Capítulo 20

Nos últimos dez anos, essa data era sempre deprimente para Jensen, mas esse ano parecia particularmente pior.

Era natal e Jensen estava sentado em sua cama pensando em tudo que tinha acontecido em sua vida desde que conhecera Jared. Com certeza foi a época mais feliz de sua vida, mas também a mais triste.

Depois de viver um amor tão intenso, que às vezes beirava a loucura, Jensen se viu sozinho, acusado pelo amor de sua vida de assassino e agora, talvez, nunca mais ouvisse a voz dele, não poderia receber mais aquele abraço que amava tanto e que o fazia sentir-se tão seguro, nunca mais sentiria aquela boca que o enlouquecia a cada beijo.

Em uma de suas mãos segurava a camisa de Jared e na outra, segurava o anel que carregava em seu pescoço, esperando pelo momento em que ele poderia colocar no dedo do moreno novamente. Estava com a cabeça baixa, deixando que as lágrimas pingassem em suas pernas e sentindo seu corpo tremer por causa do choro incontrolável.

Será que ele já não havia pago o suficiente? Será que já não tinha sofrido o suficiente? Por que Jared estava sendo punido também? Jared era inocente e somente ele, Jensen, merecia sofrer. Mas o que o faria sofrer mais do que poderia suportar? Somente se acontecesse alguma coisa com Jared e tinha sido isso! Jared estava sofrendo por causa dele. Jared talvez nunca mais acordasse ou ficaria inválido para o resto de sua vida por causa dele.

Jensen não suportava mais esse peso sobre seus ombros e naquela manhã fria de natal, achou que ia enlouquecer. Queria gritar! Queria xingar! Queria morrer...

Mas só conseguiu chorar e quando Misha entrou no quarto, Jensen soluçava tanto que o amigo se assustou. Correu para Jensen e sentou-se ao lado do loiro, colocando o pacote que trazia nas mãos em cima da cama.

"Jen... Não fica assim..." Misha falou abraçando o loiro. "Você não pode ficar assim Jensen!"

Mas Misha sabia o quanto essa data era difícil para Jensen. Ainda mais com o Jared naquele estado.

"Eu não... agüento mais essa porra toda!" Jensen falou fechando as mãos em punho. "Eu não sei mais o que fazer, Misha! Eu não sei o que fazer... Por que, Meu Deus! Por que..." Jensen enterrou seu rosto no ombro de Misha e chorou por aproximadamente vinte minutos seguidos, sem parar. Derramou todas as lágrimas que podia e nem mesmo isso acalentou seu coração ou tirou um pouco do peso de seus ombros.

Misha preferiu não falar mais nada, somente abraçou Jensen e acariciou as costas do loiro num gesto de carinho e amizade. Jensen soluçava muito alto e às vezes ele sentia o loiro se contorcer, como se estivesse com raiva, mas no instante seguinte seu corpo ficava mole e ele chorava mais alto ainda.

"Eu vou ficar com ele hoje à noite, Misha..." Jensen falou depois que se acalmou e se afastou um pouco do amigo.

"Jen... não gosto nenhum pouco da idéia de você sozinho naquele hospital, ao lado de Jared, deprimido e se sentindo a última das criaturas." Misha balançou a cabeça e tocou os ombros de Jensen. "Vamos pra casa da Katie. Prometo que a hora que você quiser ir embora, a gente volta pra casa."

"Não quero estragar o seu natal." Jensen falou tateando em cima da cama e encontrando a camisa de Jared. "Eu quero ficar com ele, Misha. Eu não posso deixá-lo sozinho no nosso primeiro natal..." Jensen falou e as lágrimas vieram com força mais uma vez. O loiro colocou as mãos no rosto, tentando de controlar.

Misha não teve coragem de dizer que Jared não saberia se ele estivesse lá ou não, ou que o moreno não tinha como saber que era natal. Seu melhor amigo não merecia ouvir essas palavras.

"Tudo bem, Jen. Eu não vou insistir." Misha falou e olhou para seu amigo, que parecia acabado ali na frente dele e suspirou. "Mas eu posso pelo menos que levar até lá?"

"Pode sim. Obrigado, Misha... por tudo." Jensen abraçou o amigo novamente e depois se lembrou do que havia pedido para ele. "Você comprou o que eu te pedi?"

