20.

Uma noite para jamais esquecer

Intensidade de emoções e confissões

Esse capítulo foi modificado de seu texto original para se adequar às condições do ffnet. O texto original, com cenas explícitas, pode ser lido na minha conta do Archive of Our Own.

Atordoada, Anna vagueou sem ver pelas lindas sacadas de Rivendell, a luz da lua crescente do solstício a guiar seus passos, embora suas emoções estivessem fora de controle. Ela tentava digerir a informação de que muito provavelmente seria obrigada a assistir à morte de Thorin (e também de Kíli e Fíli) na batalha que estava a alguns meses de ser travada aos pés da Montanha Solitária.

E o que ela faria? Tiraria o Um Anel de Bilbo para proteger seu amado? Ou melhor ainda: tentaria ela mesma achar o anel na caverna do Gollum?

Sim, isso passara por sua cabeça. Possuir o anel era uma das melhores chances de salvá-lo. Mas o que isso faria à Guerra do Anel?

Anna, porém, sentia uma dor profunda em suas entranhas só em pensar na chance de Thorin morrer. Ver aqueles olhos azuis profundos se apagarem ou pior, fecharem-se para sempre, era mais penoso do que ela podia admitir.

Havia alguém a quem ela pudesse apelar? Algum desses Valar poderia ouvi-la? Ela daria sua própria vida de bom grado para deixar Thorin vivo, rei sob a montanha, desfrutando de sua conquista, seu lar retomado...

Seria isso que ela tinha que fazer? Dar a vida por ele?

Mas deixá-lo morrer certamente era o mesmo que ela mesma morrer, pois sem Thorin, sua vida certamente acabaria. Estava cada vez mais difícil pensar em viver, fosse na Terra Média ou fora dela, sem aquele anão teimoso, cabeça-dura e adorável. Se ela conseguisse voltar para o seu próprio mundo, essa era outra complicação que iria enfrentar.

Mas era necessário priorizar primeiro. Porque sem Thorin, o melhor mesmo era Anna deixar aquele lugar. As lembranças seriam dolorosas demais para ela.

Anna se deteve diante de uma balaustrada de madeira, contemplando mais sua vida do que o lindo vale abaixo, iluminado pela lua. Ficou distante da ala residencial, certa da privacidade que tanto queria. Ela não impediu as lágrimas de percorrer seu rosto, nem a angústia de se cravar em seu coração. Mais e mais ela se encaminhava para a hora em que teria que encarar esse momento terrível. Soluçou, sozinha e silenciosa, tentando lavar o grande abismo que ameaçava engolir seu coração.

— Não imaginei que estaria aqui — disse a voz solene de Thorin, atrás dela. Assustada, Anna se virou, e ele se surpreendeu com os olhos vermelhos e inchados de chorar que ela trazia. — Minha pequena, o que aconteceu?

Anna não resistiu e atirou-se em seus braços:

— Oh, Thorin…!

— O que aconteceu? O que eles fizeram a você? Alguém a destratou? Não se pode confiar nesses elfos!

Ela garantiu:

— Não é isso — conseguiu dizer, entre soluços. — Ninguém me destratou. Só… me abrace, por favor.

Thorin obedeceu, e Anna se confortou no corpo sólido e firme dele, um rochedo quando ela se sentia tão frágil e vulnerável. Oh, era um alívio tão grande!...

Mas ela teve pouco tempo para se confortar. Sabia que Thorin ia querer saber o que a deixara naquele estado e ela tinha que pensar numa explicação.

— Não chore, Anna — pediu o rei anão. — Isso me corta o coração.

— Eu só… estou com medo. Muito medo.

Thorin quis saber:

— Aqui? De quem?

Anna tentou explicar:

— Lady Galadriel me explicou sobre a ferida orc. Você sabia que a marca era a de um consorte? Que aquele monstro me marcou para ser sua mulher?

Thorin pareceu vexado.

— Desconfiava, mas não tinha certeza.

— Por que ninguém me disse? Eu não fazia a mínima ideia que orcs gostassem de virgens. E agora também tem dragões!

