Flores Escuras

Autoria: Niphrehdil

Publicada originalmente em:

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Tradução autorizada: Inna Puchkin Ievitich


Capítulo 20

Assim que Erik pisou no corredor, correu em direção à escada e arrancou tudo que era feito de metal a sua passagem, fazendo-os flutuar atrás de si.

- Mystique! – Erik gritou, porque não tinha tempo para jogos. Ele desacelerou a marcha um pouco e, em seguida, subiu as escadas, checando o espaço em seu entorno. – Eu sei que você não teve escolha. Mas se você quer lutar, luta terá.

Seus passos ecoavam pelas paredes.

- Vamos, não me deixe esperando.

Não houve resposta. Erik checou os arredores com cuidado e também levou um momento ouvindo o link, mas nada havia se alterado com Charles.

Todos os sentidos de Erik estavam ligados ao máximo e seu coração batia rápido, bombeando adrenalina.

Erik e seu pequeno exército de peças metálicas chegaram ao final das escadas e ele olhou em volta cautelosamente, plantando seus pés firmemente no chão de madeira. Ele examinou as sombras e a mobília. Seu corpo inteiro antecipava a luta, e ele ansiava para entrar em ação.

Erik deu mais alguns passos cuidadosos. Ele estava dolorosamente ciente do fato de que Raven conhecia a mansão melhor que ele – ela havia morado lá com Charles quando crianças. Erik também tinha visto a partir das memórias de Charles. Assim, ela poderia estar em qualquer lugar e parecer com qualquer um - ou, provavelmente com qualquer coisa, se ela quisesse camuflar-se no cenário. Mas Erik tinha uma vantagem - ele sabia, sem sombra de dúvida, que se Raven quisesse ir lá embaixo ela teria que usar as escadas, porque descer levava mais tempo que saltar. E Erik assumiu que era para onde ela estava indo.

Então Erik esperou. Subitamente, a mansão parecia um lugar pouco convidativo e sufocante, como se fosse assombrada.

Segundos se arrastaram.

A respiração de Erik era rápida e superficial.

Ele projetou uma fração de seu poder, tentando sentir e encontrar quaisquer indícios de uma arma em algum lugar. Para sua irritação, Erik não conseguiu rastrear nada, mas, uma vez mais, ele sabia que a Chimera usava armas de plástico com um propósito. Como uma saudação pessoal ao grande Magneto, que deixara a sua sede esmagada como um castelo de cartas e quase os destruíra.

Eles não estavam arriscando. Erik teria se sentido honrado se a situação não fosse tão perigosa e se ele não estivesse em menor número.

E, infelizmente, Erik não se sentia muito parecido com Magneto. Ele não tinha a sua Fraternidade apoiando-o e estava só. Também não conseguia mais ser descuidado e insensível, lutando mecanicamente como costumava fazer, porque agora ele tinha alguém a quem tentava proteger além de si mesmo. Ser egoísta era fácil. Ser descuidadamente cruel era como um instinto. Mas tentar proteger alguém era algo que Erik não tinha feito em anos. Claro que ele defendeu seu próprio grupo quando necessário, mas ele não pensaria duas vezes em deixá-los morrer se a situação o exigisse.

Contudo, mesmo agora quando Erik não se sentia tão calmo e forte como suponha que Magneto estaria, um lobo ainda dormia nele e ele estava pronto para rasgar gargantas se preciso. Ele desafiava qualquer um a tentar pô-lo à prova.

Os longos segundos tiquetaqueando pareceriam durar uma eternidade.

Tique, taque, tique, taque.

Erik olhou em volta, frustrado, as mãos tremendo ligeiramente.

- Raven, eu sei que você não quer realmente matar a mim ou Charles. A Chimera está obrigando-a a fazer isso. - Erik gritou, porque não podia suportar o silêncio. Ele não obteve resposta.

Talvez ele pudesse atraí-la.

- É como em Paris novamente, não é? – Erik disse, diversão sombria escorrendo em seu tom de voz. – Mas agora você está tentando assassinar seu próprio irmão, e não Trask.

Erik cerrou os dentes.

- E isso não vai acontecer. Você nunca terá sucesso. Não importa quais pensamentos eles colocaram na sua cabeça.

O completo silêncio estava se tornando sinistro, e Erik sentia-se cada vez mais nervoso.

