Capítulo 20 – Maktub
Rumple encarou a linha vermelha abaixo de seus pés que delimitava a fronteira da cidade, Regina estava ao seu lado, assim como Selene. Era tardezinha, mas o céu já havia escurecido e não havia lua no céu, de modo que o que iluminava todos eles eram os faróis dos carros de Regina e Rumple acesos.
"Você está pronta?" Rumple perguntou, depois de alguns segundos em silencio e olhou para o outro lado da fronteira da cidade, Regina assentiu e esfregou uma mão na outra, na tentativa de aquecê-las e seguiu as instruções do homem, que tinha suas mãos estendidas diante da linha vermelha.
Uma cortina de energia foi criada pela magia dos dois e tomou conta de toda da rua, até alcançar os céus. Todos ali presentes acompanharam com o olhar a cortina transparente que estava sendo criada, era possível ver uma luz, quase fraca, que aos poucos se extinguia. Rumple abaixou as mãos e olhou para Regina ao seu lado, que também abaixou as mãos e o encarou em silencio.
Selene era a única deles que parecia verdadeiramente preocupada, eles tinham pouco menos de vinte dias até a lua cheia e cada vez que ela pensava nisso, seu coração batia mais depressa, com mais medo do que antes, era difícil se acalmar, quando tudo ao seu redor é incerto e você não tem controle sobre nada na sua vida. No caso de Selene, era mais difícil ainda se controlar, pois havia uma vida dentro de si, que dependia completamente dela.
Rumple havia sugerido que fosse criada uma barreira na fronteira, para impedir que qualquer pessoa entrasse na cidade, isso impediria que Marōn avançasse pela cidade, mas isso não impediria definitivamente, Rumple sabia muito bem, apenas o atrasaria. O demônio acharia em breve uma forma de entrar na cidade, uma forma de ter Selene novamente em suas mãos ou pelo menos ele tentaria.
"Isso vai impedir que Ruby se transforme nas noites de lua cheia." Rumple disse novamente, entregando a Regina um pequeno frasco contendo uma poção de cor prateada. "Mas ela é temporária, porém, mais confiável do que a capa. Uma vez ela tomando, isso vai impedir a transformação durante todos os dias da próxima lua cheia, de modo que ela só deve tomar no primeiro dia da lua." Ele continuou, Regina pegou o frasco em suas mãos e o examinou de perto.
"Você quer que eu entregue a ela, é isso?" perguntou Regina e Rumple assentiu. "Certo, eu faço isso ainda hoje. Acho que o feitiço na fronteira vai ser capaz detê-lo?" Regina continuou, olhando para a linha vermelha e depois para o homem, que acompanhava o seu olhar.
"Sim, será." Ele respondeu, mas sua resposta pareceu vaga e não passou muita confiança. Selene se aproximou dos dois e Rumple lhe deu um falso sorriso, tentando passar o máximo de segurança para a garota.
"Vocês se importam se eu esperar no carro? Está um pouco frio." Ela perguntou e Regina confirmou com a cabeça e observou a garota caminhar até o carro e fechar a porta assim que entrou.
A rainha virou sua atenção então ao homem, que tinha seu olhar voltado a Selene.
"Tudo o que eu fiz desde o começo." Rumple começou a dizer, seu olhar ainda na direção do carro de Regina, onde Selene se encontrava sentada no banco do passageiro. O olhar da garota estava vagando pelo céu, de modo que ela não deu atenção ao fato de estar sendo observada. "Foi para trazer meu filho de volta." Ele continuou. "E eu fui tão longe, me afundei na magia negra, me afundei em sangue de tantos inocentes e te transformei na mais cruel das criaturas."
Agora ele virou sua atenção a Regina, que ouvia atentamente a suas palavras, sem dizer nada. Regina permitiu que sua mente vagasse para longe, para os tempos na floresta encantada, quando Rumple a treinou, quando ela se permitiu ser dominada pela raiva que ela tinha em si. Ela foi uma marionete nas mãos de Rumple, ele a usou de todas as formas, se aproveitou do medo que ela tinha, do ódio que ela carregava, da vingança cega que ela queria fazer a todo o custo.
Ele pensou que isso o levaria até seu filho, ele jurou estar no caminho certo, jurou que todos aqueles que ele havia manipulado, modificado, levado para o caminho das trevas, eram seus peões e que ele teria sucesso na sua busca. Agora porem, ele sabia melhor, ele também era um dos peões, todos os seus movimentos eram controlados por uma força maior.
