Nota da Autora: Se considerarem este capítulo digno de um comentário, sinta-se à vontade para comentar!
A cor do dinheiro
Capítulo 20: A mente perigosa de Kikyo
Música: Kiss me, kill me (Weiss Kreuz – Farfarello)
Para Lan Ayath
-Nenhuma pergunta? – o líder da família Akai, Sesshoumaru, estreitou espertamente os olhos.
Miroku levantou timidamente o braço, como um aluno com medo de receber uma resposta atravessada do professor.
-O que é?
-É pra matar?
A resposta do jovem líder veio fria:
-Naturalmente que sim.
Os outros sorriam tranquilamente.
Exato um minuto se passou, e então Sesshoumaru levantou-se:
-Esta noite será muito longa, meus senhores. – ele deu um sorriso maligno, e levantou-se junto com os outros – Reunião encerrada.
Kouga foi o primeiro a sair, seguido de Sango, Miroku e Inuyasha. Sesshoumaru também iria, parou, no entanto, ao reparar que Hakudoushi e Kikyo estavam ainda nos mesmos lugares.
-Pretendem ficar aqui?
-Irei para meu quarto daqui a pouco. – Hakudoushi disse tranquilamente.
-Vamos apenas conversar um pouco. – Kikyo tirou uma mecha de cabelo de cima do ombro esquerdo e a ajeitou atrás da orelha – Eu sei que aqui é o seu castelo... – a ironia era evidente na voz, mas ela preferiu continuar e exagerar na educação – Mas não vamos demorar. Pode nos ceder alguns minutos, por favor?
Os olhares dos dois líderes se encontraram. Uma sorria tranquila e vitoriosamente, certa de que conseguiria o intento; outro tinha o rosto habitualmente inexpressivo, com aquele ar difícil para adivinhar o que se passava na mente.
E justamente por ser difícil saber o que Sesshoumaru poderia falar apenas olhando o rosto dele, tanto Hakudoushi quanto Kikyo ficaram surpresos quando o líder jogou a chave no ar em direção dela, que a apanhou e sorriu com satisfação.
A porta se fechou e o casal ficou alguns segundos em silêncio. Parecia que decidiam quem falaria primeiro. Kikyo, que continuava perto da janela, resolveu ir até a cadeira de Sesshoumaru, sentando-se lá como se tivesse liberdade para tal. O primo deste, sem ligar para as consequências – ou qualquer outra futura ação da garota - simplesmente resolveu tomar o lugar de visitas, ficando os dois frente a frente à mesa.
Ambos preferiram ficar calados por algum tempo. Melhor que pensassem no que dizer, ou poderiam ficar horas apenas olhando um ao outro e deixariam o tempo passar lá fora, quando, absolutamente naquele dia, aquilo não era possível.
-Como estão as crianças?
Uma pergunta que soava meio tola vinda de Hakudoushi. Tola e, ao mesmo tempo, interessante.
-Dando uma volta por Nagoya. – ela deu um discreto sorriso de satisfação, como se tivesse pleno domínio de toda a situação. Alguns poderiam pensar até numa mãe que tinha a guarda das crianças longe do pai - Parece que estão se divertindo por lá. Teru já até deixou de falar a respeito de Copenhague. – tinha um tom levemente irritado na voz - Não sei o que tem de tão especial num lugar tão frio!
-Eu gosto de lá. – desta vez quem sorriu foi o médico - Minha mãe costuma me levar pra passear aos finais de semana nos parques... Era melhor que ficar em casa.
-Oh? – o murmúrio escapou suavemente dos lábios dela. Os olhos piscaram. A mão branca apoiou o queixo para ouvir com atenção.
Dificilmente uma cena daquelas se repetiria. Era um modo de ela persuadir alguém a falar algo naturalmente.
-Você costumava viajar muito com ela?
-Para Estocolmo, Copenhague e Amsterdã... Principalmente à Suécia depois que papai morreu. Às vezes eu viajo a esses lugares para lembrar um pouco dela.
-E qual era sua cidade favorita?
-Estocolmo. – ele deu um discreto sorriso – Mamãe tinha uma ligação muito especial com ela. Foi lá que ela conheceu papai. – deu uma pausa – Sabe, eu gostei de ouvir naquele dia em Sakai que Aki que morar lá. Se ela realmente quiser ficar, terá todo meu apoio.
-Isso só vai provar mesmo a teoria de Kanna.
-Que teoria? – desta vez, quem apoiou o queixo na mão foi Hakudoushi.
