Eu tinha a intenção de entrar em casa e ir direto para a cama. Mas quando o carro iluminou a varanda, presenciei algo fora do comum.

Bianca estava toda vestida, parecendo ofegante, tentando guardar sua bicicleta. Por que ela estaria fazendo isso uma hora dessas? Era algo que eu pretendia descobrir agora mesmo.

Estacionei o carro e fui até o lugar onde ela estava parada feito uma estátua, me olhando pálida.

- Posso saber o que a moça faz aqui a uma hora dessas? – perguntei a ela, cruzando os braços e olhando-a com uma sobrancelha erguida.

Foi como se eu realmente estivesse falando com uma estátua, pois Bianca nem esboçava qualquer reação. Estava começando a ficar preocupado.

- Bia?

- E-e-e-eu... – ela gaguejou. - Ah, não é da sua conta, Jesse! – ela disse atropelando as palavras.

- Claro que é, Bianca. Acho melhor me dizer onde estava, senão...

- Senão o quê? Vai contar para a mamãe? Ai, que medo! – Ela estava tentando passar uma imagem de despreocupação, mas falhava miseravelmente.

- Vou sim.

Ela ficou me olhando em pânico, prendendo a respiração e roendo uma das unhas da mão direita.

Então fez algo que eu não esperava: começou a rir descontroladamente.

- Posso saber qual é a graça?

- Você tentando me chantagear! – E ela ria mais ainda.

- Ainda não entendi a piada. – Realmente, não tinha entendido onde ela queria chegar com aquilo.

- Jesse, Jesse... Querido irmãozinho... Esqueceu que eu sei muito mais coisas sobre você e Suze do que você sequer sonha saber sobre mim?

Fiquei apenas encarando-a, deliberando sobre suas últimas palavras. Como eu havia sido burro em acreditar que minha irmã era uma menina inocente.

- Tudo bem, você venceu. Não vou contar a ninguém. – Ela dava pulinhos e batia palmas. Louca. – Mesmo assim eu gostaria de saber.

Ela revirou os olhos.

- Curioso. Eu estava com Jake.

É claro que eu deveria saber que ela estava com ele. Sempre ele. Perdi as contas de quantas vezes ela falou no nome dele essa semana.

- E o que você fazia com Jake uma hora dessas? – Não tinha certeza se eu realmente queria ouvir a resposta.

- Hum... Receio que isso não seja da sua conta.

Minha língua estava coçando para fazer uma pergunta, mas meu cérebro parecia duvidar se soltava ou não as palavras.

- Se não se importa, vou dormir. Estou cansada. – Bianca interrompeu meus pensamentos.

- Espere, quero perguntar uma coisa. – Decidi. – Bia, você é... hum... você sabe.

- Sou o quê, Jesse? Não sei do que você está falando.

- Você é virgem? – soltei de uma vez.

- E, mais uma vez, isso não é da sua conta – ela disse, olhando para o céu. Mesmo a varanda estando um pouco escura, pude ver que ela corava. E essa era a resposta que eu precisava.

- Ah, meu Deus, Bianca... Não acredito que você se entregou a Jake!

- Jesse! – Agora ela estava deliberadamente vermelha. – Não é nada disso! Não que isso interesse a você, mas Jake não tirou minha virgindade. – Sua voz estava estrangulada e ela falava olhando para um ponto atrás de mim.

- Então quem foi?

- Você está indo longe demais...

- Quem foi?

- Não quero falar sobre isso com você, Jesse. Deixe de ser inconveniente e vá dormir. Boa noite.

E ela saiu correndo. Eu até pensei em gritar chamando-a de volta, mas acabaria acordando alguém e pondo-a em situação difícil.

Fui para meu quarto pensando no que ela havia dito. Tudo bem que eu já sabia que ela não era mis criança. Mas daí a não ser mais virgem! E enquanto pensava nisso, fui atingido pela hipocrisia desse pensamento. Afinal de contas, Suzannah tinha a mesma idade de Bia e eu nunca reclamei do fato de ela não ser mais virgem quando a conheci.

