Disclamer:Saint Seyia e seus personagens não me pertencem. Direitos reservados aos detentores da marca. Música incidental: Caminhos Composição: Raul Seixas/Paulo Coelho - direitos reservados aos autores.

Comentários da Autora: Mais um capítulo, e desta vez postado em tempo recorde. Agradecimentos especiais a Áries Sin, pela betagem relâmpago e paciência com essa maluca em crise produtiva. Beijos a todos que acompanham e comentários são bem aceitos e necessários para que eu não demore mais tanto tempo...


- Mu, que cara é essa? – Shaka se aproximou do namorado silenciosamente – Em que mundo você está?

- Está tudo muito estranho... muito estranho...

O ariano acomodou-se melhor no abraço reconfortante do companheiro e começou a falar mais para si mesmo que para o outro.

Você me pergunta
Aonde eu quero chegar
Se há tantos caminhos na vida
E pouca esperança no ar

- Sabe, há quantos anos nos conhecemos? Não digo eu e você apenas, todos nós. – fez um silêncio pontuando a pergunta, não esperando pela resposta de Shaka – Pois é, são muitos, e o tempo tem passado de forma tão atribulada que se torna até difícil de contar. Agora olhe em volta… não acha que tem algo errado?

- Onde você quer chegar?

- Tudo está muito calmo... Toda vez que tudo está muito calmo é prenúncio de uma grande merda e, geralmente, proporcional à calmaria.

- Você está paranóico.

- Não, não estou. Somos os melhores em nossas respectivas áreas. E só estamos vivos por conta disso. Mas creio que somos as pessoas mais azaradas que já caminharam no cimo desta terra. Nunca, absolutamente nunca, nada funcionou conosco sem um fator complicador, e que, em geral, nos fode feio.

- Definitivamente você está paranóico. E eu que pensei que isso fosse um privilégio meu.

E até a gaivota que voa
Já tem seu caminho no ar

- Lembra-se da campanha das fronteiras? Quando conseguimos passar pela "barreira" inimiga e chegar ao acampamento de nossos exércitos, o que aconteceu com Milo e Saga? Quando conseguimos nos infiltrar naquele campo de refugiados falso, o que era para ser simples nos fez perder um homem além dos feridos e do estupro de Afrodite. E quando Deba foi buscar nossos mantimentos e teve de andar por dias porque a roda do carro quebrou? Somos fortes sim, competentes sim, mas fodidamente azarados também.

- Mas Mu, quem, numa guerra, não é azarado?

- Não quero ser o profeta do apocalipse, mas aguarde e verá...

O caminho do fogo é a água
O caminho do barco é o porto
O do sangue é o chicote

- X -

Quando eu estava conversando com Shaka, tinha plena convicção do que falava e não demorou muito para que eu tivesse a prova. Naquela mesma manhã chegaram as prometidas tropas de reforço. Alissa conseguiu contato com Dohko e avisou que os homens já estavam a caminho. Saga pediu que os fosse receber. Não vi problemas na solicitação, precisava esticar um pouco os músculos. Peguei as minhas armas pessoais e parti para a entrada do túnel.

Segundo nos informaram, a movimentação das tropas seria lenta, para que não percebessem que estávamos a receber reforços. Concordei plenamente com a estratégia, era simples e lógica. Quando cheguei ao túnel, e vi as pessoas que ali estavam à nossa espera, só tive um comentário a fazer.

- PUTA QUE ME PARIU! DEFINITIVAMENTE SOMOS UNS FODIDOS AZARADOS DE MERDA!

Não dirigi mais nenhum olhar para o maldito comandante que ali estava. Virei as costas e comecei a andar em volta. Ele que, se quisesse, me seguisse. E ainda pude ouvir o comentário ácido. "Só mesmo o governo para chamar esses maricas de 'Tropa de Elite'. E ainda me mandam para limpar a bunda deles." Meus dedos crisparam no cabo da pistola. Um tiro! Eu não precisaria de mais do que um tiro para livrar a face da terra daquele tipo de escória. Mas o meu cérebro começou a fazer conjecturas. Sou um especialista em bombas, mais especificamente em desarme e explosão controlada. Uma bombinha... o Mask sempre tinha um monte delas... uma só e eu seria capaz de explodir aquele desgraçado sem machucar mais ninguém e seria necessário uma pá de lixo e vassoura para recolher os restos putrefatos do infeliz.

