seu corpo.
-Eu disse que ficaria tudo bem; ela falou dando um pesado suspiro.
-Sabe quantos cavaleiros de ouro tem nesse lugar? Alias, que querem nossa cabeça num espeto?
-Os tempos são outros; Pandora o lembrou.
-Conta outra; Radamanthys resmungou. –Por isso, quando chegarmos aprece-se em explicar logo a princesa como fazer a barreira e vamos embora; ele completou.
Aproximaram-se do vilarejo e a sensação de inquietude aumentou, realmente, a variação no tempo era gritante agora e isso se tornava mais intenso em Asgard do que em qualquer outro lugar.
Mas isso já era de se esperar, quando a primeira batalha oficial de Athena contra os titãs de Chronos aconteceu, a Terra sofreu um grande impacto, principalmente porque Chronos e seus titãs mexeram com o eixo temporal. Causando um cataclismo no planeta e por muito pouco tudo não foi perdido.
Depois vieram outras divindades que deixaram sua parcela de destruição por onde passaram, somado a isso o eclipse de Hades também provocou grandes problemas. Agora algo ainda mais perigoso estava fazendo a natureza se rebelar.
Havia alguma coisa presa abaixo daquela terra que queria se libertar e a mãe natureza já não tinha mais forças para segurar. Era muito perigoso ficar ali agora e o quanto antes fossem embora melhor.
.X.
Sentiu o cheiro de umidade impregnar o ar, mesmo assim continuou a descer as escadas. A chama do archote em suas mãos vacilava a cada passo que dava. Os orbes azuis perscrutaram o corredor escuro e frio em busca de algo que lhe ajudasse.
As prisões do castelo já não eram usadas há muito tempo, entretanto, todas continham velhas histórias e fatos fascinantes, aquela não seria diferente.
Sabia que ninguém desceria ali para lhe procurar, por isso tinha todo o tempo do mundo para encontrar o que estava procurando.
-Por Odin, você precisa estar aqui; Sennar sussurrou, enquanto seguia em frente.
Mais alguns passos e o corredor tornou-se mais apertado e o ar sufocante. Conteve os batimentos acelerados de seu coração e continuou a descer. A escada parecia sem fim e só em pensar que teria de fazer todo aquele caminho na volta, já lhe deixava desesperado.
Alazar dissera que há muito tempo atrás, algo muito importante fora guardado no castelo em Asgard. Nenhum dos magos sabia disso, alias, ele mesmo só soubera dessa história porque fora enviado naquela missão. O mestre dos magos jamais confidenciaria um segredo dessa magnitude sem um propósito e ainda sim, não lhe contara tudo.
Seguiu em frente e com alivio, viu-se diante de um largo hall e logo à frente duas portas enormes. Não sabia o quanto deveria ter descido, mas pela proporção das portas, que deveriam ter mais de cinco metros, deveria ser muito.
Ofegou quando a chama do archote se apagou e o local mergulhou na escuridão, evocando seus poderes, tentou acendê-la de novo, mas nada aconteceu.
Recuou um passo quase pisando na barra da própria túnica quando ouviu o ranger das portas se abrindo. Agitado tentou acender o archote novamente, mas nada aconteceu, até que a sua frente um caminho de chamas surgiu.
Piscou seguidas vezes ao ver que depois das portas havia dois lagos cobertos de chamas. Seguiu em frente hesitando, já estava ali e não havia como recuar agora. Deixou o archote de lado e ficou com as mãos livres.
Com passos cautelosos atravessou o caminho que formava-se entre as chamas azuladas e deparou-se com um outro lago de águas escuras e uma parede, onde uma queda dágua escorria por entre as pedras. O salão terminava ali, não havia portas ou entradas para nenhum outro lugar.
Pilares ladeavam todas as paredes e podia ver inscrições antigas em cada uma das paredes. Era um idioma tão antigo que nem mesmo ele, que sempre se considerara um estudioso, sabia o que todas significavam.