"Jensen... não acho que seja uma boa idéia." Misha falou pegando o pacote, entregando nas mãos do amigo. "Tem certeza disso, Jen?"

"Tenho certeza..." Jensen respondeu e deu um sorriso fraco.

"Tudo bem! Você quem sabe!" Misha não ia se meter nas loucuras do amigo. Afinal dar um presente para uma pessoa em coma, era muita maluquice, mas se Jensen queria fazer isso, Misha o ajudaria.

"Mais uma vez, obrigado." Jensen sorriu de novo, mas seu sorriso era triste demais para Misha o acompanhar.

"O que pretende fazer até a hora de sair, Jen?" Misha perguntou olhando para o amigo que acariciava a caixa em seu colo.

"Vou descansar, dormir... sei lá." Jensen respondeu e em seguida colocou a caixa na cama, se levantando."Por que?"

"Eu estava pensando se a gente podia sair pra almoçar... que tal?" Misha perguntou cruzando os dedos.

"Acho melhor não. Eu preciso descansar um pouco, mas obrigado." Jensen respondeu tateando a porta de seu armário e retirando uma camiseta, a vestindo em seguida."A consulta é na segunda agora né?" Jensen perguntou se referindo a consulta no oftalmologista.

"Isso! Jen, eu não estou agüentando de ansiedade!" Misha falou sorrindo e segurou os ombros do loiro. "Eu tenho certeza que você vai voltar a enxergar e vai poder ajudar o Jay do jeito que você quer fazer."

"Espero que sim, Misha. Senão, não sei o que vou fazer!" Jensen falou passando a mão pelos cabelos. "Eu preciso voltar a enxergar de qualquer jeito e o mais rápido possível."

Misha deixou Jensen na porta do hospital ainda tentando convencer o loiro até o último minuto de não ficar sozinho, mas Jensen não aceitou e abraçou o amigo.

"Feliz natal, Misha!" Jensen falou e seus olhos imediatamente se encheram de lágrimas.

"Feliz natal, Jen." Misha falou sentindo um nó em sua garganta. "Quer que eu fique com você? Eu posso ligar pra Katie, Jen! Ela vai entender e..."

"Não, Misha." Jensen disse sorrindo um pouco. "A Katie vai te matar se você não aparecer em plena noite de natal."

"Vai nada! Cão que ladra não morde!" Misha falou e Jensen sorriu um pouco mais.

"Misha, vai pra sua festa. Eu vou ficar bem." Jensen falou mais uma vez e desceu do carro, levando a caixa dentro de uma sacola.

Misha ficou observando e como já era hábito, esperou Jensen entrar. Suspirou alto e uma lágrima rolou por sua face. Ele torcia para que tudo acabasse logo, que Jensen voltasse a enxergar, que Jared ficasse logo bom e eles um dia iriam rir de tudo aquilo.

O moreno arrancou com o carro, pois estava mais do que atrasado e não viu quando Chad entrou no hospital, vestindo um moletom com capuz preto.

Sandy estava arrumando Jared e enquanto fazia isso, observava o moreno. Ele estava um pouco abatido, mas era incrivelmente lindo. Passou as mãos pelos cabelos dele, arrumando os fios e depois não se conteve e tocou em seu rosto, agora um pouco mais magro.

A enfermeira pensou em Jensen e em tudo que o loiro havia lhe contado sobre o amor deles. Lágrimas emocionadas vieram em seus olhos, olhando para aquele rapaz tão lindo, deitado ali naquela cama, em coma. Não era justo! Mas quase nada na vida era justo.

Sandy ajeitou o travesseiro de Jared e em seguida o lençol que o cobria. Queria que tudo estivesse perfeito, que Jared estivesse lindo e cheiroso para quando Jen chegasse.

Sentiu uma pontada no peito quando pensou que Jensen não podia ver Jared e chorou mais ainda.

"Com certeza a vida dele não é justa!" Sandy pensou e nesse exato momento, Jensen entrou no quarto.

"Quem está aí?" O loiro perguntou sentindo que tinha alguém no quarto de Jared e se preocupou.

"Sou eu, Jen." Sandy sorriu ao ver que a expressão do loiro se suavizou quando reconheceu sua voz. "Estou arrumando o Jared."

