Capítulo XVII

Gatos

Quando as aulas terminaram, Ethan estava à minha espera à entrada da escola para a nossa visita guiada pela cidade. Acabei por convencer o Jacob a vir connosco. Não só porque ele também não conhecia a cidade como também queria que o Ethan pudesse conhece-lo e tirar a ideia de que ele era apenas um grande pedaço de músculo ambulante.

Fomos até o centro da cidade enquanto eu tentava que o Ethan e o Jacob falassem um com o outro. Vimos um grande jardim, repleto de grandes árvores e canteiros cheio de flores coloridas que deixava o ar com um aroma diferente, uma fonte com água cristalina e bancos de madeira que deixava o jardim com um ar rústico. Obriguei-os a parar para que me comprassem gelado na barraquinha que lá havia. Como podia resistir?

"O teu apetite impressiona-me. Como é que consegues estar em tão boa forma com tudo aquilo que comes?" perguntou Ethan quando obriguei o Jacob a ir buscar um terceiro gelado para mim. Ele voltou e rindo-se de mim entregou-me o gelado.

"É simples. Para não engordar corro com o Jake." Respondi lambendo o chocolate do gelado.

"Atrás do Jake," corrigiu ele com um ar persuadido.

"Nem sempre!"

"Sim, quando te deixo passar à frente para não ficares chateada por perderes sempre." Disse rindo-se. Virei a minha cara fingindo estar ofendida e ele riu-se ainda mais.

"Convencido. De qualquer maneira, ganho-te nas lutas de neve."

"Porque sei que se te atirar com uma bola de neve vai aleijar-te. És demasiado frágil." Tocou com um dedo no meu braço e premiu lentamente. "Daqui a minutos vais ter uma nódoa negra."

Aquilo não era bem verdade… quero dizer, se fosse Ethan a fazer aquilo seria absolutamente normal mas o Jacob tem mais força.

Também estivemos numa das bibliotecas velhas da cidade. Tinha livros grandes com aspecto antigo e chato. Depois, passeámos pelo passeio, observando as pessoas; idosos a andarem calmamente pelas ruas. Em cada canto havia uma loja ou café.

Um pequeno gato preto estava deitado à entrada daquilo que supunha ser um café. Parecia estar contente por apanhar com os fracos raios de sol nos seus pêlos. Ele abriu os olhos e fixou-me com um olhar curioso. Tinha uns grandes olhos dourados e, rapidamente, fez lembrar a minha família. O pequeno gato levantou-se desajeitadamente do tapete de fora do café e saltitou na minha direcção com o guizo na sua coleira a fazer um grande espalhafato.

Parei quando o gato começou a roçar-se nas minhas pernas, deixando nas minhas calças vários pêlos de cor preta. Ronronava num tom muito alto - ou então era apenas a minha boa audição de meia-vampira. Agachei-me e afaguei-lhe o pêlo com cuidado. Ele posicionou as patas da frente em cima de mim, como se quisesses dizer-me um segredo ao ouvido. Agarrei nele e acariciei-o no colo como se fosse um bebé. Os olhos dourados estavam curiosos e fechavam-se momentaneamente parecendo querer dizer que estava a gostar dos mimos.

Jacob e Ethan pararam e viraram-se para trás ao mesmo tempo encarando-me. O Jake arqueou a sobrancelha como se perguntasse o que raio estava a fazer e Ethan apenas sorriu amavelmente.

"Não é adorável?" perguntei fixando os olhos dourados tão familiares.

"Para ser honesto, não tem nada de encantador."

Como se fosse uma ofensa medonha, o pequeno gato preto saltou do meu colo e assanhou-se raivosamente a Jacob que riu-se com uma expressão irónica.

"Sabes quem me faz lembrar?" perguntou ele olhando para mim.

"Tenho uma pequena ideia."

De certeza que o Jacob também tinha reparado nos olhos dourados do gatinho. E, ainda por cima, assanhou-se a Jake. Tal como a Rosalie costumava fazer.