-Kanna afirma que você e Akiko têm um laço de afetividade maior que você e Teru têm; Teru e eu temos um laço de afetividade maior que eu mantenho com Akiko... – ao ver um arquear de sobrancelhas dele, ela completou depressa - Não que gostemos mais de um que do outro, é só uma ligação que temos por...
-Eu entendi. – ele deu um sorriso gentil – Deve ser algo natural.
-Nunca tinha prestado atenção.
-Isso ficou bem claro em Sakai. Bem, pelo menos para mim.
O silêncio que se fez apenas pareceu uma competição. Quem falaria primeiro? Quem pararia de olhar primeiro? Quem conseguiria adivinhar o pensamento do outro primeiro?
-Já foi alguma vez a Oslo? – quem tomou a iniciativa foi Hakudoushi.
-Nunca saí do Japão, Hakudoushi. – Kikyo tentava reprimir o sorriso, sabendo já onde a conversa chegaria – Eu sempre tive dinheiro, mas nunca o tempo.
-Quando as crianças voltarem, e se quiser um dia ir visitá-las... – ele mexia a plaquinha de "Não fume" da mesa do primo e mudou-a de posição – Posso ir com você. A casa de lá é grande, teremos lugar.
Se alguém visse aqueles dois sentados, um em frente ao outro, conversando como se o mundo lá fora não existisse e um problema não tivesse que ser resolvido.
Kiss Me,
Kiss My Heart
-E lembrar... – ela deu um sorriso nervoso, algo incomum nela – E lembrar que um dia eu implorei pra você nunca mais me procurar.
Hakudoushi baixou o rosto e arqueou as sobrancelhas num reflexo, como se lembrasse da ocasião. Não comentou a respeito, apenas pensou em algo diferente para falar.
Kill Me,
Kill Me Forever
-Você tem algum assunto... importante para resolver esta noite? – ele deitou os olhos lilases sobre ela, mais sério, a voz calma e menos intensa, saída quase num sussurro.
-Mandei chamar uma... pessoa aqui. – ela escolheu bem a palavra.
-Mesmo?
-Na verdade, ela vem aqui pra me matar. – Kikyo jogou o cabelo para trás e apoiou o rosto novamente na mão, permitindo que ele a observasse de perfil ao fechar os olhos e continuar a falar como se meditasse. – Às vezes é difícil de acreditar que essa gente pensa que eu não sei o que eles planejam.
-Vai precisar de ajuda?
Kiss Me,
Kiss my eye
-Eu queria dizer que sim, mas não posso discutir com essa pessoa na sua frente. Não ia gostar do que ia ouvir. Então... – ela umedeceu de leve os lábios – Então não, obrigada. Vou resolver isso sozinha.
Hakudoushi se ergueu da cadeira e voltou a posicionar o "Não fume" à posição anterior.
-Vou me retirar. – ele levou a mão ao pescoço e girou para os lados. Parecia que doía – Qualquer coisa, estarei em meu quarto.
O médico estava de costas ao parar perto da porta, a mão na maçaneta, prestes a sair.
-Kikyo?
-Sim? – ela o olhou curiosa por causa do tom na voz dele.
-Eu não quero mais esse homem pisando aqui.
Kill Me,
Kill Me Your Love
Um leve alerta passou nos olhos dela. Ela não havia especificado antes se era homem ou mulher.
E, para a surpresa dela, Hakudoushi sabia de quem se tratava.
-Vou confiar no seu bom senso de não convidá-lo mais. – ele virou o rosto e observou-a de costa por cima do ombro. Não via o olhar estreitado, o leve sorriso que se formou nos lábios.
-Não se preocupe. – ela não virou o rosto, o sorriso ficou mais malicioso – Ele não vai mais a lugar algum em alguns minutos.
-Oh? – desta vez, ele a olhou – E isso quer dizer...?
Viu-a girar o corpo na cadeira e notou o sorriso malicioso, os olhos brilhando de excitação. Viu-a erguer a mão direita e fazer uma arma de brincadeira ao levantar o polegar e mostrar o indicador ao mesmo tempo.
-Bang! – ela "atirou" nele e deu uma risada divertida.
itami wa itoshii itami wa hakanai
itami wa yasashii shinjitsu da yo to
A dor é maravilhosa, a dor é passageira
A dor é gentileza, esta é minha realidade
Hakudoushi nada disse e virou-se. Ela escutou a porta fechar e apreciou o silêncio que se fez. Não que a conversa com ele tivesse sido ruim, e não que não quisesse a presença dele, mas...
