Angela Prince Snape - Então... acho que você vai descobrir já-já o que aconteceu com o bebê.

Srt Maga - Nhaa, obrigada! *faz uma mesura* Bem que eu gostaria de deixar Frigga ir atrás de Thanos, mas um ataque direto contra o Titã provocaria uma guerra geral nos Nove Reinos (o que seria complicado de contar)... mas calma lá que eu tenho um plano (um bom plano *-* Muahahaha). Eita! Eu estava me perguntando quem seria o lindo que consolaria Loki primeiro... e confesso que pensei no Steve kkkk.

Diadorim - Oh, você vai adorar o que pensei em fazer aqui *sorriso perverso de orelha a orelha*

Lis Martin - Tranquilo Lis, minha cobaia ficou um bocado chocada quando leu o capítulo anterior e esse aqui. Então não tem problema se você se sentir desconfortável. E bom saber que gostou dele ^^.

Bem, primeiro preciso informar que a música que Loki cantará nesse capítulo é Helvegen do Wardruna, e a tradução apresentada do lado não é oficial (e tem grandes chances de estar meio errada), mas ainda assim é linda de ouvir.

Foi um pouco complicado escrever o capítulo porque... bem... eu caia no choro em algumas cenas (foram duas na verdade) e perdia o pique para escrever... sem falar na complicação para achar referências coerentes para manter o texto amarrado e cara... foi Dias das Mães, escrever isso foi uma piada horrível.

De qualquer forma, divirtam-se! (se puderem)...


Grunhidos guturais e pancadas surdas cumprimentaram seus ouvidos antes mesmo de o mundo ganhar foco. Outra vez estavam na sala circular e se possível o ambiente se tornara ainda mais repulsivo. Pequenos insetos e parasitas rastejavam pelas paredes, atraídos pela imundice reinante e baixa iluminação, e o cheiro pungente de sexo e dejetos azedava o ar de maneira atordoante. No centro de tudo, como se se exibissem num show bizarro, quatro chitauri prendiam Loki ao chão, os corpos maciços submetiam o menor sem piedade. Não lhes importava que o malandro parecesse prestes a definhar, ou o ligeiro volume marcando o ventre magro, muito menos as novas feridas que abriram na carne frágil.

O trapaceiro era manipulado como uma boneca-de-pano maltrapilha, arrastado e empurrado, montado e desmontado conforme a vontade das mãos que o dominavam. Os olhos verdes, inchados e desfocados, fixavam o buraco no teto sem realmente enxergá-lo e dos lábios rachados não escapava o menor sussurro.

Tão quieto.

Tão vazio.

Era preciso haver esperanças – de fugir, de ser resgatado, de um fim – para o desejo de lutar e sobreviver continuar. E Loki já não tinha nada.

Sob o olhar dos três companheiros, os movimentos do chitauri tornaram-se mais frenéticos e então ele cravou os dentes no ombro fino. Havia acabado. Orgulhoso, levantou e acenou para os outros como quem pergunta "o que acham?". Por seu lado, enfim livre das mãos que o prendiam, Loki rolou sobre si mesmo, encolhendo-se quietamente enquanto os dedos traçavam as marcas desiguais deixadas pelos dentes. Não que importasse. Não que fosse fazer alguma diferença.

Aquela passividade alienada, ao mesmo tempo em que inquietou Frigga, foi o cúmulo do tédio para os quatro chitauri. Aborrecidos pelo brinquedinho dado não ser tão interessante quanto fora no início – afinal, eram caçadores por natureza e necessitavam assistir a agonia para se divertir – os soldados chiaram entre si, antes de um deles acertar um chute nas costas do malandro. Pela primeira vez Loki esboçou uma reação, engatinhando desajeitadamente para longe. Era o que queriam. Foram atrás da mulher, puxando-a de volta pelos cabelos enquanto miravam chutes e murros... até alguém errar o alvo... e acertar a barriga.

O berro de dor foi inesperado, dilacerante, diferente de tudo o que já tinham ouvindo. Se isso assustou os chitauri, que dizer de Frigga? Em completa estupefação assistiram o trapaceiro cair sem forças, as mãos cobrindo a área ferida enquanto sangue escapava por entre as pernas esqueléticas.

Apavorados com a punição que receberiam caso a mulher morresse os chitauri debandaram.

