A lua era cheia e o restaurante, lotado.
De onde tantos clientes surgiam, realmente, era pergunta pertinente. Storybrooke sempre parecia tão monótona e cinza. Desinteressante e parada. Apagando por tantas vezes o entusiasmo de Ruby.
E agora, quando a garçonete mais perdia por descanso, a cidade se mostrava discordante. Sempre disposta a antagonizar. E que irritante, barulhenta, agonizante cidade. Lotando o restaurante em uma mísera quinta-feira, borbulhando conversas fúteis e mastigando comidas gordurosas.
Que irritante, barulhenta, agonizante clientela — As crianças pedindo por refis, as mulheres insistindo em saladas e chás e os homens ordenando mais carne e mais cerveja.
Irritante.
Barulhenta.
Agonizante.
Por que era Ruby uma garçonete, afinal, se não era capaz de tolerar ordens arrogantes e cheiros gordurosos? Os talheres tintilando e os pedidos rudes? Qual era o apelo em um trabalho tão estressante como esse? O que rasgara sua mente e seu juízo, quando aceitou por servir de garçonete para sua avó? Para o restaurante? Para a cidade?
Tão patética cidade.
Em completa honestidade, Ruby não conseguia lembrar — não importasse o quanto tentasse — o tempo passado em sua profissão. Sua memória nublava até mesmo suas razões por detrás de tão inconcebível escolha.
Ruby não tinha certeza se estivera em seu perfeito estado de mente quando vestiu pela primeira vez o avental. Quando vestiu, principalmente, sorrisos falsos e simpatia fina. Eles não a mereciam, afinal.
As pessoas daquela cidade. Granny, Tony, as garçonetes trabalhando ao seu lado. Nem Mary Margaret e Emma, com seus insistentes interrogatórios, eram inteiramente merecedoras de seu esforço em civilidade.
Era uma cidade incivil. Desinteressante, nula e morta. Com nada a contribuir para Ruby, senão as constantes dores de cabeça.
E a sua cura.
Oh, Ruby não podia conter-se em sua pele com a grossa impaciência. Tudo o que esperava era o relógio na parede apontar seus ponteiros e a libertar de seu sufoco. Dos pedidos, das ordens, dos clientes e do restaurante. Ruby poderia então despir seu avental pesado e despir seu sorriso cansativo. Livre para buscar seu bem.
Ela poderia abandonar os cheiros e os barulhos e correr para sanar sua praga. Correr, enfim, para a única pessoa na maldita cidade que a receberia com algo além de absoluta monotonia.
Regina era quem a esperava e Regina era quem a curava.
Não só das fisgadas latejantes em suas têmporas e o calor se alastrando por suas veias — mas de seu desvalor. Da sensação incapacitante de ser apenas mais uma, irrelevante, em um oceano de pessoas patéticas e rasas.
Com Regina, Ruby sentia-se alguém. Não mais a garçonete vulgar ou a mascote de um clube. Não mais gerente de lazer e assistente de xerife. Com a Prefeita, Ruby era ela mesma. Leve de suas toneladas. Leve de suas obrigações com Granny, com Mary Margaret, e com Emma.
Regina, como mágica, fazia nada mais importar e tudo cair em pó. Regina era sua cura, não somente para a enfermidade corroendo seu corpo, mas para sua mente a lhe deixar convencer de sua invalidez.
E como era insistente, seu corpo e sua mente. Em luta com o que quer que lhe reste. Um terceiro elemento qualquer, pondo-se em oposição às forças lhe querendo ver ao chão. Um único ponto em si que emergia das profundezas de sua solidão e declarava guerra.
Era por isso seu desequilíbrio. A fulminante sensação de que seu mundo caía e erguia-se, completamente diferente. Era o terceiro elemento — jazido ainda em mistério — a crescer de suas inseguranças para travar luta contra o que a julgava e a rebaixava. Por isso, Ruby sentia-se infame.
Leprosa, como feridas por sua pele a roer e corroer sua translúcida armadura de segurança e revelar a cólera ali adormecida. Uma praga liquefazendo seu cérebro e sua razão, ordenando-lhe a enxergar tudo o que restava de si, além da solidão. Além de sua promiscuidade, sua insegurança, sua aparência e sua carência.
Ruby descobria-se, noite por noite, ser algo muito, muito além do que simples rebeldia e insegurança. Começava a entender o porquê de sentir-se tão sozinha e incompreendida por tanto tempo em sua vida. Em Regina, Ruby encontrava uma versão de si puramente prazerosa. Sem remorsos, sem hesitações, sem dúvidas.
Era apenas natural que seu novo ser completo não mais se satisfizesse com o pouco que Storybrooke lhe tinha a oferecer. Ruby evoluíra para além deles, tornando-se insolúvel a seu meio cinza. Ela não mais se via a mesma — a gótica jovem a buscar aprovação e reles amizades. Incerta, tímida, fraca.
Ruby não mais entortaria sua estima para compor ao fundo das vidas passageiras; Dos amigos por quem antes se definia — Amizades cruamente aproveitadoras e peçonhentas. Não. Ruby era grande demais para uma cidade tão pequena como Storybrooke.
Ela iria fugir. Para sua cura e para o lugar tão imenso quanto si mesma — O leito que a poderia suportar em sua totalidade, sem perdas e sem restrições.
Regina, sua liberdade.
A Rainha caiu de costas sobre colchão.
A boca de Red rendia-lhe suas forças tão rapidamente quanto o fogo conseguia queimar. Consumindo a si e consumindo à sua carne. Ela era mole. Ossos, não mais. Apenas sangue e suor sob as patas do lobo a lhe devorar.
As mãos da prisioneira alimentaram a ironia ao aprisionarem os pulsos de Regina contra o travesseiro sob sua cabeça. A Rainha poderia rir da desgraça da situação, não fosse seu desespero borbulhando muito mais seriamente.
Ela não faria mais nada para frear os movimentos de Red. Que seu aperto forte avermelhasse sua pele e que seus lábios sugassem a cor de seu sangue — A Rainha era cedida. Pela noite em que lhe concederia liberdade, Red a comandaria.
Regina demonstraria sua prometida generosidade a permitir que a garota tomasse seu controle em mãos e lutasse pela ruína de suas correntes. E que batalha deliciosa, era a de Red por sua liberdade.
Oh, cavando pelos seios de Regina e arrastando seus caninos pela pele arrepiada de seu abdômen. Red, enfim, lutava guerra de que sairia vencedora. Sob o fogo e sob o veneno, Red venceria. Triunfando liberdade e salvação.
Red tinha tanto poder correndo por seus movimentos; Regina era nada além de corpo brando abaixo do seu. Sujeita a suas presas e aos dedos longos. Sendo lentamente devorada em vida pelo lobo. Pedaço por pedaço, restando consciência e inconsciência. A Rainha deixava que sua luta fosse batalhada por outra.
Que a sua salvação fosse conquistada por Red.
Porque, oh, mesmo se pudesse ela mesma guerrear por si — Não haveria forças restantes em seu corpo. Red a sugava completamente. Red era aquela a deter o domínio. Um controle que, pela primeira vez, Regina não era relutante em ceder.
Ela não fora desonesta, afinal, ao confessar: Ela não teme o lobo.
Nas garras do monstro, ela é salva.
Doce salvação, correndo por sua língua e pressionando sua boca.
Red era quente. Seus lábios eram quentes, seu hálito era quente e sua língua era quente. Era apenas outra ironia, que aquela em chamas fosse a única capaz de silenciar o fogo na Rainha.
E o ardor aos poucos morria, dando lugar a pulsações deliciosas, correndo por seu peito e por seu sexo. Red vibrava, como um rosnado sem fim a tremer seu corpo e o corpo contra o seu. E assim Regina vibrava. O quarto inteiro parecia ecoar, no silêncio.
A língua de Red invadiu sua boca e dançou junto a sua em compasso desafinado e apressado. Não havia elegância e não havia majestade. Criatura, oh tão gracioso caçador, era animal com pressa. E a Realeza não se deixava vencer, tão reduta e tão desesperada que mais gritava plebeia.
Nada mais importava, afinal.
Carne era carne. Regina iria prova-la e se deixar provar, sem contaminar-se com o gosto de seu valor. Apenas em mente o quanto a desejava, no universo de quatro paredes. Não mais a pesar lealdades e vinganças.
Carne era carne. E que deleitosa carne.
Red rosnou sem impedimentos ao sentir os dentes de Regina fecharem-se em seu lábio inferior. Sem nunca quebrar o contato do violento beijo, a morena forçou os braços da Rainha contra o colchão, usando da força de seu monstro para imobilizar a bruxa.
