Capítulo XIX

~O almoço~

Eu não sei o que me fazia tremer mais naquela tarde, se as reprovações da Meiling ou o espanto da Sakura; seja como for, eu não consegui digerir o almoço daquela tarde direito…

O cheiro do almoço daquela tarde me animava. Era a chance de eu ver a cara da Sakura depois de eu ter salvado ela do rio. A da Meiling também. A Chiharu e a Naoko, por mais que tenham se esforçado por fazer aquela comida, sabiam que nem tudo era paz. Elas viram quando a Meiling gritou comigo, elas viram que a Sakura não queria falar mais comigo depois do nosso retorno. A mente imaginativa das duas não conseguia entender mesmo o que se passava entre a gente. Se eu tinha salvado a Sakura ela deveria ter se sentindo grata por isso, as a reação dela foi o contrário. Depois que a gente voltou, a Sakura se isolou no quarto. Não queria falar com ninguém. A Meiling fez a mesma coisa. O que não pensar disso tudo que elas estavam fazendo?

Teorias e teorias fervilhavam na cabeça da Naoko, da Chiharu, da Rika, da Akane. Elas continuaram a fazer o almoço, eu continuei ajudando elas. A Umame ficou com a gente e trouxe verduras fresquinhas da horta dela. A Akane ousou e foi atrás das duas.

A Akane foi primeiro ver a Sakura. Era a segunda vez que alguma coisa de grave acontecia com ela nessa viagem. Ela achou que a Meiling tava fazendo birra à toa, e depois foi falar com ela:

Sakura, tá tudo bem? – A Akane se sentou do lado da cama da Sakura, fazendo carinho nela como se fosse uma filha. A Sakura estava deitada de lado, de costas para ela.

– Tá sim Akane, não aconteceu nada não… – A Sakura não mudou de postura durante todo o tempo que a Akane tava com ela.

– Sakura, é a segunda vez que você quase se machuca aqui, eu fico preocupada, eu não sei o que se passa…

– Eu escorreguei de uma pedra Akane e a correnteza me levou…

– Sim Sakura, eu tenho que agradecer aos céus que a Tomoyo consegui te alcançar; nós ficamos desesperadas sem saber o que fazer!

– Eu entendo Akane… eu entendo…

– Porque você não quer ver a Tomoyo, Sakura, ela salvou a sua vida? Eu não entendo a sua reação, ela tentava falar com você e você se afastava dela, justo você que queria ficar um bom tempo com ela…

– O problema foi ela ter me salvado Akane-chan…

– Sakura, eu não te entendo, sua vida é muito preciosa pra gente; porque você diz isso?

– Eu digo isso porque eu não entendo a Tomoyo! Pronto! Me deixa quieta um pouco Akane… – A Sakura se cobriu e agarrou o travesseiro com mais força.

– Sakura, eu não sei o que aconteceu entre vocês depois que ela te salvou, mas eu só sei o que eu vi: eu vi a Tomoyo pulando naquele rio com toda a coragem do mundo, temendo te perder, falando pra ela que fazia aquilo pela pessoa mais preciosa pra ela… A gente não teve coragem, eu não tive coragem… pensa bem Sakura antes de julgar a Tomoyo com tanta severidade… ela sofre com isso também…

– Eu não entendo a Tomoyo…

A Akane resolveu deixar ela sozinha; se levantou da cama e fechou a porta. A Sakura ficou lá. A Meiling saiu do quarto dela e veio falar comigo, a sós, fora da casa:

Tomoyo, me diz que eu não vi o que eu vi você fazendo…

– Eu fiz exatamente o que você pensa que eu fiz… – Eu olhei séria pra ela. O olhar de fogo dela diminuiu de intensidade diante das minhas afirmações. Meiling estava estressada e nervosa com tudo aquilo, me ver beijando a Sakura foi um choque pra ela. Ela nunca teve coragem de beijar o primo dela como eu beijei a Sakura. Eu continuei:

– Não foi a primeira vez tá? Eu já te falei isso…

– Você sabe o que tá fazendo? Tá destruíndo tudo o que a gente construiu juntas – A Meiling olha pra mim com os olhos cheios de lágrimas. Eu fui muito dura com ela:

– Meiling, se você já derramou todas as suas lágrimas pelo Shoran, eu não derramei as minhas ainda. Elas estão presas aqui dentro de mim. Eu não eliminei todo esse meu sentimento e ele explodiu dentro de mim, estou cansada Meiling de ficar me escondendo, aquele estresse todo que eu passei tirou um pouco da minha razão, eu confesso, e se você já se libertou de todo o sentimento que você tinha pelo seu primo o problema é seu! Nosso "projeto" está de pé, porque eu me "derrubei" pra manter ele de pé, deixar ele de pé, mas parece que você se esquece disso…

– Eu não me esqueci do que você me disse não…. – Meiling abaixa a cabeça.

– Então trate de levantar essa cabeça e ajuda a gente fazer o almoço; vamos, a Sakura não resiste a cheiro de comida e eu quero ver ela fora daquele quarto…

– Tá bom então… – Eu seguirei as mãos da Meiling e arrastei ela comigo pra cozinha.

Cheguei na cozinha e via a Chiharu pegando as panelas, a Rika preparando o peixe e a Naoko aproveitando o arroz que sobrou de ontem. Ela colocou um tempero bom e uma cebolinha que deixou um cheiro incrível pela cozinha. A Akane também tentou ver se a carne que tinha sobrado na geladeira dava pra fazer um novo churrasco mais tarde. A gente concordou que seria bom terminar de comer a carne de noite e deixar o peixe pra domingo, porque pelo que a Akane tinha comprado, a gente podia comer peixe no sábado, mas a carne a gente devia comer no domingo. Segunda-feira não devia sobrar mais nada.

Pensei que passar o começo de tarde naquela cozinha seria mais fácil, mas as "benditas" especulações da Naoko me deixaram estressada. Eu não podia calar ela, eu não podia tirar a liberdade de pensamento dela. Ela tinha direito a pensar tudo o que fosse. Principalmente, principalmente depois de eu ter dado tanta margem pra especulação que eu dei:

– Pobre Sakura! Primeiro foi o trem, agora vem isso… aonde é que isso vai parar? – A Naoko pega a panela de arroz de ontem e acende a boca do fogão destinada a recebê-la. O arroz ainda tava branquinho e começou a cheirar depois que a Naoko colocou tempero e um pouco de água nele. De tudo o que eu queria ouvir naquela tarde, o que mais me irritou foi ela…

– Gente, isso é grave, isso me preocupa, eu tou começando a achar que as especulações da Naoko são sérias mesmo! – A Chiharu abre o armário e retira as panelas vermelhas de lá, colocando-as sobre a mesa. A Chiharu foi infectada pelo "vírus Naoko" e começou a pensar "torto" também.

– Não sei não gente, eu fico com um nó na garganta só de pensar nisso, pensar que a Sakura não tem um mínimo de paz. – A Rika tava tirando as escamas do peixe. Ela sabia fazer um peixe como ninguém, e o melhor de tudo era Salmão!

Eu e a Meiling entramos na cozinha. Meiling ficou com a cara baixa, não querendo falar com ninguém, profundamente chateada por eu ter beijado a Sakura. Ela pegou as cebolinhas e começou a descascar em silêncio. Só pra me provocar, abriu a boca pra perguntar pra Akane se ela já tinha ligado pra minha mãe:

– E aí Akane, já ligou pra Sonomi de novo? – A Meiling falava com um sorriso irônico nos lábios. Eu senti a pele das minhas costas arder como se eu tivesse levado uma chicotada. Na verdade eu tava nervosa mesmo, sentindo uma "corrente" que eu não sabia se era de eletricidade ou sangue subir pela minha espinha. Os hormônios da gente são incríveis quando a gente menos espera…