- Não seja estúpida, Mystique! Se você quer chegar em Charles, você tem que passar por mim primeiro. Não adie o inevitável.

O coração de Erik batia forte contra sua caixa torácica, o metal ao seu redor tinindo como uma canção de guerra silente.

Então, subitamente, ele ouviu um suave som repicando as suas costas e girou nos calcanhares como um trovão, apenas para que seus joelhos fossem brutalmente chutados antes que ele pudesse reagir com suficiente rapidez. Então, tudo culminou em violência.

Erik gritou e perdeu o equilíbrio, caindo ao chão, e viu um flash rodopiante azul sobre si. Erik mordeu o lábio e atraiu para si os objetos metálicos mais próximos com um hábil puxão. Só no último segundo, ele lembrou de sua promessa a Charles, então escolheu uma das peças de tubulação mais simples e atirou na direção de Raven. Erik pode detectar, para sua surpresa, o vislumbre de um capacete de aparência estranha sobre a cabeça dela.

Para seu horror, ele rapidamente percebeu que parecia uma vaga réplica de seu próprio capacete, o qual fora obtido de Shaw.

Uma lembrança lampejou na memória de Erik - ele havia se desfeito de seu capacete logo após ter resgatado Charles dos laboratórios. Ele tinha certeza de que o deixou do lado de fora da sede da Chimera, e podia lembrar-se vividamente de como tinha jogado o capacete contra o concreto, abandonando-o na pressa em meio ao caos.

Ele havia deixado seu capacete para Chimera.

Ele o havia deixado para eles, como em uma bandeja de prata, para ser usado e transformado em réplicas.

Erik amaldiçoou-se efusivamente, porque ele não era estúpido: não custou muito perceber que a Chimera conseguira fazer réplicas do capacete de Shaw, utilizando-as como armas. Réplicas que foram usadas para controlar mutantes inocentes para se confrontarem entre si. Réplicas que faziam lavagem cerebral em pessoas.

E um deles estava na cabeça de Raven.

Mas Erik não tinha tempo para continuar essa linha de pensamento, quando Raven gritou de dor após o tubo atingi-la e saltou à distância. Suas acrobacias eram tão impressionantes como sempre, mas Erik realmente não poderia apreciá-las nesse momento. Raven afastou-se do tubo, e Erik jogou todos os tipos de outros objetos contra ela. Mais uma vez, ela se esquivou de todos eles de forma eficaz, e seus olhos amarelos brilharam no turbilhão de um movimento.

Ela desferiu um chute forte no ombro de Erik, e se tivesse sido um pouco mais forte ela poderia ter realmente deslocado o braço inteiro. Erik mordeu o lábio quando Raven tentou estrangulá-lo, mas pegou um dos tubos no ar, agarrou-o com um punho de aço e, em seguida, o levitou em direção ao teto e ele elevou-se no ar. Raven perdeu o controle e caiu, para então girar e pegar uma arma de algum lugar, apontando-a para Erik. Imediatamente, Erik soltou a tubulação, lançando-a na direção dela bem a tempo, uma vez que a arma disparou mas a bala errou o alvo, atingindo uma parede distante.

Erik ?, veio a pergunta assustada de Charles.

Erik apenas enviou uma vaga sensação de afirmação, sem tempo de fazer nada exceto deixar que Charles soubesse que ele ainda estava vivo. Ele caiu pesadamente sobre Raven e a cabeça dela colidiu com o chão, para satisfação dele. Infelizmente, o capacete absorveu a maior parte do impacto, por isso não a nocauteou. Porém, Erik tinha a vantagem agora e imediatamente a utilizou em seu favor. Mais uma vez, ele pegou o tubo e empurrou-o, comprimindo Raven no chão, estrangulando-a no processo.

Raven engasgou e tentou se contorcer sob Erik, mas o magnetismo do tubo pressionou-a tão fortemente que a dor a fez parar. Erik tinha um de seus joelhos cravado em seu peito, aumentando a pressão tanto quanto podia.