Deu um suspiro muito prolongado e deitou a cabeça em cima da mesa, os braços tentando abrir mais espaço.
yawaraka na sofa no ue boku wa machitsuzukeru
vou esperar sentado num sofá macio
Como ela adorava aquele poder! Tinha levado anos para chegar à posição de líder de uma das mais poderosas famílias da máfia japonesa.
E levasse o tempo que fosse, conseguiria mais.
O que quer que custasse, teria muito mais.
Kiss Me, Kiss My Leg
Kill Me, Kill Me Forever
Kiss Me, Kill My Lip
Kill Me, Kill Me Your Gun
Deu um sorriso que não costumava dar em frente aos outros. Pensara na conversa com Hakudoushi: se tudo acabasse bem, como ela queria que acabasse, poderia tirar alguns dias de folga e ver como os protegidos dela viviam naquele país gelado, uma Noruega que tinha esquinas cheias de lembranças para Hakudoushi.
E ele iria com ela, não? Ele havia falado que podiam viajar juntos...
kono yo wa nazo de kono yo wa uso de
kono yo wa shosen awaremi dakedo
Este mundo é um enigma, é uma mentira
Mas ainda é possível de se encontrar compaixão aqui
A placa que ele arrumara foi mudada novamente de posição. Admitia que parecia uma criança entediada, mas Kikyo nunca se deu ao luxo, quando fora uma, de agir com tédio.
Minutos antes, quando o jovem médico falara a ela a respeito da pessoa que ela encontraria em breve, desejou que os minutos passassem depressa, que ele chegasse, que as coisas se resolvessem da forma que ela quisesse.
Mas, ao pensar na proposta de Hakudoushi, ela encontrou-se... desejando que os minutos passassem devagar para imaginar como seria conhecer as cidades que ele citara: Amsterdã, Copenhague, Estocolmo, Oslo...
ai suru mono dake wo boku wa machitsuzukeru
Vou continuar esperando por alguém para amar
Os olhos escuros deitaram nos ponteiros do caríssimo relógio de pulso preso no braço esquerdo dela. Três minutos para a hora. Três minutos para vê-lo.
O que se poderia fazer em três minutos sem se aborrecer? Imaginar o que faria se estivesse na Noruega?
Os olhos encontraram viram o ponteiro dos segundos dobrar o primeiro segundo das onze da noite. Depois, eles fecharam e ela suspirou.
Voltou a reabri-los ao escutar um barulho. Era tão leve, dava a impressão de ter sido um gato que passara pela barra da longa cortina do escritório. Alguém mexera nela, poderia ter sido até o vento, já que ela estava aberta e...
Um homem apareceu na porta que dava para a sacada. Discreto, silencioso. Era o gato que julgava ter passos leves, mas que chamava a atenção de todos.
-Sabe no que eu pensei? – Kikyo perguntou com um sorriso. O rosto do visitante continuava encoberto pelas sombras que o cortinado produzia.
Pyuwa na shi no tame hito wa arukidasu
kurushimi no naka munashiku mogaki
As pessoas andam em direção da morte
E sem sucesso se esforçam em meio à angústia
Não houve resposta. Na verdade, o silêncio já representava um "não". Não, ele não sabia no que ela pensava.
-Achei que tivesse sido um gato passando onde você está agora.
-Pensei que quisesse discrição. – ele deu um passo e saiu das sombras, percebendo um pequeno sorriso aparecer nos lábios dela, tão raro quando estavam em companhia de outros, tão comum quando estavam sozinhos.
-Sabe que adoro isso. – ela corrigiu a postura à mesa, cabeça erguida, expressão séria – Não quer sentar?
-Aqui? – ele olhou os móveis no escritório de Akai Sesshoumaru, inéditos para ele. Era a primeira vez que pisava ali.
-Prefere ir pra sala onde todo mundo pode nos ver... Naraku? – ela deu um sorriso irônico, que era comum tanto em frente ao outros quanto em frente aos discretos homens que encontrava.
-Quer que aquele médico saiba que estou aqui?
-Na verdade, ele já sabe que está aqui.
Mesmo no escuro, Kikyo reparou que as linhas do rosto dele não mudaram, embora aquela informação fosse muito importante.
-Ele sabe? – ele repetiu sem emoção, tomando um lugar para sentar.
-Mas não fique preocupado. – ela pegou uma caneta caríssima pertencente a Sesshoumaru e ficou brincando com ela entre os dedos – Ele não pretende entrar aqui e interromper nossa conversa.
Enquanto ela pronunciava calmamente o discurso, a cabeça dele balançava vagarosa e desconfiadamente de um lado a outro.
-Eu não fico tão tranquilo com ele aqui.
Uma sobrancelha de Kikyo ficou alta.
