Capítulo XIX - Acreditando no Amor
Ao passar pela caixa do correio, Saori parou o carro e retirou a correspondência que lhe era endereçada. Jogou as revistas no assento ao lado e examinou as cartas. Nada de interessante. Colocou-as em cima das revistas.
Entrou com o carro no estacionamento. Assim que se encaminhou para a casa, Tatsumi veio a seu encontro.
- Bom dia, senhorita Kido. Há uma visita à sua espera. - ele avisou, um pouco apressado - Um Cavaleiro de Ouro.
- Leve-o à sala de estar. Diga-lhe que o receberei em alguns minutos.
- Sim.
Saori deixou a bolsa em seu quarto, retirou a presilha que prendia seus cabelos e retornou à sala apressadamente.
Aioria aproximou-se cauteloso e ajoelhou-se diante dela. Saori, ansiosa, indagou sem rodeios.
- Alguma notícia?
- Eu o vi ainda ontem, senhora. - o rapaz respondeu.
A primeira reação de Saori foi de alegria, mas o modo como o Leão a encarou indicou-lhe que certamente receberia más notícias.
- Onde ele está?
Ao ouvir a voz trêmula que o interrogava, o olhar de Aioria se enterneceu.
- Eles o prenderam.
- O quê? - Saori arregalou os olhos.
- Saga está em Rodorio, senhora. Sob custódia do chefe do lugar.
- Mas... C-Como? Por que? - indagou, surpresa.
- Os aldeões insistem em julgá-lo. Colocaram-no numa cela e rejeitam conversar a respeito. Querem se reportar diretamente à senhora.
Saori piscou, sentindo-se ainda mais confusa. Algumas coisas não faziam sentido. Por exemplo, Saga poderia facilmente escapar da cela que o mantinha prisioneiro. Por que não o fazia? E, muito estranhamente, por que a deusa não conseguia sentir o Cosmo dele? Há dias que tentava encontrá-lo, um esforço que mostrara-se infrutífero.
- Saga me implorou para que não lhe revelasse os fatos. - Aioria comentou, em tom de confissão - Mas acho que a senhora tem o direito de saber.
- Sim, Aioria. Obrigada.
A moça aproximou-se da janela, tocando o vidro frio com a ponta dos dedos. Fechou os olhos e, ao abri-los, eles revelavam uma chama de esperança.
- Aioria. - Saori chamou-o, observando o Cavaleiro através de seu reflexo no vidro - Quero lhe pedir algo.
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Saga fechou o punho, concentrando-se. Sem sucesso. Seu Cosmo simplesmente não respondia. Como era possível?
O Cavaleiro de Gêmeos aproximou-se das grades que o mantinham confinado naquele cubículo. Poderia tentar vergá-las apenas com a força e voltar ao Santuário, onde se explicaria diretamente à sua deusa... Mas esta não seria uma conduta digna de um Cavaleiro de Ouro ou do Grande Mestre do Santuário de Athena. Ele era inocente das acusações e provaria isso, de modo pacífico, adequado, de modo a não manchar ainda mais sua honra.
Saga encostou-se à parede, cruzando os braços, e fechou os olhos, refletindo sobre suas opções. Athena acreditaria em suas explicações? Certamente competiria a ela a tarefa de arbitrar em seu julgamento.
"Preciso provar minhas palavras. Mas como?! ´Ele´ foi cuidadoso."
Há horas buscava por respostas. Mas nada encontrava além de um corredor vazio, escuro e frio diante das grades onde, agora, se apoiava.
Inspirou fundo, fechando os olhos. Ficou assim por alguns segundos, minutos talvez; pouco importava. Sentia-se desnorteado.
A voz esganiçada de um dos guardas interrompeu o silêncio das celas. Saga ergueu o rosto, curioso. Estivera muito distraído, para não sentir o Cosmo que se aproximava! Não conseguiu evitar o leve sorriso e sentiu-se aliviado.
"Saori... Você veio..."
- Senhora, não deve entrar!
- Como ousa falar assim com Athena?! - Saga reconheceu a voz comedida, gélida, de Kamus – Abram caminho!
