Noutro canto da cidade, pouco tempo depois, na casa de Regina, Andreas chorava copiosamente com as mãos cobrindo o rosto. Killian massageava suas costas.
- Não tínhamos alternativa senão tentar negociar com o Sombrio. Eu impus isso ao meu amigo, para ajudá-lo na fuga. Não sabíamos que o ódio dele contra o senhor, era tão forte. – diz Marlene passando o casco no soalho levemente.
- O ódio é recíproco. Negociar com o Sr. Gold é sempre muito perigoso. Ele iria tirar proveito disso, mesmo que não soubesse a origem de Andreas. – Emma fala e esconde as mãos no bolso da jaqueta. Sentia frio. – Deve haver outro modo de conseguirmos sua transformação, sem precisarmos da ajuda de Gold.
- O crocodilo é uma criatura covarde e patética. Vocês deveriam ter confiado em mim e contado sobre o acordo. – Killian diz, sentindo seu coração perfurado a cada soluço de seu bebê.
- O senhor sequer assumiu a paternidade de Andreas ainda permitiu que ele fosse agredido e desonrado neste reino. Por que pensa que pediríamos sua ajuda? – ataca Marlene mantendo a fúria em seus grandes dentes.
- Eu não estava preparado para lidar com isso.
- Ora, Capitão! Foi mais divertido lidar com os comentários maldosos, difamadores da integridade de uma pessoa nobre como Andreas? Penso que o senhor não merece o filho que recebeu. – ela resmunga bufando.
David intervém.
- Tudo será resolvido ao amanhecer. Basta que eu fale com Leroy e ele se incumbirá de fazer a cidade saber de toda a verdade. Quanto ao problema de Marlene, ainda poderemos recorrer à Regina ou ao velho mágico que Gold aprisionou no chapéu.
- Por que o senhor irá disseminar a notícia? Quem deve fazer isso é o Capitão e ele não demonstrou interesse em assumir Andreas como filho.– Marlene rosna.
- Parem com isso! Tudo o que desejo é conhecimento para atender à ordem que recebi de minha mãe e ajudar minha amiga Marlene! - implora Andreas em meio às lagrimas. – Eu pagaria qualquer preço para libertar Marlene! Eu faria o que ele me pedisse! Mas matar o Capitão...
- Ele iria usar você para atacar Killian. Incrivelmente, Killian é o único que o enfrenta sem magia e isso o afeta muito. – comenta David.
- Dane-se Killian ou qualquer um de vocês! – rosna Marlene. – Minha preocupação exclusiva é com Andreas! Não quero que ele se sinta mal por tentar ajudar-me!
Regina aproxima-se do grupo com tamanha calma, que provoca admiração e estranheza. Ela toca os cabelos do jovem e o traz para junto de seu corpo. Ele abraça suas pernas e esconde o rosto no tecido da saia.
- Andreas ficará bem, Marlene terá seu desejo atendido e todos ficarão felizes. Não precisamos mais da presença de vocês porque é tarde da noite e temos de descansar. – ela sorri para David e Emma, depois volta-se para encarar o rosto bonito do capitão pirata. – Por favor, Capitão, quero que se mantenha longe de Andreas por enquanto. A sua presença não é benéfica para ele. Quando o senhor aceitar que é pai de um jovem maravilhoso e valoroso, poderá voltar a vê-lo. Daqui para frente, nós cuidaremos do menino.
Killian levanta-se indignado e é detido suavemente por Emma.
- Eu tenho o suficiente para manter a todos pelo tempo que for necessário. Providenciarei o que eles precisarem e por isso sua presença poderá ser dispensada no momento.
Emma não consegue acreditar na tamanha suavidade da mulher e na falta de trejeitos naquele rosto de mármore. Era uma estátua viva! Fria e sem linhas de expressões. Algo não estava correto.
Sozinhos no pátio, o pequeno grupo de visitantes permanece em silêncio até Marlene manifestar-se.
- Perdi a chance de ser mulher novamente.
- Acha mesmo que o Sr. Gold iria apenas negociar por causa de um feijão? O rosto de Andreas o denuncia à distância para todo aquele que já conviveu com o Capitão Gancho. Não seria diferente com o advogado. Ele deve ter até sentido o cheiro do Capitão na pele do menino.
- E agora?
Regina dá de ombros.
- Dê tempo ao tempo. Encontraremos uma solução para isso e vamos começar a pesquisar. Alguma solução deve existir.
Marlene emite um som choroso e permite que Regina acaricie sua longa crina.
A manhã seguinte chega imponente...
- Nossa filha está respirando com auxílio de aparelhos e você não quer pedir ajuda? – Belle mostra-se furiosa. Esmurra o ombro do marido. – Seus truquezinhos e poções não foram suficientes para evitar que nossa filha fosse hospitalizada!
-Não vou acreditar no conhecimento de um mero herbolário. Nossa filha está sob os cuidados do Dr. Victor e dos melhores profissionais. Por que eu teria de recorrer a um forasteiro?
- Ele salvou minha filha!
- Salvou de uma febre e de uma simples diarreia. O que ela sente deve ser cuidado por profissionais. - Gold aperta os lábios e inspira profundamente.
- Eu vou atrás dele e vou implorar para que venha ao hospital!
- Não mesmo!
Belle explode em fúria, lágrimas e grita:
- Não estou pedindo sua autorização e a menos que use seus truques para impedir-me, não ficarei aqui de braços cruzados! Minha filha poderá morrer caso eu não faça nada! Nem seus truques foram fortes para mantê-la longe dos aparelhos!