Trêmula de medo e raiva Frigga estudou a fisionomia do filho, seus olhos experientes analisando a figura ferida até chegarem à conclusão óbvia. A criança estava nascendo fora do tempo. Não apenas isso, Loki... ela lutou contra as lágrimas... ele não conseguiria. Não sozinho. Não naquele lugar.

O fluxo de sangue aumentou, assim como os lamentos do malandro. Tentou levantar para aliviar a dor, mas fracassou. Seu quadril foi deslocado durante a surra e mover-se apenas agravava a agonia. Não havia nada o que fazer além de suportar.

Tudo aquilo foi demais para Frigga. Ela queria ajudá-lo, tocá-lo, acalmá-lo e afastar toda a dor e garantir qualquer coisa que precisasse ser garantida. E foi aí que sua barreira cedeu.

Num golpe atroz sentiu, como que na própria carne, a agonia latejante e aguda no baixo ventre, a fraqueza generalizada nos membros, a dor branca que percorria cada fibra e nervo numa tentativa de liquefazê-los. A deusa caiu para frente, de joelhos, gritando junto com o malandro enquanto seu corpo era devastado, sentindo a mesma estranha sensação que Loki quando algo morno deslizou entre as pernas e se enroscou no chão.

"Tão quieto", os pensamentos do trapaceiro chegaram a ela, "Devia haver algo mais. Havia algo mais.".

Loki empurrou-se para frente, entreabrindo as pernas, olhando para a poça de sangue e para a coisa informe que repousava no chão. O bebê. Morto.

Completamente morto.

E os dois deuses explodiram em gargalhadas.

Riam porque a criança estava morta. Porque ele não teria de continuar na forma feminina e muito menos mantendo aquela criatura infeliz dentro de si. Porque ele não teria de cuidá-la, criá-la ou mesmo explicar sua existência.

E as gargalhadas cessaram.

Pensamentos confusos correram sua mente. O horror contra a alegria. A repulsa contra o alívio. Acima de tudo a culpa. Com que direito divertia-se com aquela morte? Como... como poderia encarar Hela, Fenrir, Jormungand e Sleipnir depois disso? Nunca, em nenhum momento de sua vida, Loki acreditara que chegaria a odiar uma de suas crianças e ali estava a prova incontestável do contrário.

No instante exato em que as ideias do trapaceiro descarrilaram o Guia puxou Frigga para si, remontando a precária barreira protetora.

Loki gritou. Gritou como um demente. Gritou até a garganta não ser capaz de produzir qualquer ruído. E quando não havia mais voz ele rasgou a pele com as unhas. Quando as unhas se mostraram ineficientes esfregou o corpo contra o piso até a cútis desaparecer revelando a carne vermelha sob ela.

Diferente das outras vezes, o Guia não fez o mundo desvanecer, concentrado demais na tarefa de sustentar e reorganizar a magia de Frigga, sussurrando palavras calmantes e esperando pacientemente a deusa recobrar o juízo. Demorou um bocado para ela separar suas emoções das do filho, e mais ainda para superar a odiosidade de tudo aquilo, mas conseguiu. Precisava conseguir.

Sem intervenção a memória seguiu em frente. O surto diminuiu o suficiente para Loki reassumir a forma masculina e – sem olhar uma única vez para a pequena monstruosidade que parira – arrastar-se para a extremidade oposta da sala, deitando no chão de terra e caindo num sono inquieto, acordando por breves minutos antes de dormir novamente.

Dias passaram sem que viva-alma entrasse na cela, as tigelas de comida servidas a cada manhã e recolhidas ao anoiteceram eram a única prova de que se lembravam da existência do prisioneiro. Afora isso, Loki estava morto para o mundo.

Depois que a décima tigela consecutiva foi recolhida intocada o outro veio fazer uma visita. Ele entrou sem fazer alarde, fungando contra o fedor pestilento no ar, e se aproximou do deus caído, estudando a figura emaciada detidamente antes de curar os ferimentos. O mais surpreendente, porém, foi quando conjurou algumas roupas e abaixou-se ao lado do malandro, forçando-o a vestir-se.

– Você não vai conseguir se matar recusando comida. – avisou de repente, passando os braços de Loki pelas mangas da túnica e ajustando a gola. – Caso não lembre, um Jotun pode passar dois anos inteiros sem comer antes que definhar por completo.

