Eu suspirei, batendo o pé no chão. Roía as unhas também, as quais já estavam com o esmalte descascando.

"Ah, por favor, Sai!" Reclamei, com uma careta. Agarrei uma almofada para me distrair. Não estava sendo bem sucedida em nenhuma tentativa de focar a atenção em algo que não fosse a minha própria impaciência, cuja crescia cada vez mais rapidamente.

Joguei os braços para o alto, estafada. Era tarde, eu estava com frio e amanhã deveria acordar cedo. A situação não estava favorecendo para melhorar o meu humor.

"Eu achei que a noiva de nós dois fosse eu, bastardo!" Gritei, levantando-me e seguindo até a porta do banheiro com passos firmes. "Saía daí, droga! Eu preciso urinar."

"Uma palavra, boneca." A voz dele vinha abafada, pelo fato de estar dentro do chuveiro. "Penico!"


EPÍLOGO:

A Donzela e os seus Cavaleiros Jurados


Cocei o queixo.

Como fazíamos todos os meses, o Time 7 se reuniria para colocar as novidades em dia. Era um plano um tanto quanto afeminado, se alguém me perguntasse, mas como Naruto era o dono da idéia, preferia me abster de comentários. Suscitar a sua fúria nunca era a opção certa.

Olhei ao redor. O local estava razoavelmente cheio, embora recém fossem onze horas da manhã.

Com o transcorrer do tempo, Sakura e Sasuke aprenderam modos de burlar o meu péssimo hábito de chegar tarde aos compromissos. Assim, eu nunca sabia se eles me diziam o horário do encontro mais cedo do que efetivamente era ou se simplesmente acordavam entre si de chegar cerca de uma, uma hora e meia depois do combinado.

Não digo que não era efetivo, porque era. Ainda é. Mas me aborrece saber que estou sendo passado para trás.

Suspirei, irritado. Puxei o Icha Icha do bolso, o qual comecei a ler. Já haviam se passado dez minutos do horário combinado. Não gostava que me fizessem esperar. Geralmente, este era o meu papel. E eu não abria mão dele, só para constar.

A garçonete logo veio me recepcionar. Como sempre, tinha um sorriso nos lábios e um olhar sensual.

Aparentemente, havia um bolão ocorrendo entre as garotas daquele restaurante e elas se revezavam para tentar obter a minha atenção por mais de um minuto. Não que eu seja exigente, porque normalmente costumo levar para cama toda moça bem disposta, mas Sakura ficaria muito aborrecida se o nosso ponto de encontro fosse profanado.

É claro, ela era a única que conseguia usar um adjetivo tão forte para um local tão banal.

Uma das suas exigências fora que eu mantivesse as "minhas mãos amorais longe das nossas atendentes, maldito seja". Na hora, o xingamento me aborreceu. Além disso, não eram as minhas mãos as amorais, mas eu inteiro. Optei por deixar a frase ir. Muito do que eu escuto simplesmente deixo ir. Ou estaria louco.

Só penso, bem, como Sakura lidaria com a hipótese de que eu tenho levado a sua mãe para sair nos últimos seis meses. Não é um segredo, veja bem. Apenas preferimos manter as nossas intenções para nós mesmos. Sakura não é reconhecida pela sua amabilidade. Tenho certeza de que a perspectiva de um romance entre eu e Amaya a enfureceria – é claro, chocaria primeiro, porque ela gosta de ser dramática quando lhe convém.

"Apenas uma garrafa de saquê, por favor." Pedi, distraído. "Estou esperando pelos meus alunos."

"É claro, Kakashi-sensei." Ela disse, excessivamente melosa, dando uma conotação sexual à minha posição de professor.

A idéia me fez arquear a sobrancelha, pensativo. Nunca havia pensado naquela perspectiva.

Não que Sakura não fosse atraente. Apenas não conseguia vê-la como um alvo para potencial conquista. Eu a vira crescer. Sentia-me quase como um pai substituto. Uma simples insinuação já parecia perturbadora, que dirá então voltar os olhos para ela com idéias sexuais. Não apenas era inconcebível como inseguro.

Ela tinha um número suficientemente grande de admiradores poderosos. Não estava disposto a entrar na batalha.