– Eu não vou ligar pra Sonomi de novo, isso pra mim é birra de vocês! – A Akane falou duro com a gente. Ficou séria, sem mexer os lábios, sem alterar a expressão. Eu senti que a respiração dela estava rápida, apensar da calma que mostrava ter. A pela da sua bochecha parecia mais magra, de tanto ar que ela estava sugando – Eu não entendo como uma pessoa salva a outra e fica com essa cara de birra, preferindo morrer do que ser salva! – A Akane bateu a porta da geladeira com força, não raiva. Pensou que relaxaria naquele fim de semana, mas a gente só trazia problema pra ela. A Akane não tinha paciência com jovens. Era ela quem cuidava dos estagiários e aprendizes da Amamiya. Isso tirou o pouco de paciência dela. Até com a gente. Devia ser por isso que aos trinta e cinco anos nunca se casou. Nem teve filhos. Mas mantinha uns "rolos" ativos… O que mais chateava ela foi a forma fria como a Sakura me tratou… depois do nosso beijo. Isso irritou ela. Ela sabia que eu tinha feito alguma coisa com a Sakura… só não sabia que eu tinha beijado ela. Isso a Naoko quase descobriu:

– Gente, eu tenho uma teoria! – A Naoko ajeitou os óculos do rosto com o dedo médio da mão esquerda, enquanto mexia o arroz com a outra mão. Eu apenas escutava ela, preparando a salada com a Meiling, imersa no cheiro daqueles legumes.

– O que foi Naoko? – A Chiharu pergunta, virando a cara pra Naoko, colocando alho e azeite nas panelas do peixe e os legumes.

– É o seguinte galera: a Sakura não está triste com o que a Tomoyo fez não, muito pelo contrário, com o que a Tomoyo fez que ela ficou muito chateada… – A Naoko cruza o ar em volta dela com a mão que ajeitara os óculos. Acenava negativamente com a cabeça, mostrando um ar de dedução intelectual que só ela achava que tinha…

– Isso não muda o que você acabou de falar… – Dizia a Rika.

– Pois bem! – A Naoko se vira completamente para a minha direção, tirando a colher da panela e colocando ela na pia, deixando o arroz cozinhar por si só. – Rika, se eu fizesse uma coisa que você não gostasse ou não tivesse preparada o que você faria?

– Eu teria uma surpresa! – A Rika sorriu e fechou os olhos.

– Que nem quando você assusta a gente com as suas histórias. – Disse a Chiharu, levando pro fogo as saladas que eu e a Meiling cortamos.

– Isso mesmo Chiharu! – Naoko deu um soco na palma da mão esquerda com a mão direita. O sangue dentro do cérebro dela parecia circular em uma velocidade descomunal. – A Tomoyo não faria nada de mal com a Sakura… então eu posso concluir que…

– … Ela deu uma bela de uma surpresa nela! Ai! – A Meiling terminou a conclusão da Naoko, e eu tratava de interromper ela com um beliscão daqueles no bumbum! – Doeu viu! – Ela ficou esfregando a mão na poupança olhando feio pra mim, eu só rachava de rir com ela.

– Elementar minha cara Meiling! – Falou a Sherlock Holmes, andando na minha direção – E o que podemos achar que surpresa foi? – Ela se encostou na mesa, apoiando as duas mãos na beirada, na minha frente.

– Pode ter sido um susto, uma frase no ouvido… – A Rika levou o peixa pra panela.

– Ela pode ter imitado um fantasma, a Sakura odeia fantasmas – Disse a Chiharu, mexendo no molho com a colher da Naoko.

– Pode ter sido uma birra de nada, uma "frescurazinha" qualquer… – Disse a Akane, dando um sorriso irônico.

– … uma mão boba nos países baixos, um beijo… – A Meiling terminou de me encrencar e queimar o meu filme! Se não era a Sakura era ela. Desci um beliscão nela no mesmo lugar. Fechei os olhos, a cara e dei, Ela subiu na ponta dos pés, fechando os olhos e gritando de dor. – Ai! Sua malvada! – Ela olhou pra mim com raiva, como se fosse uma criança levando bronca da mãe.