Mas Bia era minha irmã. Não tinha como não ficar com raiva do desgraçado que havia tirado a inocência dela. E eu iria descobrir quem era.

Acordei na manhã seguinte suado e ofegante. Eu havia sonhado com Suzannah e não foi nada inocente.

Ela estava de pé em minha cama, vestindo apenas uma calcinha vermelha, sem sutiã. Uma música tocava e ela remexia os quadris, de olhos fechados, a cabeça jogada para trás, se masturbando com uma das mãos.

Eu estava prestes a atacá-la quando acordei, extremamente excitado e querendo morrer porque aquilo não era realidade.

Levantei mal-humorado e fui direto para o banheiro, tomar um banho frio e tentar acalmar meu corpo que parecia ainda estar no sonho.

Mas nem isso eu podia fazer em paz: meu celular tocou e eu saí do banheiro correndo, usando uma toalha minúscula enrolada na parte de baixo do corpo, pois não havia tido tempo de procurar minha própria toalha.

- Alô! – atendi ofegante.

- Fala, cara. Atrapalho alguma coisa? – Era Paul. Droga, esqueci que ele chegara ontem de madrugada na cidade.

- Nao, não. Fez boa viagem?

- Fiz sim, obrigado. Então, podemos almoçar hoje? Tenho que lhe apresentar alguém.

- Claro. Você está hospedado onde?

- Estou em Carmel, no Hotel La Playa.

- Me encontre no Natrielli. Fica a dois quarteirões daí.

- Tudo bem, estaremos lá. Até mais.

- Até.

Eu havia conhecido Paul na guerra. Ele era um dos soldados que combatia ao meu lado e nos conhecemos de uma forma bem... interessante: ele me viu conversando com o fantasma de um soldado amigo que acabara de morrer.

Quando percebi que ele estava ouvindo a conversa, tentei disfarçar, mas logo ele se revelou e me contou que também podia ver fantasmas. Não só isso: assim como Suzannah, Paul era um deslocador.

Logo nos tornamos amigos e ele me ajudou a ficar livre de alguns fantasmas que insistiam em me procurar pelo campo de batalha. Ele tinha muita experiência nesse assunto, por isso eu decidi chamá-lo para ajudar Suzannah com os fantasmas que a estavam tirando a paz.

Depois que finalmente consegui terminar meu banho, fui tomar café da manhã. Quando cheguei à mesa, encontrei apenas meu pai sentado lendo o jornal.

- Bom dia, pai. Onde está todo mundo?

- Já levantaram, filho. Você foi o último. Posso saber que horas chegou ontem?

- Não sei... Era um pouco tarde.

- Hum... Trouxe alguém? Ouvi um barulho de conversa.

Não era possível. Desde quando meu pai ouve tão bem assim? Resolvi, como da última vez, fingir que ele estava sonhando.

- Não, pai, vim sozinho.

Um silêncio constrangedor imperou entre nós dois. Há tempos eu e meu pai não sentávamos à mesma mesa, pois ele sempre me evitava. Agora que ele estava ali, eu não ia correr o risco de estragar a situação tocando "naquele" assunto. Faltavam apenas algumas semanas, eu tinha que aproveitar ao máximo o tempo. Resolvi iniciar uma conversa casual.

- Pai, on...

- Mierda! Não começa! – ele explodiu e já estava quase levantando quando eu o detive.

- Calma... Só quero saber onde está Bianca.

- Hum... – ele me olhou de soslaio, voltando a ler o jornal. – Ninguém conseguiu acordá-la. Até Mila já acordou e Bia continua na cama.

Sei. A noite deve ter sido boa.

- Vamos ver se ela não vai acordar...

Terminei rápido meu café, não queria comer muito por estar perto do almoço, e fui até o quarto de Bianca.

Bati na porta como uma pessoa educada, mas já sabendo que não haveria retorno Bati apenas mais uma vez antes de abrir e entrar, encontrando-a jogada na cama em sono profundo. Hesitei um pouco se deveria mesmo fazer aquilo. Mas depois lembrei o motivo de ela estar tão exausta e pus meu plano em prática.