-Ficou muito evidente naquela festa que ele quer você.
A caneta parou nos dedos dela; os olhos castanhos ficaram brilharam por segundos; o coração pareceu acelerar.
Por tanto tempo ambos quiseram evitar estar naquelas condições, principalmente ela. Nunca soube direito o que Hakudoushi pensava ou o que sentia. Era sempre tão difícil entender o que aqueles olhos lilases realmente desejavam...
Os destinos eram muito cruéis, já afirmaram as grandes vozes.
Enquanto estava momentaneamente absorta num único pensamento relacionado a um fato do passado, não notou a aproximação da visita. Naraku estava parado ao lado dela, tirando uma mecha do cabelo de cima do ouvido e inclinando-se para falar perto:
-E parece que vocês não fizeram nada para impedir isso nos últimos dias, não?
Com isso, ela parece despertar e as sobrancelhas franziram numa dúvida:
-O que quer dizer? – perguntou com frieza.
Um sorriso meio irônico curvou misteriosamente os cantos da boca de Naraku. Um sorriso sarcástico veio da parte dela:
-Está se referindo a Sakai? – ela quis saber.
-Ele também foi, não? – ele voltou ao lugar dele, colocando uma perna em cima de um joelho ao sentar-se – Parece que se divertiram bastante por lá.
E foi justamente naquela noite que ela pareceu notar outras intenções no médico, quando ele tão elegantemente a ameaçou por ter um relacionamento com o homem sentado agora em frente a ela.
-Sabe... – ele apoiou os cotovelos em cima da mesa e tinha o rosto sereno, ainda que ela pudesse notar algumas sombras nele – Não sabe o quão surpreso fiquei ao saber que ele também tinha estado lá.
Nessa hora, ela também tinha o rosto sereno, mas para ele também havia uma sombra prestes a ficar mais forte nos contornos do rosto pálido da líder. A mão esquerda dele estava erguida, como se discursasse politicamente.
-É uma indignação você investir tanto em alguém, e essa pessoa simplesmente – a mão dele ficou curvada, como se tentasse esmagar uma pedra invisível – te engana de uma forma tão descarada, tão absurda...
A sombra nos rostos dele ficou mais marcante.
-Depois de tudo... E sem um pingo de gratidão. – ele completou
O rosto dela não esboçava reação diante das acusações. Ele voltou à posição normal, coçando o queixo com a mão esquerda numa meditação.
-Acho que ele sentiu o mesmo também, não? Ele... com todo aquele jeito certinho... deve ter odiado a forma como tentou resolver as coisas naquela época.
E um sorriso meio irônico curvou os lábios de Naraku.
-E agora ele deve ter orgasmos toda vez que corre pra ele quando tem problemas com aquelas crianças.
À menção dos protegidos, desta vez foi o rosto dela que ficou sombrio.
itami wa itoshii itami wa hakanai
itami wa yasashii shinjitsu da yo to
Na verdade, a sombra que dominava as elegantes feições dela procurava disfarçar o fato de ela ter ficado, de certa maneira, abalada em saber que ele, Naraku, tinha conhecimento de algo que ela e Hakudoushi chegaram a pagar muito caro para ser segredo.
-Achou que eu não saberia? – ele perguntou.
Em lugar de ouvir uma resposta afiada ou ver uma sobrancelha levantar, uma testa franzir ou qualquer coisa do gênero, Naraku encontrou um sorriso incomum no rosto marmóreo. Ela percebeu que o deixou confuso, então resolveu falar:
-Desculpe... – o sorriso continuava lá, deixando os perfeitos dentes à mostra – É que lembrei de uma coisa que Midoriko costumava falar.
Não houve uma reação imediata por parte dele à menção da prima de Kikyo. Apenas, cerca de um minuto depois, a posição da perna mudou.
Obviamente que ele tinha curiosidade em saber sobre o que Midoriko pensava, entretanto fez que não sabia. Esperou pacientemente pelo comentário:
-Ela falava: O mundo seria perfeito se não tivéssemos que lidar com o ciúme dos outros.
-Ela dizia isso? – uma sobrancelha dele se ergueu.
Kikyo continuou rindo, até que se controlou por alguns segundos e o encarou, ainda sorrindo:
-Ela não disse isso pra você antes de matá-la?
Silêncio mórbido se fez.
-Ora... Mas que cara é essa? – ela tentou soar a ironia de forma mais natural – Não foi você quem matou Midoriko?
Não houve retorno à pergunta.
-Você matou minha prima, Naraku? – a frase saiu suave, sem quaisquer resquícios de rancor, ódio e insegurança. Ela praticamente confirmava que já sabia do fato.