- Ahhh! - gaguejou o guarda - Perdão, senhora. - apressou-se em abrir a pesada porta de madeira, cuja tranca velha e quase sem uso rangeu bastante; deu então passagem à deusa.
- Saga! - Saori exclamou ao entrar e vê-lo encarcerado, baixando imediatamente o capuz de tecido leve que lhe escondia a face - Fiquei com tanto medo! - murmurou, notando os ferimentos nos pulsos do Cavaleiro quando este ajoelhou-se diante das grades - Está ferido! O que houve?
- É uma longa história, minha deusa.
- Abram. - ordenou a deusa ao soldado.
Com as grades afastadas, Saga teve permissão de Athena para sair. Ajoelhou-se rapidamente diante da deusa, para se explicar.
...
- Ares tomou sua aparência... e o manteve prisioneiro no Templo da Guerra? - Athena repetiu, indignando-se - Como ele ousa? Atingindo um de meus Cavaleiros, atinge-me também. Não o perdoarei!
- Perdoe-me por ter me ausentado do Santuário e renegado meus deveres, Athena. - Saga baixou o rosto em atitude respeitosa - Mas buscava respostas urgentes, antes de Ares ter-me capturado.
- Discutiremos os detalhes mais tarde. - a deusa respondeu, mais calma – Por hora deve regressar a seu posto.
- Sim, senhora.
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- Libertem-no. - Athena falava aos anciãos de Rodorio e, também, aos demais habitantes do vilarejo.
Ela novamente tinha a face oculta pelas sombras de um capuz, e sentara-se junto à fonte de água, tendo os moradores do lugar a alguns metros de distância, ajoelhados à sua frente.
- Mas, minha digníssima senhora... - gaguejou um dos anciões, erguendo um pouco o rosto, com a face repleta de aflição por ter de contrariá-la.
- O Cavaleiro de Gêmeos permanecerá na Terceira Casa Zodiacal até seu julgamento. - Kamus repassou as ordens em nome de Athena.
- Minha senhora... - disse outro velho, com a testa no chão - Ele também deve ser julgado... pelos problemas em Rodorio...
- Acaso duvidam da generosidade e justiça de Athena? - Kamus franziu as sobrancelhas.
- N-Não! C-claro que n-não...! - o ancião assegurou, empalidecendo e suando frio.
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A deusa aguardou na fonte, enquanto os soldados abriam a cela e traziam Saga à sua presença.
Ao se aproximar, o Cavaleiro se ajoelhou e baixou a cabeça. Junto a eles estava apenas Kamus, a alguma distância. Os soldados se retiraram.
- Saga de Gêmeos se apresentando, Athena. - após uma pausa, ele prosseguiu - Eu lhe agradeço, minha deusa, por confiar neste Cavaleiro.
A jovem esboçou um sorriso suave, o qual desapareceu ao notar novamente as marcas nos pulsos do Cavaleiro.
- Está ferido?
O Cavaleiro olhou o próprio braço, notando também o estado de suas vestes.
- Perdão! Deveria estar com a Armadura, em sua presença.
Saori fez expressão de confusão. Ao entender que ele se referia às próprias roupas, moveu levemente a mão em gesto negativo.
- Tudo bem. Estique as mãos.
Ele o fez e Saori segurou as mãos do Cavaleiro entre as suas, concentrando sua Cosmo Energia nos ferimentos mais profundos que haviam nos pulsos dele, fruto da árdua batalha contra as correntes que o aprisionaram ao templo de Ares.
Saga ergueu o rosto, fitando a face da deusa, de modo um tanto embevecido.
Ambos ficaram em silêncio por alguns instantes, encarando-se, até que Saori desviou o olhar e soltou as mãos dele.
- O que não entendo é... - disse a garota, séria, embora um pouco ruborizada - Por que Ares teve tanto trabalho em prendê-lo e roubar sua imagem, se não a usou contra mim.
- Ele não teve tempo, minha deusa. - respondeu o Cavaleiro de Ouro, aprumando-se e verificando seus pulsos agora completamente curados - Estava mesmo planejando um novo ataque... Mas alguém interferiu e o deteve.