Suspirou cansado, provavelmente Alazar deveria ter se enganado, se algum dia alguém guardara algo ali, já deveria ter sido retirado há muito tempo. Decepcionado e frustrado ele deu as costas ao lago e começou a caminhar de volta para a saída quando uma voz fez gelar seu sangue.
-Quem é você, ínfima criatura que ousou aqui entrar? –a voz ecoou por todos os lados.
Voltou-se para trás e não viu nada, mas sentia todos os pelos do braços eriçados.
-Eu... Sou Sennar. O mago Sennar; ele falou com a voz tremula.
-Diga-nos Mago Sennar, o que quer aqui? –uma segunda voz de tom mais amável indagou.
Encolheu-se instintivamente, não conseguia sentir nenhum cosmo diferente, mas era como se estivesse encurralado.
-Alazar... Mestre Alazar me mandou aqui; Sennar falou dando alguns passos em direção a porta, mas quando ameaçou correr, as mesmas haviam se fechado com uma batida que reverberou sob a superfície das águas.
-O mestre dos magos; uma terceira voz falou.
-Diga-nos criança, porque Alazar lhe mandou aqui? –uma quarta voz indagou.
Voltou-se para todos os lados, mas não encontrou ninguém. Mesmo assim aquela sensação de alerta ainda perdurava.
-Ele pediu apenas que eu dissesse que Ele vai despertar; Sennar falou, sentindo as energias tornarem-se mais opressoras.
-Impossível; a primeira voz exasperou.
-O tempo de provas esta chegando para nossa Terra novamente, meu amigo; a segunda voz amável e suave falou. –Todos sabíamos que um dia isso aconteceria;
-Ehnoryen já foi destruída, o que mais ele quer? –a terceira voz indagou.
-A coroa que julga ter-lhe sido roubada, mas que nunca mereceu; a quarta voz falou. –Ele pretende conseguir isso, sem levar em consideração a vida daqueles que são inocentes;
-Quem são vocês? –Sennar indagou confuso, ouvindo o fluir da conversa.
-Você veio nos procurar rapaz, deveria saber; a segunda voz falou.
-Eu, bem...;
-Alazar não deve ter contado a ele, para sua própria segurança, Griffy; a quarta voz falou. –Eram poucos aqueles que sabem que nós estamos aqui;
-Mesmo assim respeitaram nosso sono, agora as coisas são diferentes; a primeira voz falou.
-Não entendo; Sennar balbuciou e no minuto seguinte caiu de joelhos no chão, pasmo ao ver a cortina de águas que escorria da parede abrir-se e de lá surgirem quatro pessoas, das quais três eram homens e apenas uma era mulher, possivelmente a dona da segunda voz que pareceu tão suave e amável.
-Somos o equilíbrio criança; Hany - a mulher de longos cabelos azuis falou, com um sorriso complacente. –Existimos desde que o mundo era jovem e homens e deuses ainda estavam aprendendo a co-existir em harmonia;
-Fomos criados pelo supremo senhor do universo e nos foi confiada à missão de sustentar essa Terra, como seus pilares de equilíbrio; um dos homens falou e pela voz pode notar que era o primeiro que falara. Ele tinha longos cabelos vermelhos e apenas seu olhar era capaz de consumir tudo em chamas ardentes.
-Vocês são...;
-Sim; Dalyn - o segundo homem do grupo falou assentindo. –Somos os quatro dragões ancestrais que mantém os pilares do equilíbrio nesta Terra, a milhões de anos atrás, lutamos ao lado de Emmus para impedir que essa Terra fosse destruída e juramos perante o Destino, que estaríamos aqui quando uma nova guerra ameaçasse nosso mundo;
-E juntos, precisamos lutar ao lado do Senhor dos Dragões, para defender nossa herança mais uma vez; Griffy - o quarto dragão completou. –Nossa herança mortal;
Continua...