Red retribuiu a mordida, trêmula. Mais parecia conter sua verdadeira vontade de fazê-la aos pedaços. E Regina, que não era capaz de rosnar, gemeu. O som escorreu de sua garganta para dentro de Red — Uma melada nota num misto de surpresa e satisfação.
E garota a empurrou outra vez, usando do balanço do colchão para iniciar descoordenadas estocadas. A cama acompanhava o movimento, rangendo para frente e para trás. Regina teve de suprimir um suspiro estonteado. Selvagem. Red era forte.
O quadril da Rainha agora se meneava abaixo da pele de Red, roçando toque enlouquecedor contra os músculos na coxa da prisioneira. Impulso por impulso, seu palpitar crescia e lhe abarcava. Seu peito se enchia e, ainda assim, Regina parecia faltar ar.
Ela quebrou o beijo, deixando o gosto das gotas de sangue a molhar os lábios familiares de Red. Fraca demais para afastar seu rosto do corpo da morena, a Rainha seguiu a ofegar próxima ao ouvido da garota, atrás do ar que ela lhe roubava. Sua bochecha ainda prensada contra as têmporas pálidas — Era como se o beijo perdurasse.
Regina logo sentiu seu arfar soprar arrepios na pele de Red. — O pescoço da morena era agora exposto pelo cair de seus cabelos escuros, exibindo a pele que se arriçava ao redor do metal negro.
Compelida pelo sutil convite de suas reações, Regina fincou as unhas na palidez. Seus dedos apertaram sobre a nuca de Red, misturando-se com os longos fios a deslizarem pela carne. E Regina pressionou, forçando a cabeça da prisioneira em seu lugar contra a garganta da bruxa.
Os dentes de Red mordiscavam, perigosamente inofensivos, o pescoço moreno. Descendo, úmidos, pela curva do ombro até os finos ossos de sua clavícula, a Rainha guiava Red. E à medida que as mordidas ganhavam mais dentes e mais força, também o faziam os dedos de Regina contra a nuca de Red.
As unhas tomaram posse da coleira e agarravam o aro de metal. Mais firme aperto, puxando Red mais fortemente contra seu peito. A garota, porém, era irredutível em sua paixão. Outro rosnado grave fez tremer os dedos de Regina e formigar o vale entre suas pernas.
Red, seca de gentileza, arrancou os dedos que Regina ministrava sobre a coleira e entre os curtos pelos de seu pescoço. Com um puxão brusco, ela afastou a mão da Rainha de sua nuca e de seus cabelos, fazendo assim seus fios caírem, ferozes no caos, e emoldurarem seu rosto suado.
Sem desviar-se dos caminhos que seus dentes traçavam, Red outra vez prendeu os pulsos da Rainha contra o macio da cama. Como que obedecendo aos batucantes movimentos de seus quadris sobre a bruxa, Red deixou que suas mãos deslizassem dos punhos da mulher por seus antebraços. Os longos dedos pálidos então tomaram novo território, apertando sobre os músculos nos braços Regina e imobilizando a Majestade em humanas algemas.
O ar não retornava sua clareza, não importava o quanto a Rainha ofegasse. Os balanços agressivos da prisioneira reverberavam por seu corpo inteiro, subindo de seu sexo, por sua coluna e instalando-se em seu crânio. Consumindo-a.
Uma pressão sufocante e uma leveza flutuante. Como se seus músculos se contraíssem a ponto de partir, sendo, ao mesmo tempo, injetados com uma celestial placidez. Paradoxo enlouquecedor a dominando.
Contra o calor e a força de Red, Regina sentia que poderia quebrar.
Quando seu primeiro pico lhe devorou, ela gritou.
Seu espírito tremeu e ela sentiu o fogo explodir e derreter seus interiores. Ela vibrou e vibrou, como se rosnasse sozinha.
Ela cerrou os punhos e sentiu seu sangue acelerar-se por baixo do toque raivoso de Red. Sua coluna se arqueou contra sua vontade e ela se viu prensada contra a frente da garota outra vez. Tão, tão quente. Espalhando-se por seus seios, estômago e coração. Sua cabeça era afundada no colchão enquanto seus pés buscavam por chão.
Por terra. Por vida.
As ondas não cessavam, varrendo seu corpo incansavelmente. Torturantemente. Balançando sua mente para fora de seu eixo e desconectando seus sentidos pelo tempo em que o mundo era nada e somente Red havia.
O brado acalentou-se, enfim, em um gemido gutural. Calma. Ainda, tão interminável quanto às ondas lavando sua alma. Ela praticamente cantarolava o prazer preenchendo seu corpo e seu ser. Sob os movimentos de suas cordas, pela pode sentir novamente — retornada ao mundo — os lábios famintos de Red. Incansáveis.
Seu corpo era água e seus membros eram toneladas. Ainda assim, a prisioneira não cessava seus movimentos. Mais furiosos e mais quentes, Red rugia. O gozo de Regina pareceu provocar a besta.
O cheiro, tão mais forte. Líquido, derramado. Abaixo de Red, em Regina. Molhando sua pele e alimentando à fera.
Red não parava. Em um frenesi que Regina, mais tarde se declarou feliz em explodir, a lobisomem a devorou por mais e mais picos a vir. Dura e quente, com uma vontade inapagável que parecia somente querer ver a Rainha inválida.
Não havia mais sanidade restante na bruxa. Red a lavara de sua clara consciência com seus movimentos bruscos e seus dentes ferventes. Os piques seguiram-se pela noite e por um momento Regina reconheceu verdadeiro júbilo.
Como a fadiga letal antes da cova. A invalidez prévia à morte, Regina era cadáver. Mole, rendida, devorada. E Red, enfim, era predador.
O animal somente parou quando não havia mais presa restante. Quando os pedações não eram mais reconhecíveis e não havia mais carne intocada.
Quando Regina era entorpecida em sua exaustão. E Red, a fera, satisfeita.
A dor de cabeça não sanava.
A cada novo pedido e a cada novo som, uma adaga perfurava por detrás de seus olhos e pressionava seu cérebro. Sufocada em seu próprio crânio, seus sentidos eram abafados pela dor.
Ruby não encontrava mais espaço para seus pensamentos, fossem quais fossem. Reclamar-se de Storybrooke e do Restaurante era luxo de mente calma. Agora, o caos a impedia de sequer descansar.
Como na noite em que saíra do bar e encontrara Regina sentada, pacífica, sobre seu carro, Ruby sentia-se louca. O corpo, fervente e a mente, descontrolada. Os sentidos simultaneamente nulos e aguçados. De tanto que sentia, não sentia coisa alguma.
Tudo o que ela queria era fugir. Correr para Regina e encontrar sua cura. Mas o tempo movia-se de vagar. Muito vagarosamente para seu bem. Como que testando sua resistência à desumana febre, o relógio se arrastava. E a cidade e o Restaurante, a testavam.
— Ruby! — Pediu Granny, do outro lado da Lanchonete. Pouco a neta conseguiu realmente escutar através das nuvens de sua audição.
Caótica, o que ela era. Simplesmente fora de si. Espiralando em uma praga tão conhecida como era infernal. E seu remédio, jazia na distância, em pódio. Arrogante, esperando que Ruby engatinhasse em sua direção e lhe implorasse por cura.
O modo como o mundo a sufocava era apenas sinal de que — para o inferno! — Ruby não guardaria orgulho em fazê-lo. Engatinhar e implorar, isto é. Se tanto a presenteasse com saúde e júbilo, não havia por que hesitar. Ela iria rebaixar-se e assumir sua trágica necessidade. Tudo, se pudesse livrar-se da pressão em seu crânio.
— Ruby! — Granny a chamou outra vez e, desta, Ruby enfim conseguiu localizá-la dentre o mar de pessoas. O restaurante estava irritantemente lotado e Ruby, tão cheia quanto. Insuportável multidão de monótonos irritantes. Ela queria fugir. — Mesa cinco!
A garçonete conseguiu mirar uma imagem zonza da avó, que lhe apontava impacientemente para uma das mesas ao lado da parede. A velha parecia portar semblante irritado, bitolado. Mas, novamente, pouco Ruby poderia realmente entender através da névoa de seu descompasso.
— Certo, certo. — Ela expirou sob seu fôlego, deixando ir ao ar sua irritação e sua constante dor. Um murmúrio ininteligível seguiu-a por seus passos tontos e ela esforçou-se para manter o equilíbrio na caminhada. Era árduo mover-se por tantas clientes e tantos funcionários. Mais árduo ainda fazê-lo com visão comprometida pela enxaqueca.
