Capítulo 18
Rin respirou profundamente, e vacilante estendeu as mãos para as paredes de pedra. O ar não era mofado, nem havia uma asquerosa capa de umidade ou algo similar; simplesmente estava muito escuro. Desceu pelos degraus lentamente, medindo o caminho. Os abajures pareciam vaga-lumes, iluminando a si mesmos mais que à escada.
E então chegou ao final. À direita havia uma porta aberta, e ali percebeu o cálido resplendor de um candelabro. A residência era igual ao corredor; de paredes negras, tenuemente iluminada, mas limpa. As velas tremiam ligeiramente. Ao colocar a bolsa sobre a mesa de chá, perguntou-se se aquele seria o dormitório do Sesshoumaru.
Ao menos o tamanho da cama era apropriado para ele. E os lençóis eram de cetim?
Supôs que havia trazido muitas mulheres a aquela guarida. E não precisava ser um lince para imaginar o que acontecia uma vez que fechava a porta.
Ouviu correr o ferrolho, e o coração lhe deu um salto.
— Respeito a meu pai — disse vivamente.
Sesshoumaru passou junto a ela e tirou a jaqueta. Debaixo levava uma camiseta sem mangas, e ela não pôde ignorar o rude poderio de seus braços enquanto seus músculos se retesavam ao deixar a um lado o objeto de couro. Pôde apreciar as tatuagens de seus antebraços quando se tirou dos ombros a capa vazia das adagas.
Foi ao banheiro e ela escutou correr a água. Quando retornou, secava o rosto com uma toalha, colocou os óculos antes de olhá-la. — Seu pai, Suikotsu, era um macho muito valioso. — Sesshoumaru arrojou a toalha de maneira despreocupada e se dirigiu a uma cadeira, sentou-se com o respaldo para diante, colocando as mãos sobre seus joelhos — Era um aristocrata no antigo país antes de converter-se em guerreiro. É..., era meu amigo. Meu irmão no trabalho que faço.
«Irmão». Seguia utilizando essa palavra.
Sesshoumaru sorriu um pouco, como se recordasse algo agradável para si mesmo.
— S tinha muitas habilidades. Era rápido com os pés, inteligente como poucos, bom com uma faca. Mas além disso era culto. Todo um cavalheiro. Falava oito idiomas. Estudou de tudo, desde religiões do mundo até história da arte e filosofia. Podia falar durante horas sobre a Wall Street e, logo explicar por que o teto da Capela Sistina é em realidade uma obra maneirista1 e não do Renascimento.
Sesshoumaru se inclinou para trás, percorrendo com seu robusto braço a parte superior da cadeira. Tinha as coxas abertas. Parecia muito cômodo enquanto sacudia para trás o longo cabelo prateado.
Endiabradamente sensual.
— Suikotsu nunca perdia a calma, por muito feias que ficassem as coisas. Sempre se concentrava no trabalho que estava fazendo até terminá-lo. Morreu contando com o mais profundo respeito de seus irmãos.
Sesshoumaru parecia de verdade sentir falta do seu pai. Ou quem fosse o homem que estivesse usando com o propósito de... Qual era exatamente seu propósito?, perguntou-se. O que ganhava lhe contando todo esse lixo?
Bom, ela estava em sua residência, não?
— E Jaken me disse que a amava profundamente. Rin franziu os lábios.
— Caso eu acredite, a pergunta é óbvia. Se meu pai me amava tanto, por que nunca se incomodou em vir a me conhecer?
— É algo complicado.
— Sim, é difícil chegar até onde vive sua filha, estender a mão e lhe dizer seu nome. É realmente penoso. — Cruzou a residência, só para encontrar-se de repente junto à cama. colocou-se imediatamente em outra parte.
— E a que vem toda essa retórica dos guerreiros? Ele também pertencia à máfia?
— Máfia? Não somos da máfia, Rin.
— Então só são assassinos independentes e traficantes de drogas? Hmm..., pensando-o bem, talvez a diversificação é uma boa estratégia de negócios. E necessitam muitíssimo dinheiro para manter uma casa como esta e encher a de obras de arte que deveriam estar no Museu Metropolitano.
— Suikotsu herdou seu dinheiro e era muito bom administrando-o. — Sesshoumaru inclinou a cabeça para trás, olhando para cima
— Como filha dele, agora tudo pertence a você.
Ela entrecerrou os olhos.
— Ah, sim?
