A promessa
Capítulo 19 - Folhas
Ginevra, agora.
Saí do hospital completamente contra minha vontade, não conseguindo focar em nada no caminho de volta para cassa - nossa casa. Que em breve seria apenas minha casa. A água morna caía nas minhas costas e eu finalmente deixava o choro sair até soluçar, enquanto Ella estava longe, enquanto ele estava longe. Era tão bom e tão horrível ter aquele tempo para desabar contra a parede do chuveiro.
Eu ainda tentava tirar os nós do cabelo molhado quando Percy avisou através da porta que estava de saída, sem mais explicações me informando que o marido tomaria seu lugar. Não queria enfrentar o moreno, ao mesmo tempo não tive forças para contestar a decisão de meu irmão. Escutei a porta da frente fechar, e então segundos depois ela abriu novamente, e passos muito mais silenciosos que os de Percival subiam os degraus, entrando sem qualquer aviso no quarto.
"Ele está morrendo." falei, a voz rouca que saiu denunciando meu estado junto de meus olhos vermelhos.
O bruxo, como sempre, não parecia fazer muita questão de ser alguém agradável, sentando-se ao meu lado sem qualquer convite de minha parte. Argh, como eu era amiga de uma pessoa dessas? E por que aqueles olhos castanhos pareciam sempre me estudar tanto?
"Boa tarde pra você também, Virgínia." Não, não hoje. Não agora.
No segundo seguinte estava de pé, minha irritação tangente pelo tom que minha voz saía.
"Zabini, eu tão não-"
"Eu sei." ele me cortou - e eu iria assassinar aquele bruxo. "Eu sei que meu amigo está morrendo." Tinha certeza que arrancaria todas as suas partes irritantes, pedaço por pedaço.
"Você sabia o tempo todo, e não teve a decência de me falar nada!" Pedaço por pedaço-
"É aí que você se engana, ruivinha." Zabini respondeu, levantando-se, indo parar poucos centímetros longe de mim. Aquele bruxo conseguiria ser bem intimidador, tão mais alto, tão mais forte, provavelmente mais poderoso - se apenas eu não estivesse tão puta. Mas para minha surpresa, ele conseguiu diminuir ao menos um décimo da minha vontade de mata-lo com sua próxima frase. "Faz pouco mais de um mês que eu te contei sobre o tumor. Sim, fui eu quem te contou, caso você ainda não tenha descoberto ou lembrado disso." ele emendou, provavelmente ao ver a confusão nos meus olhos. "Lembra que Malfoy te deu um cartão do seu cofre?" Como? "É, ele me falou que te deu, eu perguntei antes de vir pra cá. Vá pega-lo."
Era sério que, com tudo que estava acontecendo-
"Eu realmente não estou com saco para-"
"Vá pega-lo, Ginevra." Aquela voz sim conseguia me intimidar. "Agora." Aquela voz, junto da expressão mais séria que já vira em qualquer rosto. Nem pensei antes de ir procurar o item no bolso do jeans que antes usava, a chave indo parar nas mãos de Blaise em segundos, Blaise indo parar no andar de baixo com um pop.
Não me atrevi a fazer o mesmo.
"Como você sabe-"
"Mágica." ele respondeu, já tirando o porta-retratos que emoldurava nossa foto de casamento da parede, atrás deste uma pequena porta que quase se camuflava na parede. O vi retirar algo ali de dentro antes de voltar a fecha-lo, o item pequeno demais para ser visto envolto pela mão grande do bruxo. "Puta que pariu."
E por um momento, o sonserino ficou em silêncio, parecendo contemplar o que havia descoberto - e ainda não dividido comigo. Quando nossos olhos voltaram a se encontrar, podia ver um sorriso quase melancólico em seus lábios.
"Silencio." ele levantou a varinha, lançando o feitiço ao redor do cômodo, e foi ali que eu percebi que havia algo de muito, mas muito sério para ser conversado. "Agora podemos falar." O problema, para mim, foi ele ter começado com uma frase que não fazia o menor sentido. "Graças à Merlin sua outra você segue as instruções que dou, e faz boas escolhas. Ao menos parece que fez boas escolhas até agora, visto que ainda tenho uma aliança no dedo."