Agora, passados já seis meses da nossa missão na Chuva, as turbulências internas do time 7 haviam amainado. A calmaria surgira, enfim. Com Sai tendo levado o prêmio para casa, Naruto aceitou o prêmio de consolação e convidou a doce Hyuuga para sair. Já Sasuke, bem, ser preterido apenas atiçou o seu espírito competitivo e avivou as chamas do seu orgulho. Passados poucas semanas, decidira nunca mais passar por aquilo outra vez. Agora, todas as garotas o amavam. Ele as amava também. Mas apenas por um ou dois dias, ou até que tivesse tempo para entrar nas suas calcinhas.

Não o repreendo. Com a fama e os atributos físicos que tem, seria um desperdício dá-los a uma única mulher. Não há necessidade de estabilidade afetiva em se tratando de interação com sexo oposto. Os sentimentos não fazem o sexo melhor.

Ah, bem, sou suspeito para falar. Ainda não levei Amaya para a minha cama. Não posso dizer.

"Divertindo-se com a visão, Kakashi?" A voz de Sai chegou aos meus ouvidos, divertida, e me arrancou daqueles estóicos pensamentos. Logo percebi que a distração sempre me levava aos velhos hábitos: observava fixamente, embora sem concentração, o traseiro da garçonete que se afastava - traseiro esse, já digo, que nem era assim tão digno de atenção.

Voltei a cabeça na direção dos recém chegados.

Sakura tinha os cabelos compridos presos numa trança, alguns fios escapando, e usava uma camisa de seda cor de pérola que combinava muito com a tonalidade da sua pele. Namorar impulsionou uma repaginada no seu guarda roupa conservador. Ultimamente ela vinha mostrando tanta pele que uma ou duas vezes me sentira impelido a perguntar em que parte do caminho deixara o resto dos seus trajes.

Nunca o fiz, é claro. Nada é mais duradouro que a força do ódio de uma mulher.

"Naruto está vindo." Ela disse, pousando a bolsa sobre a mesa. "Foi deixar a garota na casa dela." Resmungou, jogando a trança para trás do ombro. Havia em seu rosto uma careta de desagrado e em seu tom, notas facilmente perceptíveis de ciúme e fúria reprimida.

Preciso lhe dar os créditos pela atuação até então impecável. Possessividade era natural da sua personalidade. Não era para menos. Ela havia alimentado, vestido e mimado os garotos do time 7. Comportara-se muito bem ao descobrir que Naruto estava saindo com Hinata. É claro, inflara as narinas e esbravejara um e outro palavrão em voz baixa, mas em geral não mostrara uma resistência tão grande. Pedir que fosse amigável com a Hyuuga, porém, era inadmissível. Não aconteceria tão logo.

"E Sasuke?" Perguntei, fechando o livro e voltando a guardá-lo na bolsa presa ao lado da minha perna.

Sai revirou os olhos. Sakura crispou os lábios. Sasuke continuava a ser o único ponto de divergência entre eles. Obviamente, Sai podia admitir que o sentimento de Sakura para com relação a Naruto não passava de algo maternal. Quando se tratava de Sasuke, porém, sempre encontrava motivos para desconfiar.

"Não pergunte." Sakura gesticulou os braços com enfado. "O fã-clube tem andado insuportável nos últimos tempos. Embora tenha trocado saliva com todas as malditas garotas existentes desta Vila, parece que não tocou em nenhuma integrante oficial do seu fã-clube. Aparentemente, eu sou o motivo. Porque, é claro, eu devo tê-lo manipulado e..." Suspirou, ainda furiosa. "Ah, você sabe."

Sorri.

"Fui eu quem lhe deu a lista." Confessei, rindo baixo. "Por acaso encontrei um dia, na sua lixeira. Havia alguns nomes interessantes lá. Não havia motivos para não propiciar à Vila outra pequena distração. Com Gai viajando, não tenho tido com quem competir. E, admito, estou entediado." Encolhi os ombros, em tom de confissão.

Eles se entreolharam. Logo, me olharam. Ambos ergueram as sobrancelhas. O excesso de convivência fizera com que compartilhassem manias irritantes.

"O que você estava fazendo revirando o meu lixo?" Sakura perguntou de repente, ao mesmo tempo em que a garçonete voltava com uma garrafa de saquê e três copos.

Fingi me distrair com o decote avantajado do traje de trabalho da recém-chegada – o que fez com que ela aprumasse a postura e jogasse o cabelo para trás do ombro, uma reação natural das fêmeas prontas para flertar. Sakura, como era esperado, bufou. Estendi a mão para servir a bebida.

