Stairway to Heaven
Por: Naki
Capítulo XIX – Recomeçar
"Tem certeza de que não quer mais nada, Sakura?" – a amiga perguntava com certa tristeza.
"Tenho..." – disse Sakura respirando fundo, controlando-se para não chorar – "Eu só quero ir embora... Por favor..."
"Está bem... Vamos..."
Sakura levantava-se com ajuda de Tomoyo ainda um tanto magoada por todos os acontecimentos recentes. Por mais que a amiga tentasse lhe animar, sentia em seu íntimo uma dor irreparável. Hesitara em contar sobre seus sentimentos, sobre a dor de ter deixado seu grande amor partir. Tomoyo insistira, mas Sakura pediu que soubesse esperar seu momento. Tudo ainda era tão novo, a vida lhe era nova perante seus olhos...
"Sakura eu..." – Tomoyo tentara novamente levantar o ponto sobre a separação de Sakura e Li, já dentro do carro.
"Tomoyo..." – Sakura cerrava os olhos com força. Lágrimas escorriam de seus olhos – "É muito doloroso pra mim. Por favor, entenda. Eu o mandei partir, e é só isso."
"Mas..." – Tomoyo acariciava os cabelos longos de Sakura, tentando confortá-la.
"Eu não quero que ninguém sinta pena de mim..."
"E quem lhe disse que Li sentiria pena de você? Porque não permitiu que ele continuasse ao seu lado?"
"Eu... eu não podia! Eu simplesmente não podia..."
"Eu não consigo entender... Sakura, olhe pra mim!"
"Não adianta, eu não vou lhe enxergar..." – Sakura chorava partindo o coração da amiga.
"Então enxergue com sua alma!" – disse puxando a mão da amiga para junto de seu peito – "Por que não podia? Por que acredita não poder mais ser amada?"
"Eu não sou mais completa..." – desabafou a amiga – "Como posso amar alguém se não sou mais completa?"
"Pare de besteiras!" – disse Tomoyo abraçando a amiga – "Você é maravilhosa pelo que é... Não será sua visão que dirá mais sobre você!"
"Eu não posso mais patinar! Abandonei meus sonhos! E Li estava dentro deles... Não quero nada que me lembre deste infortúnio!" – disse Sakura um tanto quanto revoltada.
"Quanta bobagem..." – disse Tomoyo – "Então teria que tirar cada um dos que te amam de sua vida. Inclusive a mim, e a seu pai! Pois nós vivemos cada um de seus sonhos, Sakura. Somos parte deles!"
Tomoyo estava certa. Sua tão querida amiga. Estava a seu lado em todos os momentos de sua vida partilhando cada um de seus sonhos, presente em cada uma de suas conquistas. Enxugou as lágrimas com a mão livre, respirando algumas vezes para acalmar seu coração.
"Confie em mim..." – continuou Tomoyo – "Quero que tenha o prazer de seus sonhos novamente. Eles podem ter mudado. Mas mudaram apenas externamente. Eles continuam aí, com você!"
"Que sonhos?"
"A patinação, por exemplo!" – disse Tomoyo entusiasmada.
"Tomoyo..." – disse Sakura respirando fundo, contendo um pouco mais o choro. – "Não posso mais patinar..."
"E quem lhe disse isso? Você anda muito desinformada viu mocinha..." – disse com o tom brincalhão, secando o rosto delicado da amiga com um lenço.
"O que está querendo dizer?"
"Quando temos um sonho nos motivando, tudo em nossas vidas se torna mais fácil! O primeiro passo é você deixar de sentir que esta incompleta! Creio que quando sentir que não perdeu nada, me ouviu bem? Quando sentir que não perdeu 'nada', tenho certeza, conseguirá tudo de volta! Pois tudo está diante de você Sakura, de braços abertos a sua espera!"
"O que está dizendo, Tomoyo?" – Sakura não entendia as palavras da amiga.
"Como você pode ser tão ingênua..." – ria sozinha da inocência tão cativante da amiga – "Quando perceber que não perdeu nada conquistará seus maiores sonhos de volta! Terá a patinação aflorando a paixão dentro de si e a certeza de que poderá correr de volta aos braços do homem que ama. E o melhor de tudo isso, será recebida pelo homem que te ama intensivamente desde o primeiro dia que lhe viu..."
"Como pode ter certeza disso? Quem te disse que conseguirei patinar novamente?" – Sakura balançava a cabeça negativamente. Não conseguia acreditar naquelas palavras.
"Quero treiná-la de novo!" – disse Tomoyo com a voz suave – "Quero que você se divirta como antes! Sabe todos os movimentos de cor, com seu coração! Se for os seus olhos sobre o gelo, com certeza poderá patinar..."
"Você sonha demais às vezes, Tomoyo..." – disse Sakura fitando o teto do carro, incrédula.
"Esqueceu-se de quanto gostava de patinar com os olhos fechados? Para que pudesse sentir a emoção aflorar em você através da melodia?"
"Mas isso foi antes..."
"Antes? E por que não depois? Sakura nada mudou! Todos estão aqui por você! Por que não recomeçar? Por que não voltarmos para o rio atrás de sua casa, e brincar que sou a famosa estilista e técnica de Kinomoto Sakura, a maior patinadora de todos os tempos?"
Sakura ria do teatro que Tomoyo fazia. Podia sentir os olhos da amiga vibrando. Sentia o ar se deslocando dentro do carro, sinal de que a amiga gestilculava impacientemente falando sobre seus desejos de adolescente. Era incrível como apesar de toda a angústia que sentia, ainda podia ter momentos de felicidade. Tomoyo estava certa. Por que não recomeçar? Tantas pessoas sofrem acidentes graves todos os dias, perdendo entes queridos, adquirindo ferimentos irreversíveis, ou perdendo a própria vida. Tinha perdido sim parte de sua visão. Mas não se esquecera do azul do céu, nem do sorriso de seu pai, nem dos olhos âmbares que tanto a amavam...
