SANTANA ENCONTRA SANTANA

O teatro estava lotado. Venderam até ingressos extras, desses que a pessoa sabe que vai ficar de pé ao longo do espetáculo a menos que alguém não compareça e a cadeira possa ser ocupada. São coisas da Broadway que eu nunca entendi, mas era uma prática comum e extremamente controlada. Rachel comentou, entre um respiro e outro, que os ingressos da semana de estréia e a seguinte estavam esgotados para "Across The Universe" e a peça já tinha garantido casa cheia até a primeira semana de fevereiro. Foram feitos dois ensaios gerais abertos, mas fui a nenhum. Disse que preferia guardar a minha surpresa para a ocasião. Os comentários iniciais foram muito elogiosos e já estavam projetando, inclusive, dois ou três anos de peça em cartaz.

Conversei com alguns agentes e disseram que o elenco ia terminar esta mesma temporada ganhando 10 mil dólares/mês no mínimo e que eu deveria ficar atenta com a janela de revisão de valores contratuais. Acabei me interando de algumas coisas sobre o mercado, mas o certo mesmo é que Rachel e Mike deveriam começar a pensar na contratação de profissionais da área porque eu não tinha como mais brincar de administrar. O que podia fazer era acompanhar o processo, como uma vigilante, para evitar que fossem roubados.

As luzes piscaram anunciando que a peça começaria em cinco minutos e as pessoas deveriam se acomodar. Eu estava na quarta fila no centro do palco ao lado de Johnny (Mike estava encenando a própria peça) e uma cadeira vazia ao meu lado que deveria ser ocupada por Quinn. As pessoas tinham uma coisa com a primeira fila, uma questão que era pura tolice. Dependendo do teatro, a primeira fila dava torcicolo e você ainda saía cuspido. No caso da maior sala do Public, a quarta fila era a melhor.

Quinn chegou vinda dos bastidores com o rosto vermelho e as roupas meio torcidas. Sentou-se ao meu lado com um sorriso cretino no rosto. Sem mesmo que pedisse, ofereci um chiclete. Seria desagradável ficar uma hora e meia ao lado dela sentindo cheiro de Rachel.

"Ela está mais calma agora" – pegou o chiclete – "tenho certeza de que vai arrasar."

"Não duvido!"

As luzes de apagaram, as cortinas se abriram e a peça começou com um monólogo de Steve Zappa, o Jude da peça. O que se seguiu depois foi um espetáculo emocionante de cores, dança, música e interpretações. Além dos sete atores principais, havia o grupo de 10 bailarinos/atores que estavam ali exclusivamente para fazer as composições de cena e eventuais corais. Rachel? Não é que estivesse sendo irmã orgulhosa, mas ela foi a melhor atriz. Definitivamente era a melhor cantora. Acho que ela só não pegou o papel de Lucy porque a identificação com Sadie era muito maior ela poderia atuar muito melhor desta forma, uma vez que Rachel era sim uma atriz ainda inexperiente... e a personagem cantava mais na adaptação teatral. Algo que foi feito justo para aproveitar melhor as qualidades dela. "Across The Universe" me fez ver como uma produção bem-feita podia valorizar ou, pelo menos, não estragar os clássicos dos Beatles. Lembrei envergonhada de nossas tentativas de cantar Beatles em Lima. Ainda bem que nunca nos atrevemos a levar isso adiante numa competição.

Rachel arrancou lágrimas minhas no solo de "For No One". A primeira vez que a ouvi cantar no teatro acapela, já tinha achado lindo. Mas com o envolvimento da história, as luzes, a banda, o cenário... a dramaticidade ficou dez vezes maior. Foi um momento que Quinn agarrou a minha mão com força. Ela olhava fixamente para Rachel com o rosto em orgulho e lágrimas. Foi quando vi na mão direita um desses anéis de ouro de compromisso. O que eu havia perdido? Rachel também foi excelente em "Wky Don't We Do It In The Road", soberba na interpretação de "A Day in The Life" junto com Steve. O dueto com Lucas Hibbs (Jojo) em "Oh! Darling" ficou bacana, mas "Don't Let Me Down" ganhou ares épicos. Só achei que o desempenho da minha irmã em "Helter Skelter" foi abaixo. Ela não conseguiu dar a fúria necessária à música, algo como Janis Joplin poderia fazer, ou mesmo a atriz original do filme. Era uma música complicada mesmo que não se encaixava bem na voz doce, mesmo que muito potente, de Rachel. Bono Vox foi um fiasco quando tentou gravar "Helter Skelter", se servia de consolo. No resto das canções, ou Rachel participava da cena, ou fazia o coral ou algumas linhas de solo.