"Há alguns dias nós nos encontramos para caçar a estrela que hoje tentamos proteger." Ele disse depois de alguns segundos afundados em seus pensamentos. "Nós mudamos tanto em tão pouco tempo, não é mesmo?" continuou e havia esse sorriso em seus lábios, que Regina por algum motivo se sentiu forçada a retribuir.
"Eu quero pensar que voltamos a ser quem um dia fomos." Respondeu Regina. "Que nossos corações tomados por trevas achou uma luz." Continuou a rainha e seu olhar voltou para Selene, que ainda fitava o céu, da janela do carro. "Não é incrível como um desejo pode mudar tudo?"
"Mudar não." respondeu Rumple, acompanhando o olhar da rainha. "Não se pode mudar aquilo que já está escrito nas estrelas, Regina." Completou e fez um aceno com a cabeça e desejou a rainha um boa noite, Regina o viu caminhar em direção ao seu carro, passando antes por Selene e lhe desejando boa noite.
O homem entrou no carro e seguiu em direção a cidade e Regina novamente esfregou uma mão na outra e caminhou até seu carro, sentando-se na frente da direção. Selene ainda fitava o céu, não estava tão estrelado assim, mas Regina imaginou que a garota tinha seus motivos para observa-lo.
Ela ligou o carro e as duas seguiram em silencio, o plano era ir até Ruby e entregar a poção. A viagem não foi longa e em poucos minutos as duas se encontraram na Granny's, Selene foi a primeira a descer, encarou o restaurante, que se encontrava fechado e então olhou para Regina, que estava agora ao seu lado.
"Eu acho melhor que eu fique no carro." Selene respondeu, abrindo novamente a porta do carro e voltando-se a sentar no banco, Regina se inclinou na janela e encarou a garota, que tinha um olhar preocupado.
"Você tem medo de ver Belle, não é mesmo?" Perguntou Regina e Selene assentiu. "Bem, eu não vou te forçar a nada. Você tem seus motivos, eu vou sozinha então, não devo demorar." Continuou a rainha e caminhou em direção a pensão da vovó, já que o restaurante se encontrava fechado.
Ela foi atendida por uma mocinha, que se encontrava na recepção, ela pediu que Regina esperasse um momento e se afastou, para chamar Ruby. Regina esperou então e minutos depois Ruby apareceu na recepção, vestindo um vestido preto, completamente justo em seu corpo, seus cabelos estavam perfeitamente penteados e sua maquiagem era impecável.
"Aconteceu alguma coisa?" Ela perguntou em um tom preocupado e Regina negou com a cabeça, acalmando o coração da garota.
"Não aconteceu." Começou a responder Regina. "Mas pode acontecer." Continuou e a preocupação da garota voltou com essa resposta. "Eu tenho muita coisa para te explicar, mas vejo que você está com pressa."
"Na verdade, eu tenho algum tempo, eu estou esperando Belle se arrumar e ainda está cedo." Respondeu Ruby. "Por que não vamos conversar na sala de estar?" Continuou e seguiu em direção a um corredor, sendo seguida por Regina, as duas viraram em um segundo corredor e entraram em um grande cômodo, com varias poltronas e uma lareira, que se encontrava apagada.
Os minutos que se seguiram, Regina explicou para a garota tudo o que podia e que havia para se explicar, Ruby escutou com atenção cada detalhe e se espantou com muitos deles. Como por exemplo, o fato da destruição e seu subsequente acidente ter sido causado por uma estrela, ela podia se lembrar bem da estrela cadente, podia se lembrar também do pedido que ela havia feito a ela.
Ela havia desejado que fosse lhe trazido a felicidade e ela veio, na forma de Belle, na forma dessa sensação de sentir completa, de se sentir livre, mesmo estando tão comprometida a alguém. Ela então se lembrou do livro, que ela e Belle haviam encontrado e que magicamente havia contado a elas duas a historia de suas vidas.
"Eu vou usar a poção, Regina. Não se preocupe." Respondeu Ruby e Regina entregou a ela o pequeno frasco, observando em seguida Ruby encarar seu conteúdo. "Tem certeza que é seguro?" Perguntou ela, em um tom preocupado, Regina riu e assegurou a garota de que não havia nada do que se preocupar.
A rainha então se despediu de Ruby, que a acompanhou até a saída da pensão, se despedindo em seguida da mulher e observando enquanto ela caminhava em direção ao seu carro. Regina havia demorado pouco mais de meia hora, de modo que Selene agora se encontrava no banco de trás, completamente adormecida, Regina não a acordou, apenas ligou o carro e dirigiu em silencio, pelas ruas solitárias de Storybrooke.