Torturar é um prazer, mas também é desumano. Ver a Meiling sofrendo com meu beliscão me fez sentir uma satisfação grande por dentro. Me lembrar que ela era minha amiga e que ela era muito bondosa e perdoadora me fez sentir culpada depois. A gente faz as coisas erradas pra depois se arrepender, típico de qualquer um! A conversa tomou um rumo acelerado:

– Mão boba? – Chiharu.

– Países baixos? – Rika.

Beijo? – Akane.

– Duas meninas se beijando! – A Naoko fez uma cara de espanto tão grande, mas tão grande que eu me arrependi mesmo de beliscar a Meiling. Valeu a pena viver pra ver a cara dela. Ela colocou as duas mãos na boa como se aquilo fosse a última coisa no planeta que teria imaginado, justo ela que imagina demais…

– É gente, vocês nunca viram não? – Eu só sorria, com o coração pulando no peito, me entregando, por fim, aquela brincadeira toda. – Suas homofóbicas! Vocês leem tanto mangá yaoi e ficam me condenando é? Vamos colocar o podre de cada uma aqui na mesa então. – Eu bati as duas mãos na mesa sentindo um leve ardor com isso. Se era pra lavar roupa suja como a Meiling queria, a gente ia lavar naquela casa.

– Tomoyo, era só uma brincadeira! – Chiharu.

– Tomoyo, esquece isso, não leva pro pessoal não! – Rika.

– Vocês estão com medo não é? Suas pervertidas, vão me pagar! – Eu disse. Era delicioso estar no controle da situação e virar o placar do jogo ao meu favor.

– Tomoyo, me desculpa vai? Eu não falo mais isso… – A Meiling fazia cara de cachorro pidão. Só por conta daquela cara eu desisti de falar o que eu ia falar.

– Mas Tomoyo; você beijou a Sakura? Na boca? Não que eu seja homofóbica ou coisa do tipo, mas… mas… ver nos mangás e uma coisa, ter na nossa família é outra… – A Naoko olhava cabisbaixa pro chão, deslizando a ponta dos chinelos no piso. Ela sentia um pouco de culpa, não pela minha opinião, mas por pensar que na nossa roda de amigas podia acontecer uma coisa assim. Justo ela, a mais imaginativa de nós! Foi então que a Sakura apareceu, depois de tanta barulheira com o nome dela:

– O que cês tão falando aí, hein gente? – Falava o meu anjinho, com a cara fechada do soninho que acabou de acordar…

Você ouviu Sakura? – Naoko, colocando as duas mãos na boca.

Eu só ouvi vocês falando meu nome… o que vocês estavam falando de mim? – Perguntou Sakura. Ela fez uma cara de irritação pra gente, como estivesse sentindo dor de cabeça. Todas nós ficamos caladas. A cozinha parecia que havia feito um velório silencioso para o assunto que a gente tava falando. Era como se todas nós estivéssemos combinado por telepatia pra não tocar mais no assunto da sexualidade da Sakura e da minha, não na frente dela, nem da minha. Todo mundo concordou em ficar caladinha e não tocar mais no assunto. Pra não irritar a Sakura, que tanto foi perseguida por "forças do além" como a Naoko mesmo dizia. Pra não me irritar, justo eu quem deveria ser a homenageada daquele fim de semana. A Sakura precisou aparecer e fazer aquela cara pra que a gente percebesse que a gente mesmo estava estragando nosso fim de semana com aquelas perguntas banais, com aqueles julgamentos banais. Ninguém ali era juiz dos sentimentos de ninguém. Nem dos meus, nem dos da Sakura. A gente se entenderia, uma hora ou outra. Foi isso que aconteceu:

– Nada Sakura, eu apenas tava falando com as meninas aqui que parece que você tá amaldiçoada Sakura! – Dizia a Naoko, suando um pouco nas extremidades da testa, inventando uma mentira na mesma velocidade dos sons das suas palavras. A Naoko era genial quando queria e uma completa idiota quando abria a boca.