"A outra eu?"
"Mas então, tudo pode muito bem mudar apenas quando isso terminar." E a total falta de coerência - para mim - continuava. "Talvez nisso o russo estivesse correto."
"A outra eu, Zabini?" falei com a irritação de minutos atrás, em poucos passos acabando com a distância que havia entre nós. "Que merda de outra eu?" E quando ele enfim abriu a mão para me mostrar o que segurava, ali estava um frasco com um líquido verde turvo. "Essa é a poção? A que você me deu?" Um aceno positivo foi a resposta que consegui, o bruxo examinando mais de perto o frasco. "Mas eu tomei isso!" E agora, um aceno negativo. "Eu não tomei isso?"
"Essa não. Essa é a que você tomaria se tivesse desistido de mudar o passado." E meu cérebro pareceu desistir de entender naquela frase: mudar o passado? "Você esqueceria seu marido, sua filha, seus últimos doze anos." ele continuou me explicando, como se não tivesse me revelado nada de relevante. "Por mais ou menos trinta dias. Só pra aprender a não ser filha da puta e tentar apagar da sua cabeça um moribundo." Eu mesma pareci esquecer daquilo por alguns instantes, querendo muito mais contestar aquela última frase.
"Eu tão não queria esquecer-"
"Queria sim, você estava puta e tinha certeza que ele estava te traindo." Qual das informações era pior? "Você queria esquecer."
"Eu te pedi uma poção pra esquecer minha família?"
"Não exatamente me pediu. Você comentou com Luna sobre essa aqui." E o frasco desapareceu em seu bolso. "A outra não, não tinha como você saber da outra."
"Ok, eu não estou entendendo." A outra? "Eu caí, então? Eu realmente perdi minha memória?"
E a frase seguinte foi tão, mas tão absurda, que quase me fez gargalhar.
"Ginevra, você tem vinte e quatro anos." Ginevra - outra vez, meu cérebro tentando decifrar os menores detalhes, para não pensar no que realmente estava sendo revelado ali. Meu nome não era Ginevra. "Ou eram vinte e três? Números nunca foram o meu forte." o bruxo continuou a falar, de um jeito tão casual que beirava o perturbador. "Eu consegui essa alternativa com um bruxo. Abençoados sejam esses russos insanos, que cagam para as leis mágicas."
"Eu tenho vinte e quatro anos." E aquele primeiro dia fez tanto, mas tanto sentido: Merlin, eu realmente estava numa realidade que não era minha. Mas o resto não, o resto não fazia o menor. Perguntei a única coisa que me vinha à cabeça. "Você conseguiu um viratempo?"
"Esses itens foram destruídos há muito tempo, todos sabem disso." o vi responder, revirando os olhos. Claro que ele não tinha conseguido aquilo: como eu poderia estar ali com tal coisa?. "E que bem me faria um viratempo? Não, o que você usou é bem melhor que um simples viratempo. É um pouco novo, tenho que dizer. Talvez um pouco imprevisível, também. Pode ser instável. Segundo o que Vladmir me explicou, você - a você mais velha, a minha você - volta para um determinado ponto passado no tempo e fica vivendo lá por umas vinte e quatro horas mais ou menos. Diferente de um viratempo, essa alternativa não te dá tempo ilimitado, e nem deixa ter duas Virgínias no mesmo lugar - e então a você do passado vem para cá, porque parece que você tem que vir para algum lugar." Zabini tentou explicar, voltando a pendurar o porta-retrato na parede. "É uma parada meio transcendental, eu sei." A voz continuou quando seus olhos viram a cara que eu provavelmente deveria estar fazendo. " Você vê, a sua mente tem vinte e quatro anos. Seu corpo tem seus trinta e poucos."
"Essa é a coisa mais absurda que eu já ouvi." Foi a única resposta que conseguiu sair, porque aquilo tão não fazia o menor sentido. Uma poção que me faz voltar no tempo? Avançar, no meu caso. Como que isso pode existir?