Erik imantou outro pedaço da encanação e este voou direto para suas mãos. Ele não tinha arrependimentos, sem hesitações pretendia derrota-la rapidamente, cirurgicamente. O braço de Erik tomou velocidade e ele já estava pronto para desferir o golpe. Porém, repentinamente, Raven metamorfoseou-se – e pegou Erik totalmente desprevenido quando adquiriu a exata forma de Charles. Por um segundo fatal, Erik congelou completamente, com os olhos de Charles fixos nele lançando um olhar magoado – mas antes que Erik pudesse ignorar a ilusão e o bem sucedido jogo mental de Raven, superando o impacto por ele produzido, Raven conseguiu erguer a perna e chuta-lo violentamente nos rins, fazendo-o gritar e cair no chão. Raven reassumiu sua cor azul e desferiu outro chute nas costelas de Erik.

Erik gritou, sentindo uma ou duas de suas costelas racharem e, por um momento, a dor era tão forte que ele não podia se mover. Ele ficou lá, atordoado, arremessando metais às cegas na direção dela.

Raven, porém, desviou de tudo e soltou um assobio alto – como algum tipo de sinal. Erik piscou e olhou para cima, vendo como repentinamente um grupo de pessoas vestidas com os inconfundíveis uniformes da Chimera e capacetes semelhantes ao de Raven surgia, como que teletransportado. Raven apontou o dedo para Erik e ele gritou de dor e frustração. Erik reuniu todo o metal que ainda conseguiu encontrar – tubos de dentro da parede, quadros de pintura, parafusos, pregos – tudo o que havia, arremessando-o contra o grupo. Eles tentaram desvia e tiveram que se espalhar, mas Erik não se preocupou em olhar.

Pelo contrário, ele forçou-se a pôr-se de pé e depois mergulhou na direção da arma branca deitada no chão. No entanto, Raven rapidamente pisou nela, e Erik atraiu mais uma peça de tubo, apontando para a perna dela. Raven não teve tempo de desviar, por isso dessa vez ele acertou o golpe. Erik empurrou o tubo para frente e ele atravessou o tornozelo de Raven, e Erik sentiu um som satisfatório de carne rasgando e nervos danificados. Ele torceu o cano e esperou até ouvir o grito angustiado de Raven, porém esse nunca veio. Em vez disso, ela apenas oscilou sobre os pés, como se fosse cair, mas seu rosto permanecia estranhamente desprovido de emoção, como se ela fosse uma máquina descerebrada, treinada unicamente para matar. Como se não pudesse realmente sentir dor ou não se importasse.

Erik agora tinha certeza, com frio pavor enchendo suas entranhas, que a Chimera estava controlando os mutantes como fazia com Raven, através dos capacetes. Não havia outra explicação para sua completa obediência e luta robótica. Era como se eles não tivessem senso de autopreservação. Erik não precisava saber mais para planejar seu próximo passo - ele tentou instantaneamente tirar o capacete da cabeça de Raven usando seu poder mas, claro, a Chimera tinha sido inteligente o suficiente para fabricar o capacete com materiais completamente distintos do metal. Os poderes de Erik não poderiam causar a menor brisa ou movimento ao capacete. Erik lançou um olhar zangado para Raven, arrancando o tubo da sua perna e batendo com força em seu estômago, esperando que ela caísse e ele pudesse arrancar o capacete com as próprias mãos. Erik calculou mal a velocidade do grupo a sua retaguarda, e de repente sentiu algo duro colidindo na parte de trás da sua cabeça.

Estrelas explodiram em seus olhos e a dor nauseante encheu suas terminações nervosas.

Erik desabou no chão, lutando para não desmaiar, quando sentiu o sangue misturando-se ao cabelo e o metal que estava sob seu controle cair.

Raven se levantou, apoiou-se no corrimão da escada e pegou uma arma. Erik percebeu que se ela quisesse matá-lo agora, provavelmente conseguiria. Levaria apenas uns segundos para apontar a arma e puxar o gatilho.

- Mystique. Raven, não. Você vai se arrepender – Erik gritou com voz rouca, como último recurso mas, para sua surpresa, Raven sequer apontou a arma para ele. Como se, a princípio, não tivesse intenção de matá-lo. Como se ele cruzasse o seu caminho e agora ela tivesse que retira-lo de lá. Raven apenas acenou para os outros, apontando para Erik e virou-se para as escadas.

Foi quando, então, Erik entrou em pânico - ela ia atrás de Charles.

