DOZE
Ao pó
No capítulo anterior...
– Descanse um pouco, Bella – disse seu pai, se debruçando para beijá-la na testa. – Teve uma noite longa.
– Mas...
Ela estava exausta. Mal fechou os olhos e, quando os reabriu, seus pais já estavam acenando da porta.
Tirou uma carnuda flor branca do vaso e a levou lentamente até o rosto, admirando as folhas profundamente lobulosas e as pétalas frágeis, ainda úmidas com gotas de néctar no interior. Ela inspirou o cheiro suave e picante da flor.
Ela tentou imaginar como as flores deviam ficar nas mãos de Edward. Tentou imaginar onde ele as arranjara, e no que estava pensando.
Era uma escolha tão inusitada para flores. Peônias não cresciam nas terras úmidas da Geórgia. Não aguentavam nem o solo do jardim de sei pai em Thunderbolt. E, além disso, essas nem pareciam as peônias que Bella já vira antes. As flores eram grandes como mãos em concha, e o cheiro a fazia se lembrar de alguma coisa que ela não conseguia identificar.
Sinto muito, Edward tinha dito. Bella só não conseguia entender porquê.
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No anoitecer nublado que cobria o cemitério, um vulto circulava. Dois dias haviam se passado desde a morte de Eric e Bella não tinha conseguido comer nem dormir. Ela estava de pé,usando um vestido preto sem mangas no centro do cemitério, onde os alunos e funcionários da Sword & Cross haviam se reunido para prestar as últimas homenagens a Eric. Como se uma cerimônia de uma hora e sem o menor sofrimento fosse o suficiente. Isso, somado ao fato de que a única capela da escola tinha sido transformada num ginásio com piscina, fez com que a cerimônia tivesse que ser feita no sombrio terreno pantanoso do cemitério.
Desde o acidente, as aulas estavam suspensas, e os funcionários tinham sido a perfeita definição de descrição. Bella tinha passado os últimos dois dias evitando os olhares dos outros alunos, que, sem exceção, a fitavam com diferentes níveis de suspeita. Os que ela não conhecia muito bem pareciam olhá-la até com uma pequena dose de medo. Outros, como Laurent e Jessica, a olhavam de soslaio, como se houvesse alguma coisa misteriosamente sombria no fato de ela ter sobrevivido. Bella suportava os olhares curiosos o melhor que conseguia durante as aulas e ficava feliz quando Ang passava em seu quarto à noite para levar uma xícara de chá de gengibre, ou quando Alice enfiava um bilhetinho malicioso por baixo de sua porta.
Ela estava desesperada para encontrar alguma coisa que tirasse da sua cabeça aquela sensação incomoda, de que outra coisa ruim viria em seguida. Porque ela sabia que estava a caminho: uma segunda visita, ou da polícia, ou das sombras – ou ambas.
Naquela manhã, o auto-falante da escola tinha informado a todos que a Social daquela noite seria cancelada em respeito ao falecimento de Eric, e que as aulas terminariam uma hora antes para que os alunos tivessem tempo de se trocar e chegar ao cemitério às 16h. Como se a escola inteira já não ficasse vestida para um velório o tempo todo.
Bella nunca tinha visto tantas pessoas reunidas no mesmo lugar do campus. Randy estava parada no meio do grupo numa saia cinza na altura das canelas e sapatos pretos de solas grossas de borracha. A Srta. Victoria, de olhos marejados, e o Sr. Cole, que segurava um lencinho, estavam atrás dela em roupas de luto. A Srta. Tross e a treinadora Dante estavam num grupo com outros funcionários da escola e administradores, todos de preto, que Bella nunca tinha visto.
Os alunos estavam sentados por ordem alfabética. Na frente, Bella podia ver Brad, o garoto que ganhara a corrida de natação semana passada, assoando o nariz num lenço sujo. Bella estava na terra de ninguém que eram os sobrenomes começados por S, mas podia ver Edward, para sua irritação, colocado na fila C bem ao lado de Rosalie, separados por um corredor estreito. Ele estava impecável num blazer preto de risca de giz, mas a cabeça parecia estar mais baixa que a de todos à sua volta. Mesmo de costas, Edward conseguia parecer devastadoramente sério.
