Part XX: Heartburning
Palavra-chave: Silêncio.
A última semana fora tão corrida para ambos que sequer tinham tempo para descansar. E era "descansar" no sentido literal da palavra, já que mal dormiam. Se o faziam, era por algumas horas e não era todos os dias que possuíam esse "luxo". Envolveram-se tanto com as provas das roupas, com o novo trapézio, as entrevistas, os passaportes e as passagens, as malas e todas as decisões para uma viagem de quase uma semana, que mal conseguiram relaxar. Tais decisões eram discutidas entre ambos, mas sempre na presença de um terceiro. Do contrário, depois da noite na praia, mantinham um estranho silêncio mórbido quando se encontravam a sós, o qual só era quebrado com perguntas simples, do tipo "quantas vezes mais saltaremos até o almoço?", e as mesmas eram respondidas de forma curta e rápida.
Apesar das rápidas decisões e da boa preparação, independente do humor de ambos, enquanto Yuri havia conseguido aperfeiçoar todos os seus movimentos, inclusive o de pegá-la no ar, não importava o quanto ela saltava, havia chegado a uma situação em que não aperfeiçoaria mais do que estava, ainda mais porque faltando dois dias para a viagem, acabou travada. Não conseguia mais saltar direito e ele começava a achar que a pressão havia passado dos limites e ela não conseguiria voltar a si. Mas, ao invés de poder ajudá-la e se aproximar, ela resolveu se afastar, por culpa de um pensamento divergente ao dele. Achava que era ele o motivo pelo qual não conseguia saltar e então afastou-se. Foi para casa tentar aperfeiçoar os movimentos e o salto final, mas passou todo o dia e nada de melhoras.
Sabendo onde ela estava e o que fazia, ele a deixou em paz, mas não pôde evitar um sentimento de certa revolta quanto às atitudes dela. Ao mesmo tempo em que não desejava forçá-la, muito menos a falar, queria se manter perto, queria conseguir vencer aquelas barreiras a qualquer custo, já que se não vencesse, o Festival acabaria em um desastre. Ela estava dando o máximo de si, mas se não confiasse nele, não conseguiria aperfeiçoar a técnica. Ele sabia o que faltava, mas ela jamais o escutaria.
Aquele tipo de sentimento foi tomando conta dele nos próximos dois dias, até que o dia da viagem chegou e eles finalmente se reencontraram, mas estava na vez dele de agir estranho. Mal falava. Sequer perguntava para ela as questões mais comuns, as quais, quando aconteciam, ela respondia de forma igualmente curta e fria. Mas ela também não ousava olhá-lo. O clima entre ambos esfriou a ponto de parecerem não se reconhecer como parceiros, mas sim inimigos - ou talvez, nem isso.
Sentados no avião, no entanto, ela resolveu comentar algo que lhe aconteceu no dia anterior; um acidente positivo, que resultou em uma boa idéia e acabou fazendo-a melhorar a própria técnica, mas que não sabia se ele aprovaria. Afinal, haviam treinado tanto tempo de uma única forma, mudar de última hora não parecia boa coisa. Mas ela não podia evitar perguntar.
- Yuri, vamos aperfeiçoar mais a Fênix Dourada... - Ela começou, sem sequer olhá-lo de canto, mas mantendo o tom baixo, as mãos cruzadas no colo, os olhos baixos. Ele, no entanto, virou o rosto para olhá-la e esperou-a continuar. - Para terminarmos a técnica, serei eu quem irá segurar a barra do trapézio no final.
- Espere um momento - disse ele, mais atônito do que antes. Chegou a descruzar as pernas e a segurar melhor no assento em que se encontrava, além de fitá-la mais diretamente, apesar de não receber um olhar de retorno - É muito arriscado e perigoso fazer uma mudança desse tamanho a essa altura do campeonato. Seria até mais sábio da sua parte manter como está e eu te peg...
-Ficará tudo bem. - Ela o interrompeu, no mesmo tom calmo, porém frio, ainda sem olhá-lo - Se está preocupado com treinos, eu tenho feito isso insistentemente nos últimos dias... Desculpe esconder isso de você.