"Eu pensei o mesmo, mas tempos difíceis pedem medidas desesperadas." Em todos os meus anos de bruxa, não havia nada além de viratempos que mexia com linhas temporais - e ainda eles eram tão perigosos e tão completamente ilegais!
"A minha futura eu voltou para o passado, então?" Talvez falar alto faria tudo aquilo ter alguma lógica. "Para tentar evitar esse câncer." Porque era a única explicação. "Draco sabe?" Zabini pareceu conter uma gargalhada, sua expressão não combinando em nada com a voz séria que seguiu.
"Claro que não sabe! Ruiva, essa é a coisa mais ilegal que eu já fiz na vida! Isso dá uma bela de uma perpétua, sabia? Nem eu escaparia disso - e olha que já me safei de muita coisa que colocaria qualquer um em Azkaban. Ninguém além de você - e eu - pode saber com toda certeza que isso foi usado. Deveria ter feito a merda de um voto perpétuo, só que a minha Virgínia viu o quanto era difícil manter um segredo entre duas pessoas, quem dirá entre três!"
"Então algo deu errado!" E pela primeira vez naquela manhã, Blaise Zabini me olhou surpreso. "Você falou vinte e quatro horas."
"Os russos parecem que também não são muito bons com números. O cara que me vendeu isso ainda não tinha acertado exatas vinte e quatro horas dos dois lados. Enquanto Virgínia fica vinte quatro horas lá - talvez ela fique até menos, eu realmente não sei -, você fica mais ou menos vinte e quatro dias aqui." Zabini disse, encostando-se no corrimão, a voz se tornando pesada na próxima frase. "Eu nem sei porque estou te explicando tudo isso. Só precisava ter certeza do que ela escolheu."
"Mas isso é bom, não é mesmo? Eu tomei a poção, eu estou tentando salvar o meu marido!" Então por que diabos o tom tão triste?
"Você ainda não entendeu o quão grave pode ser isso que estamos fazendo, entendeu?" o bruxo me perguntou enquanto rodava sua aliança no dedo. "Não importa mais nada do que acontecer aqui. A partir do momento que acabar o tempo dela e você voltar, se algo mudou, nada mais disso existe. É tudo reescrito. As decisões que você tomou nas últimas horas do passado, se você escolheu fazer algo que não fez naquele dia, se interagiu com alguém diferente - de forma diferente -, qualquer coisa além do que aconteceu pode mudar tudo." Precisou vir aquela explicação para eu compreender a gravidade do que havíamos feito. "A gente só espera que mude para o melhor."
Oh, merda.
Não.
"Zabini," Nunca tive tanto medo de fazer uma pergunta. "Qual foi o dia que eu alterei?" E naquele momento entendi o porquê de nós sermos tão amigos: do mesmo jeito que ele conseguia me ler, eu o lia. E com o olhar que Blaise me deu, eu soube que havia ido justamente para o dia que mudou tudo. O dia que parei de me lembrar. "Nem fodendo que eu fiz isso." disse, uma mão cobrindo minha boca. Não. "Zabini, que diabos!" Como aquele bruxo me deixou fazer isso? "Isso é uma pegadinha. Você estava puto comigo no Halloween por eu talvez ter tomado-"
"A poção errada!"
"Mas eu tomei a poção errada! Ou melhor," Porque eu nunca tomaria aquela merda! "A minha eu do futuro tomou a errada! Como você me deixou fazer isso, Zabini, como?" Eu poderia mudar vidas falando com alguém diferente, eu poderia perder tudo se fizesse qualquer coisa que alterasse o final daquele maldito dia! "Se eu mudar algo, eu posso perder a minha filha!"