-Há uma coisa muito verdadeira nisso que ela falou. – foi o único comentário por ele emitido.
Desta vez foi ela que evitou perguntar 'o que'.
-Em todo esse tempo que nos conhecemos... – ele cruzou as mãos e curvou o rosto um pouco mais para frente – Não houve um único dia em que senti paz por saber que você e aquele rapaz tramavam alguma coisa juntos, seja contra Bokuseno, contra Sesshoumaru ou contra mim.
-Contra você? – ela evitou aumentar o tom de voz – E por que acha que Hakudoushi perderia o tempo dele tramando contra você?
A mão direita retirou uma mecha mais teimosa de cima do ombro. Ambos já estavam prontos para pior. Em horas como aquela as pessoas ficavam mais soltas e todo tipo de acusação podia ser ouvida.
-Nada me daria mais prazer que ser cúmplice de Hakudoushi em algum plano contra Sesshoumaru – naquele momento, flashes de certa noite reprisaram por segundo um episódio acontecido em uma noite há alguns anos, quando o médico apareceu na mansão dos Higurashi coberto de sangue e precisando de muita ajuda –, mas até agora só temos feito umas apostas juntos. Aliás, você deveria participar também. A bolada do momento vai para quem acertar o nome do filho de Inuyasha.
-Midoriko falou que você tem ciúmes demais daquele médico. Nisso eu não concordei.
-Por quê? – ela inquiriu na curiosidade.
-Porque simplesmente não condiz com você. – ele deu de ombros – Você, um poço de ciúmes? Onde já se viu isso?
Kikyo permaneceu inexpressiva. Parecia não escutar os insultos.
-Viu? – ele apontou um dedo – Ciúme não condiz com alguém que se orgulha da própria sombra. Você não é ciumenta, Kikyo, é orgulhosa demais, sempre foi. Você se orgulha de ter sido a mais jovem pessoa a assumir a liderança de uma família, de ser mulher e líder mafiosa, de poder controlar todo mundo e estar grande parte das vezes à frente de todos nos assuntos.
Ficou calado. Ela o observava atenciosamente.
-Foi por isso que ficamos tão atraídos. – ele quebrou o silêncio – Eu gosto de gente assim, e fiz questão de me aproximar de você. Nós somos parecidos.
-Somos? – ela ergueu a sobrancelha ceticamente.
-Claro. – ele moveu a cabeça numa confirmação óbvia – Por exemplo, agora. Você sabia que eu viria aqui para matá-la, por isso preparou todo o esquema para eu conseguir entrar na mansão sem ser impedido. Aliás – ele apontou para a sacada – Está bem frio lá fora. Pode falar para Asuka e os outros entrarem.
Kikyo não ficara alarmada. Agora o jogo era para ver quem antecipava mais rápido que o outro.
-Você sabe que vai morrer hoje, não é? – ela fez a pergunta quase num sussurro.
Antes que ele respondesse, ele levou a mão ao bolso de dentro do casaco. A guarda de Kikyo entrou imediatamente para defendê-la.
Entretanto, houve um gesto de paciência por parte de Naraku. Ele ergueu a mão, como se pedisse para o esperarem, e tirou o celular do bolso. Olhou o visor – estava brilhando e vibrando. Alguém ligava para ele:
-Sim? – ele perguntou – Oh? Certo? Como assim?
Mais algumas palavras foram trocadas.
-Muito obrigado. – havia um sorriso vitorioso no rosto dele.
E então ele desligou e voltou-se a atenção para ela, guardando o aparelho no bolso.
-Já vão me matar? – ele questionou numa calma inédita.
yawaraka na sofa no ue boku wa machitsuzukeru
Isso deixava Kikyo estranhamente desconfiada. Ele sabia que estava numa situação ruim e mesmo assim estava calmo. Sem defesas, sem nada.
-Você perdeu, Naraku. – ela sentenciou.
Um minuto de silêncio se passou. Ele não demonstrava uma gota de nervosismo.
-Não, minha cara. - ele balançou a cabeça negativamente – Eu ainda estou longe de perder.
-Como é? – ela estreitou os olhos.
-Eu posso estar aqui, mas ainda estou à frente. – ele novamente pôs a mão dentro do casaco.
Mas, diferente da última vez, de lá tirou uma pistola. Kikyo não se moveu e Asuka estava no outro segundo ao lado dele.