Caminhei novamente até ao gato e peguei nele ao colo como tivera feito anteriormente. Ethan, sentindo-se de parte da conversa, começou a perguntar de quem estávamos a falar e não descansou até o Jacob lhe responder que nos fazia lembrar um gato abandonado que havia em Forks.

Uma menina de cabelos curtos e negros assomou-se à porta do café, olhando para nós. Tinha, provavelmente, uns oito anos. O seus olhos castanhos escuros e brilhantes e o seu rosto adorável, com maças-do-rosto salientes e rosadas, fizeram-me lembrar a Claire. Ela olhava para nós timidamente. Com o gato ao meu colo, aproximei-me dela e sorri-lhe.

"É teu?" perguntei-lhe.

Ela assentiu com vergonha.

"Como se chama?"

"Noir." Respondeu num sotaque francês. Sabia francês o suficiente para saber que aquela palavra correspondia à cor preta.

"Assenta-lhe muito bem," respondi entregando-lhe o pequeno Noir. Ela finalmente sorriu e pareceu agradecer com as suas simpáticas feições.

"Tu deves ser especial," disse a menina de uma forma adorável. "O Noir não se dá com ninguém. A não ser comigo. Tu deves ser mesmo especial."

Um sorriso enorme fez-se nos meus lábios. Era bom ouvir aquilo… ainda para mais quando é dito por uma criança amorosa que acabámos de conhecer. Parece que ganhámos uma confiança do tamanho de dois mundos. Olhei para trás e Jacob estava a sorrir da mesma maneira. Claro que sabia a razão pois era a mesma que a minha.

Eu era especial.

De uma maneira esquisita e sobrenatural mas ainda assim era especial e Jacob sabia disso. Era um especial a puxar para o diferente, o que não deixa de ter um pequeno encanto.

"Queres conhecer a Blanc?" perguntou novamente num sotaque francês.

Assenti de imediato. Como é que era possível negar algo àquela criança?

Com o Noir no seu colo, a menina entrou no café de onde saíra murmurando um tímido "Venham".

O café não era um típico café mas também uma livraria. As paredes eram estantes do chão ao tecto carregadas de variados livros de várias cores e temas. Muitos deles tinham um aspecto muito antigo e valioso. Segui a menina que andava calmamente pelo café de uma maneira extremamente familiar.

Uma rapariga igualmente bonita que estava no balcão caminhava na nossa direcção. Ela parecia ser uma versão mais madura da menina.

"Kayla?"

"Mana." A irmã da Kayla olhou para nós com uma expressão assustada e extremamente confusa. "São meus amigos. E querem conhecer a Blanc."

A rapariga mais velha disse, em francês, alguma coisa à mais nova e eu apenas consegui perceber: temos muitos bolos - o que para mim não fez sentido nenhum, embora estivesse num café onde havia bolos. A pequena Kayla riu-se e continuou a sua caminhada até uma porta de madeira escura, nas traseiras do café.

Quando abriu a porta, o Noir saltou do seu colo. Estávamos num jardim e havia um caminho marcado por grandes pedras lisas. Uma pequena mesa redonda que parecia muito antiga estava à sombra de uma árvore enorme de tronco robusto. Tudo era muito verde e de aspecto antigo. A Esme amaria isto. Era duas das coisas que ela mais gostava: antiguidades e flores.

"Blanc!" chamou Kayla.

Um gato idêntico ao Noir mas de cor branca apareceu entre os arbustos a fazer barulho com o seu guizo rosa e a andar de uma maneira saltitante tal como tinha Noir feito para chegar a mim. O gatinho branco passou pela sua dona e até por Noir mas continuou a sua caminha até chegar a mim e cheirar-me durante segundos. Agachei-me e acariciei-a, tal como tivera feito momentos atrás.

"Deves ser mesmo especial. Os gatos adoram-te." Kayla parecia contente pela minha aptidão pelos pequenos felinos. "Essa é a Blanc. Eles ainda são pequeninos mas espero que um dia tenham muitos filhinhos. A Sam, a minha irmã que vocês viram à pouco, diz que os filhos vão parecer vacas por causa da cor." Kayla riu-se tapando a boca. "Mas eu acho que vão ser amorosos."