O caminho do reto é o torto
O caminho do bruxo é a nuvem

O da nuvem é o espaço
O da luz é o túnel

Shaka me esperava na entrada do auditório. Segundo ele, o meu semblante era de completo descontrole. Me aproximei dele e sussurrei:

- Eu tinha razão… como desejei estar errado, mas eu tinha razão.

- Como assim?

Apontei para a porta, no momento que ELE entrava. Todos nós o conhecíamos.

- Sou obrigado a concordar com você. Isso é realmente um caminhão de merda atômica. Preciso segurar Saga.

- Saga não me preocupa, nem mesmo Milo, mas... como o Reitor vai reagir? Depois daquele tiro certeiro, todos nós sabemos o que ele pode fazer com uma arma na mão.

- Espero que ele faça jus a fama de "Homem de Gelo". E... você está se esquecendo de Aioros!

- X -

O caminho da fera é o laço
O caminho da mão é o punhal
O do santo é o deserto
O do carro é o sinal
O do errado é o certo

Shaka correu em busca de Saga, enquanto Mu buscava por Aioros. O sagitariano deveria também ser contido e arrastado a todo custo a um local seguro, mas onde seria seguro para todos?

- Aioros, amigo, chegaram os reforços.

- Isso é bom, mas pela sua cara de enterro, tem um porém nessa história.

- Um "porém" louro e o maior canalha que já tivemos notícia.

- Mu, isso não é hora para brincadeiras, principalmente com esse assunto.

- É uma brincadeira de péssimo gosto, mas não fui eu que a inventei. Foi alguém lá de cima...

Aioros puxou o revólver da cintura.

- Onde ele está?

- Infelizmente não posso deixar você fazer isso. Apesar de muito o desejar. Precisamos achar Saga e contar a Milo e Camus.

Mu segurou Airos com toda a força de possuía, mas o sargitariano não era pequeno, muito menos fraco e estava furioso, foi preciso a ajuda de Afrodite e de um soco certeiro de Mask para que ele fosse "acalmado".

Não havia outro jeito. Precisavam trancar todos no camarim e só então resolver o que fazer. Ta certo que aquela porta não seria suficiente para conter três soldados e um amante furiosos, mas era o melhor que podiam arrumar naquela situação. Shaka, Dohko e Deba tentavam conter e arrastar Kanon e Saga. Se todos perdessem a cabeça, o banho de sangue seria inevitável.

- X -

O caminho do verde é o cinzento
O do amor é o destino

- Chegaram os reforços, Milo. – Dohko respondeu à pergunta do louro, mas todos ali sabiam que aquela resposta não seria satisfatória.

- Estou esperando. A chegada dos reforços não justifica a cara de Saga, Aioros nocauteado, Kanon algemado e todos aqui. O que mandaram para nós? – Apesar da pergunta, em seu íntimo Milo sabia a resposta. Só uma pessoa, dentre todas as outras existentes no mundo seria capaz de provocar tal reação entre seus amigos.

- Ele, Milo. Mandaram Ele!

Camus pulou do sofá como gato acuado.

- ELE? Aquele ELE?

- Faço minha a pergunta de Camus. Está realmente se referindo àquele Ele?

- Sim. Infelizmente sim, Milo. – Saga suspirou desanimado e se deixou cair em uma cadeira.

Pronto, a confusão estava armada. Parecia que tinham agitado um pano vermelho na frente de um touro ferido. A tez de Milo assumiu todas as cores conhecidas e mais algumas tonalidades que os presentes juravam ser completamente desconhecidas do ser humano.

O silêncio que se instaurou era tão denso e significativo que poderia ser sentido o seu peso fisicamente. Ninguém ousava falar absolutamente nada. Os sentimentos, para cada um dos presentes naquela pequena sala era diferente e ao mesmo tempo semelhante.