Ela estava viva! Não poderia desistir! Tinha que recomeçar por ela, por sua família, e por Li. Seu pai sempre dizia que quando sua mãe estava muito fraca, já quase entregue as mãos do destino, que jamais tirara o sorriso do rosto. Afirmava que não poderia ficar triste pois tivera grandes alegrias em sua vida, e a principal delas era a certeza de ser amada. Seu último pedido fora que sua família nunca lastimasse sua ausência, mas que lembrassem de quanto ela fora feliz.
Lembrou-se de sua mãe. Tinha algumas poucas mais importantes lembranças de sua amada mãe. Seu sorriso, seu carinho, a melodia que sempre tocava ao piano e que a ensinara a ter paixão pela dança. Fechou seus olhos imaginando-se novamente sobre o gelo. Parecia tanto tempo que estava longe dele...
"Sakura..." – Tomoyo chamava sua atenção.
"Vamos para casa, Tomoyo!" – sorriu Sakura – "Você será sempre meus olhos! Porque me abre o coração e me dá a certeza de que posso continuar..."
"Sakura..." – Tomoyo conseguira. Um sorriso surgia em seus lábios, confiante. Sua amiga estava de volta. Talvez não pronta o suficiente para correr e retomar a vida que deixara para trás. Mas estava pronta para dar o primeiro passo. Estava pronta para recomeçar.
"E então? Como se sente?" – perguntava Yukito após examinar Sakura.
"Digamos que já não me sinta tanto dentro de uma batedeira..." – sorriu Sakura.
Yukito fazia suas avaliações diárias em sua querida paciente. Sakura estava bem mais dedicada ao tratamento experimental. O médico estava cada dia mais envolvido com a paciente que mudara inclusive o foco de sua vida. Largara sua especialização em Londres, e trabalhava como oftalmologista em Tomoeda. Voltara a estudar aos sábados um novo mestrado em Tókio, sobre as doenças de visão causadas por traumas cranianos.
"Você e seus comentários!" – ria Yukito – "Da última vez o comentário foi sobre o que mesmo?"
"Hummm..." – pensou Sakura – "Foi o show de rock dentro da caixa de som ou andar na corda bamba depois de uma boa garrafa de vinho?"
Os dois riram muito. Yukito estava cada vez mais apaixonado pelo jeito doce e inocente de Sakura. Ela tinha mudado muito desde que Tomoyo finalmente a tirara de casa. Estavam muito unidas novamente, e parecia que Sakura tinha se readaptado a vida tranqüila da cidade do interior. Não estava mais sobre os holofotes da mídia, e os comentários sobre seu antigo técnico haviam diminuído muito.
Sim... Sakura estava treinando novamente. O que era algo admirável naquela jovem. Tão pequena, e tão forte...
"Vamos Sakura! Não tenho todo tempo do mundo!" – dizia Touya na porta do consultório.
"Como ele consegue ser tão desagradável..." – disse Sakura ao médico.
"Como vai Touya?"
"Muito bem, Yuki!" – disse Touya tomando Sakura pelas mãos – "Não esqueceu que irá almoçar em casa neste domingo, não é?"
"Claro que não! Seus convites são sempre muito bem vindos!"
"Ah... Fala isso por que adora as comidas do papai!"
"Sakura!" – repreendeu Touya!
"Deixe-a Touya! Ela tem razão!" – disse Yukito rindo.
"Não respeita mais seu médico, monstrenga!"
"Você não percebeu que eu cresci e deixei se ser uma monstrenga há muito tempo?" – indignou-se Sakura.
"Ao menos admite que já foi uma um dia..." – disse rindo da irmã – "Vamos logo! Até domingo Yuki!"
"Até lá!" – respondeu Yukito.
"Tchauzinho!" – disse Sakura caminhando até o médico. Com sua mão buscou o braço do médico e deslizou-a até sua face, auxiliando-a para repousar um beijo em sua bochecha.
"Até Sakura!" – disse observando sua paciente deixar o consultório com o irmão. – "Sakura..." – disse para si mesmo enquanto sentava em sua cadeira. Queria muito que suas visitas a casa do Sr. Kinomoto fossem apenas por admirar seu excelente dom para a culinária. Sabia em seu íntimo que ver a alegria irradiar daqueles intensos olhos esverdeados era a energia que lhe enchia a vida e lhe fazia empenhar-se em descobrir qualquer alternativa que fosse para fazê-la enxergar novamente.
"Será que posso ter a honra de sua presença por alguns instantes?"
"Eriol!" – Tomoyo não acreditava em seus olhos. Seu namorado estava ali, diante dela após tanto tempo. Correu pela escada, descendo de encontro a seu amado que esperava por ela de braços abertos. – "Meu amor!" – disse jogando-se em seus braços, sendo girada por eles.
"Senti tanta a sua falta meu amor..." – disse Eriol beijando-a apaixonadamente.
Eriol tinha partido para Londres após todos os incidentes com Sakura e Li. Sua mansão em Londres era o principal local de visitação dos repórteres, e Spi, por mais competente que fosse não conseguia mais lidar com aquela situação. Não com os repórteres, porque para estes tinha um excelente conhecimento. Seu maior problema era com o convidado de honra de seu patrão. Li Shaoran.
"E como ele está?" – perguntou Tomoyo.
"Espero que Sakura esteja forte..." – disse repousando a amada sobre o chão.
"Por que esta dizendo isso, Eriol?"
"Shaoran voltou..."
"Voltou?" – respondeu Tomoyo surpresa. – "Para Tomoeda?"
"Não... Reassumiu a presidência de suas empresas. Está em Tókio."
"Melhor assim..." – disse Tomoyo aliviada levando ambas as mãos ao coração.