Como ela desejava que Regina estivesse ali para socorrê-la.
Mas não. De todas as pessoas que resolveram por reunir-se no mesmo lugar, na mesma hora, a Prefeita era uma a faltar. Abandonando Ruby em seu descompasso infernal.
Talvez, se resistisse e persistisse por minutos mais, Regina poderia aparecer pela porta, estalando o sino e escondendo-se atrás da fraca desculpa por uma cerveja. E ela levaria Ruby para sua casa e exterminaria a praga de seus nervos. E a morena veria, enfim, paz.
Era esperar demais, desejar por tanto. Regina estava preocupada demais com seus próprios assuntos. Ela tinha a cidade para governar e um filho de quem cuidar. Provavelmente tivesse outros amantes à sua disposição, quando se visse cansada do corpo feminino de Ruby.
A quem a garçonete tentava enganar? "O descontrole é seu". Regina a garantira. Ruby, por mais amargo que fosse a aceitação, estava sozinha em seu pânico e muito provavelmente a Prefeita não precisava da garçonete tanto quanto esta precisava daquela. Era azeda verdade.
Não haveria salvação de sua tortura, se Ruby não buscasse por tal ela mesma. Buscasse por Regina, em seu escritório, em sua mansão, em seu quarto. Onde quer que estivesse, ela deveria procurar por Regina. E ter em seu domínio sua cura. Esperar não lhe adiantaria em nada, senão para agravar seu ardor.
Num suspiro áspero, ela concluiu seus pensamentos e rasgou a pequena folha do bloco de papel em sua palma. Com o pedido registrado, ela o devolveu a Tony pela janela da cozinha, ainda ofegando a dificuldade que encontrava em se mover pelo piso.
— Vai demorar um pouco. — O grande homem respondeu do outro lado, correndo os olhos pela confusa escrita no papel. Ruby ouviu apenas sons desconexos deixarem os lábios do cozinheiro, misturando sílabas com os chiados dos fogões e fritadeiras. O cheiro de gordura era insuportável e a dor em sua cabeça descia por seu estômago. Ela poderia vomitar.
Ruby afastou-se do pequeno balcão, batendo sobre a madeira para dispensar o olhar atento do homem. Ela deu as costas na intenção de voltar ao trabalho — seu pessoal purgatório — quando a voz grossa chamou-a através da fina camada de vapor.
— Preciso separar as fatias de queijo... — Tony se explicou no tom grave. Seu cenho então se apertou e os olhos escuros miraram firmemente o semblante sôfrego garota. Sua voz morreu aos poucos e ele pareceu mudar o rumo de suas palavras. — Querida, você está bem? Parece vermelha.
Por outra vez, Ruby entendeu nada além de ruídos. O que instruiu sua resposta foi o inequívoco tom preocupado na voz do amigo. A pergunta era muda, mas sua intenção gritava. Não querendo mostrar rudeza, mas tão mais indisposta à falsa gentileza, ela apenas meneou o rosto mecanicamente, murmurando réplica.
— Certo, certo, certo. — Foi sua resposta automática, trazida em voz opaca e força minúscula. Dispensando interação vazia.
E assim ela seguiu para longe dos barulhos e do cheiro. Tentando ao máximo encontrar lugar a salvo de sua praga. Mínimo espaço no restaurante em que a garota se visse livre da febre a lhe consumir. Sem sons, sem cheiros, sem pessoas.
Mas sua pequena jornada foi logo interrompida quando o timbre incamuflável de sua avó cortou pelo barulho do ambiente e fincou seus tímpanos. Sempre fora difícil ignorar as ordens de Granny.
— Ruby. — O tom da velha era duro. Era também palpável em sua voz a irritação e a pressa. Por motivos, Ruby deduziu, inteiramente diferentes dos seus. Granny estava a perseguindo. — Mesa sete. E, oh, limpe o balcão. Leroy derrubou cerveja por todo o canto. — A avó pontuou, antes de desaparecer outra vez entre as portas da dispensa. Ela tinha pressa, era evidente.
Tanta, que não via gritar em sua neta o pedido de ajuda.
Não que alguém mais a pudesse ajudar, Ruby lembrou. Ela não precisava das gentilezas de sua avó ou das migalhas dos clientes. Ela precisava de Regina. O quanto antes — Imediatamente.
Um bufar seco de energias correu de sua boca e ela largou seus ombros no cansaço, recolhendo o pano por seu ombro e mirando-se em direção ao balcão.
— Certo, certo.
Ela fitou a parede e os grandes arrogantes ponteiros. As fisgadas em sua cabeça pioraram. Por enquanto, o relógio não a amparava. E ela perdurava, em fino limite, no Inferno.
A luz foi o que despertou a Rainha de seu sereno sono.
O Sol subia pelo céu da manhã, projetando longas sombras sobre o chão e delineando perfeitas silhuetas na pedra das paredes.
O quarto era silencioso. Um quieto choro à distância era mero ruído mudo a compor o cenário em que Regina acordava.
Um sonolento, suspiroso espreguiçar seguiu o cerrar de seus olhos. Seu corpo era ao mesmo tempo leve e pesado.
Leve. Livre de culpas e de responsabilidades. Expurgado de seu mais corrosivo desejo e exorcizado da luxúria que antes a queria devorar viva. — Realizado.
Pesado. Preenchido com um prazer que impregnava seus músculos e retardava seus movimentos. Seus ossos eram mais densos com a exultação que corria por todas as suas fibras, compondo-lhe, finalmente. — Completa.
Regina estava nas nuvens. O gozo ainda escorria de si e por si. Era o que definia sua simples existência, no momento em que vivia. Prazer. A necessidade ardente a que fora resumida e o incomparável prazer de ser saciada. Seu ser absoluto, saciado.
Era como se, pelos segundos em que sua mente demorava em ajustar-se a realidade após o sonho, Regina não carregasse mais nada. Nenhum rancor, nenhuma pendência — Nem mágoa, nem vingança, nem tristeza. O prazer não deixava espaço, entre suas veias e nas partículas de sua mente. Nada mais sentia ou nada mais pensava. Regina era mero prazer. Assassinado, completo, atendido.
O suspiro melodioso escorreu e pingou por sua garganta como pingava seu gozo. Sua vontade, sua fome, seu fogo. Derretidos. Molhando os lençóis, molhando sua pele, molhando suas pernas.
Seu corpo era leve e era pesado. Regina era uma antítese em perfeita harmonia. Imperturbável equilíbrio — Consumação.
Enquanto ainda despertava, Regina pensou que assim deveria ser a sensação da tão perseguida felicidade. Assim era, então, o que sentiam aqueles com a fortuna da alegria e da paz. Aqueles que viam seu final feliz, sortudos, acordavam no mesmo êxtase paradoxal de término e de infinito. Com o mesmo sorriso a embelezar o rosto da Rainha. Genuíno.
Regina acordou, pela primeira vez em tantos e tantos anos, sentindo sincera felicidade.
Seus braços se esticaram em seu zonzo espreguiçar. Seus músculos se esticaram por debaixo da pele, fazendo correr indescritível energia de volta a seus membros. Suas palmas deslizaram sobre os panos suaves dos lençóis e seus dedos sentiram os relevos macios do colchão.
E era isso somente. Regina não tocou corpo e não sentiu calor.
Ela forçou suas pálpebras pesadas a abrirem-se na fina névoa de dormência. Seus olhos demoraram a se acostumar com a claridade da alvorada; O Sol combatia suas tentativas de consciência, por mais gentis que fossem.
Não era como se Regina estivesse desesperada para se livrar da agradável incapacidade em seu corpo, de qualquer forma. A curiosidade, porém, era mais convidativa.
Red não deitava ao seu lado.
Seus olhos se ajustaram aos raios e ela conseguiu, enfim, distinguir formas e cores. Sua visão então correu pelo colchão apenas para confirmar o que seus toques lhe sugeriam. Red, de fato, não estava ali.
Ela gemeu uma nota suspeita sobre sua língua a molhar os lábios formigantes, sabendo o que a esperava junto à ausência. Era um riso, por mais sonolento que fosse. Regina, pois, havia previsto uma reação parecida. Oh, Red era tão simples.
A Rainha não precisou de muito para finalmente localizar sua prisioneira no quarto. Um sorriso cínico escalou seus lábios no semblante ainda anestesiado quando seus olhos encontraram o corpo de Red.
A morena sentava logo abaixo da alta janela. Passos distante da cama.
A luz do nascer do dia iluminava suas costas e Regina podia apenas separar sua magra silhueta do claro fundo. Uma pequena, tensa, encolhida silhueta.