- Milo, acho melhor você ficar aqui. – Saga foi o primeiro a se manifestar e o conselho que dava a Milo era mais para si mesmo que para o amigo.

- Saga, eu preciso olhar nos olhos daquele canalha...

- Milo você não vai a lugar nenhum! – Camus se exasperou. Após o primeiro choque, a primeira onda de fúria, se sentia mais controlado e sabia que aquele não era o momento e nem o lugar para o conflito. Teriam tempo e oportunidade para isso.

- Camus você não entende...

- PORRA! É lógico que eu entendo! Entendo mais do que possa imaginar! Não me trate como um tolo, Milo. Você terá tempo para ajustar suas contas. Eu serei o primeiro a ajudá-lo, mas não agora. Não aqui. Não assim!

O do cesto é o cento

O caminho do velho é o menino

O da água é a sede

Milo bufou, mas tinha que dar razão a Camus. Saga se abandonou em uma cadeira. Os três estavam desnorteados. Aioros se recuperava do nocaute. Kanon chutava uma cadeira como se ela fosse a culpada de todas as mazelas do mundo.

Os outros saíram da sala silenciosamente em um acordo tácito. Camus fizera o papel de "Homem de Gelo". Agora, apenas os mais próximos envolvidos naquela história deveriam ficar ali.

Kanon finalmente se acalmou e abraçou o irmão. Os cabelos negros se misturaram assim como as lágrimas. Além de gêmeos, passaram por muitas coisas juntos naquela guerra… levavam muitas cicatrizes. Eram homens que sabiam como se proteger, mas com relação a esse assunto, Kanon sentia como se tivesse falhado com o irmão por não estar presente quando se fizera necessário.

Camus abraçou Milo e o beijou suavemente na testa em um pequeno momento em que se permitiu ser terno. Deixou o amante e seus traços assumiram novamente a frieza de uma estátua de mármore.

O caminho do frio é o inverno

O do peixe é a rede

O do vil é o inferno

- Se, qualquer um de vocês pensar em sair daqui, eu pessoalmente, faço questão de enchê-los de porrada. Vou ver como as coisas estão lá fora. Fui claro?

Camus tomara a dianteira. Não parecia mais o Camus desnorteado que viram segundos atrás. Era de novo o Homem de Gelo que organizava e geria aquela Universidade com pulso firme. Todos assentiram. Era o melhor a ser feito naquele momento, adiar o confronto o máximo possível. Precisavam colocar o pensamento em ordem e a situação como um todo a frente dos sentimentos e ressentimentos pessoais.

O caminho do risco é o sucesso
O do acaso é a sorte
O da dor é o amigo
O caminho da vida é a morte!

Camus saíra com passos firmes e se encontrara com os demais que apenas aguardavam a atitude que seria tomada por aqueles que permaneceram no camarim. Em todos podia ver a preocupação estampada claramente. Se dirigiu a Dohko.

- Quem é? – Não precisava se alongar na pergunta ou ser mais específico. Todos sabiam a quem o Reitor se referia.

Dohko apenas apontou para um homem alto de cabelos louros e longos. Camus andou até ele com passos firmes.

- Prazer, eu sou Camus, o reitor desta Universidade. – estendeu a mão que foi desprezada, apesar da vontade ser estender a pistola que estava em sua cintura.

O homem se virou e mediu Camus de cima abaixo com um olhar de claro desdém. Mais um fresquinho. Quem aquele homem pensava que era?

- Me faça um favor, doutor reitor: mantenha seus alunos longe de mim e de meus homens. É tudo que tem que fazer. Não precisa ser simpático. Não vim aqui fazer amigos. Vou arrumar essa bagunça que vocês fizeram e partir.

Camus sorriu. Um sorriso frio e sarcástico. Será que ele realmente pensava que sairia ileso dali? Será que ele confiava tanto nos homens dele, que, por uma olhada rápida, pôde perceber que não passavam de garotos cheirando a leite? Aquele escroque não passava de um boçal arrogante.