"Ah, bem." Dei uma pausa calculada. "Foi numa manhã em que você tinha saído, e eu fui buscá-la para uma missão." Sai e Sakura recentemente tinham se mudado para um apartamento conjunto. Amaya achava que aquele era um grande passo num relacionamento, e demorou a se deixar convencer diante da idéia. Embora fosse mãe de uma moça maior de idade, não conseguia deixar de ver a filha como o bebê que pusera no mundo. "E a folha de papel de cor rosa pink chamou a minha atenção. Só isso."

Sakura não se deixou convencer. Ela era uma vadia esperta. Conhecia todos os nossos trejeitos. Podia farejar cheiro de mentira a quilômetros. Mesmo Sasuke, o rei da impassibilidade, tinha dificuldade em alterar provincialmente uma informação.

"Pronto para fazer o pedido agora, Kakashi-sensei?" A garçonete perguntou, melosa, e provincialmente ignorou a presença de Sakura, como o faziam todas as garçonetes desde que elas consideravam uma declaração de despeito o fato de ter tantos homens visualmente agradáveis ao seu redor e não reparti-los com boa vontade.

Mas aquela era uma maldita boa chance de desviar a atenção da gafe cometida. E, esperto como sou, eu a agarrei com unhas e dentes.

"Você chegou na hora, meu bem." Disse, agarrando o cardápio. Abri-o na frente do rosto. "Veja uma rodada de espetinhos de lula, oniguiris e também aquele sashimi especial da casa. Ahh, e uma dúzia de sushi. Pensando melhor, duas dúzias. E, hmm, mais uma tigela de ramen de porco. Dois. Não, ah, três. Sim. Naruto com certeza comerá dois."

Sai arqueou a sobrancelha enquanto a moça-de-peitinhos-pequenos se afastava.

"Você devia ter avisado que estava dando uma festa. Eu teria posto um traje melhor." Comentou, sarcástico. Eu ergui a cabeça, confuso. Ele revirou os olhos, a boca meio torcida, mostra de impaciência. "A quantidade de comida que você pediu certamente é para um batalhão."

"Sempre é melhor prevenir." Encolhi os ombros. Desviei a atenção para a porta. Sasuke entrava, a pose imponente que fazia com que as mulheres suspirassem (os suspiros sempre se tornavam mais agudos quando eram rejeitadas. De uma maneira que eu nunca compreendi, toda mulher se apaixona por um homem que a esnoba). Tinha os cabelos molhados e o rosto vermelho. Vinha de uma seção de amassos quentes. "Ahh, veja. Sasuke está aqui."

Ele se aproximou, ignorando a expressão desgostosa de Sai, e se sentou ao lado de Sakura. Por mais que fingisse o contrário, Sakura era a única mulher a despertar o seu amor. Já não tentava conquistá-la, mas não perdia nenhuma chance de ficar próximo.

"Onde você estava?" Ela lhe perguntou, furiosa. Certamente, havia percebido os sinais antes que eu. "Ah, espera. Não quero saber." Sibilou, logo que ele abriu a boca para responder. Ela gesticulou de maneira exagerada, e puxou o cardápio da minha mão, escondendo o rosto atrás dele. "Vocês são todos uns vadios." Resmungou. "Até você, seu bastardo." Acotovelou Sai, que se curvou ao cutucão e grunhiu.

"O quê?" Ele rebateu. "Eu já disse que não percebi que a garota estava flertando comigo, meu Deus! Você devia confiar mais em mim."

Ela riu, desgostosa.

"No dia em que uma mulher que estiver mostrando o decote para você não estiver flertando com você, pode se sentir no direito de subestimar a minha inteligência, queridinho." Disse, friamente. "Vocês foram banhados com mel, Jesus. A situação está insuportável." Sacudiu a cabeça, exasperada. "Não bastasse a namoradinha do Naruto..."

"Ah, vai começar." Sai suspirou, exasperado.

"Ah o quê, maldito seja?" Sakura lhe lançou um olhar capaz de congelar o inferno. "Vocês assinaram um contrato eterno comigo. Eu alimento, crio, dou amor. Eu até lavo as suas meias, porcaria. Vocês automaticamente passam a se tornar minha propriedade. Se você queria liberdade, devia ter amarrado o seu bode em outro lugar. Mas, ah, sinto muito, é tarde para voltar atrás."