"Você não tem uma filha ainda, Ginevra!" o bruxo igualou o volume de sua voz ao meu. "Cacete Vermelha, do mesmo jeito que você pode ter perdido o seu, eu posso muito bem ter perdido o meu marido!" ele gritou, parecendo tão arrasado quanto eu estava. "Mas você precisava dessa merda, e eu precisava do meu irmão vivo. Nós precisamos dele vivo, Ella precisa dele vivo. E vocês precisam de uma chance para começarem um relacionamento onde um possa conversar com o outro - realmente conversar. Você espera que, mudando um pequeno detalhe, as conversas difíceis entre vocês dois seja algo possível, e ele não acabe abandonando a mãe numa instituição psiquiátrica, e você não acabe cortando contato com uma família quase inteira. Percy ainda fala com sua mãe, sabia?"
Não.
"Você está me dizendo que eu realmente não sou dessa realidade?" Nem fodendo. "Porque isso é absurdo! Não faz sentido isso que você está me explicando, Blaise! É absurdo, eu-"
"Respira." o moreno me pegou pelos braços, respirando fundo, e tentei igualar minha respiração com a dele. "Você é dessa realidade. Você só não é desse tempo, Ginevra."
"Meu nome é Virgínia!" E não Ginevra! Porque ele continuava a me chamar de Ginevra, por que? "Eu-" Por que meu peito apertava tanto? "Não faz nem um mês, e eu-" Por que me doía tanto pensar em perder algo que nem era meu há dias atrás? Que nem era meu? "Eu não quero voltar para um lugar sem minha família." Por que eu estava chorando outra vez, mas que droga!
"Você não vai, confie em mim." ele afirmou, e eu invejava aquela calma. "Você só vai ter uma ajudinha extra para fazer tudo certo dessa vez. Sem evitar falar sobre o passado, sem tomar contraceptivos escondido de seu marido. E principalmente, sem trancafiar a magia de nenhum dos dois. Vai dar certo. Tem que dar certo."
"Como isso funciona? Como eu volto?"
"Quando acabar o efeito do que Virgínia tomou, tudo acaba. Num segundo você estará aqui, e no outro vai estar no último lugar que sua outra você estava." E no mesmo segundo comecei a contar os dias que haviam passado. Duas semanas com certeza, eram quase três, certo? Haviam passado três sábados? Já eram vinte e um dias? "Você também não vai lembrar de nada do que aconteceu aqui. Não do jeito que lembramos de nossas memórias, ao menos." O que?
"Blaise-"
"Mas eu sei que algo vai mudar." Não sabia o quão irritada estava com aquela informação. "Vocês se amam demais para dar errado pela segunda vez."
"Você está me dizendo-"
"Que além de perder os dias daqui, no passado você também não vai lembrar de suas últimas vinte e quatro horas - essas a minha Virgínia pegou." Por mais que fizesse sentido - não, não sentido, era apenas mais fácil - não lembrar daqueles últimos dias. "Você deve voltar a abrir os olhos sentada num pub trouxa." Mas não lembrar do meu futuro poderia me fazer perdê-lo - e eu nem mesmo ligaria. "Pelo menos assim espero, ou a ruiva fodeu com tudo."
"Merda, Zabini!"
"E nunca pare de xingar." o bruxo disse, enfim sorrindo - não menos melancólico. "Tem seu charme. Agora, Virgínia-" Mas a frase foi interrompida por um toque, Blaise tirando o celular do bolso no mesmo segundo. "Percy está me ligando." Nenhum dos dois teve coragem de atender. "Veja seu telefone."
Apalpei o bolso do meu jeans e merda, ele tinha ficado no quarto. O telefone que havia posto no eterno modo silencioso - apenas vibrava - havia ficado no quarto enquanto eu tinha um marido praticamente-
"Eu tenho três chamadas perdidas." disse ao voltar para a escada, Zabini já abrindo a porta da frente.
"Aparatar está fora de cogitação, certo?" ele se certificou, antes de pegar a chave do carro na mesinha do hall. "Eu dirijo."
...
Blaise Zabini dirigindo era tão perigoso quanto suas malditas poções - como não fomos parados durante o percurso até o hospital permanece um mistério para mim. Com certeza haveriam algumas boas multas em sua habilitação - se é que havia alguma -, mas realmente, aquilo importava agora?
