_ Pronta para sua primeira missão, Rosenberg?
Estava distraída com a paisagem exuberante de Naboo, que ficava ainda melhor do alto de uma das torres do palácio real, quando Richard Wilkins chamou minha atenção.
_ Mais do que pronta – disse – mal posso esperar para cortar algumas cabeças.
_ Calminha aí garota – Wilkins foi até a bancada e se debruçou levemente sobre ela – não é que não aprecie a sua sede de sangue, mas as coisas não são bem assim.
_ O que não é bem assim?
_ Talvez o seu pensamento jedi de "preto no branco" e "nós contra eles" ainda esteja forte. Até entendo, considerando que você é nova aqui.
_ E não é o que um sith faz?
_ Olha garotinha, vou dizer isso uma única vez. Se for esperta, vai guardar esse ensinamento. Ser um sith não se trata apenas de querer poder e lutar contra jedis. Se você for por esse caminho, se tornará um outro Gunn, Warren ou Amy... meros assassinos sem muito cérebro que são apenas convenientes. Fazem o trabalho sujo a troco de um agrado. Um sith é muito mais que isso. Ele vê o mundo como um jogo de xadrez. Ele joga com as peças que tem, as posiciona com sabedoria, negocia, tenta antecipar o próximo passo do adversário, até cercar o rei e aplicar xeque-mate. Usar a Força não se resume apenas em manipular um sabre de luz ou soltar raios pelas mãos. Não minha querida. O bom uso da Força vem junto com um vasto conhecimento. Para saber curar com ela, é preciso estudar medicina. Se quer ser um bom espadachim, pratique, mas também pesquise sobre técnicas e sobre os grandes lutadores nos arquivos. Se quer se tornar um mestre... aprenda xadrez – então ele sorriu – hoje você é um mero peão, Willow Rosenberg, a peça que é sacrificada para abrir caminho para as mais fortes. Eu sou um bispo. Mestre Rack é o rei e quem maneja as pedras. Lembre-se disso, se um peão chegar até o outro lado do tabuleiro, ele se torna uma rainha.
_ Entendi.
_ Será?
_ Não sou estúpida.
_ Então prove – ele sorriu – venha peão, temos um trabalho a fazer.
...
Dawn passou apenas oito dias em Concord Dawn e depois voltou para Corellia, onde se dedicaria mais a acompanhar as atividades diplomáticas junto com mestre Skywalker. Na semana seguinte fomos a tal reunião de paz com o Lorde Rack onde ele propôs devolver gradualmente metade dos territórios que conquistou na Aliança caso eu e Buffy nos entregássemos. O acordo foi que nós nos estregaríamos em alguns meses, mas enquanto isso as tropas deles deveriam desocupar alguns dos territórios como prova de boa vontade. Por incrível que pareça, ele concordou. Buffy e eu ainda passamos mais dois meses no planeta e até pensamos que talvez ali pudesse ser o nosso novo lar. Foi a primeira vez que vi Buffy pensando em fixar residência, casar, ter uma vida diferente daquela do Templo, onde parece que é preciso pisar em ovos o tempo todo. Eu também gostaria de algo assim caseiro e bucólico. Uma pena que nada disso seria possível nem para mim ou para Buffy já que teoricamente teríamos de nos entregar a Rack, afinal, ele estava cumprindo o trato e já tinha retirado suas tropas de seis sistemas.
Um dia recebemos o notificado da Aliança dizendo que teríamos de nos apresentar em Corellia imediatamente para que a "troca" pudesse ser feita. Mas a Ordem não acatou conseguiu adiar o nosso retorno a Corellia com a argumentação de que a entrega de membros ia contra toda a filosofia de liberdade e compaixão que defendiam. É claro que o debate logo se espalhou e chegou a Concord Dawn. Mas aqui, até pela proximidade dos operários, a opinião geral era que nós devessemos ficar fora dessas questões. Riley foi um dos nossos maiores apoiadores e disse que ele preferia declarar guerra a condicionar a paz com a entrega minha, de Buffy e também de Dawn ao Imperador de Naboo. Enquanto discutiam políticas, procurei continuar o meu trabalho de rotina. Se fosse parar para pensar, seria capaz de cometer um ato irracional ou precipitado.