"Você não me vê reclamando." Sasuke disse, apoiando-se melhor contra o encosto da cadeira, a mão preguiçosamente seguindo até a cadeira de Sakura, logo ao seu lado.

Havia um sorriso torto e sarcástico em seus lábios enquanto mantinha os olhos fixos em Sai, como se quisesse apenas provocá-lo, e, como era de se esperar, o rosto de Sai corou no mesmo instante. Mesmo o respirar de Sasuke lhe era ofensivo. Os comentários irônicos quase o faziam explodir.

"É uma pena que você seja só o irmãozinho então, Uchiha." Rebateu, muita frieza em sua expressão para o calor da fúria que havia em seus olhos. "Quero dizer, não que seja sua culpa. A arte da conquista não é para qualquer um, não é mesmo?"

O corpo de Sasuke retesou. A tempestade estava se armando sobre as nossas cabeças com a mesma velocidade com que Naruto podia devorar um ramen.

"Chega." Apenas uma palavra. Apenas uma palavra os fez calar. Sakura nem ao menos precisou olhá-los. No que se tratava do time 7, ela era a soberana absoluta e irrevogável. Nenhum deles se atrevia a confrontá-la. Que dirá contrariá-la. "Bem, eu estava falando com Nana, a dona da confeitaria. Ela tem uma filha. Civil, bonita, tão prendada!" Sakura suspirou animadamente, imediatamente mudando de assunto. "Sasuke vai sair com ela na quinta."

"Quê?" A pergunta veio dos dois lados: tanto de Sai como de Sasuke.

"O quê?" Sakura sacudiu os braços. "Você não acha mesmo que eu vou aceitar que você namore com uma vadiazinha qualquer, acha?" Perguntou, lançando um olhar comprido e indignado para o Uchiha à esquerda. "Posso aceitar que você se divirta, mas relacionamento sério vai ser com alguém que eu aprove. Mal posso me imaginar encontrando com uma mulher qualquer daqui alguns anos."

"Você não acha que essa decisão deve partir de Sasuke?" Perguntei, optando por tomar as rédeas da situação antes que Sai tivesse tempo de expor o seu despeito.

"Não." Ela respondeu, sem hesitar. Serviu-se de saquê, tomando um gole. "Eu sei o que é o melhor para o Sasuke. Até mais do que ele mesmo. Além disso, tenho certeza de que ele vai se divertir. Sasuke gosta das garotas difíceis. É claro, pode preferir as fáceis para lhes arriar as calcinhas, mas só se sente motivado com alguém que teste o seu carisma. Hikaru com certeza vai testá-lo. Ela me disse que o considera um bastardo aproveitador."

"Então por que ela aceitou?" Sai perguntou, azedo. A interferência de Sakura ainda o aborrecia, mas o fato de saber que havia uma mulher que não se dobrasse à beleza de Sasuke foi o suficiente para amainar um pouco da ira.

"Eu a subornei." Sakura sorriu. "Hikaru queria um telescópio. Eu lhe dei um telescópio. Em troca, ela deverá sair com Sasuke três vezes, se ele quiser um próximo encontro."

Sasuke fez uma careta. A idéia feria o seu orgulho. Na realidade, na maioria do tempo era mais fácil ferir o seu orgulho do que o seu corpo.

"Você não pode estar falando sério." Resmungou, sem olhá-la. Inclinou o corpo para pegar a garrafa de saquê.

"Ah, mas eu estou falando muito, muito sério, bebê." Ela lhe deu um sorriso brilhante. Havia um quê sonhador em sua expressão. "Até já pensei na roupa perfeita para a ocasião. Você fica lindo de azul. Ah, vai ser tão divertido!" Bateu palmas, distraída. "Vamos às compras!" Ergueu os braços.

"Não nessa vida." Rebateu Sai. "Não vou gastar nem mais um centavo numa roupa que você nunca vai usar."

Sakura fez o biquinho infantil e o olhar choroso que conseguia arrancar tudo – ou quase tudo – dos integrantes do time 7. Em outros tempos, acrescento. Agora, a maioria de nós estava suficientemente maturada com relação às suas expressões faciais, para não se deixar levar. Naruto era o único a fazer todas as suas vontades.

"Você não entende as minhas necessidades." Ela choramingou. "Sasuke-kun, diz pra ele que eu preciso de roupas novas." Voltou o rosto na direção de Sasuke, que apenas grunhiu algo incompreensível, distraído com a sua própria bebida. Era de conhecimento público que ela tinha tendência a fazer-nos voltar contra nós mesmos quando lhe convinha.