Ele assentiu.
É um mentiroso, pensou Rin.
— E onde está o testamento? Onde está o testamento que me diga que papéis devo assinar? Espera, me deixe adivinhar, não se pagaram os direitos de sucessão, durante os últimos trinta anos. — esfregou os doloridos olhos.
— Sabe o que, Sesshoumaru? Não tem que mentir para me levar a cama. Por muito que me envergonhe admiti-lo, só o que tem que fazer é pedir.
Respirou profundamente com um ar de tristeza. Até agora não se deu conta de que uma pequena parte dela tinha acreditado que obteria algumas respostas. Finalmente.
Mas, claro, o desespero pode fazer cair a qualquer no mais espantoso ridículo.
— Escuta, vou daqui. Isto só foi...
Sesshoumaru se situou na frente dela em um abrir e fechar de olhos. — Não posso deixá-la partir.
O medo lhe acelerou o coração, mas tratou de fingir que não o sentia.
— Não pode me obrigar a ficar.
O homem lhe sujeitou o rosto com suas mãos. Rin retrocedeu bruscamente, mas ele não a soltou.
Acariciou-lhe a bochecha com a ponta do polegar. Cada vez que se aproximava muito, ela ficava sem palavras, e tinha acontecido de novo. Sentiu que seu corpo se balançava para ele.
— Não vou mentir — disse Sesshoumaru — Seu pai me enviou para buscar você porque vai necessitar de minha ajuda. Confia em mim. Ela se retirou de um puxão.
— Não quero escutar essa palavra de seus lábios.
Ali estava ele, um criminoso que quase tinha matado a um policial diante de seus olhos, esperando que acreditasse em uma palavra que ela sabia que era falsa.
Enquanto acariciava suas bochechas como um amante. Devia pensar que era estúpida.
— Escuta, vi meus documentos. — A voz não tremeu. — Minha certidão de nascimento diz «pai desconhecido», mas havia uma nota no registro. Minha mãe disse a uma enfermeira na sala de partos que ele havia falecido. Não pôde dar seu nome porque nesse instante entrou em choque por causa de uma hemorragia e, morreu.
— Lamento-o, mas isso não é certo.
— Lamenta-o. Acredito que sim.
— Não estou brincando com você...
— É obvio que sim! Deus, não sei como pude pensar que podia conhecer meus pais, embora fosse pela boca de outro... — Olhou-o fixamente com desgosto.
— É muito cruel.
Ele soltou uma maldição com um som frustrado e desagradável.
— Não sei como fazer que me acredite.
— Não se incomode em tentá-lo. Não tem nenhuma credibilidade. — Agarrou sua bolsa .
— Demônios, talvez seja melhor assim. Quase prefiro que tenha morrido ou que era um criminoso. Ou que vivíamos na mesma cidade e nunca veio me ver, que nem sequer sentiu curiosidade por saber como eu era.
— Ele sabia. — A voz do Sesshoumaru soava muito perto outra vez.
— Ele a conhecia.
Ela se voltou. Ele estava tão próximo que a perturbou com seu tamanho.
Rin deu um salto para trás.
— Já basta com isso.
— Ele a conhecia.
— Deixa de dizer isso!
— Seu pai a conhecia — gritou Sesshoumaru.
— Então por que não me queria? — gritou ela a sua vez. Sesshoumaru deu um coice.
— Queria você. Cuidava de você. Durante toda sua vida esteve perto de você.
Ela fechou os olhos, abraçando seu próprio corpo. Não podia acreditar que sentisse a tentação de cair sob seu feitiço de novo. — Rin, me olhe, por favor.
Ela abriu as pálpebras.
— Me dê sua mão — disse Sesshoumaru
— Dêem-me isso
Ao não obter resposta, ele colocou a mão no peito, sobre o coração.
— Por minha honra. Não menti.
Ficou completamente quieto, como se quisesse lhe dar a oportunidade de ler cada matiz de seu rosto e de seu corpo.
— É possível que seja verdade? — perguntou-se.
— Ele a amava, Rin.
Não acredito nada. Não acredito nada. Não...
— Então por que não veio me ver alguma vez? — sussurrou. — Esperava que não tivesse que conhecê-lo. Que não tivesse que viver a classe de vida que ele vivia. — Sesshoumaru a olhou fixamente
— Mas se acabou seu tempo.
Houve um longo silencio.
— Quem era meu pai? — perguntou em voz baixa.