Thorin a manteve em seus braços.

— Fique descansada. Não deixarei nenhuma dessas criaturas chegar perto de você: nem orcs, nem dragões.

Anna confessou:

— É totalmente indigno que essas criaturas sejam atraídas por donzelas. Acho uma injustiça!

Thorin parecia achar aquilo divertido.

— Donzelas não deveriam vagar por lugares perigosos, onde possam ficar sujeitas a ataques de orcs e ameaçadas por dragões.

Anna realmente estava revoltada.

— Meu mundo é muito diferente. Uma mulher não se detém apenas porque é solteira.

Thorin achava aquilo cada vez mais divertido.

— Oh, então, elas se atiram na frente de wargs, é isso?

Anna estava tão nervosa que nem notou que ele fazia um gracejo.

— Não, não temos wargs, nem orcs, nem dragões. Infelizmente, nossos monstros são outros homens, que fazem mal aos seus próprios irmãos. Mas isso é uma conversa muito filosófica.

— Não, é uma grande sabedoria. Melhor do que isso, fez você mais uma vez reclamar de uma injustiça e, com isso, parar de chorar.

Anna enrubesceu, com um sorriso envergonhado.

— É verdade. Obrigada.

Thorin a presentou com outro daqueles suaves sorrisos, encarando-a, os dedos acariciando suas faces. — Gostaria de ter o poder de jamais fazer você chorar novamente. Seu rosto não foi feito para ter lágrimas.

— Obrigada, mas não tem como impedir. A vida tem esses momentos.

Ele não parava de encará-la.

— Você está linda. Só tem um jeito de você ficar ainda mais linda.

Num movimento rápido, ele tirou a tiara do cabelo dela e a jogou longe. Anna se assustou:

— Thorin! Que está fazendo?

— Você não precisa dessas bugigangas de elfos. Fica mais linda sem elas.

Com um suspiro, Anna tentou dizer:

— Thorin, por que você é assim com eles? Eles foram tão gentis com todos nós. E foram extra gentis comigo.

— É um insulto para nós — disse ele, azedo. — Você está sob minha proteção. Deveriam considerá-la uma de nosso povo.

— Eles sabem que não sou anã. Nem hobbit. Por que não procura relaxar? Eles querem ser bons anfitriões.

Thorin parecia cada vez mais irritado.

— Você sabe o que os elfos fizeram ao meu povo. O dragão ataca Erebor, e os elfos só olham!

Anna tentou argumentar, perto dos balaústres:

— Está sendo duro demais. Lord Elrond e sua família só nos têm coberto de gentilezas, não só eu, mas toda a companhia. Salvaram minha vida. E também foram muito respeitosos. Fizeram um banquete para nós, um banquete de Estado. Ele o tratou como um rei.

Ele perdeu a paciência, enciumado.

— O que sabe sobre essas coisas? Você é apenas uma camponesa, incapaz de tratar de assuntos de Estado! Esses não são tratados como questões pessoais. Suas constantes tentativas de dar desculpas a Lord Elrond estão ficando cansativas. Não ouse supor que sabe como eu devo ou não me comportar nesses assuntos!

Ela ficou abismada, dando um passo para trás diante da veemência dele:

— Eu só tentei...

Thorin a interrompeu, irado:

— Você quis me ensinar coisas que venho aprendendo a vida toda. Foi presunçosa ao ponto de tentar me educar sobre coisas para os quais fui preparado desde que nasci! Tenho um berço nobre e não preciso que me digam como devo agir! Não vou tolerar mais esta insolência!

Havia um ligeiro eco quando a veemência das palavras dele encontrou o silêncio absoluto. Os olhos de Anna estavam cheios de lágrimas, que ameaçavam cair. Ela o encarava, chocada, uma tristeza profunda nos olhos, tão grande que Thorin se surpreendeu.

— Tem razão. Está totalmente certo. Esta camponesa nunca mais vai presumir nada, Majestade. Lamento se abusei de minha posição inferior, e vou entender se quiser me deixar para trás na sua jornada. Vou deixá-lo agora. Por favor, senhor, tenha uma boa noite.