"O seu aniversário está chegando. Você sempre ganha pilhas de presentes." Eu disse. "Apenas aguarde mais duas semanas."

Ela fez uma careta.

"Sasuke nunca acerta o meu tamanho. E Naruto sempre me dá coisas inúteis. Da última vez, ele me deu uma coleção inteira de ferramentas. Nem vou comentar sobre Sai. Se dependesse dele, eu usaria uma burca. E nunca mostraria nada além dos pulsos." Gesticulou. "Eu devia fazer uma passeata em protesto contra a inaptidão masculina para presentear."

Naquele momento a garçonete voltou, trazendo uma pesada bandeja. Sobre ela, a infinidade de petiscos que eu pedi num momento de distração.

Com Sasuke presente, a atenção da moça se desviou na sua direção como se atraída por um ímã. Seu sorriso plástico era tão brilhante que poderia cegar um observador desavisado. Normalmente, eu me aborreceria por aquela mostra óbvia de predileção. Embora já estivesse há um bom tempo na casa dos 30, ainda era suficientemente agradável para suscitar paixões adolescentes.

Para a maioria feminina, porém, o pobre Kakashi só servia de estepe para o verdadeiro astro. Eu era um show de abertura. Ah, bem, veja só como a idade não traz vantagens.

"Sasuke-san, há algo que eu possa fazer por você?" Ela perguntou, a voz melosa, piscando os cílios e inconscientemente endireitando a postura.

"Há algo que você pode fazer por mim, queridinha." Respondeu Sakura, furiosa. "Eu estou há meia hora esperando para fazer o meu pedido. Vou precisar falar com o gerente ou você vai parar de flertar com a clientela e atender quem precisa ser atendido?"

Poucas mulheres eram corajosas o suficiente para se opor a Sakura. Ela tinha um ar autoritário natural, que lhe impingia uma pose ameaçadora, e apenas aquelas dotadas de espírito bravio eram capazes de peitá-la e rebater as suas acusações.

Fazer sexo ajudou a melhorar a sua auto-estima. Agora Sakura meio que se considerava a rainha do populacho.

A nossa garçonete, para o meu azar, era uma dessas garotas jovens que não se consideram aptas para levar um combate verbal adiante. Então, como era de se esperar, corou ao ser pega em flagrante, perdeu uma grande parte do brilho sensual e se recolheu à insignificância do seu próprio trabalho.

"É claro, Sakura-san." Respondeu, tirando o bloco de notas do bolso do avental. Mordeu o lábio, os olhos baixos. "Como posso servi-la?"

Sakura precisou pensar por um momento. A reclamação havia sido apenas para afugentar uma fã. Desde o princípio, não tinha a intenção de pedir por nada. Havia comida suficiente para, no mínimo, mais dois dos nossos encontros mensais.

"Apenas uma soda, por favor." Pediu, um ar de impassibilidade calculado em seu rosto.

Pela expressão no rosto de Sai, parecia que ele havia sido obrigado a comer vidro.

"O Uchiha não precisa ser defendido, Sakura." Disse então, cheio de desgosto.

"Ah, Sai, não vamos discutir isso outra vez." Ela sibilou, irritada. Levou um sushi à boca. "Só porque não abro as pernas para o Sasuke, não quer dizer que não o ame. Vou cuidar dele assim como cuido de Naruto, assim como cuido de Kakashi-sensei. Não precisa ficar com ciuminho, bastardo. Afinal, daqui a seis meses eu vou dizer 'sim' pra você."

Para a minha sorte (parecia que, não importasse o tempo que passasse, as velhas discussões eram sempre as atuais discussões), Naruto chegava, um sorriso tão grande no rosto que mais parecia ter tido o maxilar deslocado. Seus passos não eram discretos, também. Ele tinha a pisada de um rinoceronte abrindo caminho na mata.

O fato desviou a atenção de Sai e Sakura da briga que estava por vir, e fez com que Sasuke guardasse o seu comentário sarcástico especial para apimentar o momento para a próxima situação em que ele se faria utilizável outra vez.

"Estou pronto para uma rodada tripla de ramen de porco-ttebayo!" Berrou, sentando-se ao meu lado.

Sakura reclamou diante da gritaria. Sai fez uma careta. Sasuke apenas revirou os olhos.

Ahh, a juventude.

FIM