O comentário arrancou um balbuciar fraco e um franzir de sobrancelhas.

Com o trapaceiro vestido, o Outro puxou um frasco perolado e forçou Loki a ingerir a beberagem. Engasgos a parte, o recipiente foi guardado vazio.

– Isso vai forçar você a comer. – informou levantando. Seus olhos pareceram vagar para o bolo de carne semidecomposta no meio da sala. Parou pensativo. – Estou curioso. Você sempre se apega tanto as suas crias? Ou essa era sua favorita?

O efeito de tais palavras foi imediato. Loki levantou, apoiando parte do peso contra a parede já que suas pernas mal o sustentavam, e rosnou, ameaçando estrangular o Outro. Os olhos verdes dardejavam de ódio.

– Ora, ora...

Descansadamente ele caminhou até massa escura no chão. Deu a volta, sem desviar o olhar do trapaceiro, e ergueu o pé. O tempo pareceu congelar.

– Façamos assim... – o sorriso cheio de dentes escuros dançou na face do algoz. – Fale que ama essa coisa e eu vou embora. É só dizer "amo meu bebê". Fácil. É só falar.

O parco controle recobrado pela deusa ameaçou ruir.

Entre todos os jogos, por que justo esse? Será que não bastava o mal que haviam causado? Precisavam tripudiar até toda a dignidade virar pó? Massacrar cada resquício de sanidade? Norns!, eles tiraram tudo que Loki podia oferecer. Tudo! O que mais queriam?!

– Diga onde está o Tesseract... – Frigga se pegou murmurando.

Segundo passaram.

– Diga! Por favor. Diga onde está... – a deusa soluçou.

Não houve resposta.

Apenas o som pastoso quando o pé do Outro afundou no corpo disforme e o ganido estrangulado do malandro quando caiu de joelhos. As pisadas continuaram até não sobrar nada, exceto o cheiro fétido de carne podre e a dança grotesca dos vermes que fugiam.

– Amanhã alguém limpa essa bagunça.

Assim dizendo ele partiu.

Sozinho o deus fitou a mancha escura no chão. O que restara de seu filho ou filha.

Os lábios finos se moviam rapidamente, indo do "desculpe" ao "odeio você", até ele não ter mais fôlego e finalmente perder as estribeiras. Num arroubo autodestrutivo se jogou contra a parede, mordendo a si mesmo, procurando se ferir das piores maneiras possíveis, gritando atrocidades que na verdade não faziam sentido.

A irremediável ascensão à insanidade.

O Guia interrompeu o fluxo das memórias e, na escuridão total, Frigga chorou.

Suas primeiras lágrimas foram por Loki, por todos os horrores que ele suportara entre os Chitauri; as seguintes foram àquelas que ele não pudera dar a criança e pela culpa que o corroía; e por fim ela chorou porque jamais conseguiria olhar nos olhos do filho sem se perguntar, mesmo que por um segundo, se ele não desejaria ter morrido no momento em que caíra da Bifrost.

E com o fim do pranto veio a raiva. Frigga amaldiçoou uma centena de nomes – Thanos, os chitauri em geral, o Outro, Laufey, Odin, Heimdall, boa parte dos conselheiros, alguns curadores –, mas nenhum recebeu tanto ódio quanto o seu próprio. Ela podia ter insistido nas buscas. Devia tê-lo procurado pessoalmente. Mas não. Dedicara seus dias a andar pelos salões dourados, comendo refeições esplendidas em banquetes regados a hidromel e velhas canções, vestindo as melhores roupas e cercada de atenção.

"Que bela mãe eu sou...", pensou amarga.

Não notou quando o Guia a segurou entre os braços, mas sentiu a magia dele fluir lentamente para ela numa vibração familiar. O que ele estaria pensando daquela demonstração de fraqueza? Bem possível que estivesse decepcionado. Ela estava.

As mãos enluvadas tatearam seu rosto, apagando a trilha de lágrimas.

– Obrigado. – ele sussurrou mansamente.

Frigga percebeu, de novo à beira do choro, que a voz dele parecia muito com a de Loki. O velho Loki. O rapazinho astuto e teimoso que ela versara na magia e na luta quando ninguém mais apostara nele. Seu eterno garotinho.

– Eu mudaria tudo... – gemeu. – Eu mudaria...