-... Claro. - foi a única palavra que saiu dele, depois da desculpa esclarecida. Voltou-se para frente e calou-se o resto da viagem, assim como ela.
Alívio, depois de certa tensão. Ele havia concordado afinal das contas, mas ainda sim parecia bem frio, na sua opinião. E não era para menos. Ao contrário dela, ele mentalmente questionava cada mínima ação que ela teria e unia com o que já sabia. E o que ele já sabia era que ela estava incapaz de aperfeiçoar aquela fênix, porque estava pensando apenas em vencer o festival com uma boa técnica, e não em interpretar como Julieta. Aquela falha, aquele abismo cada vez maior... Significaria o fim de suas carreiras, mas ele não poderia jamais permitir isso; não tendo chegado tão longe. Não para alguém como ela.
"Alguém como ela...", ele pensava, enquanto a observava se alongar no salão reservado para ambos em um canto de Paris. "Cidade-Luz", mas que eles mal visitariam. Após terem passado por um caos que era a porta do local onde seria o Festival, onde centenas de paparazzi e jornalistas esperavam os competidores para abordar (não conversar, abordar), além das insistências, dos assédios e do olhar dos outros competidores, o silêncio daquele salão e entre eles dois chegava a ser reconfortante, apesar da cidade lá fora aparentar mais atrativa. Seriam, afinal, mais alguns dias para treinarem e então a hora de se apresentarem chegaria. Havia, afinal, sido mais rápido do que pensavam.
Seguindo todas as orientações de Kalos e do Sr. Kenneth, ambos cuidavam minuciosamente de todos os itens que compunham a apresentação perfeita, fossem as vestes, fossem os trapézios, fosse o sono. Desta vez dormiriam - obviamente, cada um em um quarto de hotel diferente -, mas não só isso. Os outros competidores estavam sempre próximos para provocar algo de errado, fosse um tropeção, fosse desarrumar intencionalmente a rede de proteção de determinados salões de treinos para que, se não caíssem e se machucassem, ao menos levariam tempo a mais para arrumarem o local e perderiam tempo de treino. Foi especificamente a partir deste dia que Yuri nunca mais subiu em um trapézio sem primeiro verificar se estava seguro o suficiente e também foi a partir deste dia que não mais se descuidaram a ponto de deixar que pessoas ouvissem o que falavam sobre suas próprias técnicas.
Mas para ele, ainda não era o suficiente. As poses eram elegantes, mas as atitudes frias. A técnica perfeita, mas não quem as fazia. Os pensamentos pululavam em sua mente mais do que épocas anteriores. Layla podia ser a máquina que fosse no palco, e sem dúvidas tinha exímio talento no que fazia, mas suas engrenagens não rodavam sem um elemento especial. E esse elemento, ele não agüentava mais apenas guardar para si.
Foi quando o pior que ele esperava aconteceu. Por algum acaso maldito do destino, os dois se esbarraram com uma dupla competidora do festival que não parecia ter algo de especial, já que não havia escutado o nome deles mais do que uma ou outra vez, e eles não pareciam do tipo que se arriscava em técnicas avassaladoras, mas em compensação tinham algo de diferente que ele e Layla tinham. Tratava-se de Leon e Sophie Oswald, os irmãos que se apresentavam em diversos circos da França em troca de reconhecimento e alguns trocados. Eram muito bons no que faziam e por esta razão haviam sido chamados para o Festival Internacional. Bastaram alguns minutos para que Yuri percebesse que não se tratava da técnica em si, mas a paixão que os dois colocavam quando subiam ao palco que os tornavam especiais. Não precisou assisti-los sobre um trapézio para notar isso. A breve conversa que tiveram em uma pausa dos treinos dos 4 o fez perceber isso da pior forma.