— Era o mesmo que eu.
E então, Sesshoumaru abriu a boca. Presas. Tinha presas.
O horror lhe encolheu a pele. Empurrou-o com força.
— Maldito louco!
— Rin, me escute...
— Para que me diga que é um maldito vampiro? — riu dele, empurrando seu peito com as mãos
— Maldito louco! Maldito... louco! Se quer representar seus fantasias, faça-o com qualquer outro.
— Seu pai...
Deu-lhe uma bofetada, com força. Justo na bochecha.
— Não se atreva. Nem sequer tente. — Doía-lhe a mão, esfregou-a contra seu ventre. Queria chorar, porque se sentia ferida. Porque tinha tratado de feri-lo, e não parecia afetado pelo golpe que lhe havia dado
— Por Deus, quase cheguei a acreditar, quase — gemeu.
— Mas teve que bancar o esperto e mostrar esses dentes falsos.
— São reais. Olha-os mais de perto.
A residência se viu alagada com a luz de muitas velas... sem que ninguém as acendesse.
De repente, ficou sem respiração, sentindo que nada era o que parecia ser. Já não havia regras. A realidade se esfumava para uma dimensão diferente.
Cruzou a residência a toda pressa.
Ele a alcançou na porta, mas ela se inclinou, cobrindo seu rosto com as mãos, como se estivesse rezando uma oração para mantê-lo afastado.
— Não se aproxime . — Agarrou a maçaneta e empurrou com todo o peso de seu corpo. A porta não se moveu.
Sentiu que o pânico corria por suas veias como se fosse gasolina espessa.
— Rin...
— Deixe-me sair! — A maçaneta da porta lhe arranhou a pele quando afastou-se dele.
Quando a mão dele posou sobre seu ombro, gritou:
— Não me toque!
Separou-se de um salto. Deu voltas bruscas ao redor da sala. Sesshoumaru a seguiu, aproximando-se lenta e inexoravelmente. — Eu a ajudarei.
— Deixe-me em paz!
Esquivou-se com um rápido movimento e voltou a correr para a porta. Esta vez se abriu inclusive antes que pudesse agarrar o maçaneta.
Como se ele o tivesse desejado, voltou a olhá-lo com horror. — Isto não é real.
Subiu a escada a toda velocidade, mas só tropeçou uma vez. Quando tentou manipular a mola do quadro, quebrou-se uma unha, mas finalmente o abriu. Atravessou correndo o salão, saiu precipitadamente da casa e...
Sesshoumaru estava ali, parado na grama da parte dianteira. Rin patinou ao deter-se em seco.
O terror deslizou por seu corpo, o medo e a incredulidade lhe oprimiram o coração. Sentiu que sua mente se afundava na loucura. — Não! — Tratou de fugir de novo, correndo em qualquer direção sempre que se afastava dele.
Ouviu-o atrás dela e tratou de alcançar maior velocidade. Correu até ficar sem fôlego, até que o esgotamento a cegou, suas pernas não lhe responderam. Não pôde continuar, e ele ainda continuava ali.
Caiu sobre a grama, soluçando.
Encolhendo-se, como estivesse se defendendo de uma surra, começou a chorar.
Quando ele a levantou, não resistiu.
Para que? Se aquilo era um sonho, acabaria por despertar. E se fosse verdade...
Necessitaria muitas mais explicações que as que acabava de lhe dar.
Enquanto Sesshoumaru levava em seus braços a Rin de volta ao aposento, pôde perceber o medo, a confusão que emanavam dela como ondas de angústia. Depositou-a sobre a cama, cobrindo-a com um lençol. Logo se sentou na cadeira, pensando que ela apreciaria um pouco de espaço.
Após um momento, a mulher se virou, e o guerreiro sentiu seus olhos fixos nele.
— Estou esperando que termine este pesadelo. A que soe o alarme do despertador — disse com voz rouca. — Mas isso não vai passar, verdade?
Ele negou com a cabeça.
— Como é possível? Como...? — esclareceu a garganta
— Vampiros?
— Só somos uma espécie diferente.
— Chupasangues. Assassinos.
— Melhor falar de minoria perseguida. Era a razão pela qual seu pai esperava que não sofresse a mudança.
— Mudança?
Ele assentiu lugubremente.
— Meu deus. — levou a mão à boca como se fosse vomitar
— Não me diga que vou A...