– Eu sei, minha senhora. – ajudou-a a ficar de pé e entregou-lhe um lenço. – Agora, agradeceria se não me assustasse daquele jeito. Devo ter envelhecido uns vinte anos.

Ela riu baixinho, logo ficando séria.

– Depois disso Loki concordou em entregar o Tesseract...

– Não.

O assombro da deusa foi genuíno. Como, depois de tudo aquilo, Loki insistira em manter o segredo? Qualquer outro em sua posição não teria hesitado em confessar após a primeira provação! A ligeira oscilação na magia do Guia a alertou para algo mais.

– O que houve?

– Eu diria que... enlouqueci. – estendeu a mão para Frigga. – Levante sua barreira e não a baixe. Confie em mim.


Todos os vestígios dos eventos ocorridos na sala redonda ao longo daqueles meses infernais foram cuidadosamente apagados. As pilhas de lixo desapareceram e a imundice do chão foi lavada, sendo que uma nova camada de palha e terra precisou ser posta para ocultar as marcas mais persistentes. Mesmo os insetos sumiram.

A limpeza, todavia, não tornou o ambiente mais confortável e muito menos acolhedor. As cinco portas de madeira negra permaneciam fechadas, um lembrete mudo dos males que se escondiam atrás daquelas passagens, e a luz proveniente do buraco no alto chegava mais fraca, agora que o inverno se aproximava.

Sentado numa pilha de trapos gastos, o mais longe possível das entradas, estava Loki. Vestia uma túnica cinza desbotada, a gola rasgada e as manchas de comida apontavam para dias contínuos de uso. Ao redor do pescoço fino havia uma coleira de metal, folgada o bastante para não sufocá-lo, mas justa o suficiente para esfolar a pele com o atrito. Os pulsos finos estavam cobertos por ataduras e um corte fundo marcava o lábio superior. O mais assustador, porém, era o olhar ausente, vidrado, no rosto do malandro.

– Seus braços, foram eles...? – Frigga começou.

– Não. Tentei comer a carne dos meus braços. – o Guia explicou com indiferença estudada. – Eles se esqueceram de me alimentar. – acrescentou vendo a surpresa na expressão da deusa.

Ouviu-se um breve estalido metálico e uma das portas abriu, dando passagem a três chitauri armados até os dentes. Fazendo uma volta longa, cada um deles assumiu sua posição, trocando olhares receosos entre si.

Frigga considerou a cena bastante peculiar.

– Menos louco você? – perguntou o do meio.

O moreno mostrou os dentes, produzindo um rosnado gutural pouco familiar. O som vibrou pelas paredes cavernosas.

– Louco sempre ele. – o chitauri respondeu ao companheiro, recuando um passo. – Sabe Tesseract onde?

Interrompendo o rosnado ele tentou esboçar uma resposta. Sons vagos e roucos, sem significado ou sentido.

– Sabe Tesseract onde? – insistiu.

– Adianta nada. – o terceiro objetou impaciente. – Quebrado. Inútil louco.

Num ato de extrema estupidez, porque a desaprovação dos companheiros era clara, o chitauri agarrou Loki pela coleira e o arrastou para longe da parede. O deus grunhiu, cravando os dedos na terra, sua resistência aumentando conforme se aproximavam do centro da sala... o lugar onde uma mancha escura ainda era visível apesar da areia.

Quando estavam a menos de dois metros do local os movimentos do moreno não apenas se tornaram mais agitados como adquiriram um quê assassino inegável. Agachando-se rápido e tomando impulso ele se lançou contra o captor, girando o corpo, escapando de suas garras, enquanto seus dedos encontravam o caminho livre para a garganta do inimigo. Enquanto uma mão cortava o fluxo de ar a outra foi até a mandíbula, prendendo-a num aperto de ferro e a puxando até provocar o som horrível de ossos deslocando seguido do grito sofrível da criatura.

Tentando resgatar o companheiro ferido os outros andaram em círculos ao redor do deus, gritando obscenidades e batendo o punho cerrado contra o peito, querendo o assustar o no mínimo distrair. Qualquer criatura com um pingo de inteligência ficaria a quilômetros de distância do malandro... principalmente quando este ficava de péssimo humor. Puxando a adaga presa ao cinto do chitauri cativo, ele avançou contra o oponente mais próximo, primeiro ameaçando um ataque físico direto só para mudar a postura no último instante e lançar a adaga na área desprotegida próxima à virilha. O soldado caiu com um guincho de dor. O último som que produziu na vida. Rápido como um gato arrancou a adaga e a cravou na jugular do oponente, girando-a na carne com prazer perverso, puxando-a da carne tenra e começou a mutilar o corpo do oponente.

