Komatsuhime foi, de longe, a mulher mais linda que já conheci em toda minha vida. Com seus 25 anos, seus cabelos negros eram muito longos, até quase a cintura, e brilhavam como pedra preciosa. Sua pele pálida também parecia brilhar como pérolas. Seus olhos eram penetrantes e pensativos; ela parecia sempre estar analisando o ambiente, e era também muito geniosa.

E agora ela estava sentada em nossa frente, após os cumprimentos formais. Enquanto os homens conversavam, eu e Mariko fomos levadas até outra sala, onde Komatsuhime e outras duas mulheres estavam.

- Senti falta de Edo... Tomiko foi muito gentil em me hospedar em Okayama, mas lá é calmo demais.

Tomiko era Toku-hime, segunda filha de Tokugawa. Komatsuhime não era filha verdadeira de Tokugawa, e sim de Honda Tadakatsu, mas fora adotada e ouso dizer que era sua filha preferida. Mas era mesmo impossível não gostar, ou no mínimo ter admiração por Komatsuhime.

- Eu venho de Odawara e estou aqui a pouco tempo... Acho que meu sentimento é o contrário. - Resolvi continuar a conversa.

- Ah... Odawara. - Komatsuhime olhou para mim com seus olhos inteligentes. - Está gostando de Edo?

- Sim... Apesar de sentir um pouco de falta do silêncio.

Acho que eu estava parecendo uma caipira, mas não me importei.

- Sim, cidades assim têm seus méritos... Mas acho que gosto de agitação. - Ela sorriu levemente, o que me fez sorrir também. Mariko estava olhando nós duas sem dizer nenhuma palavra. - Eu poderia lhe mostrar a cidade, Miyabi-san.

- Mariko-san já me mostrou um pouco da cidade.

- Ah, mas eu gostaria de me divertir com mulheres um pouco. Estou cansada de estar sempre rodeada de homens que não me dão atenção e ter que cuidar de filhos.

Percebi que Komatsuhime, como Mariko, também se sentia só. Todas nós, mulheres, nos sentíamos assim naqueles tempos - mesmo ela, cujo marido estava na outra sala. Ela era casada com o irmão mais velho de Sanada Yukimura, Sanada Nobuyuki, e este também era muito querido por Tokugawa.

- Eu ficaria honrada em acompanhar a princesa.

- A senhorita também nos acompanharia, Mariko-san? - Ela disse, finalmente se virando para Mariko, que fez uma reverância também aceitando. E então fomos chamadas para o jantar junto com os homens.

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Os homens pareciam menos tensos agora, talvez fosse o saquê. Takahara-sensei já estava falando alto, contando casos engraçados para Nobuyuki-sama, fazendo Komatsuhime rir também. Eles eram um casal muito harmonioso, e Komatsuhime me contou em algumas ocasiões como admirava seu marido, que era tão gentil, honrado e hábil com a espada. Ele realmente era um homem fácil de se gostar - ao contrário de seu irmão, que parecia sempre tão arrogante e confiante em suas habilidades. Nobuyuki era muito mais modesto.

Fiquei observando a sala, que tinha apenas vassalos de Tokugawa. Naomasa-sama estava próximo de nós, assim como Honda Tadakatsu, conversando. Honda-sama era um general poderosíssimo, e lendário - dizia-se que ele nunca havia se ferido em batalha, e elas foram muitas. O próprio Oda Nobunaga reconhecia e elogiava suas habilidades.

E notei Tokugawa Ieyasu do outro lado da sala. Ele estava sério, e devia ser um dos poucos totalmente sóbrios. Ele olhou para minha direção, e baixei os olhos, não querendo parecer mal educada. Eu ainda estava confusa por saber que ele mesmo tinha posto a vida de sua filha em minhas mãos, e sabia que se eu falhasse, não haveria perdão. Mas era mais provável que nada acontecesse, pensei depois.

- Veja, Miyabi-san.

Komatsuhime me acordou de meus pensamentos apontando duas dançarinas de leque que tinham chegado. Achei seus movimentos bonitos, e os homens pareciam estar gostando muito, mas acho que eu não conseguia me interessar muito em música e dança - talvez porque não tivesse a mínima habilidade para isso. Mas pelo menos Mariko ao meu lado parecia estar gostando.

- Queria saber dançar assim... - Ela suspirou sonhadoramente.

Os leques se moviam no ritmo da música, para um lado e para o outro, imitando ondas no mar. Fiquei um longo tempo focada neles, estranhamente hipnotizada, até que vi minhas próprias mãos segurando os leques, dançando. E me assistindo, se destacando entre outras pessoas, estava ele, com os olhos fixos em mim...

Masaru ou Keisuke?

Abri os olhos e vi Mariko e Komatsuhime sobre mim, com olhares preocupados. Percebi que estava deitada no chão.

- A senhorita está bem, Miyabi-san? Se sente mal?

Estavam todos olhando pra mim. Eu tinha simplesmente caído pra trás inconsciente no meio da apresentação.

- Não, eu... não foi nada. Acho que estou cansada, só isso.

- É melhor ir descansar então. Aoi irá levá-la aos seus aposentos.

Dei boa noite a todos completamente constrangida, enquanto a criada de Komatsuhime, Aoi, me abria a porta. Takahara me observou com preocupação até eu sair. Eu sabia que no dia seguinte me perguntaria se eu andava doente. Mas aquilo não era nenhuma doença - eram minhas memórias, cansadas de serem ignoradas, lutando para sair.