— Anna! — ele disse, dando-se conta do que dissera, horrorizado. — Não, por favor, me desc-

Ele tentou tocar o ombro dela, mas Anna se encolheu, evitando seu toque. Então as lágrimas de Anna começaram a embaçar mesmo sua visão, e ela cambaleou para trás, antes de se virar e sair correndo sem sequer saber para onde ia, desorientada naquele lugar estranho à noite. A lua teve a generosidade de iluminar seu caminho, ao menos. Ela localizou a tiara que ele jogara e a pegou, sem parar de correr pelos corredores e escadas de Rivendell.

Finalmente, Anna se viu próxima a ala residencial, onde estava seu quarto, e parou, tomando fôlego, enquanto tentava chorar baixinho, mas a dor era muita. Oh, por que ele era assim? E que poder ele tinha por destruí-la desta maneira, apenas com umas poucas palavras duras? Quando ela tinha se apaixonado tão intensamente sem sequer se perceber?

Anna segurou o rosto entre as mãos, curvada, soluçando. As palavras dele ecoavam em sua cabeça, então ela não ouviu quando Thorin se aproximou dela.

— Anna, por favor.

Ela se virou, assustada. Ele pegou seu braço, impedindo-a de fugir. Anna pediu:

— Por favor, senhor…

Thorin era o retrato do arrependimento. Pediu, em voz miúda:

— Não me chame assim. Você sempre me chamou pelo nome.

Anna não podia encará-lo e baixou os olhos:

— E foi muita presunção minha. Prometo não repetir.

— Anna, por favor, me perdoe.

A voz chorosa dela tirava o impacto de suas palavras, mas ela disse, ainda de cabeça baixa:

— Não, senhor, só posso agradecer. O senhor me mostrou meu lugar, e fico agradecida.

— Anna, por favor! — Anna se assustou ao ver Thorin Oakenshield cair no chão ajoelhado diante dela. — Eu estou de joelhos aos seus pés, implorando que perdoe. Fui um tolo, um insensível. Continuo magoando você, mesmo depois de ter me prometido que não faria mais isso. Mas tenho um temperamento curto, desastroso. Por favor, eu imploro seu perdão. Nunca ninguém me deixou em tal estado, muito menos uma mulher. Meu escudo é de carvalho, meu coração é de ferro, mas ele se queima, derrete e se funde só por você. Você tem esse poder, Anna. Eu lhe disse uma vez que meu coração é seu, e esta é a prova. Você pode esmagá-lo com uma única palavra. Ou pode me fazer o homem mais feliz do mundo. Eu a magoei e não posso me perdoar, nem posso culpá-la se não me perdoar. Ainda assim, ainda sem razão, eu desnudo minha alma diante de você para rasgá-la ou restaurá-la.

Anna estava de olhos arregalados, tantas emoções diante dela naqueles olhos azuis mais do que profundos. Num impulso, ela se jogou nos braços dele, também ajoelhada.

— Thorin…!

Ele a recebeu em seus braços, abraçando-a com força.

— Oh, Anna, meu amor…

Seus lábios se encontraram afinal, desta vez sem gentileza, com sofreguidão e urgência. Thorin tinha os braços em volta de Anna, o corpo musculoso dele parecia envolver totalmente o dela, franzino. Anna se sentiu totalmente à mercê daquele homem como nunca. O beijo não tinha batalha de dominância porque não havia dúvida quanto a isso: Thorin era um líder nato, um conquistador e guerreiro.

O beijo dele tinha gosto forte e um vago cheiro do fumo que ele desfrutara após o jantar. Mesmo curta, a barba de Thorin era áspera e parecia arranhar todo o rosto de Anna. Os lábios eram ligeiramente secos, mas tinham um toque suave contra os de Anna, assim como o bigode, que quase fazia cócegas na moça.

Em questão de minutos, os dois estavam arfando, sem fôlego, corpos esfogueados. Puseram-se de pé, sem se desenlaçarem.