Aproveitando a distração o único chitauri ileso acertou um chute contra as costas de Loki, forte o bastante para derrubá-lo de sua posição e deixá-lo sem fôlego. Mais que depressa a dupla apanhou o companheiro morto e fugiu porta afora.

– Uau... – admirou-se.

– Uma das pequenas benesses de se estar louco, – o Guia afirmou em tom de mofa. – é que você pode fazer o que quiser.

Respirando com dificuldade, Loki permaneceu deitado no chão. Não fazia ideia do que acontecera, e nem entendia porque suas mãos e roupas estavam sujas de sangue. O pequeno embate caído no esquecimento.

Frigga assistiu, com um sorriso suave nos lábios, o filho brincar com as ataduras frouxas e então desviar a atenção para as marcas na areia. O rastro deixado pelo corpo do chitauri abatido. Os dedos magros traçaram linhas aleatórias no chão, arrulhando baixinho de satisfação, os olhos verdes brilhando alegremente.

Por mais entristecedora que fosse a visão do moreno brincando na terra como uma criança, ela reconhecia que a insanidade temporária que o acometera o salvava dos abusos de Thanos e do Outro – afinal, qual o sentido de atormentar um louco? –, mas também o colocava em risco. Se não pudesse responder as questões do Titã ele seria descartado.

Os desenhos de Loki começaram a mudar. Abandonando os círculos e serpenteados, ele começou a agrupar as linhas. Apagou inúmeras vezes os rabiscos para finalmente produzir um ronronar faceiro encarando os riscos na terra como se fossem sua arte suprema.

Curiosa, a deusa espiou sobre o ombro do filho.

Um "T".

Um grande, instável e torto "T".

Os lábios rachados do malandro formaram um sorriso vago e depois, numa rouquejar incerto, cantarolou uma música. Os primeiros versos passaram quase em branco, mas nos seguintes as palavras afloraram instáveis e perfeitamente reconhecíveis.

Hvem skal sung meg (quem me cantará)

I daudsvevna slynge meg (sobre o profundo sono da morte)

Nå eg på Helvegen gå (enquanto ando no Caminho da Morte)

Og dei spora eg trår er kalda, så kalda (e os caminhos que trilho são frios, tão frios)

Frigga ofegou, cobrindo a boca com as mãos, engolindo o gritinho eufórico que ameaçava escapar. Ela conhecia a canção. Thor e Loki passaram meio século cantando aquela ladainha, comemorando as primeiras patrulhas no campo de batalha.

A cantilena continuou e embora a voz continuasse oscilando, as palavras soavam precisas. O malandro estendeu a mão e rabiscou a segunda letra e a terceira letras.

Nå du ved Helgrindi star (quando passar pelo Portão da Morte)

Og når du laus deg må riva (você tem que rasgar-se livre)

Skal eg fylgje deg (eu seguirei você)

Over Gjallarbrua med min song (através da Ponte Retumbante com minha música)

A última letra veio, desenhada com um cuidado esmerado.

Um "R" maiúsculo elegantemente desenhado.

Du blir løyst frå banda som bind deg (você está livre dos laços que o prendem)

Du er løyst frå banda som batt deg (você está livre das amarras que o prendem)

E lá estava, em grandes letras garrafais, o primeiro nome que Loki recordara em meio à loucura.

"THOR".

– Gostaria de saber o que ele estava pensando? – o Guia perguntou.

– Posso?

– Claro. – concedeu.

Receosa a deusa tomou a mão enluvada entre as suas. Se fosse honesta consigo mesma admitira estar mais atemorizada pelos pensamentos de Loki após tantos meses de sofrimento do que pelo medo de ser ferida por mais uma torrente desconexa de emoções.

Sentiu a adrenalina correndo em suas veias, imaginando que a qualquer momento seria levado para mais interrogatórios. Depois veio a revolta contra cada indignidade sofrida, a repulsa contra sua própria fraqueza, e o ódio incondicional dirigido a seus captores. E por fim... a sensação desconcertante de abandono, a dorzinha irritante martelando contra o peito numa ode patética ao que as donzelas chamam de "coração partido".