"E Sakura? Me disse em nossa última conversa ao telefone que estavam treinando novamente..."
"Sim! Há dez dias!" – disse Tomoyo animada – "As coisas estão ficando melhor..."
"Que bom..." – sorriu o inglês – "Mas..."
"O que foi?" – disse Tomoyo levemente assustada com a mudança de humor do namorado.
"Eu não estive um mês longe de minha namorada para ficar falando dos problemas de minha viagem..."
"Ah... Eriol..." – disse rindo enquanto tinha os lábios capturados novamente pelo namorado.
"Excelente Sakura!" – dizia Tomoyo após observar o salto triplo de Sakura e o término de sua apresentação. Caminhou até o rádio e o desligou. Estavam no lago atrás da casa de Sakura praticando. Fazia poucos dias mas Sakura estava pronta. Realmente Li era um excelente técnico. Ele havia aperfeiçoado toda a precisão, tempo e continuidade, sem é claro destruir o que Sakura tinha de mais belo, sua graciosidade!
"E como fui?" – questionava Sakura – "Mantive a altura correta dos saltos? Os spins estão centrados?"
"Só não lhe digo que foi perfeito, porque ainda falta o mais difícil."- dizia a técnica enquanto tocava o gelo sobre seus patins ao encontro de Sakura.
"Como assim Tomoyo?" – dizia Sakura enquanto era tomada pelas mãos para saírem da superfície congelada.
"Os tombos sobre este lago podem não existir, afinal você conhece este local como a si própria!" – suspirou antes de continuar – "Precisamos treinar em algum ginásio similar ao ginásio das Olimpíadas!"
"Tomoyo..." – dizia a jovem patinadora compreendendo o ponto de sua técnica – "Eu nem mesma sei se quero competir as Olimpíadas..." – disse sentando-se sobre a grama cinza e pálida devido à neve que a cobria. Removeu seus patins tentando evitar o pensamento sobre o campeonato que já estava bem próximo, e sobre a decisão que temia tomar.
"Está pronta Sakura! Sabe que está! Mas não vou obrigá-la a nada. Quero que tome sua decisão sozinha, que sinta em seu coração qual o seu maior desejo. E se competir as Olimpíadas de Inverno for seu maior sonho, então eu te peço, não desista."
"Eu preciso pensar mais um pouco..."
"Tudo bem..." – disse Tomoyo caminhando com Sakura em direção a casa dos Kinomoto – "Mas precisa decidir o quanto antes... Teremos trabalho para redimensionar o espaço caso sua resposta seja sim..."
"Eu sei..." – disse rindo fitando a amiga – "Afinal não gostaria de tropeçar ou bater nas laterais do ginásio, não é mesmo?"
"Sakura..." – Tomoyo ria com o espírito alegre da amiga.
Faltava somente dois meses para as Olimpíadas e isto preocupava a treinadora. A apresentação estava praticamente pronta, afinal estavam somente alterando pequenas seqüências da apresentação das eliminatórias. Sentia medo em alterá-la por completo e não ter tempo hábil para preparar Sakura. Queria muito ver a amiga competir. Já abrira mão do Nacional em virtude do acidente, mas com as Olimpíadas era diferente. Nacionais tinham todos os anos, já Olimpíadas...
Não conseguia deixar de pensar como sua amiga estaria dali a quatro anos. Tanta coisa poderia mudar... Pensou em sua própria vida, em Eriol... Com certeza imaginava-se casada neste período, até com filhos, quem poderia saber? Mas tinha certo pra si que não poderia dedicar-se a mesma forma, com tanta intensidade. Respirou fundo, fitou a amiga. "Sakura..." – disse para si mesma enquanto observava a amiga abrir a porta de sua casa – "Você seria capaz de conquistar novamente após quatro anos um novo índice para competir as Olimpíadas?"
"Tomoyo, você fica para o almoço?" – perguntava Fujitaka observando as meninas entrarem em casa.
"Ou pior.." – pensava Tomoyo – "Temo que não tenha mais vontade alguma de competir... Nunca mais..."
"Tomoyo?" – a amiga chamava sua atenção.
"Ah... Desculpe-me!" – disse a técnica voltando sua atenção à conversa – "Perguntaram-me algo?"
"Perguntamos se gostaria de ficar para o almoço!" – repetiu Sakura observando a amiga distante.
"Perdoem-me, mas infelizmente não poderei! Preciso voltar para casa! Eriol está me esperando para almoçarmos juntos."
"Que pena... Justo hoje que o Yukito também virá!" – lastimou Sakura – "Mas no próximo domingo não terá desculpas, viu!"
"Claro! Eu vou adorar almoçar as delícias de seu pai, Sakura!" – ria amenizando sua angústia com seus últimos pensamentos.
"Bom dia a todos!" – dizia Yukito à porta – "Espero não estar adiantado..." – disse observando sua paciente ainda com roupas de treino.
"Claro que não, Yukito! Touya deve estar chegando! Por que não me ajuda na cozinha enquanto Sakura se despede de Tomoyo e sobe para tomar um bom banho!" – disse tocando o rosto da filha – "Ou a mocinha pensa que sentará desta forma a mesa hoje, justo quando temos um convidado?" – Sakura encabulara-se com o comentário do pai.
"Claro!"- disse o médico rindo da situação – "Srta. Tomoyo! Sakura! Com licença" – disse Yukito cumprimentando ambas enquanto acompanhava Fujitaka até a cozinha.
"Pense com carinho, Sakura!" – disse Tomoyo repousando um beijo sobre a face da amiga – "Lembre-se que sempre estarei lá por você, independente do resultado, você sabe que o..."
"Que o importante é tentar!" – completou Sakura com um sorriso – "Eu vou pensar, Tomoyo! Prometo! Até amanhã!"