"Devemos buscar Ella?" Só consegui pensar no nosso pequeno detalhe quando passamos pela porta automática, mas não tive resposta, a voz do bruxo só voltando quando apertamos o botão do elevador.
"Você sabe o que pode encontrar quando chegarmos, não sabe?" ele disse, pressionando dois ao entrarmos. "Você quer passar por isso, mesmo sabendo que-"
"É real." Era óbvio que eu não queria passar por isso, assim como era óbvio que eu não iria embora agora, por mais que pudesse acabar a qualquer segundo aquela realidade. "É real pra ele. Eu sei que seria muito mais fácil me trancar no meu quarto e esperar tudo acabar-"
"Esse filho da mãe realmente escolheu certo." o bruxo me cortou, quase correndo elevador afora quando as portas se abrindo. Não fiz diferente. "Percy!" Foi fácil achar meu irmão: fora do quarto, era o único que andava de um lado par ao outro no corredor, enquanto uma loira conhecida saía do quarto em que estava meu marido, deixando a porta entreaberta.
"Luna?" E não, nenhum dos dois estava com uma cara boa.
"Você não atendia o telefone, Vi." Não me diga o que eu não quero ouvir. "Ele teve mais duas crises. Pediu para trazer Ella quando acordou."
"Eles estão no quarto." Quem falou foi meu irmão, indo para o lado de Zabini. "Acho que nós três devemos ir comer alguma coisa e deixar vocês três um pouco sozinhos." ele disse, mas os três bruxos só partiram após Percy se certificar que sim, eu ficaria bem sozinha. "É só ligar que subimos correndo, ok?"
Respirei fundo, reunindo o pouco de coragem que me restava e adentrando o quarto.
No quarto, havia um pequeno corredor que tomava uns bons seis passos de alguém até chegar a cama. Com a porta apenas encostada, não fiz barulho algum ao entrar, e pelo reflexo da janela via meu marido semi-sentando na cama com nossa filha em seu colo. E Ella sorria, parecendo tão despreocupada, com certeza não entendo que o pai não estava apenas 'dodói'. Era tão bom que ela não entendia.
Estava prestes a me fazer ser vista quando a voz - tão mais fraca - de Draco tomou o quarto.
"Meu amor, está vendo aquela folha lá em cima na árvore? Eu vou te contar a história dela." Ainda pelo reflexo, vi os olhos de Ella se tornarem curiosos, a pequenina olhando para fora da janela. "O nome dela é Vi. A Vi nasceu num lindo dia de primavera, junto com diversas outras folhas. Havia Colin embaixo dela, Fred logo acima. E havia Dan ao seu lado. Todas as folhas cresceram juntas. Aprenderam a dançar com a brisa da primavera, esquentar quando tinha sol no verão, a se lavar na chuva fresca. Mas de todas as folhas, Dan era seu melhor amigo. Era a folha maior no galho e parecia que estava lá muito antes de qualquer outra. Era por isso que Vi achava que Dan era o mais sábio. Foi Dan quem contou pra ela que os dois eram parte de uma árvore. Foi Dan quem explicou que os dois estavam crescendo num parque, e quem revelou que a árvore onde viviam tinha raízes fortes, escondidas na terra lá embaixo."
Se tivesse mordido meu lábio um pouco mais forte, o teria aberto, com certeza: eu conhecia aquela história.
"Quando chegou o verão, os dias quentes eram gostoso e as noites eram cheias de sonhos. Muitas pessoas foram ao parque naquele verão, e muitas sentavam debaixo da árvore. Dan contou para Vi que dar sombra era um dos propósitos das árvores."
"Que é popósito?" E os dentes foram para uma de minhas mãos, porque eu tão não queria atrapalhar aquele momento dos dois.
"Propósito é porque você existe. Por que você existe?"
Por mais que o momento não fosse existir num futuro próximo.
"Pa faze papai e mama sorri!" A resposta de Ella me deu a força que eu precisava para não desabar ali mesmo.