- Ah, nós não podemos contar nossa técnica, não é Leon? Tem de ser surpresa! - Sophie dizia da forma mais doce e humana que alguém poderia ser em meio à conversa. Yuri era o mais cordial possível, enquanto Layla parecia não se importar muito com o seu próprio social. Tinha apenas uma coisa em mente naquele momento e, apesar de estar certa por um lado, Yuri se irritava com ela internamente por ela não perceber a chance que tinha ali, bem na sua frente, de consertar o que estava errado na técnica de ambos. Era aquele tipo de paixão no palco que Sophie tanto mostrava até mesmo fora dele, o item necessário para que se tornassem vencedores. Mas Layla ignorava completamente aquela situação e os motivos pelos quais Yuri parecia tão interessado naquelas duas novas amizades.
- Vocês são do Kaleido Star, não é mesmo? Sophie e eu assistimos à gravação da peça da Pequena Sereia quando venderam aqui, ficou muito boa. - Era talvez a primeira e última vez que Yuri ouviu Leon elogiá-lo em toda a sua vida. Era um garoto estranho e um pouco frio ali na sua frente, mas parecia reservar uma quantia especial de paixão por aquela garota adorável que tinha ao seu lado, e apesar de sua paixão não ser pelo palco e pelo prêmio, quando a deixava transparecer por Sophie, era como se desse tudo de si e não se importasse em fazê-lo. Não havia dupla mais forte do que eles...
Houve duas situações estranhas ocorridas naqueles poucos dias de véspera do festival. Estranhas, porém necessárias para que ele formasse e consolidasse suas mais cruéis idéias até então. Ambas envolviam o quesito mais forte de uma relação humana, fosse amorosa, amistosa, profissional: a confiança. Yuri acabou por se tornar mais próximo dos dois, mesmo sem a ajuda de Layla, que só participava de algumas conversas como ouvinte. Com isso até mesmo Leon não se importava em conversar com ele sobre sua própria vida. A conversa mais longa que tiveram, o que durou cerca de 15 minutos por estarem ambos preocupados com seus treinos, resultou na segunda engrenagem para motivá-lo a fazer algo contra Sophie e ele.
- Não é fácil. Sophie não entende por que eu não gosto dos espectadores. Já tivemos época em que errávamos as acrobacias por estarmos cansados e tudo o que eles queriam era divertir a eles mesmos. Não se importam com a saúde de quem está lá em cima. - Leon dizia, enquanto Yuri o escutava atentamente, fingindo compreensão, mas na verdade desejando sugar cada palavra que ele lhe dizia para que conseguisse usá-las de alguma forma a favor da própria apresentação. - Mas Sophie é talvez ingênua demais, ou esperançosa demais. Ela ama o que faz, então eu tento mantê-la sempre fazendo o que ama, já que meu objetivo é a felicidade dela.
"Ingênua demais, esperançosa demais... E ele só tem olhos para ela..."
A segunda conversa importante foi com Sophie. Não havia conhecido pessoa mais encantadora na vida, salva a regra, é claro, sua própria mãe. Mas Sophie tinha uma constante alegria em volta de si mesma, tinha um conjunto de sonhos e ideais tão bem formados e tão bem estruturados que cada palavra que dizia refletia-os exageradamente. Ela queria coisas que ele jamais ouvira antes. Estava ali, em uma competição, no intuito de mostrar que não queria se envolver em nenhuma! Era absurdo um pensamento assim, mas quando ele a escutava e via tanta vontade em seus olhos, acreditava piamente em suas palavras e em seus sonhos. E foi o fato de acreditar que lhe trouxe medo. Medo de que essa vontade fosse demonstrada de tal forma perante aos juízes, que eles seriam os vencedores e não ele.
Chegou a comentar com Layla a conversa que tiveram para saber a reação que ela teria. "Imagine só! Sophie quer criar um espetáculo sem competições, acredita em fábulas de verdadeira estrela e se baseia em técnicas simples para um festival tão grande. Não acha um absurdo, Layla?", ele perguntava e se dirigia a ela em meio à pausa dos próprios treinos, mas tudo o que recebia em retorno era o silêncio. Ela parecia realmente não se importar com absolutamente nada que aqueles dois tinham a oferecer. Pior, parecia não se importar sequer com o que ele próprio tinha a oferecer. Sua idéia de pegar o trapézio sozinha no final da técnica o fazia entender que ela simplesmente não confiava mais nele e que se caso ele viesse a falhar ou a desaparecer, sua apresentação prosseguiria sozinha, mesmo que isso significasse ser desclassificada do festival por se apresentar sozinha em um festival o qual requer duplas.