"Até amanhã, Sakura!" – disse Tomoyo caminhando até seu carro – "Ah... Esqueci de parabenizá-la pela pontualidade nos treinos! Impressionante como está acordando as 5:30 todas as manhãs! E o melhor de tudo, sem reclamar!"
"Tomoyo...!" – ria Sakura fechando a porta após ouvir a partida do carro da amiga. Respirou fundo, caminhou cuidadosamente até tocar o corrimão das escadas e sentir-se segura para subir. Subiu as escadas rapidamente até seu quarto. Já conhecia aquele caminho de cor. Sentia-se segura em sua casa, com sua família, sobre o lago congelado se sua casa. Lembrou-se de Li. Da forma como se sentia protegida em seus braços. Lembrou-se de como reclamava de acordar cedo com um sorriso no rosto. Li sem dúvidas havia lhe ensinado disciplina. E não apenas isso, havia lhe ensinado o como é bom amar e se sentir amada.
Caminhou até o banheiro, tirou suas roupas e ligou o chuveiro. Deixou a água cobrir seu corpo, relaxando-o do treino. Como era mágica a sensação do ar tocando sua face enquanto deslizava sobre o gelo. A patinação era sua vida, sem dúvidas este era seu melhor momento. Porém ainda não estava certa sobre competir. Tinha prometido para si que venceria para celebrar a vitória nos braços de Li. Sonhava com este dia, com o sorriso e o brilho dos olhos de seu amor. Sentia saudades. Como sentia saudades da terra quente que aquecia o oceano de seu coração. Um coração cheio de mistérios que eram capazes de serem desvendados com um simples olhar. O mais rico e precioso olhar de sua vida. Aquele que acalmava o mar esverdeado em momentos de tormenta, que direcionava as ondas rumo ao porto seguro, que a fazia embriagar-se rumo às marés calmas e suaves do amor.
Abriu o guarda-roupa escolhendo uma calça e uma blusinha verde, que realçava seus olhos. Podia não saber as cores por si, mas seu pai havia ajudado a identificar cada uma de suas roupas separando-as em sessões, por cores. O modelo Sakura podia identificar sozinha pelo toque, mas as cores realmente, estas tinham hoje somente três ou quatro tons, que variavam do cinza ao preto. Cores estas que a faziam lembrar-se de sua dura realidade e flutuar de volta ao chão, abandonando os incertos e envolventes ventos dos sonhos.
Suspirou várias vezes enquanto vestia-se. Passou as mãos sobre seus cabelos, desembaraçando-os com um pente. Seus olhos encheram-se de lágrimas. Já não podia mais observar-se no espelho, e por mais que não fosse muito vaidosa, gostava de cuidar de seus cabelos. Por várias vezes quis cortá-los, sendo impedida por seu irmão e Nakuru. Sentia não poder enfeitar-se, mas também, para quem o faria? Li não a queria mais. Nos primeiros dias quando voltou para Tomoeda seu treinador procurava por notícias suas, mas isso fora no começo. A procura havia cessado. Ele respeitara sua decisão. Sentia que não havia mais volta. Li não a procuraria mais, por mais que isso apertasse seu coração, era essa a mais dura e cruel verdade. E ela precisava aceitar.
"Sakura, sua boba!" – dizia pra si – "Achar que ele viria até aqui depois de tudo que disse! Que ele lhe tomaria nos braços fazendo-a sentir seu amor!" – ria de sua própria ironia – "Dizendo que por maior que seja a besteira que você faça, que ele jamais desistirá de você... Caia na realidade, Sakura!" – sentava-se em sua cama enquanto lágrimas escorriam sobre seu rosto angelical – "Já teve seu conto de fadas, Sakura! Daqueles com direito até a trilha sonora romântica! Agora acreditar que ele virá correndo em seu cavalo branco, pegando-a nos braços para viver com ele em seu castelo..." – caminhou até a saída do quarto – "Por que continuo a ter este tipo de esperança?" – disse jogando o pente no chão de seu quarto tentando sufocar sua raiva – "Por quê?" – enxugou seu rosto, respirou e ergueu a cabeça enquanto fechava a porta do quarto atrás de si – "Príncipes encantados não existem, Sakura! Simplesmente, não existem..." – e a jovem sabia dos defeitos de seu amado. Seu príncipe era extremamente orgulhoso. Orgulho, atitude, decisão! Valores como este falavam sempre mais alto para o presidente das empresas Li.
"Desculpe-me a intromissão." – disse Wei entrando no escritório – "Sua mãe novamente, Sr. Li."
"O que lhe disse da última vez?" – perguntou o chinês.
"Disse que estava em um almoço de negócios." – afirmou Wei.
"Então lhe diga que estou em uma reunião importante."
"Desculpe-me Sr. Mas não creio que a Sra. Li irá acreditar, pois já utilizei esta resposta no dia de ontem.""Tem razão..." – disse Li virando-se para o mordomo. Estava sentado em sua mesa do escritório. Estava com a barba por fazer, cabelos embaraçados. Jogou-se em sua cadeira pensativo. "Diga-lhe que fui ao médico!"
"Ao médico, Sr.?" – perguntou Wei sem entender.
"Sim... ao menos lhe diga que estou cuidando de minha saúde."
"Como quiser, Sr."
Wei se retirou dos aposentos do patrão. Tinha retornado a Tókio fazia apenas três dias, e sua mãe e irmãs já o atormentavam. Ligavam a cada duas horas. Parecia até itinerário de trem tamanha a pontualidade entre os intervalos! Revezavam-se nas ligações que Shaoran recusava-se a atender. Já lhe bastava Eriol enchendo sua paciência desde que chegara a Londres. Nem mesmo a viagem que realizaram através do país acalmaram o coração do empresário. Não conseguia esquecer-se das palavras de Sakura naquele hospital.