-Eu vou morrer hoje, sim, mas não será à toa. Enquanto estamos aqui, as coisas continuam agindo lá fora, e pode ter certeza, minha cara... – ele estreitou os olhos numa ameaça – Será um inferno tão grande por lá que você vai preferir estar no meu lugar depois.
kono yo wa nazo de kono yo wa uso de
kono yo wa shosen awaremi dakedo
-Do que está falando?
Naraku deu um sorriso. O silêncio durou um minuto até ela entender:
-As minhas crian...
-Sayounara. – ele falou, interrompendo-a. A arma foi à têmpora e houve um tiro. O corpo dele tombou para o lado que segurava a arma – o esquerdo. Era um detalhe que ela não sabia: ele era canhoto. Ao cair, ele também sujou o carpete do escritório, pingos de sangue também sujaram a mesa e os papéis de Sesshoumaru.
Kikyo parecia aos outros inexpressiva. Fitava o corpo como quem fitava uma pedra. Já havia visto gente morta dezenas de vezes, mas nunca um suicídio. Muito menos de alguém que estava em vantagem.
Fez o possível para não demonstrar preocupação por trás da máscara que sempre carregava nessas horas no rosto de marfim. Levantou-se, tirou o amassado da roupa, passou direto pelo corpo e deu um aviso com o olhar para a líder de sua guarda: desnecessário. Asuka já sabia o que fazer.
Abriu a porta e a fechou, e ignorou completamente o que se passou depois do lado de dentro do escritório. Estava preocupada com as crianças, mas tinha certeza de que Kanna faria o serviço direito. Não era hora de pensar naquilo, então. Não era um problema. Tudo tinha seu tempo.
Na sacada, encontrou Inuyasha apoiado no parapeito, olhando sem muito interesse para baixo, fumando. Não se assustou: havia sentido, um pouco antes de Naraku entrar, um outro gato ficar à espreita na janela. Provavelmente ele subira para ver se estava tudo bem, e ajudar caso alguma coisa desse errado.
Erguendo os braços para o alto e espreguiçando-se, ela aproximou-se dele. Os olhos dourados de Inuyasha deitaram curiosamente na figura magra, branca e fisicamente parecida com a da esposa dele.
-Tem mais um? – ela fez um significativo gesto com os dedos, pedindo por um cigarro. Inuyasha ergueu as sobrancelhas enquanto procurava num bolso o maço, tirando um de lá e oferecendo a ela.
-Achei que tivesse parado. – o cunhado segurou o cigarro, brincando com ele entre os dedos – Nunca mais te vi com um.
-Não faço isso perto de Hakudoushi. – a expressão ficou um pouco iluminada como se lembrasse de algo importante - Ah, e, sim, eu tentei parar.
-E aí? – ele voltou a tragar.
-Não consegui. – ela pôs o filtro na boca e aproximou-se da ponta acesa do cigarro de Inuyasha, o que não foi negado por ele, que permaneceu quieto enquanto a cunhada realizava o intento. Um jeito charmoso de acender cigarros sem precisar de isqueiro, na opinião dela.
-Isso me faz lembrar quando Bokuseno nos pegou fumando na casa dele. – Inuyasha voltou a se curvar sobre o parapeito, apoiando os braços – Nunca esqueci do medo que tive de ele querer contar pro papai.
-Achei que fosse desmaiar de tão pálido que ficou. – ela apoiou as costas na madeira da sacada, virando o rosto para o lado para continuar a conversar com ele – Boas lembranças da infância.
-Não éramos crianças.
-É... – ela tragou enquanto olhava para cima – No meu caso, acho que nem cheguei a ser uma.
Silêncio se fez. A fumaça era apreciada por ambos.
-Ei... – ele a observava pelo canto dos olhos – Ele não sujou nada aí dentro, né?
-Asuka vai dar um jeito de deixar as coisas como estavam se algo tiver saído do lugar. – ela deu um suspiro – Bem sei que Sesshoumaru fica possuído quando alguma coisa nesse escritório tá com algum sujinho.
-Quem deve gostar do que aconteceu é o Hakudoushi. – ele comentou mais para si que para ela.
-Hmm? – o cigarro ficou na mão, a outra apoiava o cotovelo do braço que o segurava. Não escutou direito o comentário.
-Nada importante.
Ao contrário do que parecia a outros que poderiam ver a cena de fora, a conversa não foi permeada por momentos de silêncio. Havia barulho dentro da casa, mais especificamente da sala que Kikyo acabara de deixar.
-É verdade que você entrou naquela aposta idiota? – ele ainda mordia a ponta do cigarro, mantendo uma inexpressiva face ao olhar para o lado e vê-la fitando o céu.
-Não é idiota, é divertida. – ela tentou defender a causa – Até Hakudoushi 'tá participando.