Red estava sentada no chão. Seus ombros eram retraídos e tremiam minimamente. Vibrações que passariam despercebidas pelos olhos da Rainha, não estivesse ela procurando por exato detalhe; O tímido choro do grande lobo.
Era irônica, em verdade, a percepção da Majestade. Ela, que escolhera especialmente a criatura abrigada nas asas de Snow. Ela, que insistira através da lógica para ter suas garras no animal que jurava mortal lealdade a sua pior inimiga. Regina escolhera Red e nenhum outro lobisomem. Porque o poder de Red excedia algo além do físico. Porque Regina não queria qualquer outro lobisomem, senão Red.
E ali estava — A força e a grandiosidade por que tanto esperara, chorando. Os braços envolviam seus joelhos, justos perto de seu peito. Miúda, reduzida, como se quisesse engolir a si mesma e desaparecer no vazio. Dissolver-se no chão. Dissolver-se em suas culpadas lágrimas.
Irônica era a fraqueza a contornar o poder de Red. O poder que tanto atraia Regina era submisso, fácil e obviamente, à fraqueza que a satisfazia no fim. Fraqueza fora essa a lhe desmaiar de prazer em sua própria cama — Em seu próprio castelo. Jazia aí o sarcasmo.
Não fora a força de Red. Não fora seu lobo. Fora sua mais íntima e inaceitável fraqueza. Suas profundas falhas e seus inapagáveis medos. Tudo o que fazia de Red mera humana — ordinária mulher indiferenciada — fora o que concedera a Regina tamanho prazer.
Inconcebível ironia.
— O que pensa estar fazendo, pet? — Regina deixou que a graça que se fazia em seu peito se liberasse ao ar. Red precisava ao menos entender o quão gritante era o contraste de seu ser. Quão ridícula ela soava, a permitir-se chorar.
Choro algum, afinal, apagaria o que Red havia feito.
Realmente feito, em sua mais plena consciência e mais seco juízo. Red não tinha lua a que culpar e a coleira ainda trancando seu pescoço era prova de que nem seu lobo fora responsável pelo massacre a cair em Regina.
Delicioso massacre. Muito, muito bem-vinda carnificina. Que Red a devorasse e a despedaçasse da mesma forma todas as noites, de então adiante. Com seus dentes e garras.
Pois choro algum, oh, iria convencer Regina de que Red se arrependia. De que Red portava remorso ou peso. Red e seus surdos soluços não tocavam Regina. Não.
Não a seduziam a pensar que a maldade fora, em vez, sua. Que a Rainha Má corrompera outra pura alma. O choro da besta era somente isso; Monstro com ilusão de humanidade. Com ilusão de culpa.
Red não sentia culpa e Regina conseguia sentir a verdade ainda impregnando sua pele — Seus poros, seus cabelos, seu suor e seu sexo. O choro de Red, para Regina, era som vazio de significado e vazio de mágoa.
Mentira.
— Responda-me. — A voz de Regina era áspera e arrastada, não por seu humor, mas pelos resquícios de grossa noite em seu corpo. Outra vez, não haveria emoção a habitar seu espírito, senão prazer. Fosse prazer sequer emoção. Regina não se importava. Com isso ou com nada. Muito menos, com o motivo por trás das lágrimas de Red. — Acha que pode tocar-me, com tão vago choro? Realmente acha que me convence?
Regina apertou os olhos ao receber nada além de silêncio em resposta. Red chorava, sim, em completa vulnerabilidade e exposição. Não só ela era inafetada pela ciência e presença da Rainha, como a prisioneira também não lhe prestava a decência do olhar.
Red a estava ignorando. Regina sabia tanto, porque já se adaptara à ideia dos sentidos lupinos. Red soubera, antes mesmo de si própria, o exato momento em que a bruxa acordara de seu sono. Red soubera e Red escolhera por ignorá-la.
Que árdua tarefa, deveria estar sendo essa, Regina pensou. Que profunda negação a lobisomem deveria ter cavado para si — escuro e ridículo buraco onde fantasiava se esconder —, a ponto de ter de bloquear Regina de seus pensamentos.
O cheiro ainda não se dissipara.
Era forte e denso no ar, mesmo para os sentidos humanos da Rainha. A excitação e o regozijo eram tão líquidos — marcando o colchão — quanto eram indivisíveis elementos do ar em sua volta. Neblina a confirmar a verdade. O aroma que não permitiria que Red mentisse. Jamais se enganasse.
Regina podia sentir. Era fraca tentativa.
Ela suprimiu um riso. Qual das duas era, agora, a verdadeira miserável? Qual recusava a realidade de sua situação e se enganava com máscaras de poder. Máscaras de controle. Oh, Red. Tão simples. Tão previsível. Tão fraca. Tão igual.
Apenas outra faceta a atrair o ponto mais íntimo na Rainha.
— Oh, Little Red. — Regina pronunciou com assustadora precisão; Uma sombra de maldade e sarcasmo agora crescendo e acompanhando sua voz. — Pode chorar. Pode derreter em falsas lágrimas. Nada irá apagar a eterna mancha em seu espírito agora. — A Rainha deixou que suas palavras e o significado contido nelas a guiassem pela cama. Seu engatinhar era lascivo como nunca deixaria de ser. — Você é minha.
Red sequer agitou-se. Ela era imóvel em seu lugar. Em seus tremores e em seus quietos soluçares. A cabeça não se levantava de entre seus braços. A testa prensava sobre seus joelhos e os cabelos caídos aos lados de seus ombros. Regina não tinha acesso a seus olhos ou seu semblante. Ela poderia apenas adivinhar a verdadeira natureza do choro.
O mistério que se acumulava no silêncio sugeria algo além de tristeza. Algo mais escuro e mais ressentido. Algo além do que Regina esperaria da previsibilidade de sua prisioneira.
Desta vez, o vazio de resposta incentivou a Rainha para avançar.
Ela queria olhar a lobisomem nos olhos — qualquer que fosse a emoção a vazar por eles — e assegurá-la com toda sua crueldade, de que lágrima alguma a mais iria salvá-la. De que Red poderia sentar e lamentar-se pelo resto de sua vida e nada mudaria.
Outro impulso e a Rainha já se afastava do colchão e se punha de pé no chão. Sua perna deslizou sobre o lençol, desnuda através dos largos vãos rasgados nas laterais de seu vestido. Sua pele pura sentiu o frio da pedra subir pela planta de seus pés.
Com sorte, Red não se importaria com o estado deplorável de seu traje. Os farrapos rasgados e amassados, afinal, haviam sido feitos seus. A pele que o resto de vestimenta expunha não deveria ser de novidade para os olhos da jovem. Seria, inevitavelmente, vista com que se acostumar.
Porque Regina, oh — Ela almejava acordar da mesma forma por muitos e muitos dias a frente. Rasgada e imprópria. Nada de Majestade restando a cobrir suas formas.
Ela fez seu curto caminho em direção ao ponto onde Red sentava, não falhando em observar os restos de roupa caídos pelo chão, quase irreconhecíveis. Partes suas, partes de Red. Longes, lançados a distância com uma força que era somente pressa. Fogo.
Tudo o que ela via, no fim, eram trapos de Realeza e trapos de Lealdade.
Nada mais existira, no momento em que o tecido viu o chão e as paredes. Eram apenas corpos despidos de significado e despidos de barreiras. Rainha, não mais. Prisioneira, não mais. Eram lobo e vítima. Animal e domadora. Em irrevogável vontade.
Inegável, não importassem as lágrimas.
Ela parou em frente à Red. Tomando em sua respiração a forma recolhida da fera.
E, novamente, a lobisomem pouco se alterou com as aproximações da bruxa; Sua tensão não se acentuava e seu choro não cessava. Seus soluços eram inabalados, mesmo sob a forte presença daquela a lhes causar.
Regina estava sob Red; E a prisioneira não se via na obrigação de sequer erguer lhe um olhar de reconhecimento.
A Rainha suspirou, entendendo por fim que o luto de perdida honra e traída lealdade era ocasião para severo isolamento. Red não a ouviria, não importasse o cinismo que a bruxa a cuspisse em sua face.
As ofensas, pois, não tinham mais efeito em derrota. Nada afundaria Red ainda mais em seu buraco — embora, eventualmente, erguessem Regina em seu pódio.
Era tentativa inválida, a da Rainha, em tentar ver sua prisioneira mais miserável. Era prova suficiente aquela, física e soluçante em sua frente, de que Red não se ergueria por algum tempo. Sua miséria era agora, ali. Vencida por si mesma, Red era o trapo. Regina não tinha mais deveres nessa batalha. Terminada, a vitória era sua.