- Não passou pela minha cabeça fazer nada diferente. E você, mantenha a ordem que está presente nesse lugar. – Camus falou com frieza.

- Não pense que pode me dar ordens. – o sarcasmo e o desprezo rechearam a frase, que parecia querer dizer exatamente o que ele pensava do Reitor: era apenas um nada.

- Faço minhas as suas palavras. E mais... lembre-se de onde está. Faça seu trabalho e suma daqui! – Camus cuspiu entre dentes. Aquele confronto não deveria se alongar muito.

Minos riu. Uma risada maldosa que arrepiou ao Reitor. Cada vez mais tinha ímpetos de quebrar a cara daquele homem com suas próprias mãos, transformá-lo em migalhas e alimentar os ratos de laboratório. Pensando melhor, os pobres animais ajudavam no desenvolvimento da tecnologia, não mereciam aquele tipo de refeição.

"E você ainda me pergunta:

aonde é que eu quero chegar,

se há tantos caminhos na vida

e pouquíssima esperança no ar!

E até a gaivota que voa

já tem seu caminho no ar!"

Voltou a analisar os "homens" de Minos. Os garotos olhavam amedrontados o confronto que se desenrolara entre o comandante e ele próprio. Sentiu pena de todos eles, pena de si mesmo. Por um instante quis esquecer tudo, correr para debaixo de uma cama e só sair quando tudo tivesse terminado. Não era covarde, pelo menos não mais. Um dos garotos chamou a sua atenção. Cabelos dourados e olhos azuis pousados em si. Lembrou Natássia.

Parecia tanto com seu filho, entretanto fazia tantos anos que não o via que não sabia se seria capaz de reconhecê-lo. Adolescentes mudavam tão rápido. Deveria ser uma alucinação de sua cabeça. O filho não poderia estar ali. Não poderia estar no meio desse confronto sangrento e nunca poderia estar sob o comando daquela víbora.

- X -

Minos se cansara de medir forças com aquele almofadinha metido a homem. De todas as missões cretinas a que já tinha sido enviado, aquela era de longe a pior. Sentira os olhares de ódio sobre si e lembrou de como humilhara o comandante daqueles homens que estavam ali. Não conseguia entender como aqueles fracos se tornaram majores, coronéis. Ele próprio era apenas um tenente e merecia muito mais. Eles que viessem, que fizessem qualquer besteira, um passo em falso e não seriam somente os inimigos que iriam comer grama pela raiz. Não pôde conter o sorriso sádico que tomou seus lábios.

Não podia perder mais tempo. Se queria atingir seus objetivos precisava se livrar o mais rápido possível daquela missão patética. Tinha providências a tomar. Precisava fortificar aquelas barricadas toscas. Precisava planejar um ataque. Exterminar os inimigos externos e depois então pensar nos "internos". Um arrepio percorreu seu corpo ao lembrar "dos internos". Era um homem de ação, não entendia o porquê de defender aquele lugar. Em sua opinião existiam coisas e lugares muito mais importantes a serem defendidos. Mas ordens eram ordens, não que as cumprisse à risca. Os homens de poder careciam de inteligência. Faria o que fosse necessário, não mais que isso, mas também não menos. Saiu andando em direção aos corredores e foi prontamente seguido por seus homens.

O caminho do risco é o sucesso
O acaso é a sorte
O da dor é o amigo
O caminho da vida é a morte!

O garoto loiro que chamara a atenção de Camus ficara parado. Não conseguia desviar os olhos do reitor. Aquele homem era o seu pai. Ele tivera coragem de enfrentar o tão temido Minos. A admiração que sempre sentira aumentara exponencialmente.

Camus não sabia bem o que fazer. O garoto ficara parado, olhando-o. Seria mesmo Hyoga? Seria mesmo o seu filho? Se fosse, o que fazia ali, no exército? Sob o comando daquele crápula? As dúvidas assaltaram sua mente. Sentia uma dor de cabeça se aproximando, mas não era hora para frescuras. Aproximou-se do garoto receoso, mas precisava tomar uma atitude, não poderia ficar ali parado, congelado.

Hyoga?

Pai... sou eu.