Numa tarde, estava no alto de uma torre junto com alguns operários e engenheiros para consertar o guindaste que havia enguiçado por causa do uso contínuo. Até então estava bem, sem fome ou sede. Buffy e eu tínhamos passado a manhã inteira buscando nos aprimorar. Na noite anterior, havia dormido com Riley, o que era uma boa coisa uma vez que o sexo não era freqüente entre nós. Ou seja, minha mente estava em paz e meu corpo relaxado. Foi quando senti uma forte pressão nas têmporas, algo que fazia tempos que não ocorria. Era como o meu corpo reagia quando havia um distúrbio na Força e, uma vez que passei tanto tempo em desequilíbrio, havia esquecido como era. Por um instante fiquei tonta e me desequilibrei na torre. Teria caído se não estivesse presa aos cabos de segurança obrigatórios.
_ Rosenberg! – ouvi o grito de um dos engenheiros – está tudo bem?
_ Estou – gritei de volta. Me balancei para fazer um pêndulo natural a fim de me agarrar de novo na estrutura metálica. Depois desci e peguei o meu comunicador – Mestre Summers Rosenberg? Buffy?
_ O que foi Willow? – disse através do comunicador.
_ Você por um acaso sentiu...
_ Um distúrbio na Força? – completou minha frase – Sim, e dos grandes.
_ O que acha que pode ter acontecido?
_ Não sei, Will. Vou entrar em contato com Corellia agora. Mas gostaria que você chamasse com Spike nas docas e me encontrasse depois no prédio da Aliança. Ele está sem comunicador e temo que vamos precisar partir.
Era o que temia. Em parte porque deixar Concord Dawn significava voltar ao caldeirão de problemas. Parte porque não queria deixar Riley e nem uma vida que apesar de muito trabalhosa, era boa. Peguei um speeder bike e fui até as docas numa viajem que durou menos de cinco minutos. Encontrei Spike fumando e jogando um carteado no cais junto com alguns mercadores, provavelmente alguma aposta estava em andamento.
_ Hey, Red – ele deu uma tragada – o que te traz aqui?
_ Buffy disse que é provável que tenhamos de partir hoje.
_ Tem certeza?
_ Nós duas sentimos um forte distúrbio na Força...
_ As duas?
_ É!
_ Para você ter sentido, é porque deve ser sério mesmo – ele jogou o cigarro pela metade no rio e se levantou na mesa improvisada de madeira – vamos lá, Red – e por um breve momento se voltou para os mercadores – tiveram sorte dessa vez. Na próxima, farei uma limpa para compensar!
Pegou a sua própria speeder bike e me seguiu até o centro da cidade em reconstrução. Chegamos ao edifício da Aliança já com esperança de que Buffy nos desse alguma posição. A encontramos junto com dois generais apressados a caminho de uma reunião de emergência.
_ Mestre? – gritei do final do corredor e corri para alcança-la – O que houve?
_ A trégua foi rompida – disse simplesmente – prepare para partir – puxou Spike pelo braço e entrou na sala reservada. Fechou a porta, me privando de escutar qualquer coisa. Entendia porque Spike participou da conversa sigilosa. Ele era, afinal de contas, o representante de maior expressão da BARD. Mas e quanto a mim? Eram essas privações que me matava. Teria resmungado mais a minha exclusão se não estivesse tão preocupada. Sem mais o que fazer, saí do edifício e me deparei com um Riley preocupado que acabara de chegar no local.
_ Hey – me deu um beijo rápido nos lábios – sabe me dizer porque os generais ficaram tão agitados de repente?
_ Parece que a trégua acabou. Minha irmã, Spike e os generais estão trancados lá dentro numa reunião de emergência.
_ Acha que nos devemos preparar para o pior?
_ É provável – suspirei – acho que vamos partir hoje.
_ Hoje? – uma sutil onda de pânico tomou conta do rosto de Riley – Já? Posso ir junto?
_ Eu não sei – passei a mão em seu rosto e o beijei de leve – acho que não...
_ Mas e nós?
_ Nós ficaremos bem – disse com firmeza.
