Logo comecei a ficar emburrada. Ok, emburrada não é bem a palavra: puta! Sim, essa é uma palavra melhor.

Resolvi levantar e fazer o sangue que se encontrava na minha cabeça circular por outras partes do corpo. Enquanto eu descia as escadas para o salão comunal eu mordia o lábio, estalava os dedos e olhava para os lados como se esperasse que Malfoy surgisse de trás do próximo quadro me fazendo uma surpresa maldita.

Me sentei em um lugar vago na mesa da Grifinória e lá fiquei durante um tempo, olhando Hagrid entrando com a nossa enorme árvore de Natal nas costas.

- Logo imaginei que você estaria aqui.

Aquela voz.

Naquele momento eu não sabia se eu me virava repentinamente e aproveitava para virar minha mão na cara dele também ou se me controlava e exigia uma explicação.

Não sabendo me decidir, fiquei calada.

- Não vai mesmo falar comigo? – Malfoy disse se sentando ao meu lado, me forçando a olhar para ele.

- Com licença? – disse me entortando em meu lugar. – Você está tapando a minha mais perfeita visão do Hagrid macetando a árvore de natal em seu devido lugar.

Mentira. Quem em sã consciência olharia para Hagrid quando um Malfoy lindamente vestido com um cardigã vinho se senta próximo a você?

- Gina, qual é... – suplicou Malfoy.

- Você pisou na bola comigo Malfoy, me dê um bom motivo para te dar ouvidos.

Ele não disse mais nada, somente me estendeu um cartão de visitas.

- Virou corretor imobiliário, foi? – disse zombando enquanto pegava o cartão de suas mãos.

- Cale a boca e veja o cartão, Weasley. – ele respondeu revirando os olhos.

"Madame Liz – Vestidos de Gala"

- Está pensando em montar uma filial?

- Difícil você hein? – bufou Malfoy. – Isso é para você. Para o seu vestido para o baile de Natal.

- Malfoy, nem em um milhão de anos eu teria dinheiro para comprar um vestido aqui. – respondi sacudindo o cartão.

- É um presente meu.

Meus olhos piscaram rapidamente umas 3 vezes enquanto eu tentava digerir a frase.

- Não, não é. – respondi.

- Sim, é.

- Você não vai conseguir comprar seu perdão com um vestido para um baile. Baile cujo nem sei se comparecerei, pois talvez não tenha um par.

- Esse foi o motivo pelo qual me atrasei.

- A gráfica atrasou o pedido dos cartões? – perguntei debochando.

- Tá na TPM de novo é? – ele perguntou se afastando ligeiramente de mim. – Não, engraçadinha, eu estava nessa loja avisando a Madame Liz que eu serei o responsável pelo pagamento do vestido que você escolher. Qualquer um.

- Existe uma coisa chamada telefone.

- Nada causa um impacto maior do que alguns galeões em cima da mesa certa. – ele respondeu piscando. Meu coração deu um pulo dentro do peito.

- Podia ter ido mais cedo.

- Pra isso o telefone foi útil. Eu liguei para marcar um horário para que ela não recebesse mais ninguém além de mim. Afinal, estamos mantendo isso em segredo por enquanto, não é?

- Ainda existe um isso? – perguntei.

- Ah, existe! – ele disse sorrindo.

Minha expressão mal humorada rachou no meio e deu espaço para um sorriso torto. Um sorriso meio incerto. Um sorriso de quem ainda estava com um pé atrás.

- Você não vai comigo escolher esse vestido. Isso vai ser uma surpresa. – eu disse batendo levemente com o cartão em seu nariz.

- Eu já imaginei que falaria isso. – ele disse dando ombros. – Leve a Susana, ela vai gostar.

- E dizer o que para ela? Que ganhei na loteria e vou comprar um vestido que custa uma fortuna para ir num baile com um par que eu, teoricamente, não tenho?

- Ou você pode desistir disso tudo e falar a verdade para ela.

- Não sei se estamos prontos para isso, Malfoy.

- Não estou falando para você pendurar uma faixa na frente do castelo, Weasley. Só estou te dizendo para contar para sua melhor amiga. Acho que você precisa de alguém pra te ajudar a escolher um vestido menos brega que o último.

- Engraçadinho. E você, para quem vai contar?

- Isso não é da sua conta, é?

- Insuportável, como sempre. – respondi rindo.

- Eu te beijaria agora. – ele disse mordendo o lábio.

- Eu te daria um soco agora. – suspirei – E um beijo logo depois. Tenho aula de Poções daqui dez minutos. Nos vemos mais tarde?

- Pode apostar que sim.

Dei uma última olhada naqueles olhos azuis que tanto me hipnotizavam e me virei para ir para a aula. Felix Félicis que me desculpe, mas aquilo sim era felicidade. E nunca poderia ser engarrafada.