Não achei nada demais a cena de beijo de Rachel com Sarah Kleist, a Prudence. Minha irmã fazia uma cena bem mais quente com Lucas que rolava até mão no seio e uma pegada nada sutil na bunda durante uma insinuação de cena de sexo. Nem acho que a ciumeira de Quinn, que resmungou no beijo, foi pelo fato de Sarah ser uma mulher. Rachel comentava muitas coisas dos bastidores da peça, mas não falava muita coisa sobre Sarah especificamente. Não acreditava que ela tivesse entrado no personagem mais que deveria. Pra mim era Quinn que estava vendo demais. "Across The Universe" tinha algumas ousadias nesse sentido. A cena de Rachel e Lucas era cheia de paixão, quase explosiva, mas não havia nudez. Isso acontecia parcialmente entre Steve e Heather numa cena de amor entre Jude e Lucy. Era um momento sensual, mas de bom gosto que fazia todo sentido a história. "Across The Universe", a peça teatral, terminava épica com "All You Need Is Love" com Steve, Rachel, Sarah e Lucas, emendando em seguida por "Lucy In The Sky With Diamonds".

Foi uma explosão de aplausos. Eu estava emocionada por Rachel, pela peça bem-feita, pela reação muito positiva da platéia ao longo de toda a história. Feliz por Quinn, que fez parte da equipe de produção de "Across The Universe", apesar de ter que fazer outros trabalhos durante o processo. Dez minutos depois de encerrada a estréia bem-sucedida, Quinn, Johnny e eu fomos até os camarins. Encontramos o elenco, equipe e outras pessoas abrindo garrafas de espumante numa celebração entusiasmada. Rachel, ainda em trajes de Sadie, era abraçada por todos enquanto tentava equilibrar o líquido em sua taça. Johnny e eu ficamos mais no canto, só a observar. Chegaria a nossa vez. Quinn recebeu um senhor beijo de Rachel, desses que mereceu até torcida de quem estava por perto. Era um dia de glória para todos ali. Quando as coisas se acalmaram, Johnny e eu nos aproximamos. Meu amigo recebeu um abraço muito carinhoso e um sorriso grato, sincero.

"Você não esteve tão ruim. Deu pro gasto, hobbit."

"Fico feliz por não ter te entediado" – nos abraçamos e eu aproveitei a oportunidade de sussurrar no ouvido dela.

"Você é a pessoa mais incrível do mundo, Ray. Obrigada por estar em minha vida."

"Eu te amo tanto..." – ela também disse em meu ouvido e nos afastamos com nossos olhos marejados.

As críticas da peça foram positivas. Os jornais não deram notas máximas e apontaram defeitos que, sinceramente, passaram batidos para mim e, acho eu, para o público comum. Jornalistas são assim mesmo: falam mais para o nicho que eles estão inseridos do que para o público comum. Rachel recebeu destaque honroso e algumas resenhas arriscaram falar em indicações ao Tony de atriz coadjuvante. Não acho que tal insinuação a fez bem... minha irmã saiu gritando quando leu a frase, me atrapalhando no meu wii fit que papi havia despachado lá em casa depois de um ano em Nova York. Falando nos meus pais, eles assistiram "Across The Universe" semanas depois da estréia. Shelby estava particularmente feliz: ela se viu realizada com o sucesso de Rachel: algo que ela nunca conseguiu alcançar na experiência dela na cidade.

...

O semestre e as aulas recomeçaram em meados de janeiro depois do bom recesso que tivemos entre as festas de fim de ano e as duas semanas de férias de inverno. Nova York estava branca. Era bom ter novas aulas e a minha rotina quase toda restabelecida. Resolvi dar ouvidos a Rachel e pisei mais no freio durante o semestre. Peguei quatro matérias, a monitoria e tinha um respiro para fazer atividades mais saudáveis, como ir a uma academia e ao coral comunitário. Matt, Lucy e eu só tínhamos uma classe em comum neste semestre. Tinha duas com Andrew e Izabella. De qualquer forma, só não fazia uma aula com alguns dos meus amigos mais próximos da faculdade, além da monitoria de Economia 1.

No final da primeira semana, finalmente tive coragem de ficar a sós com Matt para uma conversa franca. Ele estava no dormitório dele lendo uma revista e fumando enquanto o companheiro de quarto estava bem envolvido em atividades divertidas com uma garota. Verdade que não era incomum sexo acontecer nos dormitórios com um terceiro elemento de espectador. Sexo grupal não fazia o meu estilo e esse tipo de fetiche não faziam meu estilo.

"A gente pode conversar lá fora?"

"Claro! Terraço?" – todo prédio mais antigo de Nova York, inclusive dos de Columbia.

A vista do terraço ali não era grande coisa. Raramente era, a não ser que você estivesse em um lugar bem mais alto. Mas havia ali cadeiras e um guarda sol que os estudantes do bloco trocavam a cada ano. O dia estava frio pra caramba. Eu estava embrulhada em luvas, gorro e casacos pesados, mas isso não parecia afetar Matt, vestido apenas num casaco razoável e calça jeans. Sentei numa das cadeiras, mas ele permaneceu em pé, ao meu lado, terminando o cigarro.

"Está a fim de dar um tapa? Tenho mais erva."

"Não acha que é muito cedo para se ficar chapado?"

"Hoje é sexta-feira... a gente deveria ficar chapado desde as primeiras horas do dia."

"Você precisa se controlar, Matt. Uma vez ou outra é bacana, mas você está usando com muita freqüência. Daqui a pouco você está se detonando."