– Como assim amaldiçoada? – Perguntou a Sakura. O semblante da Sakura mudou de uma cara de irritação para uma de dúvida. Os olhinhos dela se estreitavam com a ajuda das pálpebras, enquanto aquela boquinha que eu tanto amo era puxada pelos cantos na direção da bochecha. A Sakura não gostava de ser citada, não daquela forma. Ela sabia, com aqueles poderes dela, a natureza da nossa conversa, mas tudo ficou no inconsciente dela, vriando dúvida na sua consciência.

– E que… Sakura, parecia que um fantasma tinha te possuído no trem! – A Naoko ajeitou os óculos e se aproximou da Sakura com passos lentos, erguendo os braços, deixando as mãos amolecidas, tentando imitar um fantasma, sabendo exatamente como assustar ela.

– E tinha puxado seu pé no rio… – Disse a Rika.

– E tinha entrando no corpo da Tomoyo quando ela pulou no rio! – Disse a Meiling.

A conversa acelerou na cozinha, a Sakura percebeu que todo mundo tava animada. Não sei por que, mas tocar no meu nome fez com que a Sakura despertasse de vez… pra nós. A Sakura ficou séria, sentiu o cheiro da comida, mas não ficou triste por não ajudar como tinha ficado na hora do churrasco. E nem nos ajudou em nada naquela tarde. Ela ficou naquele quarto por um simples capricho dela, como ela mesma me admitiu depois. Ela estava misteriosamente séria naquela tarde, não alterou sequer o tom e a fisionomia mesmo fazendo piada com a gente, mas entrou na brincadeira também:

– E entrou no seu corpo também Meiling, não vi ninguém chegar aonde eu tava com tanta rapidez. – A gente riu. A Meiling era um poço de risadas infinito, que a gente explorava a vontade. Ela mesmo fazia a gente rir, não com um humor artificial e forçado, mas com a naturalidade dos seus atos afobados ela era naturalmente engraçada. E alegre. Uma alegria que permitia a ela não se abalar com nada desse mundo, que só se refinava com o passar do tempo.

– E você Naoko? Eu tou sabendo que tem um fantasminha debaixo da sua cama que fica te cobrando histórias assustadoras toda noite senão ele vai puxar seu pé! – Não teve jeito, a gente riu mais do que com a Meiling e ficamos zombando da Naoko: "um dia era da caça e outro do caçador", justo ela que assustava tanto a Sakura! A Naoko ficou vermelha, querendo esconder a cara na terra. A Sakura estava sarcástica como eu nunca tinha visto ela. E nem queria entender tão cedo.

– Sakura, a gente tá fazendo a comida, se você quiser esperar, fazer alguma coisa, fica a vontade amiga! – A Rika sorriu pra Sakura. O sorriso é um dos melhores remédios contra a acidez. Mesmo assim a Sakura quis fazer piada com a Rika, ficou falando "hum", "hum", mas não dizia nada. Falar da Rika era sensível demais, ela não merecia isso…

– Hum… – A Sakura continuou – Hum… – Ela destampa uma das panelas e sente o cheiro do tempero do peixe da Rika ao mesmo tempo que o vapor da panela sobre pro ar. – Hum… tá bom mesmo Rika! Fiquei com fominha depois disso… – Ela torna a tampar a panela de novo, alisando a barriguinha dela com movimentos circulares feitos pela palma da mão, passando a ponta da língua pelos lábios ressecados. A Sakura sentiu fome quando cheirou o peixe e ouvimos a barriga dela roncar. Ela deu um sorriso forçado que não combinava com aquela cara séria que ela fazia. Nem a Sakura suportou seu próprio sorriso forçado. Isso não combina com ela de jeito nenhum. Saiu da cozinha e só falou pra gente, de costas, andando pra mesa que ficava perto da churrasqueira: – Eu vou esperar aqui tá?