"Eu também acho que sim." Blanc apoderou-se do meu colo, ficando a ronronar. "Ainda não sabes o meu nome, pois não Kayla?" perguntei-lhe amavelmente.

Ela riu-se. "Ainda não, mas ia chamar-te menina dos gatos."

A sua inocência fez-me rir.

"O meu nome é Renesmee mas podes chamar-me Nessie, como os meus amigos fazem." Levantei-me com Blanc ao colo e virei-me para trás. Apontei para o Jacob. "Este é o meu amigo Jake e ali o Ethan."

Kayla assentiu de uma forma respeitosa e sorriu cortesmente.

"A Sam pediu para que vos convidasse para lanchar. Querem?" Então era isso que a irmã lhe estava a dizer.

"Aposto que o nosso lanche vai ser bolo." Kayla gargalhou.

"Também és adivinha?"

"Não, mas percebo umas palavras em francês."

Coloquei a Blanc no chão e segui Kayla novamente que estava a levar-nos de volta ao café. Blanc e Noir seguiam-me como se eu tivesse alguma espécie de poder sobre eles e afastavam-se de Jacob o mais que podiam. Cada vez que Jake tentava aproximar-se de mim os gatos assanhavam-se a ele que ria por estar a ser ameaçado por amorosos gatinhos.

Sentámo-nos numa mesa de quatro, a que estava mais perto do balcão e Sam serviu-nos chocolate quente e com vários bolos: de chocolate branco, de cenoura com cobertura de chocolate, de mel e de amêndoas. Ela disse para comermos aquilo que quisermos e foi o que fizemos. Noir sentou-se ao meu colo enquanto eu comia - tinha deitado em cima das minhas pernas e parecia muito confortável. Ronronava e encostava a sua cabeça à minha barriga. Blanc estava ao lado de Kayla.

Mais tarde, na loja apareceu um rapaz robusto, com grandes músculos - não tão grandes como os do Jacob, isso era certo. Usava um casaco de cabedal preto e tinha um capacete debaixo do braço. Entrou no café de uma maneira descontraída, mostrando o seu sorriso abismal e penteando o seu cabelo preto com uma das mãos - quando na verdade isso ainda deixava-o mais despenteado, mas para dizer a verdade, muito mais giro.

O meu escasso francês percebeu o que ele tinha dito "Olá, minhas lindas irmãs". Beijou a face de Sam e a seguir veio até à nossa mesa.

"Tanto amigos, Kayla" disse sorrindo enquanto beijava o cabelo da sua irmã.

"Sim!" Kayla ficou subitamente feliz por ter aquele rapaz ao seu lado. Sorria ainda mais e parecia que a sua timidez se tinha evaporado. "A Nessie é um íman de gatinhos! Até o Noir adora-a!"

O rapaz olhou para mim sorrindo e ao meu lado Jacob revirava os olhos. Porque é que ele tinha sempre aquela atitude sempre que fazia amigos humanos? Não era esse o objectivo, interagir com os humanos? Talvez eu tivesse razão e ele deve ter ciúmes dos meus novos amigos. Não sei porque razão mas essa ideia agradou-me.

Mais tarde, despedimo-nos dos três irmãos mas consegui saber que o irmão de Kayla chamava-se Luke. Pelo menos foi esse o nome que consegui perceber no meio de tantas palavras francesas. E também soube, pela Kayla, que eles na realidade não era franceses mas os seus pais sim. Era essa a razão pela qual falavam um francês fluente.

Quando cheguei a casa os meus pais já tinham chegado.

"Onde estiveram?" perguntou logo o meu pai demasiado protector.

Corri até ele e abracei-o, o que pareceu surpreende-lo. Apertei-o a mim o mais que pude. Era como abraçar um iceberg mas não deixava de ser aconchegante e afectuoso.

"Obrigada por deixares o Jake ficar aqui, Pai. És o melhor." Edward riu-se e beijou o meu rosto carinhosamente.