"Como ele está, Sandy?" Jensen perguntou se aproximando da enfermeira e a abraçando. Depois a soltou e tateou a mão de Jared, a segurando e depois beijando. "Oi amor... Como você está hoje?"

"Ele está bem, Jen." Sandy falou sentindo uma lágrima descer por seu rosto ao ver aquela cena. "Tem certeza que você vai passar a noite da natal aqui, Jen?"

"Tenho. É o nosso primeiro natal e não quero ficar longe dele, Sandy." Jensen disse e beijou longamente a mão do namorado.

"Quer que eu traga alguma coisa pra você antes de eu ter que ir?" Sandy perguntou aflita por deixar o amigo ali sozinho. "Jen, eu não queria te deixar sozinho aqui."

"Mas eu não vou ficar sozinho, Sandy! Eu vou ficar com Jared." Jensen falou, mas sua voz parecia extremamente triste.

Sandy balançou a cabeça desolada, mas não podia forçar um homem com o tamanho de Jensen a sair do quarto. E não queria mesmo fazer isso, mas também não queria deixá-lo sozinho na noite de natal.

"Jen, quer que eu fique com vocês?" Sandy perguntou acariciando os cabelos do loiro, que sorriu.

"Não precisa, minha flor." Jensen se levantou e a abraçou mais uma vez com carinho. "Obrigado por tudo, Sandy! Feliz natal!"

"Feliz Natal, Jen!" A enfermeira falou com lágrimas nos olhos e Jensen tateou o rosto dela, sentindo que estava molhado.

"Você é muito bonita, Sandy. Se eu não estivesse tão apaixonado pelo Jared eu ia querer namorar com você, sabia?" Jensen falou em tom de brincadeira e Sandy riu alto.

"Até parece que eu sou páreo para o Jared!" Sandy apontou para o moreno, que era enorme, deitado.

"Desculpe Sandy... mas ninguém é páreo para o meu Jay!" Jensen sorriu um pouco mais descontraído e a enfermeira se afastou do loiro, ainda rindo.

"Eu sei, Jen..." Sandy falou terminando de arrumar Jared na cama. "Tem certeza que não quer que eu fique?"

"Tenho! Agora que você já acabou de alisar meu namorado..." Jensen riu imaginando Sandy passando a mão em Jared. "Quero que você vá para a sua casa e aproveite bastante a noite da natal com seus amigos e família, está bem?"

"Eu não fico alisando o Jared... É o meu trabalho arrumar os cabelos dele, ajeitar a roupa dele..." Sandy riu e abraçou Jensen. "Além do mais, seu namorado é muito gostoso e você não pode me culpar por eu tirar uma casquinha de vez em quando, pode?"

"Você eu deixo!" Jensen beijou a bochecha da enfermeira. "A gente se vê amanhã?"

"Claro Jen! Amanhã a gente fofoca mais e eu tenho que te entregar o presente que comprei pra você!"

"Sandy! Não precisava comprar nada! A sua amizade já é um presente pra mim!" Jensen falou se emocionando um pouco. "O jeito como cuida do Jared... sempre com tanto carinho..."

"Assim eu vou chorar, Jen!" Sandy falou emocionada. "Até amanhã!"

"Se cuida, ok?" Jensen recomendou e Sandy saiu do quarto, deixando Jensen sozinho com Jared.

"Feliz natal, amor!" Jensen falou se aproximando de Jared e buscou seus lábios com a ponta dos dedos, para depois encostar sua boca na dele. As lágrimas do loiro molharam o rosto de Jared.

Chad aguardava a enfermeira gostosa sair do quarto de Jared e assim que a viu indo na direção da porta do hospital, passou pela recepção disfarçadamente e abriu a porta do quarto.

Jensen estava debruçado sobre Jared e falava alguma coisa para o moreno, mas notou quando uma pessoa abriu a porta do quarto e sorriu.

"Sandy... Você ainda não foi, minha flor?" Jensen falou na direção do barulho e não ouviu nenhuma resposta.

"Que vergonha, Jensen! O seu namorado está em coma e você o está traindo com aquela enfermeira super gostosa?" Chad falou e entrou no quarto, fechando a porta em seguida.

"O que você está fazendo aqui Chad?" Jensen perguntou reconhecendo aquela voz que lhe dava arrepios.

"Calma, loirão! Eu não vim aqui pra te bater. Mesmo porque o seu namorado não vai poder te defender dessa vez." Chad falou e soltou uma risada debochada que irritou Jensen.