"Hei... Vai ficar aí pensando na próxima desculpa que dará para sua mãe?"
Li tinha sua atenção voltada para a bela mulher que acabava de voltar ao escritório. Alta, longos cabelos vermelho escuros, olhos bem pretos e pele branca. Girava em torno dos vinte e três anos. Vestia uma mini saia de couro preta e sandálias do mesmo tom de saltos muito altos e finos. Usava uma blusa branca, com um decote que vangloriava as suas belas formas.
"Claro que não..." – disse Li sorrindo.
"Pensei que estivesse se arrumando..." – disse a jovem com uma voz provocativa.
"Eu ia... mas vim ao escritório para reservar uma mesa e acabei sendo interrompido por Wei." – disse levantando-se – "Fico pronto em dez minutos. Aguarde-me na sala."
"Como quiser..." – disse a jovem sorrindo.
"Foi sem dúvidas uma tarde ótima, Sr. Kinomoto!" – dizia Yukito após repousar a xícara de chá sobre a mesa da sala.
O almoço tinha ocorrido maravilhosamente bem, e todos conversavam durante o chá. Escurecia do lado de fora, e Touya percebia os olhos cansados de seu filho, Hoshio. Sakura estava muito animada com a companhia de sua família e de um amigo tão querido.
"Naki... Hoshio está cansado. O que acha de irmos?" – perguntou Touya discretamente à esposa, que assentiu com um sorriso – "Pai, nós já vamos!"
"Mas já, meu filho?"
"Agradecemos o excelente almoço, mas nosso pequeno está quase dormindo no colo da tia."
"Ah... deixe-o mais um pouquinho, por favor..." – pedia a tia coruja ninando o sobrinho.
"Outro dia, está bem?" – disse Touya enquanto tomava o filho nos braços.
"Bom... então eu acho que já vou também..." – disse Yukito levantando-se.
"Oh... não Yuki. Não vá por minha causa." – disse Touya.
"Sim, Yukito. Sabe que o considero praticamente da família, e sentir-se obrigado a partir porque meu filho está indo... Ah, isso fará com que me sinta uma péssima companhia!" – disse Fujitaka sorrindo.
"O sogrinho tem toda a razão!" – disse Nakuru repousando um beijo na face de Yukito – "Não estaria em melhor companhia!"
"Fique Yukito! Papai tem razão!" – disse Sakura.
"Se você insiste Sakura... Eu fico." – disse Yukito, incapaz de recusar o pedido de sua querida Sakura.
"Boa noite, Sr." – dizia o recepcionista da casa.
"Boa noite!" – disse Li
Li entrava na casa Illusions, um dos melhores e mais bem conceituados bares do centro de Tóquio. Estava acompanhado de uma bela jovem. Diversos homens desviavam seus olhares para ela, em virtude das roupas chamativas que usava.
"Estão olhando pra mim, Li..." – disse a jovem.
"Deixem olhar!" – disse Li com pouco caso – "Vamos nos sentar ali." – disse puxando-a pelas mãos até a mesa.
A jovem sentou-se bem próxima de Li roçando sua perna na dele. Neste gesto Li permitiu-se aproveitar-se dela. Se ela queria, por que hesitaria por mais alguns momentos? Li deslizou suas mãos pelas pernas dela apertando-as fortemente enquanto a envolvia num caloroso beijo.
"Nossa..." – disse a jovem recuperando o fôlego e abanando suavemente seu colo – "Se soubesse que beijava tão bem já tinha pedido-lhe um beijo no carro."
Li limitou-se a um simples sorriso e logo desviou o olhar. Procurou o garçom e o chamou com um leve aceno.
"Pois não, deseja algo senhor?" – perguntou o garçom.
"Uma dose de whisky, por favor. Duplo!" – disse Li.
"Senhorita?" – perguntou referindo-se a moça que acompanhava Li.
"Não sei... O que sugere, lindo?" – disse enlaçando o pescoço de Li.
"Traga uma tequila para ela!" – disse Li sorrindo sarcasticamente – "Tequila Prata!"
"Com licença..." – disse o garçom se retirando.
"Tequila?" – disse a moça surpresa – "Desse jeito eu irei cometer uma loucura com você..."
"Digamos que é exatamente este o ponto que eu estou querendo..." – disse Li com um olhar de luxúria, voltando a tocar os lábios da jovem.
"Sabe... Li..." – começava a jovem após o beijo.
"Não fale!" – disse Li beijando o colo que o decote da blusa da jovem apresentava – "Não a convidei para conversar comigo. Não estrague tudo sim, Verônica?"
"É Vanessa!" – disse corrigindo-o com um leve desgosto em sua voz.
"Que seja!" – disse Li agarrando-a ainda mais.
"Seu mestrado então começara na próxima primavera? Que notícia excelente, Yukito!" – dizia Fujitaka animado com a conversa.
"Obrigado, Sr. Sinto-me como se estivesse em casa novamente. Tomoeda sempre foi minha cidade natal, aonde alimentei cada um dos meus sonhos."
"É muito bom tê-lo conosco, Yukito! Sakura tem feito grandes progressos, não é mesmo minha filha?"
"Claro!" – ria Sakura. Estava um pouco distante, pensando nas palavras de Tomoyo. Competir as Olimpíadas, vencer... Poderia ser uma chance de acreditar que realmente não perdera nada. Sentir-se completa novamente. Viva.
"Meus filhos, com licença. Preciso separar uns papéis para amanhã. Tenho uma reunião sobre uma próxima expedição." – dizia o arqueólogo retirando-se da sala.