Ela usaria, apenas, de seus últimos minutos para congratular os perdedores.
Não haveria, de qualquer forma, vitória de um sem derrota de outro. E Red fora elemento indispensável em sua própria ruína. Regina não fora nada além de imóvel ao assistir a prisioneira derrubar suas próprias forças e render a si mesma.
Regina devia-lhe o prêmio de consolação.
A recompensa por que o cão esperava. A motivação, a faísca que fizera fogo explodir e consumir tudo diante de si — A chave de sua liberdade.
Red a merecia, enfim. Já deveria saber, a tal altura, que Regina era uma a cumprir com suas promessas, independentemente de quão violadoras essas fossem. E Red, também, cumprira com sua parte.
Era apenas cortesia que a Rainha amimasse a jovem.
Outra migalha via vida.
Ela ajoelhou-se em frente à figura retraída de Red. Os restos de seu vestido tocaram as pontas no chão e a temperatura da pedra roubou-a de seu calor. Regina deixou o joelho beijar o chão, debruçando-se atrás da atenção de sua prisioneira. Red não fazia menção de erguer seu rosto e a Rainha concluiu que deveria ter o trabalho em mãos.
As pontas de seus dedos viram, sem lentidão e sem gentileza, a face de Red. Por debaixo dos cabelos morenos que lhe cobriam o rosto choroso, Regina alcançou sua pele e pressionou por seus ossos, ordenando movimento. Ela guiou o rosto pálido para longe dos joelhos onde se afundavam.
Ainda que hesitante, Red enfim respondia ao seu toque. Sem grandes lutas mais, ela deixou o rosto ser levantado de seu luto.
Regina deslizou seus dedos para a forte mandíbula da garota. — Que forma fina e definida, era o rosto da jovem. A Rainha não cansaria de tocá-la sobre a pele.
Quando os olhos verdes abriram-se das pálpebras inchadas, porém, Regina lembrou de sua real intenção. A Majestade endireitou sua postura e recobrou seu fresco sentimento de vitória. O sorriso voltava com facilidade para seus lábios. E seus orbes castanhos receberam as esmeraldas com força imbatível.
Não havia, pois, lágrimas a habitarem os castanhos. Regina era sã e pura. Fria em seu calor. Certa de que nada mais em si lutava guerra chorosa. Red — Era Red quem chorava. Os olhos verdes em telas avermelhadas, brilhantes à luz da manhã à medida que reluziam os raios do sol no líquido luto.
Era a primeira vez que Regina vira Red chorar. E o que imaginou, era o que de fato encontrara. O choro não era, realmente, triste ou miserável. A mentira não era tão evidente e o poço não era tão mesquinho.
As lágrimas que escorriam pelas bochechas de Red — rosando seus olhos — eram lágrimas furiosas. Seu semblante inteiro era harmônico em sua fúria, deixando nada mais a duvidar.
Não que Regina pudesse questionar a veracidade da raiva. A Rainha já sabia o que esperar.
Raiva era o que seguia Negação.
— Tome. — A voz de Regina soou inquebrável e intocável, como se não tivesse na palma da mão vida em conflito. Como se a garota em sua frente, em severa reclusão e mágoa, não se expusesse tão claramente. Talvez, então, era por isso que Regina soava tão serena. — Como lhe foi prometido.
Ignorando o semblante úmido e miserável de Red, Regina correu no vazio do ar sua palma livre. De fino nada, se fez a chave negra.
Seu esconderijo fora destruído, de qualquer forma. E Red, patética, sequer ouvira o tintilar do metal, longe no chão, enquanto destruída o material sobre o busto da Rainha.
Talvez a chave de sua coleira já não lhe fosse mais tão valiosa, agora que Red alcançara por si o caminho para real liberdade.
Regina não evitou surpreender-se pela possibilidade, entretanto, quando notou a prisioneira permanecer indiferente ao símbolo em sua frente.
Seus olhos verdes sequer desviaram-se, no seu fitar silenciosamente raivoso, do rosto da Rainha. Lábios apertados, finos, em fúria e um cenho que mais parecia permanentemente cerrado em espírito. Por detrás das lágrimas, Regina surpreendeu-se ao entender que a raiva de Red era tão lúcida quanto era insensível.
— Veja a mim, cumprindo mais uma de minhas promessas. — Regina persistiu através da estranha imobilidade da garota, persistindo em sua serene vitória. Sua voz era novamente cheia e metálica. Ar nenhum lhe faltava. Regina era completa e não se deixaria abalar pelo ímpeto de Red. — Pois fico feliz ao vê-la cumprir a sua. — Ela a provocou e, finalmente, viu o fogo acender em resposta.
Red endureceu impossivelmente mais firme as suas feições, cerrando as escuras sobrancelhas e apertando os dentes. A Rainha pode sentir a pressão na mandíbula que segurava entre os dedos, contendo rugido.
Regina deixou que sua mão se afastasse do rosto de Red, repousando no chão para seu apoio. A outra, porém, continuava em posse da chave negra entre as duas. Frente aos olhos de Red. Tão alcançável que era simplesmente ultrajante que a prisioneira não movesse um músculo para arrancá-la.
Mas, outra vez, Red poderia ser mais sábia do que isso. E Regina poderia garantir por si que algo havia de se esperar. Red inspirava, aos poucos — de volta ao seu corpo miúdo e choroso — a força que precisaria para olhar nos olhos de Regina outra vez. Do choro patético, a garota se reerguia.
— Buscou sua liberdade e a merece, inteiramente. — A Rainha lhe assegurou pontuando o objeto no ar, ainda ofendida com a apatia de Red para com a chave.
Os verdes olhos úmidos de Red não se desviavam dos seus. E um poder estranhamente novo serpenteava ali. Fosse sua raiva ou fosse ordem de caótico descontrole a mantê-la tão firme — Red vibrava com uma energia completamente nova para Regina. Um mistério enervante.
A Rainha permitiu que o suspiro crescendo em si tivesse vida. Ela arfou asperamente, largando então a mão que segurava a chave. Ela fechou os olhos e inspirou profundamente outra intenção e quando os abriu, mirou Red com toda sua verdade.
— Seu sofrimento não me convence, você deve saber.
Red pestanejou minimamente, como contendo em si outro imperceptível rosnado. Os olhos verdes secavam ao contar dos minutos, vibrando com algo muito mais escuro do que a luz de uma alvorada.
— Porque não acredito na dor que chora. — A Majestade continuou, tão firme quanto a prisioneira a lhe encarar.
Sua voz metálica escorria o poder que detinha sobre Red. Era inegável e a própria lobisomem não era estúpida para negar tamanha verdade. Não havia perigos no novo olhar de Red. Não havia raiva e poder restante da garota que pudesse ameaçar o controle de Regina.
— Não volte a negar sua verdadeira natureza, Little Red. — A bruxa adornou-se de venenosa gentileza, envolvendo a voz em um calor que poderia trapacear os melhores sentidos. Mas não Red. Red permanecia intocável.
Regina decidiu por tomar o mistério como afago para sua maldade. E assim ela desferiu, com a sinceridade que Red sempre evitara.
— Você a viu, essa noite. — A Rainha sussurrou, convidando o lobo em Red para ouvir a verdade em suas palavras. E a realidade mais parecia insulto para os ouvidos da garota, que se viu obrigada a erguer o queixo e impor falsa negação. — Você a sentiu, como eu a senti.
O conforto que Regina demonstrava em abordar as partes mais obscuras de Red era desconcertante. A jovem era sugada em imensa rejeição, recusando conhecer a parcela de si que a Rainha tão facilmente lhe mostrava. Como se Regina fincasse em seus interiores as mesmas garras assassinas e a virasse pelo avesso. Nua, distorcida, irreconhecível.
A Rainha parecia deter mais propriedade sobre a fera que era Red do que a própria garota. E isso somente culminava para seu pânico e sua ira.
No amanhecer de uma lua crescente, somente havia espaço para um sentimento no peito de Red. E quando ela viu novamente os olhos castanhos que assombravam seus pesadelos, ela decidiu o que lhe dominaria.
Fúria. Intemperada, indomada fúria. Fria, insensível. Perfeitamente calculada em seu mais caótico mistério. Era isso ao que Red fora resumida. E seria assim que Regina lhe teria.
Fúria.
— E ela é maravilhosa. Fantástica. — A Rainha continuava, inabalada pela grossa máscara de cólera no rosto pálido.
Era apenas esperado que Regina, como bem lhe assegurava, não tivesse medo do lobo. E era uma pena. Somente assim os rugidos de Red surtiriam efeito. Talvez por isso ela os trancasse dentro da boca — Por saber que gritaria em vão.