O cigarro escapou da boca aberta do jovem Akai.
-Falando no meu sobrinho... – ela fingiu ignorar aquela expressão divertida no rosto do cunhado – Na semana que vem receberei a confirmação da matrícula do colégio que ele vai frequentar.
Se tivesse outro cigarro na boca, Inuyasha teria deixado cair de novo.
-O que foi? – ela perguntou com um sorriso meio inocente.
-Ele ainda nem nasceu, Kikyo. – ele parecia querer ainda acreditar que a cunhada era normal. Não era possível que não fosse.
Não fosse normal ainda.
-É que algumas coisas sobre o futuro não saem da minha cabeça e...
-Como o quê? – ele a interrompeu.
Os olhares se encontraram: um sério, outro mais calmo.
-Como os pais dele planejavam ficar um pouco longe dos negócios da família... – ela escolhia as palavras com cuidado, evidentemente atenta a cada mudança na expressão dele – Achei melhor tomar algumas previdências... caso vocês precisem futuramente de ajuda e não passem necessidade com um filho no mundo para criar.
-Que tipo de "ajuda"? – ele falou lentamente. Não era possível que ela já soubesse que o filho... – Ele ainda nem nasceu!
-Qualquer tipo de ajuda que alguém que quer sair da máfia precisar. – ela deu um sorriso verdadeiramente cínico, que morreu quando ele se aproximou mais – O que foi?
-Meu filho não vai fazer parte disso. – ele foi decidido – Ele não vai conhecer isso, não vai precisar do teu dinheiro.
Kikyo deu um sorriso, depois deu alguns passos para trás, sem deixar de encará-lo.
-Veremos, Inuyasha. – ela anunciou tranquilamente – Veremos o que vai acontecer.
Um momento de silêncio se passou e o contato visual não foi quebrado.
-Você é doente. – ele quis evidenciar a pena que sentia por ela na voz, mas apenas fez com que alargasse o sorriso no rosto da cunhada.
-Você não percebeu isso agora, não é? – ela deu dois passos para trás, ainda trocando olhares, até virar as costas e abrir a porta da sacada, encontrando outra visão lá dentro: Asuka e os outros Carregadores de Almas estavam curvados numa profunda reverência. Um lençol cobria um corpo no chão.
ai suru mono dake wo boku wa machitsuzukeru
-Terminem de limpar isso. Sesshoumaru terá ataques se encontrar uma sujeira aqui.
Os outros sinalizaram com mais uma reverência antes de ela sair do escritório.
Inuyasha apenas observou tudo do lado de fora.
Em um distrito afastado da mansão Akai, uma determinada propriedade era alvo de um grupo de invasores. De longe, podia-se ver por cima do muro que a propriedade tinha pelo menos cinco andares, todos construídos com o dinheiro que uma geração poderia pagar. O dono dela havia morrido há alguns meses, e agora a mansão estava em nome da única filha dele.
O problema é que nem mesmo ela estava lá também. No momento, então, o atual dono era o meio-irmão, o filho mais velho do falecido líder da família.
Aquela era a mansão Shiroi.
E os invasores queriam ver exatamente o que o muro não permitia: a entrada da mansão e seus donos.
Entrar havia sido relativamente fácil. Só não poderiam encostar na cerca elétrica. Como eles eram adeptos das mais diversas artes marciais, pular o muro sem precisar de apoio foi fácil. Exceto para duas pessoas:
-Tudo okay por'aí? – a voz em sussurros de Sango, já do outro lado do muro juntamente com a guarda que comandava, chegou aos ouvidos de Miroku através do transmissor sem fio.
-Teria sido melhor pela entrada mesmo. – a resposta mal-humorada do rapaz provocou um sorriso em quem ouvia – Eu odeio ter que fazer escadinha pro Kouga.
-Mais pra esquerda... – ele falava com esforço. Honestamente aquele tipo de exercício não era para ele. Subir muros era tarefa para ladrões de segunda, não para os poderosos chefes da yakuza – Só mais um pouco...
Miroku estava quase perdendo a paciência. Ele, embaixo de Ginta, que por sua vez estava ajudando Hakkaku a equilibrar o chefe Kouga, fazia um esforço sobrenatural para equilibrar o peso de três pessoas de uma vez. Se ele demorasse mais um pouco...
-Sangozinha, o pateta não quer sair de cima de mim. – ele comunicou à namorada – Acho que vamos demor...
-Estou com problemas aqui. – ela avisou e cortou a transmissão – Falo com vocês depois.
-Como é? – ele ficou preocupado – Sango?