Aproveitando a oportunidade que buscava, enchendo-se de coragem, Yukito convidou Sakura para saírem para varanda. Seria a oportunidade perfeita. A jovem prontamente assentiu. O ar frio de inverno sempre a fazia bem, acalmando seu coração, e trazendo paz. Caminharam até o pequeno banco de madeira após vestirem seus casacos. Sakura sentou-se sozinha, tateando a altura correta para deslocar seu corpo. Ainda tinha dificuldade com o cálculo de profundidades e espaços. As imagens já não giravam sem sentido e o equilíbrio já estava conquistado. Mas ainda faltava muito para conseguir caminhar sem medo e patinar conhecendo cada espaço e contorno da pista de patinação.
"Tomoyo tem razão!" – pensava Sakura – "Se decidir competir, o tempo está muito apertado para decorar os espaços da pista e patinar sem erros."
"Vamos embora..." – dizia Li já entediado com sua companhia.
"Só mais esta música, por favor Li..." – dizia Vanessa manhosa, observando a próxima música que a banda começava a tocar.
Li somente assentiu. Uma música a mais, outra a menos. Queria apenas que tudo aquilo acabasse logo. Nada o fazia preencher o vazio que sentia. Ninguém estava sendo capaz de fazê-lo esquecer. Parecia simplesmente impossível esquecê-la.
Queria simplesmente acordar e voltar a viver sua antiga vida. Por pior que ela fosse ao menos não sentia falta de algo que nunca tinha vivido. O que se passava dentro de Li agora era que o jovem voltara a ter a mesma vida, mas já não tinha o mesmo coração. Ele não apenas estava machucado pelo sonho abandonado como também pela saudade e pela dor que sua amada havia deixado.
Li começava a ouvir a música, tentado dissipar seus pensamentos e diminuir sua saudade. Cada uma das palavras pronunciadas pelo vocalista pareciam direcionadas à sua alma. Lembrou-se de cada um dos erros que já havia cometido. Sua grosseria, seu orgulho, sua prepotência... A forma de como a fez sofrer no dia de seu aniversário. Por que não aceitar que todos são humanos e destinados aos erros e acertos? Por que não se permitir mais uma chance? Como foi capaz de deixá-la afastá-lo de si?
Ela havia mandado-o partir.
E ele tinha dado sua palavra. Não poderia voltar atrás.
Li fechou seus olhos, permitindo-se navegar com a melodia. Ele ainda a desejava com todo coração. Amava Sakura, sentia saudades. Seu toque, seu sorriso, o perfume embriagante de seus cabelos... Queria voltar no tempo e dar outro destino àquele trágico acidente. Jamais permitiria que Sakura o mandasse partir. Mas era tão difícil voltar atrás com sua palavra...
Deixara seu sonho para trás uma vez, quase o abandonara novamente mas seu coração chamou-o a tempo. Revelara seus sentimentos para Sakura. Por que não confortá-la em seus braços e fazê-la enxergar que o mais certo é tê-lo ao seu lado? Seus braços eram o seu lugar.
Uma chance... Era tudo o que Shaoran precisava.
Deixando o mundo sórdido que tentara criar para trás, além de uma jovem incrédula com seu gesto impetuoso, Li saia da casa. Deixando algumas notas de alto valor na mão do gerente, gritou ao manobrista para que buscasse seu carro o quanto antes. Vanessa levantou-se segundos após, mas foi impedida de prosseguir pela multidão que tentava deixar o local. E antes que pudesse alcançar o empresário, este já avançava em alta velocidade rumo ao seu destino mais certo.
Seu maior tesouro está aonde repousa seus sonhos, onde seu coração sente-se reconfortado. Shaoran partia rumo aos braços de seu amor. A terra árida pela saudade era levada pelos fortes ventos carregados de emoção, soprando-os para perpetuar-se nas ondas relaxantes de um oceano esverdeado. Sua esmeralda, sua mais ardente paixão. Sua jóia, Sakura.
"Sakura..." – Yukito aproximava-se de sua paciente.
Estavam na varanda da casa dos Kinomoto há alguns minutos. Já estava noite e os ventos de inverno deixavam o ar ainda mais frio. O tempo de Yukito estava terminando. Estavam conversando sobre os próximos passos do tratamento, sobre os treinos de Sakura e de como retomara o equilíbrio nos saltos. O médico estava impaciente, temia não ter tempo hábil para o assunto que queria tratar. Buscara esta oportunidade para conversarem a sós que ocorreu assim que Fujitaka pediu licença para organizar uns papéis para sua próxima expedição. De fato, não houve nenhuma objeção em deixá-los sozinhos, pois todos confiavam no amigo. Talvez tal momento não existisse se a família soubesse seus reais motivos.
O médico queria declarar-se para Sakura. Já não agüentava mais esconder seus sentimentos. Estava apaixonado desde o primeiro dia em que repousou seu olhar sobre os intensos e verdes olhos de Sakura. Tão encantadora, simplesmente sentia seu coração enfeitiçado de tal maneira que não poderia imaginar sua vida longe dela. Ela era seu ar, sua motivação, sua devoção a cada uma de suas horas investidas em estudos buscando alguma técnica que pudesse aliviá-la desta trágica situação. Como queria que sua amada pudesse ver o brilho de seus olhos quando lhe revelasse seu amor.
"O que foi Yukito?" – dizia Sakura sentando-se mais próxima de seu médico percebendo a impaciência do amigo – "Está se sentindo bem?"
"Eu queria lhe dizer algo muito importante, Sakura." – disse respirando fundo, buscando forças para não desistir – "Algo que não consigo mais esconder..."
Sakura observava seu médico. Podia perceber sua inquietude pelos movimentos rápidos das pernas. Surpreendentemente, teve suas mãos tomadas pelas de seu generoso amigo. Moveu-se com o susto, tentando afastar-se, mas foi impelida por Yukito, que ajoelhou-se diante da jovem.