Bella pensou nas peônias brancas que ele lhe dera. Randy não a deixara levar o vaso ao sair da enfermaria, então Bella levou somente as flores até seu quarto e foi bem criativa, cortando a parte de cima de uma garrafa de água mineral com uma tesoura de manicure.
As flores eram perfumadas e calmantes, mas a mensagem que transmitiam era confusa. Geralmente quando um cara lhe dá flores não é necessário duvidar de seus sentimentos. Mas, com Edward, esse tipo de presunção era sempre uma má ideia. Era bem menos arriscado presumir que ele levara as flores porque é o que se faz quando alguém sofre algum acidente.
Mas, ainda assim: ele tinha lhe dado flores! Se ela se inclinasse para a gente agora e olhasse para o auto, em direção aos dormitórios, atrás das barras de metal na terceira janela à esquerda, quase conseguia vê-las.
–"Do suor do seu rosto comerás o teu pão" – um pastor pago por hora gorjeou na frente da multidão. – Até que tornes à terra, porque dela foste tomado; portanto és pó, e ao pó tornarás".
Ele era um homem magro de cerca de 70 anos, perdido dentro de um grande terno preto. Os tênis gastos estavam com os cadarços esfarrapados e seu rosto era enrugado e queimado de sol. Ela falava num microfone ligado a uma velha caixa de som de plástico que parecia ter vindo dos anos de 1980. O som que emitia era distorcido e cheio de estática, e mal chegava até os que estavam nos fundos da multidão.
Tudo naquela cerimônia era inadequado e completamente errado.
Ninguém estava mostrando respeito a Eric por estar ali. O serviço fúnebre inteiro mais parecia um a tentativa de ensinar aos alunos como a vida podia ser injusta.O fato de o corpo de Eric não estar presente dizia muita coisa sobre a relação da escola com o rapaz – ou a completa falta dela. Nenhum deles o conhecia; ninguém nunca conheceria. Havia algo de falso em estar presente ali, o que só piorava com as poucas pessoas que estavam chorando. Tudo aquilo fez Bella sentir que Eric era um estranho para ela mais do que ele havia sido na verdade.
Deixem Eric descansar em paz. Deixem quem continua aqui apenas seguir em frente.
Uma coruja piou em um galho alto do carvalho acima de suas cabeças. Bella sabia que havia um ninho por perto, com um grupo de filhotinhos de coruja. Ela ouvira o canto da mãe todas as noites naquela semana, seguido pelo bater das asas frenético do pai voltando de sua caçada noturna.
E então acabou. Bella se levantou de sua cadeira, sentindo-se fraca com a injustiça daquilo tudo, Eric era tão inocente quanto ela era culpada, apesar de ela não saber de quê.
Enquanto seguia os outros numa fila única até a recepção, alguém abraçou sua cintura e a puxou para trás.
Edward?
Mas não, era Jacob.
Seus olhos pretos procuraram os dela e pareceram perceber seu desapontamento, o que apenas fez Bella se sentir ainda pior. Ela mordeu o lábio para evitar cair no choro. Ver Jacob não devia fazê-la ter vontade de chorar – mas estava simplesmente tão exausta emocionalmente, à beira de um colapso. Mordeu o lábio com tanta força que sentiu o gosto de sangue, então limpou a boca com a mão.
– Ei – disse Jacob, afagando seu cabelo. Ela se retraiu; ainda tinha um galo na cabeça de quando caíra. – quer ir a algum lugar e conversar?
Eles estavam andando junto com os outros pela grama em direção à recepção, embaixo da sombra de um dos carvalhos. Um grupo de cadeiras tinha sido armado, praticamente uma em cima da outra. Em uma mesa de dobrar ali perto havia pilhas de biscoitos parecendo amolecidos, tirados de caixas variadas, mas ainda dentro dos plásticos internos. Uma tigela barata de plástico estava cheia de ponche vermelho e xaroposo, o que tinha atraído várias moscas, como um cadáver. Era uma recepção tão patética que poucos dos alunos sequer se deram ao trabalho de comparecer. Bella viu Ang num conjunto de saia preta, cumprimentado o pastor. Edward estava olhando ao longe, sussurrando alguma coisa para Rose.