Saga fechou os olhos, lembrando-se do que vira.
No Templo da Guerra, em Esparta, Saga estava preso à parede por pesadas correntes de ouro. O Cavaleiro, que já percebera ser incapaz de usar seu Cosmo, tentava rompê-las com a própria força, mas os esforços eram inúteis; apenas feria-se mais e mais a cada tentativa.
Suspirou, não vendo saída para si. E Ares não o deixava em paz com aquela maldita conversa de dupla personalidade.
- Pense bem, Cavaleiro de Athena. - dissera o deus em sua última conversa com Gêmeos - Você tem poder para governar este mundo, e sabe muito bem disso. Não tente se enganar, abdique de seu posto no Santuário de Athena e ocupe o posto de senhor da Terra.
- Ares tentou-me com poder e glória por dias a fio. - Saga explicou - Enfim, de tantas negativas, cansou-se e ameaçou matá-la, Athena, usando-se de minha imagem. Ele chegou a tentar matar um Cavaleiro de Ouro, mas não esperava a interferência de dois outros Cavaleiros, além da presença de Eros... Planejava atacar o Santuário novamente em alguns dias. Mas então alguém ouviu sua conversa...
- Que interessante, Ares. Então ainda não desistiu de derrotar Athena? Alguém ficará muito interessada em tomar conhecimento deste assunto.
- Eros! - bravejara o deus da Guerra - Novamente cruza meu caminho, rapaz insuportável! Terei que destruí-lo, junto com Athena? Interferiu em minha batalha contra aquele Cavaleiro de Ouro! Da próxima vez eu...!
- Não tocarás em Eros. - e esta voz causara um grande temor em Ares. Um homem de longos cabelos prateados, vestido em uma túnica exuberante, entrava no Templo e parava ao lado do deus do Amor.
- Z-Zeus?! - O Deus da Guerra chegou a dar um passo para trás, surpreso com a presença de seu pai.
- Surpreso, minha criança? - Zeus sorriu e tal gesto não agradou Ares - Não deverias estar. Não cansas de ser humilhado em batalha por Athena, ao que percebo. Quantas vezes mais deixarás isto acontecer? Ainda não aprendestes que não podes vencê-la?
- Este assunto não lhe diz respeito, meu senhor e pai! - Ares respondeu com veemência.
- É claro que diz, insolente. Athena me pediu, há alguns dias, para ter uma conversa contigo. Ela expôs seu ponto de vista e devo concordar mais uma vez com a deusa da Sabedoria. Ah, sim, é claro! Já ia me esquecendo... Afrodite pediu que te avisasse para não procurá-la nas próximas centenas de anos.
- C-Como é? M-Mas...
- Surpreso? Não deverias estar, Ares. Mas 'estes' assuntos não me dizem respeito. O que quero te avisar é para manter-te longe de Athena e dos Cavaleiros dela. Minha filha não deseja lutar, e tu, ó desgraçada criatura que não é digna do sangue que possui, apenas causa problemas desnecessários a ela.
- Athena é protegida por muitos Cavaleiros, Ares. - desta vez foi Eros a falar - Inclusive doze Cavaleiros de Ouro, a elite do Zodíaco. Você, ao contrário, possui apenas alguns servos inúteis, além de Deimos e Phobos, que já foram derrotados pelos Cavaleiros de Athena. Está sozinho, Ares. Sozinho e fraco.
- Cale-se, moleque atrevido! - Ares acendeu seu Cosmo, enfurecido. Mas o Cosmo de Zeus superou o seu e o obrigou a ficar calado.
- Zeus ordenou que Ares não causasse mais transtornos à senhorita. - Saga continuou sua explicação - E me libertou.
- Sou muito agradecida a ele. - Saori sorriu, radiante - Agora sei onde conseguir as provas necessárias para este julgamento, Saga. - e chamou pelo Cavaleiro que a acompanhava.
- Sim. - respondeu prontamente o Cavaleiro de Aquário.
- Acompanhe o Cavaleiro de Ouro de Gêmeos à Terceira Casa.
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