"Agradece à tua mãe."

Mal acabei o abraço do meu pai corri aos gritinhos até a minha mãe e dei-lhe um grande abraço enquanto dava-lhe muitos beijos no seu rosto frio. Ela ria como se os meus beijos lhe estivessem a fazer cócegas.

"Jake," a minha mãe atirou umas chaves ao Jacob que apanho-as com grande facilidade. "Um presente de bem-vindo a casa."

Jacob sorriu com o seu melhor sorriso - meu deus, ele estava tão contente! Ele fica sempre excitado quando recebe presentes dos meus pais, pois sabe que são sempre bons presentes. Correu até à garagem e eu corri milímetros atrás dele, curiosa por saber qual era o presente.

"Oh. Meu. Deus!" gritou aos saltos.

Uma mota. Uma grande, grande, grande mota. Acho que nunca tinha visto uma mota tão grande. Julgo suportar dois Jacobs.

"Uma suzuki GSX750F!"

Franzi a sobrancelha ao vê-lo a dizer um nome tão comprido para uma mota mas se pensar mais sobre o assunto… é um grande nome para uma grande mota. Ele montou nela, com um grande sorriso nos lábios. Jacob estava totalmente passado com o novo brinquedo. Os meus pais sabiam, sem dúvida, fazê-lo sorrir.

Jacob parou de admirar o seu novo presente para, por escassos momentos, olhar para mim. "Ness, anda."

Não ia arruinar o seu momento de enorme alegria. Ele que aproveitasse o seu presente.

"Não, vai tu e diverte-te," disse-lhe sorrindo. "Vou continuar a beijar a minha Mãe e a abraçar o meu Pai em agradecimento."

Ele riu-se e a mota rosnou alto antes de partir. Voltei para casa - e instantaneamente, fiquei com saudades de Jacob. Era ridículo. Quero dizer, ele tinha acabado de sair e agora não havia motivos para pensar dessa maneira pois ele vivia comigo. Ele vivia comigo. Era tão bom dizer isso. Mesmo assim, sempre que ele saía do meu lado, tinha a sensação que estava a perde-lo para sempre.

"Então, meu amor, conta-nos como o teu primeiro dia de aulas! Queremos saber tudo!"

Sentámo-nos os três nos sofás grandes e eu comecei a contar tudo. Em como estava nervosa antes de chegar à escola e quando falaram de outro elemento da família - esperava que fossem eles ou o Emmett e a Rosalie. Contei sobre a aula de Arte, onde conheci o Ethan que foi excepcionalmente simpático para mim - o Edward começou a fazer muitas perguntas sobre ele mas acalmou-se quando lhe contei que a Alice tinha tido uma visão dele com um rapaz.

Na cena do cacifo onde estava a aquela loira estúpida a maltratar a Mia e em como eu defendi-a - os meus pais acharam que tinha sido uma excelente acção e ficaram orgulhosos. Contei-lhe sobre o meu histerismo quando senti o cheiro do Jacob e em como tudo pareceu fazer sentido.

Também falei sobre o meu passeio para conhecer a cidade, onde conheci a Kayla, a sua família e os seus gatos. O meu pai ficou bastante orgulhoso - novamente - em ter feito tantas amizades humanas em tão pouco tempo e ter-me portado tão bem diante delas.

Fiquei feliz por saber que conseguia ser minimamente sociável com os humanos. Quero dizer, fiz três amizades humanas hoje. Não sabia muito acerca do assunto mas parecia-me uma boa média, já que estou a começar.

Enquanto o Jacob não chegava, tratei de tomar banho e atacar um terço do frigorífico - que tinha sido cheio exageradamente. Agora quem cá comia era eu e o Jacob. E comíamos como ursos. Era necessário irmos às compras várias vezes por semana.

Coloquei a roupa que tinha roubado ao Jacob em cima da sua nova cama - bem mais grande que a sua antiga. Tenho a certeza que iria ficar confortável em poder dormir como um verdadeiro lobo. Inalei as roupas antes de sair do quarto e fui até o Carlisle para que ele me medisse. Ao que parece, eu estava realmente a deixar de crescer e, naquele momento, o mundo não me podia parecer mais perfeito do que já era.