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Para a surpresa de Regina, ao chegar na rua de sua casa, ela encontrou o fusca de Emma estacionado em frente a sua casa, seu coração disparou dentro de seu peito e ela sorriu para si mesma. Estacionou o carro na garagem de sua casa e acordou Selene, que notou a alegria estampada em seu rosto.
"O que eu perdi?" Perguntou a garota, ainda sonolenta e desceu do carro, seguindo Regina em silencio.
As duas se encontraram na entrada da mansão, Emma e Henry, sentados nos degraus da entrada principal. Henry tinha em suas mãos duas caixas de pizza e parecia verdadeiramente aborrecido, Emma por sua vez segurava três latas de refrigerante.
"Mãe!" O garoto gritou, assim que Regina se aproximou e colocou então a caixa sobre os degraus e correu em direção de sua mãe, abraçando-a pelas pernas, Regina retribuiu o abraço, mas seu olhar estava voltado para Emma, que sorriu para ela. "Nós estamos aqui há horas!" disse o garoto em um tom frustrado.
"Perdão, meu anjo. Eu tinha que resolver umas coisas." Respondeu Regina.
"Nós trouxemos algumas pizzas e refrigerante." Continuou o garoto, enquanto caminhavam até a entrada onde Emma os esperava.
Emma cumprimentou Regina e Selene observou a reação das duas ao se encontrarem. Era tão explicita a vontade que as duas tinham de se abraçarem e se beijarem, mas elas ficaram apenas se olhando, com certa timidez, mas um sorriso discreto nos lábios.
"Nós não trouxemos refrigerante pra você, porque minha mãe disse que não é bom para o bebê." Continuou Henry, olhando para Selene, que agora direcionava sua atenção para o garoto. "Mas nós podemos fazer um suco, não é mesmo?"
"Podemos sim, com certeza!" respondeu Selene. "Vamos entrar? Aposto que essas pizzas precisam ser esquentadas." Continuou, mas Henry respondeu rapidamente.
"Não precisa, pizza gelada também é ótimo, mas acho que esses refrigerantes precisam de algum gelo." Disse o garoto e Selene se apressou a caminhar até ele e o pegar gentilmente pelo braço, afim deixar suas duas mães a sós.
"Olá, Regina." Emma disse, assim que Henry e Selene entraram na mansão.
"Oi, Emma, desculpa ter feito você esperar." Foi a resposta de Regina, mas Emma não tinha o que desculpar e simplesmente se aproximou da morena e a trouxe para junto de si, roubando-lhe um beijo repleto de saudades.
"Eu passei o resto do dia querendo te ver. Nós precisamos dar um jeito nisso." Emma disse, quebrando o abraço e encarando Regina a sua frente, seus dedos tocaram gentilmente o rosto da morena e contornaram o seu sorriso.
"É, nós temos, não é mesmo?" Respondeu Regina e suas mãos buscaram pelas mãos de Emma. "Que tal se começarmos contando a Henry tudo o que está acontecendo?" Sugeriu Regina e Emma abriu a boca, em sinal de surpresa, mas rapidamente o susto deu lugar a um sorriso e ela se aproximou novamente de Regina, roubando quantos beijos são permitidos no tempo de um abraço.
"Acha que ele está pronto?" Perguntou Emma, sua voz estava carregada por um breve hesitação e preocupação, mas seu olhar era repleto de confiança e segurança.
Regina respondeu com um beijo, leve e breve e olhou para ela em seguida, não eram necessárias palavras, só essa troca de olhar, só esse beijo que selava não apenas seus lábios, mas também um acordo silencioso que elas faziam a cada vez que se viam.
Regina então segurou as mãos de Emma, permitindo que seus dedos se entrelaçassem uns no outro, afim de que esse toque deixasse explicito o quanto essa ligação entre as duas era forte. Elas então caminharam em silencio, juntas, pelos degraus da entrada da mansão, pelo salão de entrada e em direção a cozinha, onde encontraram Selene e Henry, cortando as pizzas e as colocando em vários pratos espalhados pelo balcão da cozinha.
Henry foi o primeiro a levantar o olhar e seu olhar cruzou com o de suas mães, ali, paradas diante da entrada da cozinha, com suas mãos entrelaçadas uma na outra. O garoto sorriu para as duas, ele sabia e sentia o que estava acontecendo e sem pensar duas vezes, sem questionar nada, ele então correu até elas e as tomou em um abraço. Um abraço carregado de amor e de uma aceitação que as duas temeram que jamais acontecesse, mas como dizem os sábios, você não pode mudar o que já está escrito nas estrelas.