Jensen respirou fundo e segurou a mão de Jared, como se isso de certa forma o tranqüilizasse.

"Chad, por favor, vai embora." Jensen falou se sentindo cansado. "Hoje é natal e eu queria ficar com o Jared. Outro dia você volta para visitar ele, ok?"

"Como você é babaca! Eu venho aqui desde que soube do acidente!" Chad falou indignado por Jensen pensar que ele nunca tinha visitado o amigo. "Eu venho nas horas em que você não está!"

"É mesmo? E como ninguém nunca me contou que você esteve aqui?" Jensen ficou intrigado.

"Não sei. Talvez as pessoas achem que você já está sofrendo muito e não precise de mais alguma coisa pra se aborrecer." Chad respondeu se aproximando mais do loiro. "Mas eu vim aqui só pra te dizer uma coisa. Eu não quero brigar e muito menos discutir, Jensen."

"Fala logo e se manda, Chad!" Jensen exigiu e sentou na cadeira ao lado da cama de Jared, sem soltar sua mão um só instante.

Chad queria contar para Jensen que tinha sido ele o culpado por tudo que havia acontecido, mas não conseguia encontrar a coragem necessária para começar a falar.

Ele sabia que tinha agido errado e que Jared nunca o perdoaria, mas continuou levando sua vida. Viu a transformação que aconteceu com Jared depois que ele e Jensen brigaram. Soube que Jared tinha sido demitido do emprego e que passava todas as noites se embebedando, mas não tinha sido capaz de procurá-lo e esclarecer as coisas. Simplesmente dizer que Jensen não era o culpado.

"Você vai falar ou não?" Jensen perguntou para Chad, o tirando de seus devaneios.

"É o seguinte Jensen..." Chad começou a falar e parecia que seu peito estava sendo esmagado enquanto contava para o loiro tudo que havia acontecido, tudo que ele havia feito para separá-los.

Jensen ouvia tudo calado, sem conseguir ter nenhum reação diante das palavras de Chad.

"Você não é o culpado por nada, Jensen! Quem matou seu namorado foi o Jeff! Quem contou tudo de maneira destorcida para o Jay, fui eu!" Chad agora chorava olhando para o amigo deitado imóvel na cama. "E eu não consigo mais viver com isso, Jensen!"

"Você sabe que se ele acordar, nunca vai te perdoar, não sabe, Chad?" Jensen falou com a voz rouca.

"Eu sei... me perdoa Jensen!" Chad implorou. "Eu juro que não queria que as coisas acontecessem assim... Eu não queria que o Jay se machucasse desse jeito!"

"Mas ele se machucou e talvez nunca mais acorde, Chad! Você conseguiu nos separar de uma forma tão dolorosa, que nem ódio eu consigo ter de você." Jensen falou de forma controlada e se levantou. "Agora sai daqui antes que eu acabe com a sua raça."

Jensen tinha noção que não conseguiria dar a surra que Chad merecia. Mas fez uma promessa para si mesmo que quando voltasse a enxergar, o procuraria e aí então, a conversa seria de outra forma.

Jensen ouviu que Chad chorava e quando ele saiu do quarto, Jensen desabou. Chorou agarrado à mão de Jared.

"Jay... você sabe o quanto eu te amo, não sabe?" Jensen perguntou depositando vários beijos no braço do moreno. "Eu te amo tanto... Volta pra mim..."

Jensen chorou até conseguir se acalmar e colocou a mão de Jared em seu rosto, acariciando com sua barba por fazer. Jensen tinha decidido fazer a barba porque Jared não ia gostar de vê-lo daquele jeito quando acordasse.

A certeza que Jensen tinha de que Jared acordaria a qualquer minuto era muito forte e ele sentia que cada vez estava mais perto.

Baixou um pouco a cabeça, encostando a testa no colchão da cama de Jared e acabou pegando no sono sem conseguir evitar o cansaço enorme que o envolveu.

Acordou com alguém acariciando seus cabelos e ele conhecia bem aquele toque.

"Jay?" Jensen falou segurando a mão que o acariciava. Era a mão de Jared! "Jay! Você acordou!"

"Jen..." Jared falou com uma voz muito fraca, sentindo sua boca extremamente seca. "O... que... aconteceu?"

Continua...