Quando Bella se voltou, Jacob pousou o dedo levemente pela clavícula dela, então pararam na base de seu pescoço. Ela inspirou e sentiu sua pele se arrepiando.
– Se não gostou do colar – disse ele, inclinando-se – posso compara outra coisa.
Seus lábios estavam tão perto de tocar o pescoço dela que Bella apertou os ombros dele com uma das mãos e deu um passo para trás.
– Eu gostei – respondeu, pensando na caixa que estava em cima de sua escrivaninha. Acabara ao lado das flores de Edward, e passara metade da noite anterior olhando de um presente para outro, pesando as intenções de cada um. Jacob era tão mais transparente, fácil de entender. Como se ele fosse álgebra e Edward fosse cálculo. E ela sempre preferira cálculo, mesmo que às vezes demorasse uma hora para resolver uma única questão. – Achei o colar lindo. Só não tive oportunidade de usar ainda.
– Sinto muito – disse ele, franzindo os lábios. – Não devia pressionar você.
O cabelo escuro de Jacob estava penteado para trás e mostrava mais seu rosto do que normalmente. Aquele penteado o deixava mais velho, mais maduro. E o jeito como ele a olhava era tão intenso, seus grandes olhos pretos explorando-a, como se aprovassem tudo que ela tinha por dentro.
– A Srta. Victoria não parou de dizer que devíamos dar espaço para você nesses últimos dias. Sei que ela está certa, você passou por tanta coisa... Mas queria que soubesse o quanto pensei em você. O tempo todo. Queria vê-la.
Ele acariciou sua bochecha com as costas da mão e Bella sentiu lágrimas se acumulando. Passara mesmo por muita coisa, e sentia-se terrível por estar ali, prestes a chorar, não por causa de Eric – cuja morte importava, e devia importar mais –, mas por motivos egoístas. Porque os últimos dois dias trouxeram de volta do passado tanta dor por Trevor e por sua antiga vida, antes da Sword & Cross, coisas com as quais ela não queria lidar e nunca poderia explicar a ninguém. Eram mais sombras para afastar.
Era como se Jacob sentisse isso, pelo menos em parte, porque a segurou nos braços, apertou sua cabeça contra o peito forte e largo, e a ninou de um lado para o outro.
– Está tudo bem – disse. – Vai ficar tudo bem.
E talvez Bella não precisasse explicar nada a ele. Parecia que, quanto mais perturbada se sentia por dentro, mais presente Jacob se tornava. E se fosse simplesmente o bastante ficar nos braços de alguém que se importava com ela, deixar esse simples carinho a estabilizar por um tempo?
Aquele abraço ara tão bom.
Bella não sabia como se afastar de Jacob. Ele sempre fora tão gentil, e ela gostava dele, mas, no entanto, por razões que a faziam se sentir culpada, ele meio que estava começando a irritá-la. Ele era tão perfeito, tão prestativo, e era exatamente daquilo que ela precisava no momento. Mas... ele não era Edward.
Um cupcake branco apareceu por cima de seu ombro. Ela reconheceu as unhas benfeitas segurando-o.
– Tem ponche ali, e alguém precisa tomá-lo – disse Rose, entregando um cupcake a Jacob também. Ele olhou feio para a cobertura de glacê. – Tudo bem? – Rose perguntou a Bella.
Bella assentiu. Pela primeira vez, Rose aparecera exatamente quando Bella queria ser salva. Trocaram sorrisos e Bella ergueu seu cupcake em agradecimento, dando uma pequena mordida no doce.
– Ponche seria ótimo – Jacob falou entredentes. – Por que não vai buscar dois copos para a gente, Rose?
Rose revirou os olhos para Bella.
– Você faz um favor a um homem e ele começa a tratar você como escrava.
Bella riu. Jacob estava meio abusado, mas era óbvio para Bella o que ele estava tentando fazer.
– Eu vou buscar a bebida – disse Bella, querendo respirar um pouco. Ela foi até a mesa com a tigela de ponche. Estava afastando uma mosca da superfície da bebida quando alguém cochichou no seu ouvido.