Sentou-se no banco e ficou contemplando o horizonte, as joaninhas que pousavam no dedo dela, as formigas que caminhavam pela mesa buscando migalhas. Se permitia fechar os olhos, respirar fundo o ar do campo, degustar o cheiro das flores, ouvir o cantarolar dos pássaros que voavam acima dela. Eu fui até a porta e só fiquei olhando pra ela. Ela não mudou a expressão séria. Quando percebeu que eu tava olhando ela, ela ficou olhando pra mim por um tempo, com a cabeça em cima dos braços cruzados. Olhou pra mim como achasse que eu tinha a resposta de uma pergunta que ela se fazia há muito tempo. Estreitou um pouco os olhinhos dela pra mim, querendo fechar eles, abriu um pouco os lábios dela, puxando um pouco de ar, querendo falar alguma coisa, perguntar alguma coisa. Eu tentei fazer a mesma coisa, tentei chamar por ela, mas ela virou o rosto quando eu ia falar e não olhou mais pra mim.

Eu me sentia imensamente mal com aquilo, fiz uma cara de tristeza daquelas, e, por um momento, me arrependi um pouco de beijar ela. Me arrepender de beijar, tocar e excitar aquela deusa era loucura. Eu nunca me arrependi, eu só me arrependi de não ter ido a "fundo" naquilo. Mais loucura ainda era eu ver a Sakura séria e não poder fazer nada por ela. A Sakura fica séria daquele jeito quando alguma coisa angustiava ela, quando ela se depara com uma situação que ela se sente culpada por ter causado, de alguma forma, e não é capaz de resolver. Nem com as cartas. Eu sempre tentava ajudar ela asair daquela tristeza. Sakura séria sem ficar triste era estranho, ela sempre chorava, mas ela não queria chorar, eu não via isso no rosto dela. Ela só queria… me perguntar e nada mais. Conhecer a Sakura como eu conheço ela sempre foi uma vantagem pra mim, eu sempre conseguia me antecipar. Agora eu estava de pés e mãos atadas. A Sakura não ia querer a minha ajuda. Nem a da Rika. Não tinha o que ajudar. Eu tinha que me ajudar a me explicar com ela, de alguma forma. Ela me dominou, completamente.

– Itadakimasu! – Todo mundo disse.

Ninguém ousou falar com a Sakura a fundo. Nem ela com a gente. A comida foi servida e ela comeu. Saber o que ela tava pensando era nossa maior dúvida. Mesmo com a gente tentando conversar com ela, pedir a opinião dela, puxar assunto, colocar ela na conversa ela só dava respostas lacônicas, breves, monossilábicas. A Akane percebeu isso, e quebrou o gelo da Sakura de vez, com uma impecável elegância e simplicidade intelectual que me admirou:

– Sakura, o gato comeu sua língua foi? – A gente quis rir com isso. Mas, pela primeira vez, ela dava um meio sorriso de verdade. A gente se alegrava.

– Não é nada não Akane-chan, mas é que… mas é que… – Ela pegavas as fatias de peixe com os hashis e levava à boca – Eu tou entendendo aos poucos, mas bem aos pouquinhos mesmo, como as coisas funcionam Akane-chan! – Ela olhou pra mim séria, eu arregalei os olhos com a seriedade com que ela me olhou. Senti que com aquele olhar, ela estava começando a penetrar no interior da minha alma. Elaprosseguiu mastigando mais um pedaço de peixe, como se naquele mastigar ela estivesse mastigando, desintegrando meu coração, meus beijos… degustando, analisando lentamente o sabor que eles tinham; percebendo, por fim, de que material eles eram feitos. A Sakura nunca foi brilhante, mas tenho que admitir, ela tava no caminho certo pra me entender. Eu tentei ganhar na "burrice" dela e eu vacilei, achando que eu nunca ia ser descoberta, que ela nunca ia perceber… só depois que eu percebi que ela tentou entendeu tudo, da maneira dela, sem se aprofundar, mas me entendeu…