O novo capítulo da minha vida tinha sido aberto e era bem mais feliz do que aquilo que tinha em mente. Não podia ter um capítulo com mais felicidade do que aquela que agora sinto. O Jacob estava comigo, a escola tinha corrido bem, ganhara três novos amigos humanos, os meus pais estão orgulhosos de mim, assim como o meu avô que sorria enquanto eu lhe contava o meu dia. Tudo corria sobre rodas.

Emmett e Rosalie acabaram por me telefonar - como tinham prometido - e riram-se quando falei sobre a Alora. O meu tio tinha-me aconselhado a partir-lhe um dedo para que ela se afastasse um pouco mas Rosalie dissera logo que a melhor maneira era continuar a enfrentá-la como tinha feito nos cacifos. De facto, a Alora não me incomodava muito - à excepção do seu olhar mórbido quando me avistou com o Jacob, querendo assumir o meu lugar. Ser melhor amiga do Jake? Esse papel era meu!

Começara a anoitecer, provocando uma chuva leve que batia na janela do quarto como uma música calma para dormir, e senti o cheiro do Jacob a aproximar-se quando estava no meu quarto a fazer a minha versão do trabalho de pintura. Para mim, não me parecia muito complexo. Achava uma pintura algo fácil de fazer. Iria acabá-la e mostrá-la ao professor para que ele pudesse avaliar o meu nível artístico. Para a semana, era provável fazer o mesmo para a aula de desenho.

A porta do meu quarto abriu-se e eu sorri sabendo que era Jake. Olhei para as suas botas que encharcavam o chão de lama.

"Jake! Os meus pais vão-te matar." Fui até ele e empurrei-o do corredor entrando no seu quarto. Ele ria-se do meu choque à sujeira. Não me importava de me sujar - eu e o Jake costumávamos fazer algumas lutas em que ficávamos sujos e eu adorava fazê-lo mas Edward não parecia gostar muito de ver o seu habitat transformado numa pocilga.

Ele descalçou as botas, sentado em cima da cama alta - perfeita para o seu tamanho. A minha família tinha pensado em cada detalhe das casas e até o quarto do Jacob. Aposto que já sabiam todos que ele viria e acharam que seria divertido verem-me sofrer - sorri, porque neste momento era impossível conseguir estar chateada por uma coisa dessas.

Peguei nas botas sujas e antes de sair do quarto ordenei que fosse tomar banho. Enquanto isso, lavei o chão que o Jake tinha sujado. Os meus pais estavam na casa ao lado, é claro que conseguiam ouvir praticamente tudo e Edward, principalmente, sabia o que tinha acabado de acontecer. Eles estavam com Carlisle discutindo o meu crescimento mas os meus ouvidos não era suficientemente vampíricos para conseguir ouvir o que acontecia na outra casa. E, ainda bem. Não me interessava saber sobre o meu crescimento. Nesse campo, preferia ficar na ignorância.

Subi as escadas, entrei no meu quarto e guardei o quadro inacabado. Voltei ao quarto do Jake e surpreendeu-me o seu enorme talento para a desarrumação. Decidi ajudá-lo, arrumando as roupas que ele tinha deixado no chão assim como as suas malas.

"Pára de arrumar, pareces a Cinderela," ouvi ele a gargalhar. Entrou no quarto com uma toalha em volta da sua cintura. Oh. Senti o meu rosto ficar mais vermelho. Aquilo era estúpido… tinha visto o Jake em tronco nu toda a minha vida e nunca tive problemas com isso. Virei a cara para que ele não visse o meu rosto e continuei a arrumar as suas malas.

"Não me custa nada." Comecei a arrumar tudo mais rápido para poder sair do quarto e respirar profundamente, tentando tirar o vermelhão da minha cara.