"Eu nunca poderei me desculpar o suficiente", pensou desalentada.

– Essa é minha parte favorita, minha senhora. – o Guia afirmou.

Houve uma mudança repentina nos pensamentos do trapaceiro. Ideias iam e vinham em rápida sucessão até finalmente Loki criar um plano de fuga tão estupidamente simples e eficiente que ele próprio se recriminou por não haver pensado nisso mais cedo.

"O Tesseract", ele pensou afoito, "é uma das armas mais poderosas do Universo. Thanos quer destruir o Universo. Odin protege os Nove Reinos. E os Nove Reinos fazem parte do Universo. Se Thanos encontrar o Tesseract, Odin terá que enfrenta-lo. Se eu estiver ao lado de Thanos serei encontrado!"

Loki pensou nas boas possibilidades – reencontrar Thor, explicar o mais rápido possível o que acontecera, e escapar do julgo de Thanos –, e naquelas que não eram tão boas – como ser preso sob acusação de alta-traição, de acabar morto no processo, ou de no mínimo ganhar um exílio permanente em um dos Nove Reinos. Mas recusou-se a pensar no fracasso.

O mais importante, independentemente do resultado, é que não passaria nem mais um dia naquela cela. Cavaria sua própria rota de fuga, mesmo que precisasse rastejar entre escombros e vermes... e se a morte fosse seu destino, ele a receberia de braços abertos.

O malandro levantou e, mantendo o parco equilíbrio sobre as pernas bambas, caminhou até a porta onde lembrava, não sabia se ontem ou hoje, de ter visto alguns chitauri saindo.

Ele olhou para trás uma única vez, sussurrando um delicado "sinto muito", e acertou o punho contra a porta exigindo a presença de Thanos.


– Era tudo parte do plano. – a constatação veio em meio à escuridão.

Rapidamente Frigga analisou os relatos que ouvira da batalha em Midgard. Gestos, palavras, estratégias. Cada elemento foi levado em consideração, e juntando todas as peças do quebra-cabeça ela precisou admitir que as pistas estavam bem ali, bailando diante de seus olhos, esperando que alguém fosse paciente o bastante para compreendê-las.

Havia, contudo, uma coisa que não entendia. Como Loki mantivera a mente centrada durante toda a batalha? Como afastou por tanto tempo as memórias do cativeiro? E, principalmente, como recuperara a sanidade?

A resposta, ela adivinhou, estava bem ao seu lado.

– Foi você. – sussurrou.

– Eu manipulei a magia para bloquear essa memória em particular. – admitiu baixando os ombros. – Enquanto Loki não usar o máximo de seu poder e ficar longe daquele soro criado pelos Vingadores, tudo ficará bem. Odin acredita que o uso dos braceletes é uma punição... mas confesso, ele está me fazendo um favor.

– Entendo. – ou ao menos esperava entender.

Apagar uma memória, na maioria dos casos, tinha resultados fatais; suprimi-las, porém, era algo mais complexo porque, ao passo que se criavam métodos para ludibriar o lado consciente, gatilhos eram construídos e a qualquer momento podiam ser acionados trazendo a memória à tona.

Frigga podia compreender que o Guia contava com poucas opções na época... mas transformar a magia de Loki no gatilho para a memória. Era como brincar de roleta russa com a arma carregada!

– Isso pode ser desfeito? – indagou preocupada.

– Julgando pelo último incidente... – vendo a cara de poucos amigos da deusa emendou: – Aos poucos trarei essa memória de volta. Não pretendo transformar isso num vinculo permanente, minha senhora.

Menos aborrecida a deusa meneou a mão.

– Tudo bem. – sorriu. – Preciso ver as memórias do segundo cativeiro.

– Se me permite dizer, minha senhora, comparada a estadia com os chitauri o tempo na masmorra de Asgard foram férias de verão.

– Não duvido. – concordou. – Mas os assuntos de Asgard eu posso resolver pessoalmente.

E caso houvesse um rosto para ser visto no Guia, Frigga teve a sensação de que ele mostraria um sorriso cheio de dentes encabeçado pelo brilho maléfico no olhar.

– Ora... porque não disse antes?