Como se tivesse despertado algum poder desconhecido, Erik urrou de raiva e, de alguma forma, forçou-se a sentar. Erik quebraria o pescoço dela se tentasse machucar Charles, ao inferno com todas as promessas. Se ele tivesse que escolher entre Raven e Charles, não havia escolha a fazer. Muito embora Erik não tivesse nenhuma dúvida sobre isso – Raven não estava agindo em sã consciência, ela estava sob o total controle de alguém. Provavelmente, nem saberia que foi ela. Erik tinha certeza que ela ainda não tinha reconhecido a pessoa com quem lutava.

- Raven! - Erik gritou, mesmo sabendo que era inútil.

Erik concentrou todos os seus poderes nas peças metálicas no seu entorno, elevando-as no ar com raiva e, em seguida, arremessando tudo o mais violentamente que podia, mesmo que se sentisse doente e desorientado pela tensão e esforço. Mas cada peça de metal guiada por Erik perdeu as partes mais cruciais, e foram poucos os que colidiram com as costas dela. Ela engasgou automaticamente, mas só diminuiu a marcha. Mesmo com o tornozelo arruinado, ela prosseguiu. Era como se ela não tivesse qualquer senso de autopreservação ou dor. Como se não se importasse com o tornozelo que arrastava, como se pudesse, mesmo em ruínas, continuar para sempre. A cada passo, o tornozelo fazendo um ruído doentio com o peso colocado sobre ele.

Ela não parou. Ela estava segurando a arma em sua mão esquerda, e ela continuou andando.

Erik tentou reagrupar o metal da escada e repetir o ataque desesperado anterior, mas depois ele também percebeu que estivera tão determinado a impedir Raven que não deu qualquer atenção ao grupo as suas costas, e, como uma resposta irônica aos seus pensamentos, ele sentiu várias mãos agarrando-o. Erik soltou um grito abafado, contorcendo-se e desferindo chutes e socos, porém havia muitas pessoas e seus reflexos eram lentos devido à pancada que havia recebido na cabeça. Seu pescoço estava pegajoso com sangue fresco deslizando.

Erik?, a voz assustada de Charles chegou. Erik, o que está acontecendo?

Erik quase quis gritar de alívio ao ouvir a voz de Charles, mesmo que a situação fosse tão grave.

Ch-Charles ..., ele só conseguiu balbuciar.

Você está ferido, Charles respondeu em um tom preocupado, e seu repentino protecionismo em relação a Erik atingiu-o como um poder de cura dentro da sua cabeça. Estou indo aí.

NÃO. NÃO !, Erik respondeu enquanto ainda lutava com todas as forças que podia. Seus pensamentos estavam em pânico e frenesi ensurdecedores.

Raven... Ela está indo na sua direção. Você tem que fugir. Ela vai matá-lo, Charles. Fuja! FUJA!

Os pensamentos de Charles estavam tão confusos e apressados que Erik não poderia entendê-los, e ele tinha muita distração lutando para libertar-se. Erik não podia arremessar metais contra o grupo sem correr o risco de se machucar no processo, então ele apenas ergueu as peças que conseguia e flutuou-as para perto de si, pronto para atacar a qualquer momento. Erik tentou morder, socar, chutar - qualquer coisa - para se libertar. Mas ele estava em menor número e os mutantes que o seguravam eram fortes e estavam ilesos. Seus frios rostos indiferentes não demonstravam qualquer simpatia ou emoção quando um deles subitamente tirou um capacete de algum lugar e levantou-o.

Era exatamente o mesmo que Raven usava.

O desempenho de Erik decaiu por um momento quando compreendeu o que essas pessoas estavam tentando fazer – colocar um capacete nele também. Para fazê-lo obedecer e tornar-se um solado descerebrado como aqueles. Para servir a Chimera. Para deixar de ser.

Um frio e calculado movimento para transformá-lo em escravo.

Erik sabia que nenhuma mendicidade ou súplica iria ajuda-lo agora, e ele nunca pediria de qualquer maneira, então tentou atacá-los com os metais restantes, porém sem sucesso. Um dos atacantes claramente tinha uma mutação telecinética, então ela simplesmente bloqueava tudo que Erik tentava usar contra eles com o toque de seu pulso, lançando para longe sem causar danos.

Com frustração e puro horror, Erik gritou, querendo desesperadamente se libertar, porém sem conseguir.