Fui até o banheiro, pegando uma toalha e colocando-a sob a torneira, deixando lá até que ficasse encharcada. Em seguida, fui até meu quarto pegar um dos meus perfumes fortes que eu sabia que Bianca odiava por ser alérgica a eles. Cada vez que sentia o cheiro ela espirrava várias vezes seguidas.

Voltei para o quarto dela, deixando a toalha no banheiro. Abri o vidro do perfume, encostando levemente perto do seu nariz. Quando sentiu o cheiro, Bia coçou o nariz, espirrou apenas duas vezes e voltou a dormir. Jake era melhor do que eu pensava para um moleque, a menina estava acabada.

Fui para o 'plano B': voltei ao banheiro, pegando a toalha com cuidado para não deixar rastros pela casa e levando-a até o quarto de Bianca. Parei de pé ao lado da cama, sentindo pena da minha irmã. Mas a pena durou apenas dois segundos, pois logo eu segurei a toalha a uma altura considerável do seu corpo e torci, derramando toda a água gelada sobre ela, que acordou feito uma barata tonta.

- Não fiz nada, mãe! Eu juro! – ela gritou, ficando de pé sobre a cama enquanto eu ria alto.

- Isso é consciência pesada, Bia?

Ela me olhou com uma fúria demoníaca, me fazendo rir ainda mais.

Enquanto eu estava de olhos fechados rindo, senti um impacto forte em minha cabeça, o que descobri ser um travesseiro jogado por Bianca.

- Rará! Pode rir agora! – ela gritava, ainda em pé sobre a cama.

Revirei os olhos e continuei a rir, virando as costas e saindo se seu quarto.

- Você me paga, Jesse!

É tão bom ser irmão mais velho!

Voltei para meu quarto a fim de me arrumar para encontrar Paul, mas havia uma mensagem de texto de Cris no meu celular.

"Precisamos conversar. Cara, você não vai acreditar em tudo que aconteceu ontem!"

Eu ficava admirado como às vezes Cris era tão adolescente.

"Me ligue mais tarde, vou sair agora"

E em como às vezes ele conseguia me tornar um também.

Era cerca de uma hora da tarde quando eu cheguei ao Natrielli. Logo que passei pela entrada, avistei Paul em uma mesa afastada, perto de uma parede ampla de vidro que dava vista para a rua. Mas ele não estava só.

Havia uma mulher branca, de cabelos escuros, sentada de frente para ele. Ela era bonita. Os dois conversavam tão absortos, íntimos, que eu fiquei indeciso se deveria mesmo interromper. Mas enquanto estava nessa indecisão, ele me viu parado olhando para a mesa e fez sinal para que eu me aproximasse.

- Fala, cara, quanto tempo! - Paul disse quando eu me aproximei, levantando para apertar minha mão.

- Como você está, Paul?

- Estou ótimo! – Ele olhou de mim para a mulher. – Quero que conheça Letícia, minha namorada. Este é Jesse.

Ela levantou sorrindo levemente para mim e trocamos um breve aperto de mãos. Eu não tinha certeza se ela sabia o que Paul era realmente e o que ele podia fazer, mas ela me parecia bem segura de si. Mais do que isso: parecia que havia um hierarquia naquela relação, onde ela estava acima de tudo.

Sentamos todos à mesa, chamando o garçom e fazendo rapidamente nosso pedido.

- Então, Jesse. Vai me dizer por que eu estou aqui realmente?

Eu não sabia se podia confiar na garota. E também não podia evidenciar isso a Paul. Mas o meu silêncio e os olhares de relance que eu lancei a ela fizeram Paul entender o que eu estava pensando.

- Ah, sim. Pode confiar nela, Jesse. Ela sabe de tudo e vai nos ajudar.

Me senti mais relaxado diante dessa informação e repassei a Paul todas as informações que Suzannah havia me dado sobre os fantasmas e até o que ela tentara fazer com eles e não dera certo.

Paul ouvia com atenção, concordando ou discordando conforme eu lhe contava as ações de Suzannah. Letícia, pelo contrário, olhava absorta para a rua pela parede de vidro, e eu duvidava muito que ela estivesse prestando atenção em um grama do que eu havia dito.