"Falou a minha mãe!" – me ironizou jogando o toco do cigarro no chão do canto do terraço – "Você não me chamou para conversar sobre essa merda, não foi?"

"Não... Eu só queria te dar uma consideração... talvez compartilhar uma historinha. Você sabia que já estive em uma relação aberta com duas outras pessoas ao mesmo tempo: Brittany e Puck?"

"Qual é? Você teve algo assim com o quê? 15 anos? Isso é ridículo!"

"Na verdade, foi. Nessa idade eu tive minha primeira relação sexual. Foi um desastre! Quem me ajudou a superar o trauma foi a minha melhor amiga, Brittany. A gente começou a transar durante esse meu processo de cura. Quando achei que estava mais confiante, quis experimentar com um homem de novo e Puck era um cara da escola que estava sempre disponível. Ele foi mais gentil do que poderia imaginar. Me fez redescobrir que eu gostava de homens".

"Eu posso até te visualizar fazendo sexo a três, mas trepar com mulher? Não pensava que você e sua irmã jogavam no mesmo time! Você sempre me pareceu tão... hetero".

"Eu também sinto atração por mulheres, apesar de Brittany ser a minha única até hoje. Ela ainda é a única mulher que me faz ser gay, pra dizer a verdade. Hoje eu não tenho tantos grilos quanto a minha sexualidade, mas aquela era uma época estranha. Era uma líder de torcida popular que precisava lidar com pressões que hoje parecem estúpidas. Enfim, o que aconteceu é que para manter uma reputação que me beneficiava, passei a ter uma relação com os dois ao mesmo tempo: Puck em público, Brittany nos bastidores. Foi a melhor coisa que poderia me acontecer. Tirando uma experiência em Londres e um equívoco na escola, fui fiel aos dois. Bem mais do que eles foram a mim. Como te disse: relação aberta. Funcionou com nós três por pouco mais de dois anos. Depois, em Stuyvesant, namorei firme um cara chamado Paul ao longo do ano e isso me fez pensar como foi cansativo investir numa relação naqueles moldes. Eu não quero isso para mim nessa etapa da vida. Não quero estar em uma relação e me sentir presa. Até pensei que poderíamos ter algo assim, mas o olho roxo Andrew deixou claro de que não vai acontecer."

"Você quer ficar com duas pessoas ao mesmo tempo? É isso mesmo? Desculpe, Santana, mas não aceito. Não sou homem de dividir. Não ligo para formalidades, mas ou você está comigo ou não está."

"Exatamente! Eu não teria problemas em ficar contigo, mas não quero estar contigo. Você tem dificuldade em entender a diferença. Também tem outros pontos?"

"Quais?" – falou irritado, quase agressivo.

"A gente se dá muito bem na cama e somos amigos. Mas você tem grande potencial para me fazer mal e, pior, de me amarrar a você de um jeito ruim. Eu não preciso disso. É por isso que estou rompendo esse... seja lá o que tivemos."

"Ah, você deveria se lascar... como se eu tivesse perdendo grande coisa" – só faltou cuspir no chão. Eu não estava nem aí mais para Matt. Apenas virei as costas e o deixei sozinho esbravejando.

Saí do prédio me sentido leve. Rachel tinha razão sobre Matt e sobre me envolver emocionalmente e até sexualmente com viciados. Ele estava se afundando em algo ruim e era mais sério do que se podia dimensionar. Não estava abandonando um amigo, mas sim protegendo a minha sanidade. E quando ele desse uma abertura, eu o ajudaria.

Vi Andrew em direção à biblioteca. Nos cumprimentamos e eu fiquei parada o observando entrar no prédio. Quem sabe num futuro próximo algo poderia rolar entre nós dois? Eu não faria a menor objeção. Olhei para o relógio. Estava atrasada para o primeiro compromisso daquilo que dizia ser minha aula anti-stress. Precisei correr e fiz uma nota mental sobre a necessidade de recuperar minha forma de atleta o mais rápido possível na academia. Entrei na sala com isolamento acústico dentro do instituto de música da universidade. Havia 23 pessoas nela, contando com o professor Tomine.

"Desculpe!" – fui me sentando numa cadeira.

"Você é?" – o professor checou a lista.

"Santana Berry-Lopez."

"Certo..." – anotou alguma coisa, acho que presença – "muito bem pessoal, os mais antigos sabem que este coral aqui adota linha mais performática e pop. Então quem estiver interessado em algo erudito, procure o professor Holland aqui mesmo às quintas-feiras" – todos permaneceram nos lugares – "Ótimo. Fico feliz que todos da turma saibam interpretar uma informação simples. Vamos falar neste mês das novas divas que podem ser consideradas herdeiras da Motown. Alguém aí sabe falar de algo interessante sobre a Amy Winehouse que não seja os escândalos?"

Meu celular vibrou. Era uma mensagem de texto de Brittany.

"S, vou a NY com a B-on-c mês que vem. Não é legal?"

Não pude evitar o sorriso. Olhei para o professor Tomine e para meus colegas. Eu iria arrebentar com esses nerds!