"Sabe, Vi perguntou a mesma coisa que você. E Dan respondeu que tornar as coisas mais agradáveis para os outros é uma das razões para eles existirem. Fazer sombra aos velhinhos que procuram escapar do calor é uma razão para existir. Enfim, Vi se divertiu muito naquele verão, mas como tudo acaba, aquela estação também acabou. E então chegou o inverno. Vi nunca sentiu tanto frio. Todas as folhas tremiam, e foram cobertas por uma camada fina de branco, que derreteu e deixou todas elas molhadas de orvalho. Mais uma vez, foi Dan quem explicou que haviam experimentado a primeira geada. Os dias foram passando, e o frio foi aumentando. E então, numa manhã aconteceu uma coisa estranha." Ainda escondida, observei os olhos claros da nossa pequena o olharem com curiosidade, como eu havia feito no passado com meu pai. "A mesma brisa que os fez dançar na primavera começou a empurrar e puxar as folhas, como se estivesse zangada. Isso fez com que algumas folhas fossem arrancadas de seus galhos e levadas pela brisa, reviradas pelo ar, antes de caírem suavemente no chão."
Eu conhecia aquela história.
"Todas as folhas ficaram assustadas. Se perguntava: 'o que está acontecendo?', e Dan explicou 'é isso que acontece no inverno: esse é o momento em que as folhas mudam de casa.'"
Foi com ela que meu pai me explicou o que tinha acontecido com vovô.
"Você sabe o que é mudar de casa, raposinha?" A pequena cabeça ruiva fez que não, e Draco continuou. "É ir embora para outro lugar. Algumas pessoas chamam isso de morrer. Vi, que era muito curiosa, perguntou: 'todos nós vamos morrer?', e Dan respondeu que sim. Porque tudo morre. Grande ou pequeno, fraco ou forte, tudo um dia muda de casa. Primeiro cumprimos a nossa razão de existir: nosso propósito. Experimentamos o sol e a lua, o vento e a chuva. Aprendemos a dançar e a rir. E depois, morremos. Todos morrem quando chega o momento. 'Tenho medo de morrer', disse Vi um dia. 'Eu não sei o que tem lá embaixo'. Então Dan respondeu: 'Todos nós temos medo do que não conhecemos, isso é natural! Mas você não teve medo quando a primavera se transformou em verão, e também não teve medo quando o verão se transformou em outono'. 'Mas para onde vamos quando nos mudamos?', Vi continuou a perguntar. 'Ninguém sabe com certeza. É o grande mistério', Dan continuou a explicar. Vi fez uma careta, parecendo brava. 'Então qual é a razão para tudo isso?', a folha mais nova perguntou. 'Por que viemos pra cá, se no fim vamos cair e morrer?' E a resposta de Dan veio no seu jeito calmo de sempre: 'Nós existimos aqui pelo sol e pela lua. Pelos tempos felizes que passamos juntos. Pela sombra, pelos velhinhos, pelas crianças. Pelas cores do outono, pelas estações. Não é razão suficiente?'"
"Papai?"
"O que, meu amorzinho?"
"Você vai muda de casa?"
Eu precisava controlar aquelas lágrimas que queriam tanto sair. Quando dei os dois passos que faltavam foi que Draco finalmente me viu, a surpresa em seus olhos me denunciando que eu havia sim sido bem silenciosa.
"Gi." ele chamou meu apelido, antes de voltar a atenção para a pequena ainda em seu colo. Ele não conseguiria falar para Ella, eu sabia. "Papai-"
"Papai vai mudar de casa, meu amor." fui eu quem disse, indo me sentar ao lado dos dois. "Não agora." Eu estava tão orgulhosa de conseguir falar aquelas palavras sem quebrar. "Mas já já. Só que nós podemos sempre ir visitar papai, então você não precisa ficar triste, ok?" Você nunca vai ficar triste, meu amor. Porque eu vou mudar isso. "E ele sempre vai estar aqui, como você." Eu vou mudar isso. Virgínia vai mudar isso. "Sempre que você olhar para uma folha, o papai vai estar com você." É por causa desses olhos confusos e temerosos que ela foi arrumar tudo. "Sempre que você sentir o vento, vai conseguir sentir um abraço dele."