A conversa chamou a atenção dos outros três em cima dele. No outro instante, escutaram gritos e reconheceu a voz de Sango comandando um ataque.
Aquilo teve um efeito imediato nos quatro. Kouga deu um salto com uma destreza que Miroku nunca vira antes, o mesmo fizeram os braços direito e esquerdo dele.
Miroku não precisou de muita ajuda. Com as aventuras ao lado dos primos anos atrás, aprendera com eles e com os treinamentos a saltar grandes distâncias. Mas outro motivo dava energia ao rapaz: escutara um grito de Sango, e torcia para que tudo estivesse bem.
-SANGO! – ele gritou quando os pés tocaram o chão já do outro lado do muro.
Os olhos dele, porém, ficaram um pouco arregalados quando viu a cena dentro da propriedade.
Sango, no meio do jardim, estava rodeada de corpos. Eram os seguranças da mansão, que foram atacados por ela. A guarda que ela comandava fazia já caminho rumo à entrada da mansão.
Ao escutar a voz do namorado, ela virou o rosto para trás. Viu Kouga, os companheiros dele e Miroku parados, observando boquiabertos o cenário de sangue.
-Vamos entrar? – ela fez o convite. Os olhos pareciam um pouco... diferentes. Lembrava um pouco o brilho que Hakudoushi sempre transmitia quando estava prestes a atacar.
-Vamos logo. – Kouga e os companheiros dele a seguiram. Só Miroku continuava parado, intrigado.
O rapaz deu um passo, mas parou. Alguém estava atrás dele.
-Eu achei que vocês viriam mais cedo. – Kuranosuke Takeda anunciou, fazendo caminho pelos corpos no jardim – Nesse dia tão especial, estávamos esperando o toque da campainha. Fiquei esperando pra "recepcioná-los".
Miroku arqueou as sobrancelhas. Aquele homem agora era aliado da família Shiroi? Mas ele sempre foi tão neutro, por que só agora vai tomar um lado da batalha que nem era dele?
-Eu sei o que está pensando... – ele parou no meio do jardim, assim como Sango fizera – Eu sempre fiquei por cima do muro, não gosto muito de confusão... Mas eu tenho motivos pra entrar na briga... e ganhar.
O Akai estreitou os olhos.
-Você chama isso de "recepção", Takeda? – ele perguntou, ficando frente a frente. Era óbvio que a luta seria entre os dois.
Kouga, Ginta e Hakkaku estavam na porta da mansão. Sango já havia sumido lá dentro e não tinham ideia se as coisas estariam complicadas para ela.
-Pode ir, Kouga. – Miroku avisou, avistando o rapaz por cima do ombro – Eu tenho que ter uma conversinha com esse cara.
-Sango já está lá dentro. Vamos atrás dela.
Miroku fez uma pausa antes de comentar:
-Acho melhor ir atrás do que Sesshoumaru falou. Sangozinha tem outros assuntos pra resolver.
Um sorriso apareceu nos lábios de Kouga.
-Se realmente não vai precisar de ajuda... – ele deu as costas e escondeu, desta forma, o sorriso maligno das vistas de Miroku – Divirta-se. Vou dar um passeio pela casa.
E, junto com os comparsas, deixou Miroku para trás, adentrando na casa numa corrida. Passou pela sala, pelos corredores e alcançou uma escada que – sim – era a que o levaria aos outros andares.
Entretanto, parou ao passar por uma porta entreaberta. Ginta e Hakkaku esbarraram nele, já que foi tão súbito que...
-O que é isso? – Kouga perguntou num sussurro assustado.
Naquela sala, que parecia levar a uma sala de treinamento, Sango liderava um exército contra um homem. Ele estava tranquilamente sentado em posição de lótus quase perto da parede – onde tinha ao alcance todo tipo de arma para atacar a mulher em pé na frente dele.
E Kouga sabia quem ele era. Mas nunca imaginaria que era atrás dele que Sango estava há pelo menos três anos. O cabelo, o sorriso zombeteiro, a pose confiante... Foi isso que chamara a atenção de muitos líderes da Yakuza, que ofereciam milhões para que aquele homem, que tinha sido também mestre dele, treinasse uma guarda pessoal.
-Kagewaki... – murmurou um pouco assustado.
-Bem-vinda, menininha. – o homem saudou Sango – Estou esperando você aqui há muito, muito tempo...
Próximo capítulo:
"-Mas é claro que lembro de você, pequena."
"-Isso não é hora de poesia!"
"-Eu não sou canhoto!"
Capítulo 21: Exército dos Exterminadores.