- Sei mais ou menos com o que estamos lidando. Não vai ser tão difícil, mas vamos precisar usar a inteligência. – Paul comentou enquanto comíamos após eu ter terminado a história.

- Então você acha que pode ajudar?

- Claro. Preciso conhecer Suzannah, há alguns detalhes a serem acertados.

- Você sabe qual foi o método que ela usou para mediá-los? – Letícia perguntou, admirando-me. Eu poderia jurar que ela não havia sequer ouvido isso.

- Não faço idéia. Não entendo dessas coisas, essa é a verdade – confessei, por fim. – E quanto a vocês conhecerem Suzannah... Há um pequeno problema.

Os dois me olharam com interrogações na testa.

- Nós não estamos nos falando. Vocês terão que procurá-la sozinhos.

Paul revirou os olhos e Letícia torceu a boca com desdém.

- Isso é balela.

Após o almoço, dei a eles o número de Suzannah, explicando que horas eles poderiam ligar e o que deveriam dizer a ela. Só por precaução, passei também o endereço dela, caso ela resolvesse não atendê-los por telefone.

Dei algumas dicas de pontos turísticos em Carmel e também em Monterey a eles, convidando-os a ir até a fazenda quando tivessem algum tempo de sobra.

Ficou acertado que Paul ligaria quando conseguisse falar com ela e me manteria informado sobre todos os passos dele. Em um certo instante que Letícia não estava por perto, ele baixou o tom de voz para falar comigo.

- Precisamos conversar, sinto que há mais envolvimento entre você e essa menina do que você está me contando – ele sussurrou.

- Acho que você também me deve algumas explicações, não é mesmo? – relanceei um olhar à Letícia.

- Certo. Conversaremos outra hora. – ele confessou com um meio sorriso.

Voltei para casa no meio da tarde, encontrando Cris sentado na sala à minha espera.

- Por onde andava o senhor Hector de Silva?

- Eu lhe devo satisfações agora? Que eu saiba, quem andou aprontando foi você.

Cris abriu um sorriso que eu podia jurar que lhe dividiria o rosto em duas partes.

Fomos para a parte de fora da casa, onde ele me contou o que fez na noite que passou com Laura. Claro que ele não contou todos os detalhes, principalmente porque eu implorei que ele me poupasse dessas informações.

Mas a felicidade era nítida em seu rosto e eu ficava feliz por ele. Porém, era impossível não pensar em Suzannah e no que ela estaria fazendo, ou pior, com quem. Eu sentia mais falta dela do que jamais poderia imaginar que sentiria. Mais do que eu admitia.

- Jesse? Hector? Alô? Está me ouvindo?

Cris estalava os dedos na frente de meus olhos.

- Desculpa, Cris. Estava com o pensamento longe.

- É, eu sei bem onde ele estava. Então, quando você vai atrás dela?

- Não vou.

- Deixa de ser cabeça dura, Hector, você...

- Não estou aberto à opiniões, Cristóbal. Pelo menos por enquanto, não vou procurar Suzannah e pronto.

O tom de minha voz foi tão firme que ele não ousou rebater. Ficamos algum tempo em silêncio olhando para a televisão desligada, até que ele voltou a falar de Laura e o clima estranho se dissipou.

A semana havia se passado sem que eu tivesse mais notícias de Paul. Por vezes eu ligava para ele, mas ou o celular se encontrava desligado, ou ele não atendia. Resolvi esperar que ele me ligasse, afinal, ele estava me fazendo um favor e o combinado era ele me procurar.

Mas na noite de sexta-feira eu tive notícias de Paul. E não foi por intermédio dele.

Eu estava do lado de fora do meu quarto, deitado no chão e olhando para o céu estrelado, quando meu celular tocou dentro do quarto. Cogitei não atender, pois a preguiça era maior do que a curiosidade de saber de quem era a ligação. Mas toda a cogitação foi embora quando eu reconheci o toque: era a música que eu havia designado para quando Suzannah ligasse.