Aquela indiferença o irritava mais do que o normal. O fato dela não aproveitar a oportunidade que tinha à sua frente, essa negligência despercebida com relação à sua interpretação no palco, era o que o fazia tremer internamente. Não podia perder. Muito menos para aqueles dois. Perder significava não poder mais voltar ao Kaleido Star, conseqüentemente não poderia realizar o seu plano e, pior ainda, perderia o seu espaço para Leon. Sabia que se ele não voltasse mais ao Kaleido Star, Leon era o mais qualificado a fazê-lo. Duvidava muito que essa proposta não ocorreria, visto que Sophie e Leon eram muito bons e no Kaleido Star, com certeza Kalos daria ouvidos às idéias dela.
Foi na véspera do Festival que ele resolveu explodir, especialmente após escutar nos corredores que um casal de jovens, quase da idade deles, estava prestes a aperfeiçoar uma técnica jamais vista, chamada "Técnica Angelical". Um calafrio lhe percorreu o corpo ao escutar essa conversa. Tratava-se da técnica de Sophie e de Leon, uma técnica difícil e especialíssima que ninguém jamais conseguiu aperfeiçoar. Já havia lido sobre a mesma na época em que procuravam uma técnica para o festival, mas não pensava que fosse possível chamar a atenção dos juízes com algo daquele escalão. Entretanto, alguém com a força e paixão de Sophie, protegida pela força e paixão que Leon tinha por ela, com certeza tornaria aquela técnica uma lenda, se estivessem bem-preparados. E se estivessem, o medo passaria a desespero em suas veias.
No mesmo dia em que escutou aquilo pelos corredores, investigou onde que os irmãos andavam treinando e foi observá-los. Percebeu que a técnica ainda não estava completa e era algo menos elaborado do que o Fênix Dourado, mas ainda sim, a paixão que ambos mostravam ao saltar fazia Sophie parecer mesmo um anjo a ser erguido nos ares e aquilo definitivamente significaria a sua derrota e a de Layla...
Ele quase entrou em frenesi quando se afastou sorrateiramente do salão de treinos dos irmãos Oswald. A mente borbulhava em pensamentos hostis e acabava por não deixar um só detalhe passar. Precisaria não só aperfeiçoar a técnica naquela noite, como não poderia permitir que esses dois vencessem, ou isso poderia significar o fim de sua carreira no Kaleido Star, e afinal, era justamente esse ponto que ele não poderia permitir despencar do alto. Leon, com certeza, tomaria o seu lugar no Kaleido Star se vencesse, e isso era algo que passava por sua mente de forma temerosa. Havia chegado tão longe que perder agora, ainda mais para alguém que não só lhe venceria, mas também tomaria o seu lugar no trono, seria inadmissível.
Eles TINHAM que vencer esse festival. A qualquer custo.
Nota da autora: Eu refiz grande parte desse capítulo por achá-lo incompleto. Por isso que eu demorei um pouco mais para postá-lo. Eu havia me esquecido de detalhar um pouco mais como que Layla e Yuri conheceram Leon e Sophie e havia pulado direto para o momento em que Yuri os tinha visto treinar. Não achei justo porque no anime as coisas ficam pouco claras com relação ao passado dos 4, então eu detalhei um pouco mais =)
Como podem perceber, a chave da relação dos 4 é Yuri. Layla não se importa com os outros, muito menos com os seus concorrentes e Yuri fica com as bandeirinhas para o alto a todo instante dizendo "ei! Não percebe que eles podem te ajudar?", mas não adianta nada então quem tem que fazer isso com ela, no final, é ele mesmo. E isso estará no próximo capítulo ;) não percam, é o capítulo que mais amei escrever até agora!