- A culpa é sua. Perdi parte dos meus poderes quando me expulsou da cidade e me expos ao mundo comum. Agora, suporte as consequências. Os médicos estão fazendo o que cabe a eles, querida.
- E você fala com esta calma? Eu lhe perdoei e o aceitei de volta em nossas vidas, mas pelo visto , você não consegue aprender a lição! – ela se levanta bruscamente. – Não preciso de você para lutar por Maya! Eu a carreguei sozinha e posso cuidar dela!
Gold permanece impassível, como se aquilo não lhe dissesse respeito. Seus pensamentos estavam focados na possibilidade de recuperar seu prestígio de pôr um ponto final naquele pirata atrevido. Estar próximo a Andreas seria a maior possibilidade de mostrar-se forte. Dominaria Killian e junto disso, viria o controle da Salvadora e da cidade. O garoto poderia ser muito útil contra o pirata, mas como?
De súbito, ele se levanta e toma Belle de assalto. Sorri fartamente e toca-lhe o queixo com carinho. Beija-lhe os lábios pintados.
- Fique com nossa filha. Vou à procura do rapaz, apenas para provar a você de que está errada. Ele não pode salvar nossa filha.
Quando a porta do casarão é aberta, Gold é surpreendido por um menino robusto e de rosto feroz. Não tinha os traços comuns aos ogros e muito se assemelhava a uma criança anã.
- Boa noite, pequenino! Sou Robert Gold e...
- Sei quem é o senhor. O que quer? – ele permanece com uma carranca em seu rosto infantil. - Não temos nada que lhe interesse!
A fala do pequenino toma Gold de assalto.
- Eu vim em paz e quero pedir ajuda.
Petrus emite um som rouco e logo se torna taciturno.
- O Sombrio pedindo ajuda a alguém? Isso é patético! Vá embora! – ele usa seu dedo indicador e aponta para a rua.
- Minha filha está morrendo.
O rosto de Petrus sofre uma súbita transformação e suas sobrancelhas são arqueadas em espanto.
- Não tem algum truque mágico para salvá-la?
- Toda magia tem um preço e não posso arriscar a perda de outro filho.
Um véu de indiferença desce sobre o rostinho infantil de Petrus. Imediatamente, o coração de Gold apaixona-se pela pequena criatura.
- Preciso da ajuda de Andreas e tenho certeza de que ele não se furtará em ajudar.
Ao chegar ao hospital acompanhado por Andreas, o advogado sorri ao perceber os olhares gulosos e alguns furiosos em direção ao rapaz. As pessoas ainda desconheciam a origem do menino e mantinham sua desconfiança sobre o relacionamento dele com o pirata. Gold pouco se importava com isso. Queria apenas uma aproximação com o tímido visitante.
Enquanto caminhavam até o local onde Maya estava sendo cuidada, os dois homens são alvos de comentários discretos e assustados. Tudo era engraçado demais para Gold. Depois de tantas aventuras, agora estava sendo acusado de pederastia. Ora, que pensassem livremente, desde que não se atrevessem a exteriorizar ou a cidade iria receber uma nova geração de ratos.
- Oh, você veio! – Belle se atira nos braços de Andreas e o torna ainda mais envergonhado e enrubescido. – Diga-me que não amaldiçoou a minha filha! Eu lhe imploro!
Elegante e gentilmente, ele segura os ombros da mulher e perde-se na cor daqueles olhos. Sorri e nega com um movimento de cabeça.
- Amaldiçoar? Jamais faria tamanha monstruosidade. Tenho um filho e sei o que a senhora está sentindo. Nada fiz contra a pequenina!
- Ela não respira bem! Não para de chorar e somente ficou calma por três dias depois de sua visita. O que você fez a ela?
- Apenas a embalei junto ao meu coração. Ela adormeceu ouvindo as batidas compassadas dele. Fiz apenas o que minha mãe fazia comigo quando em estava choroso. Como disse ao seu marido, a mistura dos aromas das ervas em minha pele, provocou a calma na criança.
- Eu sei que pode parecer estúpido, mas toque minha filhinha!
No final daquele dia, a menina Maya já respirava sem os aparelhos e dormia serenamente sob os toques tenros e aveludados de Andreas em seus cabelinhos. Belle sorria encantada e agradecida, enquanto Gold sorria embevecido com a lembrança da imagem do pequeno ogro furioso. O dia estava bom para ele porque Belle havia aproximado o filho do pirata ao seu convívio e isso criaria uma situação de domínio sobre seu inimigo. Mas incrivelmente, não era isso que animava Gold e sim a visão daqueles olhinhos em tom amêndoas.
- Eu preciso retornar para o casarão. – Andreas fala timidamente e esconde seus olhos abaixando-os para não olhar Belle.
- Poderia entregar o mundo aos seus pés e não seria suficiente para agradecer pelo que fez por Maya.
- Não diga isso, senhora.
- Por favor, olhe para mim e pode chamar-se de Belle.
Os cílios escuros são levantados para a exibição de expressivos olhos cristalinos e brilhantes.
- Sempre que precisar de mim ou de meus conhecimentos em ervas, pode enviar alguém para chamar-me. Virei com prazer em serví-la, senhora.
Ela sorri e toca-lhe o queixo com suaves penugens de um dia sem ser barbeado.
- Eu lhe devo a vida de minha filha. Peça o que quiser e eu lhe darei.
O homem abaixa e levanta os olhos timidamente. Sorri.
- Quero que convença seu esposo a ajudar Marlene. Ela está tão triste que está começando a ficar doente. Eu morreria caso ela morresse.
- Considere feita a transformação. Meu marido irá ajudar sua amiga. – ela não retira o toque daquele rosto bonito.