Como que se fosse um enigma infantil, Regina leu as emoções cruzando pelos orbes rígidos de Red. A Rainha modelou-se em outra postura, rolando os ombros para trás e voltando a erguer a chave na altura de seu peito.
Red, enfim, deixou o olhar cair para o metal negro nos dedos da Rainha. O sentimento que ele a evocava não era mais o mesmo.
— Não merece prisões. — Regina o disse. Havia uma atrocidade em sua voz. Uma tragédia indizível. Havia verdade. Esmagadora sinceridade. Por que, então, somente nos lábios da bruxa ela parecia soar tão tóxica? — Sua liberdade é sua. Tenha-a, em sua forma mais crua.
Com uma graciosidade revoltante, a Rainha estendeu a chave para Red. O silêncio ergueu-se e a prisioneira, por longos segundos, permaneceu estatuada — Observando, somente, a paciência de Regina esgotar por seu fôlego.
— Tome! — A bruxa bradou, trincando sua frieza e reverberando sua súbita exaltação pelo quarto.
A ordem alastrou-se pela extensão do palácio e pelas linhas de sua realeza. O castelo pareceu calar-se inteiramente ao comando da dureza em seu tom. Red, porém, não se retraiu com o poder gritado em seu rosto.
O corpo da morena explodiu de seu lugar e nova energia preencheu seus músculos. Não, exata mesma energia que lhe mantinha tão fixa em primeiro lugar. Era a fúria fulminando fundindo o ser.
Red avançou contra Regina. E a chave escapou da Rainha, deslizando pelo chão e se deixando desaparecer na distância. Realmente, o significado era outro.
A lobisomem caiu sobre o corpo da mulher, prendendo-a no chão. A ira em suas veias mantinha ao mesmo tempo precisos e selvagens seus movimentos. Manuseando a bruxa como se, outra vez, essa não possuísse vontade senão a de submissão.
Regina sentiu a ironia subir por sua garganta quando sua nuca chocou-se contra a pedra lisa. Seus braços eram fortemente pesados contra o chão. Agressivos dedos apertando seus antebraços e imobilizando sua reação.
Surpresa, porém, não era o que sentia. Era, talvez, pervertido prazer.
Ela sorria, mesmo aprisionada pelas garras de Red. O corpo desta, quente e ofensivo sobre si, eram da mesma ferocidade inerte. Ainda assim, completamente diferente.
Red, oh, poderia realmente devorá-la. Sem elegantes metáforas e inofensivas chamas. Red, o monstro humano mergulhado em fria fúria, era seriamente capaz de tamanha brutalidade. Não fosse a coleira em seu pescoço e o sol sobre sua cabeça.
Regina não temia o lobo.
— É assim que me quer? — Red finalmente vocalizou a precisa cólera em seu peito. Seus lábios finos abriam-se para mostrar os dentes apertados. Os olhos, assassinos. — Como seu animal? Besta e criança? Fera a lhe arruinar na cama e criança a chorar dores?
A Rainha arqueou tranquila perfeita sobrancelha. Seu rosto era tão sereno como era sábio. Era como se ela pudesse prever Red e permanecer inafetada por suas ações.
Regina não temia o lobo.
E Red ressentia tanto. Oh, o medo seria tão grata vantagem. Somente assim a lobisomem poderia ver suas palavras rastejarem por debaixo da pele de Regina e atingir-lhe o âmago. Ela poderia ver a sua verdade ter efeito na bruxa e assim assegurar-se do que realmente era.
Mas Regina continuava envolta em uma paz insolúvel. A besta mais crua não a poderia chacoalhar.
Reagindo à sua própria frustração, os dedos de Red apertaram-se mais fortemente nos antebraços de Regina. A garota pode sentir o fluxo palpitar pelas veias comprimidas e a pele esbranquiçar. Se o espírito da bruxa Red não tocava, em seu corpo ainda poderia ferir.
— É isso o que lhe agrada? — Red bradou, sentindo sua garganta ceder à sua exaltação e seu tom rouquejar. Não era choro impedindo sua confissão. Era puro ódio. — Essa visão—Essa versão deplorável? O que há de errado com você, para querer algo assim?
Red gritava, sem hesitações. Sua voz, enfim, era um rosnado. Desta vez, meramente humano. Seu animal não detinha raiva e não detinha culpa — Como era apenas natural de verdadeira besta. Red, para sua infelicidade, outra vez se vira afundada em remorsos pelas ações de sua fera. E agora, quem rugia sua frustração era o corpo humano que fora condenado a abrigar animal.
A mente racional amaldiçoada com a inseparável presença de instinto. Era Red quem bradava, pelos quartos, pelos corredores, pelo inteiro Castelo — Em fúria contra Regina e contra si mesma. Contra a fraqueza pulsando em si, de que nunca poderia escapar.
— Não vê o quanto me arruína? Não vê que não tenho prazer na liberdade que me oferece? — Red seguiu, focada demais em manter Regina presa contra o chão para se preocupar com os passos alarmados que se aproximavam do quarto.
Sim, a ordem de Regina fizera calar o Castelo. E a raiva de Red somente o alertara para o que acontecia entre o par. Em poucos segundos, elas estariam cercadas de intrusos guardas e serventes. Maldita era a Realeza superestimada de Regina.
Red ofegou, trancando o impulso que lhe pedia para mirar a porta e largar a Rainha. Ela sabia que o instinto era mais inteligente que sua raiva no momento, mas não havia motivo forte o suficiente para lhe fazer largar as garras da carne venenosa da bruxa. Não quando Red estava tão próxima de devorá-la.
— Não é o seu prazer que busco. — A Majestade a respondeu em absoluta calma, parecendo muito mais confortável com as regalias de seu poder do que Red jamais estaria. O sorriso era ao mesmo tempo cruel e caloroso. E tudo em Red pediu para que ela o arrancasse de sua face com os dentes e visse o sangue escorrer.
Regina, mais uma vez, pareceu ler nas íris verdes o intuito ali queimando. E, quando a lobisomem encheu o peito para rugir, a Rainha lhe cortou com um simples movimento de seu punho.
Uma magia invisível socou Red diretamente no peito, calando rosnado e a lançando longe do ar.
As costas da garota chocaram-se contra a parede e logo a gravidade encarregou-se de arrastá-la novamente para o chão. A prisioneira caiu de joelhos, reunindo o reflexo para aparar sua queda com os braços em sua frente. Assim que se viu firme no chão, ela permitiu-se ofegar de volta o ar soqueado de seus pulmões.
Regina, com uma elegância absurda a corresponder os trapos que vestia, elevou-se do chão e expulsou inexistente poeira dos restos de suas vestes. Ela então alçou o rosto e esperou, sarcástica, a observar Red lutar contra o desconforto para sair do chão.
Quando a lobisomem também se suportava em seus próprios pés e voltava a mirar Regina com ultrajantes olhos verdes, a Rainha viu espaço para concluir.
— Independentemente de suas mágoas, Little Red, tenho a decência de reconhecer sua bravura. O que resta em você agora, — Ela sinalizou zombeteiramente para a postura ofegante da mais alta. — É apenas temporário. Entendo que a mudança seja muito a absorver, mas, outra vez, não serei uma a subestimar suas capacidades. Sei, por experiência, que pode se adaptar a nova pessoa que descobriu em si.
Red arfou para responder, mas Regina ergueu no ar uma mão aberta para lhe impedir. Não foi magia alguma que calou a morena, senão o entendimento da razão.
Os passos armados se aproximavam da porta e vozes preocupadas zumbiam na distância. Red fitou a porta trás da Rainha, entendo o mundo que esta barrava tão preciosamente. O quarto já não era tão solitário. E Regina não parecia se importar.
— Insisto. Não temo seu lobo. — A bruxa chamou-lhe a atenção de volta. Red averteu seus olhos para o rosto de Regina, encontrando-o em inusitado tom amistoso. Ainda assim, ela não a poderia confiar. — É ele o que quero. — A mais velha assentiu em harmoniosa nota, arqueando seu braço em sua frente.
Dois singelos dedos apontavam para o vazio em direção à coleira de Red. E quando a prisioneira percebeu a magia a lhe seguir, o ar esfriou-se em seu peito. Ela congelou em torturante antecipação. Seus dedos formigavam e ela sentia o sangue correr de volta a suas extremidades e aliviar o sufoco em seu cérebro.
— Para demonstrar tanto, o solto de seus confins.
Regina circulou os dedos no ar, mantendo perfeita postura ao conjurar sua magia. Um fio veloz cortou o vazio da ponta de seu indicador diretamente contra a coleira, estourando o metal em dois.