– Quer dar o fora daqui?
Bella se virou, pronta para inventar alguma desculpa para Jacob dizendo que não, ela não podia dar o fora – não agora, e não com ele. Mas não era Jacob que tinha estendido a mão e tocado seu pulso com o polegar.
Era Edward.
Ela derreteu um pouco. Em dez minutos teria a chance da semana de falar no telefone e ele queria desesperadamente escutar a voz de Callie ou de seus pais. Falar sobre alguma coisa que estava acontecendo do lado de fora daquelas grades de ferro, outra coisa que não fosse a tristeza de seus dois últimos dias.
Mas sair dali? Com Edward? Ela se viu concordando.
Jacob ia odiá-la se a visse indo embora, e ele com certeza veria. Estava observando-a. Bella quase podia sentir seus olhos pretos atrás de sua cabeça. Mas é claro que ela precisava ir. Colocou a sua mão dentro da de Edward.
– Por favor.
Todas as outras vezes em que haviam se tocado, tinha sido ou por acidente, ou um deles tinha se afastado – geralmente Edward – antes que o choque quente de Bella sempre sentia pudesse evoluir para um calor crescente. Dessa vez, Bella olhou para a mão de Edward, segurando a dela com ansiedade, e todo o seu corpo quis mais. Mais do calor, mais do formigamento, mais de Edward. Era quase – mas não exatamente – tão bom quanto ela sentira no sonho. Ela mal podia sentir seus pés se movendo, apenas a intensidade do toque dele tomando conta.
Era como se ela tivesse apenas piscado, e eles já tinha chegado aos portões do cemitério. Além deles, bem longe, o resto da cerimônia saía do foco enquanto os dois deixavam tudo para trás.
Edward parou subitamente e, sem avisar, largou sua mão. Ela estremeceu, com frio novamente.
– Você e Jacob – disse ele, deixando as palavras suspensas no ar como uma pergunta. – Vocês passam muito tempo juntos?
– Parece que não gosta muito da ideia – respondeu ela, se sentindo instantaneamente boba por dar uma de coquete. Ela só queria provocá-lo por ter soado ciumento, mas seu rosto e tom de voz eram sérios.
– Ele não... – Edward começou a dizer. Observou um falcão de rabo vermelho pousando num carvalho, acima de suas cabeças. Ele não é bom o bastante para você.
Bella já tinha escutado aquela mesma frase mil vezes. Era o que todos diziam. Não é bom o bastante. Mas quando as palavras saíram da boca de Edward, pareceram importantes, até de alguma maneira verdadeiras e relevantes, e não vagas e sem consideração como aquela frase sempre soara aos seus ouvidos no passado.
– Bem, então – perguntou em voz baixa –, quem é?
Edward pôs as mãos nos quadris e riu sozinho por um tempo.
– Eu não sei – disse finalmente. – É uma excelente pergunta.
Não exatamente a resposta que Bella estava esperando.
– Não é tão difícil assim – falou, enfiando as mãos nos bolsos porque tinha vontade de tocá-lo.– Ser bom o bastante para mim.
Os olhos de Edward pareciam estar escurecendo, todo a violeta que havia neles um momento antes transformando-se num cinza escuro e profundo.
– É – disse ele. – É, sim.
Ele esfregou a testa e, quando o fez, seu cabelo foi para trás por apenas um segundo. Tempo o suficiente. Bella viu o machucado em sua testa. Estava cicatrizando, mas Bella podia perceber que era recente.
– O que aconteceu com sua testa? – ela perguntou, estendendo a mão em sua direção.
– Não sei – vociferou ele, afastando a mão com tanta força que ela tropeçou para trás. – Não sei de onde veio.
Ele parecia mais incomodado com aquilo do que Bella, o que a surpreendeu. Era apenas um pequeno arranhão.
Ouviram passos no cascalho atrás deles. Os dois se viraram para olhar.
Ai, como o Edward é lindo e misterioso! Adoro isso!
Gente estou com um pouquinho sem tempo então, espero que tenham gostado do capitulo.
Muito obrigada pelas reviews e não se esqueçam de comentar.
Beijinhos.