"Meu Deus, Nessie, pára com isso. Até parece que não tens nada mais interessante que fazer do que arrumar o meu quarto," ele dirigiu-se ao seu roupeiro. Virei a cara quando ele decidiu despir-se mesmo ali. Depois gargalhou estridentemente. "Estás a corar, Ness?"

"Parvo, pára com isso."

Ele virou-me para si, já com uns calções vestidos. "Vou dizer-te a mesma coisa da próxima vez que não me deixares sair do quarto enquanto te despes."

Oh, pois. Em La Push ele virou as costas para não me ver a despir. Tudo bem, tinha acontecido praticamente a mesma coisa e, na altura, também ri dele. Praticamente porque havia uma pequena grande diferença naquilo. Eu tinha despido a minha roupa para vestir a sua blusa, ou seja, ainda tinha a roupa interior comigo. Ele não. Tinha acabado de tomar banho e estava completamente nu. Suspirei de alívio por não ter visto nada. Se fico corada com ele vestido não quero imaginar como fico ao vê-lo… sem nada. Pára, Renesmee.

"Tudo bem, da próxima vez eu deixo-te sair do quarto." Respondi num suspiro.

No milésimo de segundo a seguir, dei comigo na cama do Jake a rir histericamente enquanto ele me fazia cócegas e ele ria-se de mim por ter corado. E não conseguia dar-lhe nenhuma resposta porque estava a rir sem conseguir parar.

"Renesmee, Jacob, chegámos." A porta da frente ouviu-se fechar e pedi para Jake parar. Levantei-me da cama, limpando as lágrimas dos olhos. Consegui chorar de tanto rir. Descemos as escadas, até à cozinha onde eu e o Jake fizemos o favor de esvaziar um pouco mais o frigorífico. Já disse que odeio queijo? Não consigo entender porquê, mas só o cheiro enjoa-me.

"Jacob, o que achaste do teu presente?" perguntou Edward.

"Fantástico! Muito obrigada, mesmo. Acho que até fico mais contente em ir à escola naquela bomba."

"Em certa parte, era essa a intenção. Sabemos que odeias a escola." Respondeu a minha mãe, enquanto eu comia bolachas e o Jake atacava os iogurtes.

"Quem não odeia?" Suspirou ele.

"Eu não odeio," retorqui animada. "Há muitas pessoas e a maioria parece-me muito simpática. Aliás, todos me parecem simpáticos à excepção da Alora."

"Quem é a Alora?" perguntou Jake.

"A maioria parece-te simpática? Só nos falaste da Mia e do Ethan." Falou a minha mãe.

"A Alora é uma rapariga que não gosta muito de mim. Nem da Mia. E, mãe, sim só te falei sobre o Ethan e a Mia porque eles foram os mais simpáticos e quiseram logo ser meus amigos mas houve muitas pessoas que me vieram dar as boas-vindas."

"Maioria rapazes," cuspiu Edward quando comecei a ver na minha mente os rostos de quem me tinha vindo falar, na hora da cantina.

"Isso não é bom…" murmurou Jake.

"Não, não é nada bom." Concordou Edward. Bella riu-se baixinho e deu-me um olhar carinhoso como se estivesse a dizer-me para não ligar aqueles dois. Algo que eu não conseguia fazer.

"Porque é que não é bom?"

"Oh, Renesmee," começou a minha mãe tentando controlar o seu riso. "É óptimo. É estupendo."

"São rapazes, Bella." Disse Edward num tom lógico.

"E depois? Não são humanos na mesma? Deves lembrar-te dos meus primeiros dias. O Eric, o Mike, o Tyler..."

"Justamente por ter essas memórias."

"Rapazes são rapazes," continuou Jake.

"Mas o Ethan é um rapaz e vocês não se importaram."

Edward sorriu. "O Ethan não está interessado em namorar contigo, minha querida. Saber que ele gosta de rapazes é um alívio."

"Ele é gay?" perguntou Jake. Eu e o meu pai assentimos ao mesmo tempo. "Sim, o Ethan é um bom rapaz."

Bella gargalhou. "Não achas irritante quando estes dois estão de acordo?"

"Totalmente." Respondi rindo-me com ela.