Ele não se sentia tão impotente assim há tempos.

Em algum lugar distante, através do link, Erik podia sentir a mente de Charles fracamente reconhecendo Raven. Ela alcançara o quarto em que Charles se escondia. Ele não tinha abandonado Leap. O coração de Erik trovejou em seus ouvidos quando compreendeu o quão ruim a situação era - de como tudo espiralava em uma catástrofe. Erik podia sentir a emoção da dor de Charles vertendo através do link, e como ele ainda tinha tanto amor por Raven apesar de tudo. Nos rápidos segundos, Erik só podia ouvir mudamente o que Charles estava dizendo a Raven.

Raven, por favor. Eu sei que você não está sozinha. Apenas ... espere um minuto. Abaixe a arma. Nós podemos...

Erik viu um flash mental vago de Raven ganhando um pouco de velocidade e desferindo um chute na direção de Charles, em seguida, Erik sentiu o final do link de Charles explodir em dor, e então podia sentir as terminações nervosas dele registrando os danos que ela fizera, disparando dor em todos os lugares. Ela o chutou com toda a sua força. Charles estava claramente tentando chegar até ela, encontrar a mente dela, mas Raven era uma máquina completa, trancada dentro de seu capacete. Erik podia sentir Charles caindo ao chão, a cadeira perdida e inutilmente jogada em algum rincão por Raven, e isso deixou Erik ainda mais horrorizado. Ele provou biles em sua boca. Mas a boca de Charles estava cheia de sangue; Erik poderia senti-lo através de seu link.

Charles estava agora preso ao chão, incapaz de correr ou mesmo ficar de pé. Raven não tinha senso de misericórdia. E mesmo quando ela o tinha preso ao chão, o atacou novamente.

Erik sequer prestou muita atenção aos atacantes da Chimera imobilizando-o, porque ele não podia escapar, não importa quão fortemente tentasse. Ele só podia se contorcer e lançar peças de metal, e chutar, mas o aperto deles se mantinha. E mesmo que ele soubesse que deveria lutar por sua libertação, não conseguia parar de ouvir o link.

Erik sentiu-se impotente quando Raven bateu no rosto de Charles e ele mal revidou. Em vez disso, Charles estava tentando alcançar seu capacete, adivinhando claramente que ele era a fonte do problema, que ele a controlava. Mas do chão era quase impossível para ele alcançá-la, e Erik sentia como Charles não podia usar suas pernas para nada. Se ele tivesse sido capaz de se levantar, então, talvez pudesse. Mas não assim. Ele não tinha qualquer chance de pôr suas mãos no capacete.

Erik sentiu o súbito medo paralisante recair sobre si - de que, depois de tudo, uma bala em Cuba poderia ter selado o destino de Charles.

Mas o pensamento era tão horrível que Erik recusou-se a registrá-lo, ele simplesmente se recusou, e todo o seu corpo gritava por Charles, pungente e temerosamente.

O grupo Chimera que o atacava aparentemente pretendia ligar a fonte de alimentação do capacete que estava destinado a Erik, e ele ainda se debatia embora seus músculos já estivessem queimando devido a tensão.

Através do link, Erik podia sentir à distância como Raven segurava Charles e o colocava em uma posição meio sentada, pressionando-o contra a dura parede. Raven alcançou a arma atrás de si e destravou-a. Charles tentou alcançar seu capacete com um último esforço desesperado, mas ela afastou violentamente as mãos dele.

Raven, por favor, ouça. Você não quer fazer isso. Você ainda pode voltar para casa. Nada disso é o que você realmente quer - sou eu, Charles. Seu irmão, lembra? Nós crescemos aqui, e eu sei que você nunca iria me machucar no seu juízo perfeito. Tudo vai ficar bem, eu prometo.

O que Erik mais queria era que Charles pudesse alcançá-la, que suas palavras pudessem fazê-la hesitar. Ganhar tempo. Ainda que apenas por um instante.

Contudo, em seguida, a próxima sensação a transbordar do final do link de Charles precipitou no caos a rápida espiral de Erik – ele podia sentir a forma que Raven pressionou a arma na cabeça de Charles, o pente logo acima da orelha esquerda.