— Eu quero você — murmurou ele, sempre direto. — Anna, preciso tê-la.

Anna encarou-o, agora a milímetros de seu rosto, os narizes se encostando, ainda misturando respirações. Sentiu que seu corpo também desejava aquele homem. Mas ela hesitou, pois as implicações eram muitas.

— Prometo ser gentil… — acrescentou Thorin, ao ver a hesitação dela. — Mas preciso de você esta noite. Anna, quero ser seu. Entreguei meu coração, agora quero entregar meu corpo.

— Thorin… Também quero você — assegurou ela. — Mas para mim isso será selar um compromisso. Você não tem obrigação nenhuma nesse momento. Mas se fizermos isso... Não vai ter volta. Não para mim.

Os olhos azuis encararam Anna profundamente, e ele garantiu:

— Já era sem volta quando eu me declarei a você. Disse que minhas intenções eram honradas e não mudei de ideia. Quero que seja minha mulher. Agora, esta noite.

Anna indagou, envergonhada:

— Então você não se incomoda que eu seja… ?

Como ela não terminou a frase, ele pronunciou a palavra:

— Virgem? Oh, Mahal, isso só me acende ainda mais. Estou me controlando para não a tomar agora mesmo. Você não conhece outros homens, isso não deve ser motivo de vergonha. Mas quando eu a fizer minha, você será só minha. Nenhum outro a terá também depois, e esse será meu orgulho.

— Por favor, Thorin, eu… Vai ter paciência comigo?

Ele sorriu amplamente, mas os olhos traziam um brilho de cobiça e desejo.

— Minha pequena, não se preocupe. Será minha rainha, e eu estou à mercê de seus caprichos. Se você disser sim, na verdade, eu é que serei seu essa noite.

E Anna, que já tinha certeza que diria sim, agora sabia que era a chance de uma vida. Era o homem que queria, o homem que ela amava, e ele também a amava.

Implicações que fossem para o inferno.

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Os dois se entregaram a um amor intenso e proibido, sem censura, seus corpos fundindo-se, uma paixão completa. Anna jamais sentira seu corpo tão aberto e aceso a um outro, nem quisera imaginar as implicações de se entregar ali, em território dos elfos de Rivendell.

Houve beijos, houve troca de carícias intensas e carícias suaves. Beijos sôfregos e beijos lânguidos. Anna apreciava os dois tipos igualmente.

Num dos intervalos de paixão, Anna e Thorin se beijavam. Ela nunca o vira tão relaxado, aberto e em paz. Ela estava feliz por proporcionar isso a ele.

Quando seus lábios se separaram, ambos ofegavam. Thorin a encarava, acariciando-lhe o rosto:

— As mulheres de meu povo se adornam, com contas, brincos. Todas têm barbas e suíças. Mas esse seu rosto liso me agrada, por Mahal.

Anna indagou:

— Preferiria que eu tivesse barba? Para meu povo, mulheres com pelos faciais são feias e indesejáveis. Nem penugens são aceitas. Muitas mulheres retiram pelos de outras partes do corpo também.

— Que partes?

— Embaixo do braço, as sobrancelhas e o excesso na região pubiana.

A informação o espantou.

— Você diz...?

— Lá mesmo — confirmou ela. — Só o excesso, normalmente. Mas outras preferem tirar tudo. Alguns homens também.

— Homens?! — Thorin não podia estar mais admirado. — Mas por quê?

Anna deu de ombros. — Bom, há um fator de higiene. Fora isso, as mulheres se sentem mais atraentes. Os homens as preferem assim. Mas não sei dizer por que um homem prefere se depilar com cera.

Thorin arregalou os olhos e a encarou. Anna riu-se, dizendo:

— Acho que podemos deixar essa conversa para outra hora.

— Concordo. Eu posso pensar em uma ou duas coisas bem mais agradáveis que poderíamos estar fazendo.

Anna riu-se e novamente se viu nos braços do homem que mais queria, Thorin Oakenshield.