Senti uma mão gelada apertar a minha, e quase não me segurei quando vi os olhos cristalinos do bruxo.
"Pomete?" Ella perguntou, se aconchegando mais no peito do pai, que voltava a deitar na cama, e eu mesma me aconchegava ao seu lado, inalando aquele cheiro só dele. Eu não queria esquecer daquele cheiro. Eu não queria esquecer dele.
Eu não iria esquecer dele. Deles. Nunca. Iria dar certo. Eu sabia que iria dar certo, porque Draco me disse que daria certo.
E eu prometo nunca esquecer que esse tipo de amor que temos só se acha uma vez na vida - e é para toda a vida. Sempre sabendo na parte mais profunda da minha alma que não importa quais desafios possam nos separar, sempre encontraremos o caminho de volta para o outro.
"Prometo, meu amor." Eu senti uma lágrima quando seus lábios finos beijaram minha testa, me puxando para mais perto. Nós encontraríamos um caminho, sempre. "Eu prometo. Eu amo tanto vocês duas. Eu amo-"
...
Ginevra, 16 de outubro de 2004.
Puta merda, eu estava com uma enxaqueca? Porque não era normal aquela dor de cabeça. Ou talvez seja apenas uma ressaca, ao menos era o que o copo vazio na minha frente me dizia.
"Mais uma dose?" Fiz que sim antes mesmo de considerar tomar uma água: nada como curar uma ressaca com mais álcool. Mas por que diabos eu estava de ressaca? Eu tinha aceitado, no final das contas, o convite de Percy noite passada? Ainda era quarta? Mas estava marcando dia dezesseis no calendário que via pendurado na parede. Por Merlin, como eu havia parado nesse Pub sujo?
"Hoje é quinta, certo?" me certifiquei com o atendente antes de me esforçar para lembrar de minhas últimas horas. Se aquilo era uma ressaca, era uma senhora ressaca: eu provavelmente estava bêbada até horas - talvez minutos - atrás, pois tudo após a coruja de Percival era um gigantesco branco.
"Quinta-feira, dezesseis de outubro." o homem me respondeu enquanto enxaguava um copo, sua atenção na televisão.
Só percebi que havia uma folha de papel em minha mão esquerda quando alcancei meu bolso para pagar a dose - que por todos os santos seria a minha última. Um endereço, que parecia ser de Manchester, junto da hora 14h30 e um nome: Linda. Ah, a terapeuta que eu tanto posterguei em marcar. Ótimo, havia marcado bêbada e esquecera de colocar a maldita data da consulta. Virei o papel, notando a data de amanhã junto de um telefone que deveria ser do consultório. Ok, ponto para minha versão bêbada, que não esqueceu nenhuma informação.
Ainda era seis e dez, mas para mim já era seis e dez. Eu tão precisava dormir, aquela dor de cabeça me fazia precisar da cama macia e confortável do hotel, e para lá eu rumaria sem mais nenhum minuto de atraso. A bebida posta em minha frente permaneceu intocada. Levantei, vestindo meu casaco, fino demais para os poucos graus que fazia lá fora - eu deveria estar tão bêbada quando escolhi essa roupa.
Olhei mais uma última vez ao meu redor, tentando lembrar se estava com algum conhecido: provavelmente não. Sem mais demoras, fechei os botões de meu agasalho ridiculamente impróprio para os dez graus que o termômetro marcava, e coloquei os pés na rua. Graças à Merlin o hotel ficava à poucas quadras dali.
Dormir, quando minha cabeça alcançou o travesseiro, foi instantâneo.
Nota da autora: Eu disse que haviam coisas piores que a morte. Presentinho de Páscoa adiantado para todos que estão acompanhando ;)
Dúvidas? Olha, até eu to com dúvidas HAHAHAHA, mas podem perguntar que eu tento responder!
Obrigada Ka e Kait pelos comentários!
Beijo grande de quem está terminando a fic em mais alguns capítulos,
Ania.