O coração de Erik saltou, e ele sequer conseguia respirar. Ele reuniu cada pedaço de força que ainda restava para lutar, e sua mente gritava NÃONÃONÃONÃOCHARLESNÃO, sem, no entanto, conseguir se libertar.

Mas então os mutantes Chimera forçaram o capacete em sua cabeça e Erik gritou do topo de seus pulmões, e nada havia que pudesse fazer.

Enquanto o capacete deslizava mais fundo na cabeça, Erik sentiu, de repente, a ligação entre ele e Charles começar a esticar e tremer. Ele só conseguia olhar em choque para o teto, na medida em que o elo se tornava tenso dentro da sua cabeça e muito estirado, a dor fantasma enchendo sua mente. Mas o poder do capacete era imparável. Erik tentou segurar o link com toda a sua energia residual - nem mesmo preocupando-se em combater os mutantes valendo-se dos metais, porque não adiantava – e agarrou-se aos laços mentais telepáticos como fios de vida. Erik procurou todos e cada um deles, fazendo-o com unhas e dentes, concentrando cada célula do cérebro que possuía para segura-los, recusando-se a deixar Charles ir. O metal que Erik havia colocado ao redor dos laços rangeu e dobrou, alongando e enfraquecendo. Erik engasgou, ele gritou, se contorceu, mas o capacete ia mais fundo em sua cabeça e Erik só conseguia sentir pânico fluindo do final do link de Charles.

Eri...

Então...

ESTALO.

ESTALO.

ESTALO.

... cada tentáculo e nó apertado da sua mútua ligação partiram-se ao meio, foram cortados e rasgados impiedosamente, e Erik jamais sentira algo tão devastador em toda sua vida. De repente, sua mente explodiu com ruído branco e fogo, e a presença de Charles afastou-se ainda mais, e as extremidades sangradas do link doíam como membros amputados. Erik perdeu a presença de Charles em sua mente, subitamente tudo desapareceu como num simples clique, deixando um vazio atrás; como se parte do cérebro de Erik fosse cortada pela metade e entalhada em um rápido momento. Era como se houvesse arpões empalando seu cérebro. E Erik podia sentir sua mente chorando por Charles, urrando com o fim da conexão.

Erik nunca tinha sentido uma sensação tão forte de solidão em toda sua vida como a perda do link, a perda da conexão com Charles.

CHARLES. CHARLES!

Erik gritou seu nome, repetidamente, mas não obteve resposta, nem emoções, nada. Não havia nada que ele pudesse alcançar, nada a que agarrar. Erik ainda puxou as extremidades laceradas do link sangrento dentro da sua cabeça e tentou empurrá-las para encontrar seus pares, mas não havia nada. Tudo estava quieto. Não havia Charles.

E enquanto o capacete deslizava, Erik sentia o familiar zumbido, similar ao de Shaw – que estava bloqueando toda possível telepatia, mas também transferindo algo. Ele rapidamente percebeu que estava chegando ao seu cérebro, e que tinha só um pouco mais de tempo antes que se tornasse um dos soldados zumbis.

Erik já podia sentir seu corpo relaxar, sua mente entorpecer, seu próprio eu desvanecer. O capacete estava conectando seu cérebro com algo, ou alguém, desligando tudo que fosse desnecessário.

Ele concentrou-se furiosamente nas terminações nervosas quebradas do link agora perdido, e a dor e sofrimento mantiveram-no consciente por pouco tempo. Assim que relaxou sob o domínio dos mutantes Chimera, eles o soltaram. Erik sabia que tinha apenas milissegundos para agir antes de se perder para sempre. Mas mesmo agora, quando sentiu como se já tivesse em parte se afogado, ele sabia que os mutantes tinham cometido um erro ao libertá-lo. Como último recurso, estendeu a mão para as veias e artérias dentro de seus corpos e encontrou vestígios de ferro nelas. Com um puxão forte, desesperado, Erik atraiu cada partícula de sangue, e os rostos dos mutantes paralisaram em súbita surpresa e reação apática. Eles pairaram no ar por um milésimo de segundo, enquanto o sangue flutuava para fora de sua pele, e, em seguida, todos e cada um deles começaram a desabar no chão, mortos. Seu sangue também caia, o cheiro fraco de ferro.