O aro negro partiu-se sobre o pescoço de Red, ecoando libertador estalar metálico, e logo se cedendo a seu próprio peso. Sua trajetória ao chão foi agonizantemente lenta para Red, contando os mais longos segundos de sua vida.
Pelo tempo em que a coleira levou a cair ao chão, seus sentidos não mais existiam.
E, subitamente, era somente o que havia.
Seu lobo, antes anestesiado de seu direto contato, acordava de sua toca, estalava seus ossos e espreguiçava seus músculos. O calor do sol em suas costas era amarga lembrança de que a Lua não acompanhava o céu para que Red tivesse seu completo poder.
Mas, oh, enfim poder tinha. De volta. Livre.
— O dia a manterá em forma humana. Espero que sua nova liberdade reflita nisso que não mais pode chamar de prisão. Está livre, afinal, Little Red—
Tudo foi tão veloz que até mesmo Regina não pôde antecipar o que a colidiu.
Negro e gigante, o Lobo livre veio à vida. Em plena luz do dia.
Uma pata imensa embateu contra o ombro da Rainha e, como um pedaço de pano, o corpo da Majestade caiu ao chão, num baque surdo. Muito, muito mais veloz do que a coleira de metal.
A pedra era muito mais gélida abaixo das costas de Regina, roubando o calor de sua coluna e lhe balançando em calafrios.
Olhos dourados lhe perfuravam a pele.
Ruby não iria resistir muito mais. Mais um pedido ou mais uma ordem. Era tudo o que lhe bastava para explodir. Seu crânio não aguentaria tanto e seu pulmão mais parecia sufocar em si mesmo.
Ela precisava ir. Ela precisava ver Regina.
Era a terceira de três noites.
Ela ainda era dependente da estranha cura para estranha praga. E sem questionar, ela a buscaria. Porque apenas assim veria vida. Apenas assim valia amanhecer o dia.
Ruby precisava de Regina, como precisava de ar.
— Granny. — A voz rouca soou por detrás da velha senhora, que cuidava o balcão. A quieta presença de Ruby alarmou a desatenção da mulher, que saltou em sua pele e levou a mão ao peito.
— Pelos céus, Ruby!
— Granny. — A neta insistiu, somando impaciência à irritação permanente em sua voz. Ela mal conseguia formar a imagem coerente de sua avó. Saberia dizer conversar com a pessoa certa somente pelo cheiro inconfundível de charuto e ervas.
— O que é, garota? Fale. — Granny bufou, virando-se para Ruby. Tudo o que a morena poderia ver através de sua névoa grossa era os olhos claros da avó a lhe julgarem.
— Posso sair mais cedo hoje—
— Só pode estar brincando! — A mulher a interrompeu, soltando sarcástico riso ao menear de sua cabeça. Ela tornou a mirar o balcão, mas quando Ruby continuou, alheia sua interjeição, ela fez questão de fitar a neta por cima dos óculos finos.
— Eu não estou me sentindo muito bem. — A morena cerrou o cenho, desta vez em reação à pontada de sua cabeça e às fortes luzes do restaurante. Para que luzes tão claras?
— Você deveria ter pensado melhor antes de ficar a noite inteira acordada fazendo Deus sabe o quê. — A velha não poupou sua usual rudez contra a neta, balançando a pequena mão no ar como que dispensando as desculpas da jovem. — E outra, você já usou essa desculpa antes. Se não está lembrada, lhe dei o sábado de folga porque resolveu passar mal depois da sexta à noite.
— Mas—
— Sem mas, Ruby. — Granny deu-lhe sua total atenção. Mas o fez tão agressivamente que Ruby imediatamente arrependeu-se de tê-la pedido em primeiro lugar. Quando a avó reduzia-se a um sussurro particular, nunca Ruby ouvia elogios. — Você concordou em colocar sua vida pessoal à parte quando trabalhando aqui. Temos um acordo. Respeito seus assuntos se respeitar meu restaurante e, nesse momento, precise que respeite seu serviço.
Sem dar a neta o direito à resposta, Granny partiu, cruzando a lanchonete e adentrando a cozinha. Ruby permaneceu, sucumbida a sua dor e a seu caos, a olhar o distanciamento arrogante de sua avó.
Mesmo se tivesse sido dada a chance de se defender, Ruby não teria muito que dizer. Argumentos não lhe faltavam — mas por crua e latejante incapacidade. Não eram várias as palavras que a garota poderia articular sem que seu corpo inteiro se voltasse contra si.
Era apenas sábio que permanecesse em silêncio.
Contudo, se seu silêncio enjaulava raiva, também não era brilhante alternativa. E novamente ela se via em um vicioso ciclo. Torturante, infernal. Completa e inegavelmente agonizante.
Ela inspirou profundamente, lutando contra as pontadas que pareciam crescer e crescer, querendo jogá-la contra o chão em rendição. A cada segundo, as dores reduziam os intervalos e poupavam piedade. Como se quisessem nada além de seu cadáver.
Ruby massageou a testa com a ponta dos dedos, rezando para que o truque ao menos enganasse sua tonta mente em induzir melhora. Mas nada lhe adiantaria, porque nada era Regina.
Sem sua cura, Ruby era condenada a apodrecer em praga. Granny e sua sentença, prendendo a garota a uma doença corrosiva que a devoraria aos poucos, deixando-a para suar e tremer, inválida, sobre uma cama.
Pouco a pouco, desejando misericórdia.
Incurável, Ruby pereceria. Ela não iria durar. O tempo se arrastava e os ponteiros lutavam contra sua salvação. Ela apodreceria, sem dúvidas. Tão rapidamente quando sua dor a consumisse.
Ela forçou-se a voltar ao trabalho. Convenceu-se, em pico de lucidez, que a distração poderia ser o melhor para sua loucura. Havia sido, afinal, quando ela conseguira conversar com Mary Margaret e Emma sobre intermináveis futilidades.
Aquilo havia sido o suficiente para enganar sua praga e adiar sua invalidez. Ao menos, se ela pudesse encontrar distração forte o suficiente para tirar sua mente de si mesma.
Ela arrastou-se entre o mar de pessoas. Entre os clientes que saíam e os que entravam. As garçonetes batalhavam por mesas e por espaço e Ruby sentia o chão abaixo de si balançar.
As luzes, muito fortes. Os cheiros, muito gordurosos. Os barulhos, muito afiados.
Sua cura, muito distante.
Ela errou o passo. O chão desapareceu.
Ruby tentou retomar o equilíbrio ao segurar-se a uma mesa, mas seus dedos não tinham força para prender-se às bordas lisas. Os azulejos socaram sua bochecha e a última coisa que ela ouviu foram os pratos quebrando ao piso.
Sua visão era negra.
O lobo estava ali.
Sobre si.
Não mais Red. Não mais o animal no humano. Mas a fúria humana em forma animal. Imensamente mais perigoso. Tão grande quanto era magnífico. O ar de Regina esvaziou de seus pulmões por muito, muito mais além do susto em ter tão gigante criatura negra a prensando contra o chão.
Muito além da massiva pata de longas garras a pesar dolorosamente sobre seu ombro. O que lhe limpava o ar do peito era lúcido e embriagado fascínio.
O lobo era extasiante, em toda sua forma.
Regina não o temia, não importasse que corpo ele tomasse. Os longos dentes afiados e a comprida língua salivante não eram mais assustadores que os olhos verdes e o rosto pálido.
Regina estava errada — Aquela era, ainda, Red. Red não deixava de existir, somente porque se tornara lobo. A negra figura lupina era tão palpável e válida quanto qualquer outra materialização de sua prisioneira. E tão, tão fascinante quanto. Talvez, tão mais verdadeira.
Ao menos essa rugida próprio, arrepiante, vibrante e alarmante rugido.
Somente quando a luz do Sol bateu sobre o manto espesso de pelo Regina percebeu a confusa realidade a lhe cercar.
Não havia ainda lua. Não havia, muito menos, lua cheia. Red não deveria ser capaz de transformar-se. Não tão cedo, não tão rapidamente.
— Você—
Novamente Regina não teve chance de dar fim à sua voz. Outro estrondoso rugido engoliu o quarto e sacudiu as paredes.
O som era tão mais forte que o rosnado de que era capaz a forma humana de Red. O rugido do grande lobo era nada comparado à demonstração de homem. Era trovejante, forte e imponente como a pura natureza de que era parte.
E ele vibrava por todos os lados, dominando o Palácio e reverberando pelas costelas de Regina. E o que era mirado a assustá-la, somente a vez rir.