"Sakura, faz muito tempo que preciso te dizer o real motivo de retornar a Tomoeda." – Yukito respirou profundamente tentando controlar seus batimentos cardíacos. Levou uma de suas mãos aos cabelos, ajeitando-os com o nervosismo – "Sakura, sinto algo muito diferente por ti, desde o momento em que reencontrei a irmãzinha de meu amigo, e dentro de seus intensos olhos descobri a mulher de meus sonhos..."
"Yukito... por favor... Eu..." – Sakura levantou-se, caminhando de forma desorientada até tocar a coluna de madeira que contornava a varanda de sua casa – "Eu não quero ouvir..."
"Eu não posso evitar, Sakura..." – Yukito aproximou-se da jovem assustada com o que poderia ouvir em poucos instantes – "Eu te amo, Sakura..."
"Não..." – Sakura tinha os olhos tomados de lágrimas. Não poderia ser verdade. Seu coração não permitia ouvir tais palavras de mais ninguém. Seu amor já pertencia a outro homem. Sentia-se presa a Li, por mais que tivesse afastado-o de si, ela ainda o amava com todo fulgor de uma paixão que florescia todos os dias. O amava, e o simples fato de ouvir tais palavras de outro homem, era como se o traísse.
"Sakura..." – Yukito tomava o rosto delicado de sua paciente em suas mãos – "Permita-me mostrar que posso ser muito mais do que seu médico. Me dê uma chance para cuidar de você. Está tão frágil, e vê-la assim só me deixa ainda mais apaixonado..."
O que estava acontecendo? O mundo parecia parar no tempo para a jovem patinadora. Aonde estava o seu amor? Por que Shaoran não estava ali para tomá-la nos braços e mostrar a quem quer que fosse que ela era o seu amor, e de mais ninguém? Sentiu-se abandonada, fraca por não conseguir evitar que Yukito se aproximasse dela.
Cinza... A noite estava tão cinza. Sem brilho, sem luz, sem vida. Tudo parecia girar novamente. Toda a estabilidade que havia conquistado com as sessões médicas havia desaparecido. Sentiu-se enjoada, cansada de sua vida caminhar por lugares que não desejava. "Por que tudo isso está acontecendo comigo?" – pensava a jovem, insegura, triste.
Não sabia o que dizer. Yukito repetia que a amava, dizia outras coisas mais que já não fazia a menor importância. Queria apenas estar longe dali, segura. "Shaoran..." – chorava cerrando os olhos, repudiando aquele momento. Gostava de Yukito, não poderia magoá-lo. Mas por que ele tinha que revelar seu amor para ela? Por que simplesmente não a amava como uma irmã?
"Sakura... Nunca mais vou deixá-la fazer isso!" – Li dizia para si enquanto entrava na cidade de Tomoeda.
Estava ansioso como se fosse sua primeira apresentação sobre os patins. Sentia-se perdido, quais palavras usaria? Como expressar a vontade tão intensa de roubá-la da casa do pai e trazê-la para morar com ele para sempre? Seria possível ser delicado, controlar a saudade que já não cabia em seu peito ao vê-la? Parecia tanto tempo...
"Estive afastado por muito tempo, Sakura..." – dizia Li já muito próximo da casa de sua amada. O coração já não respondia seus atos, já tomado pela emoção – "Eu preciso te ouvir dizer que também me ama, Sakura. E eu te garanto que você nunca mais irá embora."
Li parou o carro próximo a casa de Sakura. Fitava a noite, o céu escuro, quase sem estrelas. Vazio como nunca mais gostaria de se sentir. Caminhava a passos rápidos, sorria sem medo. Sua mais linda flor o perdoaria pela demora. Seu coração pulsava tão rápido quanto sua respiração ofegante.
Correu até a entrada da casa de sua aprendiz e observou uma luz fraca ao longe, dois vultos bem próximos recostados sobre a varanda. Sacudiu a cabeça evitando ter os pensamentos que seu consciente apresentava. Conhecia a silhueta de Sakura onde quer que estivesse. Quem era aquele homem que tocava em seu rosto, seus cabelos. Quem se atrevia a acudir sua princesa? Sentiu o coração apertar no peito. Lágrimas rolavam de sua face.
"Sakura!!!!" – foi o grito desesperado de Shaoran.
Tomorrow used to be a day away
Amanhã seria um dia comum
Now love is gone and you're into someone far away.
Agora o amor acabou e você está distante nos braços de outrem.
I never thought the day would come
Eu nunca pensei que este dia chegaria
When I would see his hand, not mine,
Quando eu vi as mãos dele, não as minhas
holding onto yours because I could not find the time.
segurando as suas porque eu não tive tempo.
"Shao…" – Sakura murmurava enquanto empurrava Yukito de si. Tocou seus lábios tão rápido quanto pôde. O que havia permitido? Yukito havia capturado seus lábios! Não podia ser verdade. Não podia...
"Sakura, o que houve?" – dizia o médico sem entender.
"Como pôde, Yukito? Como... pôde..." – Sakura chorava, soluçava.
"Perdoe-me minha flor... Eu não consegui controlar meus sentimentos e..." – Yukito tentava inutilmente desculpar-se.
"Não me chame de minha flor..."
"Sakura..." – Yukito sentia o arrependimento chegar.
Now I can't deny
Agora eu não posso negar
Nothing lasts forever.
Nada dura para sempre.
I don't want to leave
Eu não quero partir
and see the tear drops in your eyes
e ver as lágrimas escorrerem de seus olhos
I don't want to live to see the day we say goodbye.
Eu não quero viver par a ver o dia que nós diremos adeus.
Now there comes another part of life that I call alone
Agora vem outra parte da vida que posso chamá-la solidão
Sitting at a bar of Kris
Sentado no bar do Kris
and I can't leave 'cause my house ain't no home, no.
e eu não posso partir porque minha casa não é mais meu lar, não.
I just wanna touch you girl
Eu apenas quero tocá-la garota
I wanna feel you close to me
Quero senti-la bem perto de mim
Without your love I would give up now
Sem seu amor eu desistiria agora
and walk away so easily.
e partiria tão fácil.