Uma onda de pânico a assaltou, invadindo a residência como uma brisa que chegou a ele em uma fria rajada. Não podia suportar sua angústia e queria fazer algo para aliviá-la, embora a compaixão não se encontrava entre suas virtudes.
Se houvesse algo contra o que pudesse lutar para ajudá-la... Mas, de momento, não havia nada. Absolutamente nada. A verdade não era um objetivo que pudesse eliminar. E não era seu inimigo, apesar de que lhe fizesse mal. Só... era.
Ficou de pé e se aproximou da cama. Ao ver que não fugia, sentou-se. As lágrimas que se deslizavam por suas bochechas cheiravam a chuva da primavera.
— O que vai acontecer comigo? — murmurou.
O desespero em sua voz sugeria que falava com Deus e não com ele. Mas em qualquer caso respondeu:
— Sua transformação está muito próxima. A todos chega em algum momento ao redor de nosso vigésimo quinto aniversário. Ensinarei você a se cuidar e o que deve fazer.
— Deus santo...
— Quando terminar, precisará beber. Ela se engasgou e se levantou de um salto.
— Não vou matar a ninguém!
— As coisas não são assim. Necessita o sangue de um vampiro macho. Isso é tudo.
— Isso é tudo — repetiu ela em tom apagado.
— Os humanos não são nossas vítimas. Isso são contos de velhas.
— Nunca matou a um... humano?
— Não para beber dele — respondeu, evitando dar uma resposta direta. — Há alguns vampiros que sim o fazem, mas a força não dura muito. Para não adoecer, temos que nos alimentar de nossa própria raça.
— Faz que soe muito normal.
— E o é.
Ela guardou silêncio. E então, pareceu dar-se conta da situação.
— Você deixará que eu...
— Beberá de mim. Quando chegar o momento.
A mulher emitiu um som afogado, como se quisesse gritar mas um cheiro nauseabundo o tivesse impedido.
— Rin, sei que é difícil...
— Não sabe.
— Porque eu também o sofri. Ela ficou olhando-o.
— Também soube assim, de repente?
Não o estava desafiando. Em realidade, só esperava ter algo em comum com alguém. Não importa quem fosse.
— Sabia quem eram meus pais — disse ele, — mas haviam falecido quando chegou minha transição. Eu estava só e não sabia o que esperar. Por isso compreendo sua confusão.
Seu corpo caiu sobre os travesseiros.
— Minha mãe também o era?
— Ela era humana, por isso Suikotsu me contou. Sabe-se de vampiros que procriam com eles, embora seja muito raro que a criança sobreviva.
— Posso deter a mudança? Posso evitar que isto ocorra?
Ele moveu a cabeça negativamente.
— Dói?
— Vais sentir...
— Não a mim. Farei mal a você?
Sesshoumaru dissimulou a surpresa. Ninguém se preocupava com ele. Vampiros e humanos o temiam por igual. Sua raça o venerava, mas ninguém se preocupou nunca por ele. Não sabia o que fazer com esse sentimento.
— Não. Não me fará mal.
— Poderia matá-lo?
— Não a deixarei fazê-lo.
— Promete-me isso? — disse ela com obrigação, sentando-se de novo e agarrando o braço do vampiro.
Não podia acreditar que estivesse jurando proteger a si mesmo porque ela o pedia.
— Prometo-lhe isso. — Estendeu uma mão para cobrir as dela, mas se deteve antes de tocá-la.
— Quando ocorrerá?
— Não posso dizer com segurança, mas logo.
Ela o soltou, recostando-se sobre os travesseiros. Logo assumiu uma posição fetal, lhe dando as costas.
— Talvez desperte — murmurou. — Talvez ainda desperte.
1 Maneirismo foi um estilo e um movimento artístico que se desenvolveu na Europa aproximadamente entre 1515 e 1600 [1] como uma revisão dos valores clássicos e naturalistas prestigiados pelo Humanismo renascentista e cristalizados na Alta Renascença. O Maneirismo é mais estudado em suas manifestações na pintura, escultura e arquitetura da Itália, onde se originou, mas teve impacto também sobre as outras artes e influenciou a cultura de praticamente todas as nações européias, deixando traços até nas suas colônias da América e no Oriente.
A palavra deriva do termo italiano maniera, "maneira", indicando o estilo pessoal de determinado autor, e em sua origem no século XVI foi usado por Giorgio Vasari com conotações positivas, significando graça, leveza e sofisticação.