Talvez fosse sua euforia escapando por sua garganta ou inexplicável êxtase transbordando de seus lábios — Regina ria. Seus olhos castanhos brilhavam profundamente, como só haviam brilhado antes ao alcançar seu pico.
Como júbilo tão celestial, a Rainha tomou em si a visão do lobo de Red. A massiva forma sobre si. Da pata pesada que a segurava contra o chão aos músculos escondidos abaixo de grossas camadas de pelo e pele.
Enfim, ela viu os olhos dourados. Infinitamente mais animalescos, mirando-a com uma fúria tão crua que só poderia pertencer a um animal.
Fascinante.
Deslumbre da Rainha continuou-se a se fazer em melodioso riso. Acalmou-se, somente, quando a pata sobre seu ombro começou a dificultar sua respiração. Ainda assim, a sensível ameaça de tão grande predador não era o suficiente para calar seu encanto.
Ela não temia o lobo.
Mas o lobo a queria em medo. Em pânico e em desespero. E ele rosnou, tão mais alto do que antes, parecendo querer rachar as paredes e ceder o teto. Os afiados dentes morderam o vazio, perigosamente próximos do rosto de Regina, como que alertando a sarcástica Rainha sobre o perigo de que debochava.
— Você não me assusta, minha cara. — Ela ofegou no intervalo de seu riso, pura na honestidade que transmitia. E embora não pudesse ler o rosto lupino tão facilmente com lia o humano, Regina estava certa de que Red entendia a verdade ali. — Eu quero seu poder, é inegável. Mas não o desejo porque excede o meu.
Red não se moveu. Seu lobo continuou ali, prendendo a Rainha ao chão e mirando os perfurando orbes dourados no calmo rosto moreno. Algo na feiticeira fazia hipnotizante sentido e ameaçava acalmar a besta do impulso feroz. Algo, apenas. Ainda em mistério, algo.
— Não se deixe vangloriar. — A bruxa inspirou, acalmando-se em um sorriso deleitado. — Minha magia pode partir até sua grande pata ao meio, se assim eu o quisesse. E não quero. Não é minha intenção mata-la.
O lobo bufou, cerrando seus dentes e rolando a língua vermelha por dentro da boca. Se fosse semblante humano, Regina poderia ver ali um franzir de cenho.
— Então, desça de seu tolo frenesi e aceite o que realmente é. — A mulher insistiu, erguendo sua mão em direção ao peito protuberante do grande lobo. Seus dedos vibraram contra o rosnado que ali nascia e ela deslizou as unhas pelos grossos feios negros. Era uma lembrança quente. — Aceite o que libertou. Não há mais motivos para se esconder, Red. Veja. — Regina pressionou a palma contra o peito trêmulo do animal. — Eu não a temo. Está livre.
Talvez pela mão que corria em seu pelo, talvez ela indivisível sinceridade em seu tom, Regina alcançava Red em sua profunda consciência humana. E novamente era hipnotizante, extasiante o sentido que ela o fazia. Forte o suficiente para argumentar contra um lobo.
Algo, porém, perturbou a paz que avisava crescer. Os passos finalmente chegaram ao quarto.
A porta estourou aberta e do aro emergiu questionável dezena de Cavaleiros, entre eles, um único sem título. As armaduras tintilavam familiarmente amargas. Oh, como Red detestava aquelas armaduras a soar.
O lobo endureceu novamente e Regina sentiu o perigo refletir-se no peito de Red antes mesmo de reconhecê-lo à sua volta. Foi quando as roucas vozes ergueram-se em preocupadas discussões que a Rainha se viu obrigada a interromper seus improvisados planos de ataque.
Ela não planejava sacrificar seus homens para Red. Não mais e não agora, quando finalmente eram aliados.
— Raymund! — Regina ordenou, fazendo seu tom subir e chocá-los como seu próprio rugido. Ainda por debaixo da pata de Red, ela os sinalizava para longe. — Vocês e seus patéticos homens, saiam daqui. Deixem-nos a sós. Não estão autorizados a atacá-la, estão me ouvindo? Afastem-se—
— Regina! Regina!
A voz era pequena e mansa — Um indeletável timbre tímido, mesmo quando gritando em tanto desespero. E o medo no pequeno velho era muito maior do que seu limitado corpo.
Ele não detinha chances contra o grande lobo.
Seu pai cruzou apressadamente, empurrando para fora de seu caminho os robustos Cavaleiros, que somente faziam sua estatura parecer tão mais frágil. O rosto envelhecido era vermelho e seu fôlego era curto.
Ele não deveria ter corrido. Ele não deveria ter vindo.
O coração de Regina — negro e murcho — congelou em seu peito e ela sentiu o estômago embrulhar.
Ela não temia o lobo. Mas temia pela vida de seu pai.
Oh, o que o estúpido velho poderia pensar, indo ao seu resgate dessa maneira? Ofegante, ele mal suportara a corrida. O que faria franzino e debilitado senhor contra um lobo tão grande?
— Largue minha filha, sua besta! Não ouse machucá-la. Ou eu juro...!
Até suas ameaças eram tímidas. Ele não portava nenhum resquício de poder e por um momento Regina esperou que assim o fosse. Somente então o predador não veria valor em ameaça vazia. Somente assim Red não se poria contra seu pai. Porque, ah, se nem um exército era páreo para o monstro negro, seu pequeno covarde pai nunca seria.
Quando seu olhar caiu para as mãos do homem, porém, também caíra seu coração. Entre as pequenas trêmulas palmas, seu pai tinha em mãos uma adaga prateada.
— Oh, Deuses. — Regina murmurou para dentro de sua boca, sentindo o sangue deixar seu corpo e entortar seus sentidos. — Não.
Por mais patética que fosse a ameaça, já não era mais tão nula. Red não iria ignorá-lo.
Seu mundo, por um segundo, moveu-se lentamente. Tudo o que ouvia em seus tímpanos era o batucar de seu próprio acelerado coração. E tudo o que via era a precipitada visão de seu pai, em pedaços nas mandíbulas do lobo.
Somente então, ela temeu Red.
A pressão em seu ombro desapareceu e ela sabia que o lobo abandonava seu lugar sobre si. Ela sabia, tão tragicamente como sabia sobre magia, que Red mirava os dentes a seu pai. Ao que lhe restava de família.
E o laço era frágil. Seria nada além de migalhas a descerem pela garganta da besta. A maldita adaga prateada, nas mãos de homem tão submisso, de nada o salvaria. Restaria cadáver velho e pequeno com ponta prateada.
O desespero consumiu Regina e o pânico a forçou a levantar-se. Assim que Red abandonou seu massivo peso de seu ombro, a Rainha era livre para mover-se. E a visão agora em sua frente era agonizante.
— Venha, monstro. Venha. — Ele bradou contra a figura predadora de Red. Seu corpo inteiro tremia com o medo desempacado que seu rosto falhava em esconder. Suado e desesperado, ele era apenas presa. Era alimento. Seria nada mais.
O lobo se aproximava, passo a passo. Largas patas batendo ao chão e fazendo ranger as longas unhas contra a pedra. A imagem assustadora da fera fazia reduzir os robustos Cavaleiros. Sob convenientes ordens da Rainha, a dezena se contentou um refugiar-se em sua covardia. E os passos que Red avançava, todos eles recuavam.
Todos eles, menos um.
O pequeno velho continuava ali, exibindo estúpida adaga de prata como única barreira entre seu corpo e o do lobo.
Regina queria levantar-se e expelir Red para longe. Socá-la com sua magia ou socar seu pai de volta à segurança. Mas o medo paralisante em seu corpo bloqueava sua magia e bloqueava sua mais humana vontade. Ela mal conseguia arrastar-se pelo chão.
Um medo nunca antes sentira. Que nunca quis voltar a sentir.
— Venha! — Ele repetiu em tom trêmulo e lobo bufou, como que rindo de sua mentira. Nunca presa tão fácil.
Red deslizou a língua pelos dentes, fazendo novamente ressoar o estrondoso rosnado. Nem tão poderoso rugido fez o homem recuar. Ele inspirou o ar que antes ofegava e bradou contra a imensa fera negra.
— Ao menos no fim... Salvarei minha Regina.
O lobo pulou e sua sombra consumiu o velho.
A adaga se armou e reluziram os traços de luz escapando pela silhueta negra. Tudo era silêncio.
Regina sentiu os trapos de sua Realeza escorrerem do corpo quando gritou.
— Papai!
A voz metálica suprimiu o rosnado e venceu o silêncio. Assim, somente Regina existia. Regina e sua súplica.
O lobo parou.