"Shaoran!!!!" – seu grito desesperado alcançaria seu amado? Li teria visto o que a envergonharia eternamente?
Sem pensar em suas condições, Sakura saiu correndo. Tropeçou nos degraus que davam acesso ao jardim. Yukito correu para ampará-la, mas a jovem o repudiou. Batia em seu peito tentando aliviar a angústia que sentia. Tinha a raiva expressa em seus olhos, já muito vermelhos pelo choro. Correu sem saber a direção gritando o nome de seu amado. Queria encontrá-lo, desculpar-se por todos seus erros. "Deus... me ajude..." – rezava a jovem em pensamento.
"Shaoran... por favor! Shaoran!!! Eu te amo! Eu posso explicar..."
So maybe while we're young
Então talvez enquanto formos jovens
We'll figure out together
Poderemos descobrir juntos
That even with the pain, there's a remedy
Que para qualquer dor, existe um remédio
and we'll be all right
e nós ficaremos bem
I don't want to live to see the day we say goodbye.
Eu não quero viver para ver o dia que nós diremos adeus.
Mas era tarde... Somente o som de pneus derrapando sobre a neve ecoava naquela noite de inverno. Tomada pela dor, caiu em um pranto incontrolável. Jogou-se sem forças na grama coberta pela neve. Seu amor jamais a perdoaria. Os sonhos muitas vezes não batem em nossa porta duas vezes. Seu conto de fadas seria realizado, mas sua fraqueza, seu carinho excessivo e sua inocência haviam estragado tudo.
O livro de sua vida não virava somente mais uma página... Fora fechado. Sua esperança acabara. Seus sonhos eram esquecidos no livro abandonado na estante úmida e vazia das memórias de seu coração. Tudo se encerrara, ali. Seu destino feliz se esvaia em cada respiração. Suas crenças, sua felicidade, seu amor. Seu Shaoran.
When I first met you I couldn't love anyone
Quando eu conheci você não podia amar ninguém
But you stole my dreams and you made me see
Mas você roubou meus sonhos e me fez enxergar
that I can walk under the sun
que o sol nasceu para todos
and I can still be me.
e que eu posso continuar sendo eu mesmo.
And now I can't deny nothing lasts forever.
E agora eu não posso negar que nada dura para sempre.
Shaoran acelerava o carro incrédulo! Ela o havia beijado! Como pôde esquecê-lo tão rápido? Estava tão indignado que não ouviu os gritos de Sakura, muito menos a viu correr em sua direção. Seu amor tinha sido ferido com o pior dos punhais. A decepção.
Lembrou-se de cada um dos momentos que viveu com Sakura. As palavras, a confiança, tudo tinha sido falso! Estava nos braços de outro homem! Li sentia-se usado, traído. Estava completamente decepcionado consigo mesmo por ter acreditado que a levaria consigo para Tókio. Por que foi ouvir seu coração e ter esperanças? Por um relapso de seu consciente fora tomado pela emoção, negligenciando sua razão. Ela já tinha tomado sua decisão. Havia mandado-o partir.
Lágrimas molhavam seu rosto, ferozmente. Chorava de raiva. Cada lágrima que derramava carregava toda e qualquer boa lembrança. Sentia seu coração desmoronar, e a erosão causada por seu choro acabaria por soterrar definitivamente seu mais nobre sentimento, o amor. Não se permitiria amar novamente. Nunca mais seria enganado. E a responsável por este desastre, ah... Simplesmente não poderia perdoá-la. Não poderia...
But I don't want to leave and see the teard
Mas eu não quero partir e ver as lágrimas escorrerem de seus olhos
So baby while we're young let's figure out together
Então baby enquanto formos jovens poderemos descobrir juntos
That even with the pain there's a remedy
Que para qualquer dor existe um remédio
and we'll be all right.
e nos ficaremos bem.
I don't want to live to see the day we say goodbye,
Eu não quero viver para ver o dia que nós diremos adeus
We say goodbye,
Que nós diremos adeus,
Oh goodbye,
Oh adeus,
Goodbye
Adeus.
"Adeus... Sakura..." – a última lágrima era derramada. Li Shaoran nunca mais experimentaria navegar no oceano que um dia lhe apresentou um sentimento mágico mas também o mais doloroso que podemos sentir. O amor abandonava o solo âmbar definitivamente. A ilha tornava-se solitária uma vez mais. E agora, para sempre.
Continua...
Música: Goodbye – Hootie and Blowfish
Tradução: Naki
N/A
Okay... Eu sei que demorei muuuuito desta vez... Mais de um ano sem postar! Eu sei, eu sei... Me superei!
Queria agradecer todos os e-mails e reviews que recebi!
Muitos me questionaram se desisti da história, e mais uma vez eu digo: NÃO VOU ABANDONAR MINHA HISTÓRIA!!! S.t.H é minha grande obra, minha conquista! E não irei abandoná-la, certo?
Final trágico... Tá... Tá... Eu sei...
Podem até sentir vontade de me matar! Mas isto é um drama, okay! Não joguem pedras em mim nem no pobre do Yukito! Se coloquem no lugar dele também! Nosso personagem está apaixonado!
"Lá ia um Shaoran disposto a pisar em seu orgulho, fazer sua Sakura enxergar que não podiam ficar mais um dia separados... Mas... Nosso médico não conseguiu conter seu impulso de paixão e acabou estragando todo conto de fadas..."
O que acontecerá agora? Só aguardando o próximo capítulo!
Quero reviews, heim? Só posto o próximo capítulo quando ver o numerinho ultrapassar os 370! (Estou pedindo muito? É que os 300 da última vez foram superados tãaaao rápido... Estou me precavendo agora, hehe!)
See you on next chapter!
Naki