Foi da máxima sorte de Erik que um dos mutantes caísse em cima dele, fazendo-o, em parte, sobre sua cabeça. O corpo morto atingiu o capacete, removendo-o um pouco, mas deu a Erik uma explosão fraca de energia e vontade própria. Ele não podia retirar o capacete com as mãos, mas conseguiu fazer seu corpo exausto obedecê-lo um pouco e fixou as mãos no chão, arrastando-se pela superfície para longe dele, do capacete.

Então, subitamente, simplesmente, libertou-se.

Erik sentiu seu cérebro instantaneamente retornando a si, seus sentidos e comandos tornando-se seus, mas o link permanecia quebrado. Sangrando. Quieto.

Foi quando, então, ele rapidamente pensou em Charles e, apesar da dor e angústia desgastantes, engasgou e obrigou-se a sentar com uma força inacreditável. Ele estava manchado de sangue e coberto de hematomas, e tinha dificuldade para respirar corretamente devido as suas costelas, mas Erik não se importava.

Transcorreram apenas alguns segundos desde que seu vínculo com Charles quebrara-se, mas parecia como se fosse eterno.

Sua cabeça estava muito silenciosa, e Erik não podia pensar em mais nada além de Charles. Era apenas CharlesCharlesPorFavorEstejaBemMeuDeusRaven.

Erik forçou-se a pôr-se de pé instavelmente, tendo o apoio do corrimão, e deu os dois primeiros passos inseguros, avançando em direção às escadas.

Em parte ele caiu, em parte ele desceu as escadas, e não importava o quanto sentia que ia desmaiar, Erik correu em direção ao quarto onde havia deixado Charles, ainda quando seu equilíbrio falhava e ele quase caíra. Mesmo assim, ele persistiu avançando mais velozmente do que seu corpo lhe permitia. Tentou correr mais rápido que o vento.

Apenas quando faltavam dois metros de distância da porta, Erik ouviu. Ele quase tapou os ouvidos.

Era o som que fez todo o seu mundo desabar.

Era o som de um disparo de bala alto e ensurdecedor - BANG.

Por alguns sádicos segundos, ele ecoou em todos os lugares ao redor.

O coração de Erik parou.

Pânico glacial tomou conta dele enquanto suas pernas tropeçavam, de forma automática, os dois últimos metros até a porta.

Por um momento muito breve, Erik ainda tinha esperança, ainda tinha ao que se agarrar, e havia desejado que tudo fosse verdade. Que ele tinha imaginado, que era apenas sua mente em pânico pregando uma peça. Que o que ele tinha ouvido era uma mentira.

Mas, em seguida, o quarto entrou em seu campo de visão... e algo dentro de Erik morreu.

A parede estava salpicada de vermelho, sangue fresco. Ele começava a deslizar preguiçosamente até o chão, como chuva escarlate.

Os olhos de Erik acabavam de vislumbrar Raven afastando a arma do cabelo de Charles. Algumas mechas tinham ficado presas sob seus dedos, no lugar do gatilho, mas agora caiam de volta à cabeça de Charles. Erik sentiu que o tempo regredia, seguindo a gravidade, levando anos.

Então, Raven afastou seus braços e o corpo inerte de Charles começou a pender molemente. Uma feia marca vermelha foi deixada na parede branca, atrás da sua cabeça, quando ele deslizou. O suave baque do corpo de Charles ao bater no assoalho fez Erik sentir ânsias de vômito. Quando todo o movimento cessou, e o corpo de Charles ainda caia, Erik divisou um flash do seu par de olhos favoritos, agora vazios, olhando fixamente para o nada, sem ver. Em branco. Sem emoção.

Simples assim, eles tinham desvanecido.

Nenhuma resposta foi dada ao pedido horrorizado dentro da mente de Erik, e sua boca abriu-se para gritar do topo de seus pulmões, sem que voz alguma saísse.

Seus pulmões esqueceram-se de como respirar.

E, nesse momento, o mundo inteiro de Erik tornou-se escuro. Seu coração tremeu e oscilou, e rachaduras se espalharam por todo ele como se fosse feito de vidro. Então, ele quebrou em pedaços, todo o seu corpo e mente gritando por Charles, apenas o silêncio confluindo.

Havia apenas silêncio.

Completo, absoluto silêncio.

E quando a agonia começou a jorrar, Erik percebeu que era tarde demais. Este silêncio que se instalara - ele duraria para sempre.