O capítulo é pequeno, mas peço que comentem mesmo assim.

Capítulo 20

Estava parada no alpendre quando percebi que não tinha as chaves. Ontem à noite Edward tinha me tirado de casa tão rápido que nem sequer tinha podido pegar minha bolsa. Assim, vi a mim mesma batendo na minha própria porta, esperando que papai estivesse acordado para me deixar entrar.

Temendo, me assustando, lembrando.

Dei um passo para trás quando a maçaneta girou e a porta se abriu. Lá estava papai, com os olhos vermelhos e com círculos profundos atrás de seus óculos. Ele parecia realmente pálido, como se tivesse estado doente e podia ver que sua mão tremia na maçaneta da porta.

— Bella.

Ele não cheirava a uísque.

Deixei sair o ar que não sabia que estava contendo, — Oi, pai. Eu, hum, deixei as chaves ontem à noite, então...

Ele se moveu lentamente para frente, como se tivesse medo que eu fosse sair correndo. Logo envolveu seus braços ao meu redor, me apertando contra seu peito e enterrando a sua cabeça em meu cabelo. Nós ficamos assim juntos durante um bom tempo e quando ele finalmente falou, percebi que as palavras saíram como soluços. — Eu sinto tanto.

— Eu sei, — murmurei em sua camiseta.

E eu também estava chorando.

Papai e eu conversamos muito mais nesse dia do que tínhamos falado em dezessete anos. Não é que não fossemos unidos antes. É só que nenhum dos dois era muito expressivo. Não compartilhávamos pensamentos ou sentimentos ou fazíamos essa classe de coisas que as pessoas dizem que é importante nesses anúncios de serviço público que se vê na Nickelodeon. Quando jantávamos juntos, sempre fazíamos na frente da televisão e não tinha maneira que qualquer um dos dois interrompesse o programa com alguma conversação idiota. Assim é como éramos.

Mas nesse dia conversamos.

Falamos sobre seu trabalho.

Falamos sobre as minhas notas.

Falamos sobre mamãe.

— Ela realmente não vai voltar, não é? — Papai tirou os óculos e esfregou o rosto com ambas as mãos. Estávamos sentados no sofá. Pela primeira vez, a televisão estava desligada. Nossas vozes eram as únicas que se ouviam na sala. Era um bom tipo de meio silêncio, mas ainda assustador ao mesmo tempo.

— Não, papai, — eu disse, tentando pegar a sua mão corajosamente. — Ela não vai. Esse simplesmente não é mais o lugar certo para ela.

Ele assentiu. — Eu sei. Sabia há um tempo que ela já não estava feliz... talvez inclusive antes que ela soubesse. Só esperava...

— Que ela mudasse de ideia? — Eu sugeri. — Eu acho que ela queria. É por isso que ela continuava indo e voltando, sabe? Ela não queria encarar a verdade. Ela não queria admitir que queria um... — fiz uma pausa antes de dizer a seguinte palavra — divórcio.

Divórcio soava tão definitivo. Mais que uma briga. Mais que uma separação ou um comprido giro de conferências. Significava que seu matrimônio, sua vida juntos, estava realmente e verdadeiramente acabado.

— Bom, — ele suspirou, apertando a minha mão também. — Acho que nós dois seguimos caminhos diferentes.

— O que quer dizer?

Papai sacudiu a cabeça. — Sua mãe pegou um Mustang e eu uma garrafa de uísque. — Ele colocou de volta os óculos e os ajustou, era um hábito inconsciente, ele sempre fazia isso quando tentava demonstrar alguma coisa. — Estava tão devastado pelo que sua mãe me fez que esqueci quão terrível é beber. Esqueci de ver o lado bom.

— Pai, — eu disse. — Não acho que tenha um lado bom em um divórcio. Tudo o que tem algo que ver com um, é horrível.

Ele assentiu. — Talvez seja verdade, mas tem muitos lados bons em minha vida. Tenho um trabalho que gosto, uma bonita casa em uma boa vizinhança e uma filha maravilhosa.

Revirei os olhos. — Oh Deus, — eu murmurei. — Não me venha com o filme da sua vida. Sério.

— Desculpe, — ele disse, sorrindo. — Mas falo sério. Tem muita gente que mataria por minha vida, mas nem sequer tinha me dado conta. Não dei valor a isso, e a você. Sinto muito, muito por isso, Abelhinha.

Quis afastar o olhar quando vi as lágrimas brilhando em seus olhos, mas me obriguei a seguir olhando. Estava evitando a verdade durante muito tempo.

Ele se desculpou muitas vezes por tudo o que tinha acontecido durante as últimas semanas. Ele me prometeu começar a ir semanalmente às reuniões dos Alcoólicos Anônimos de novo, tentar ficar sóbrio outra vez e chamar o seu padrinho. Depois esvaziamos juntos todas as garrafas de uísque e cerveja pelo ralo, ambos estávamos ansiosos por começar de novo.

— Sua cabeça está bem? — ele perguntou um milhão de vezes naquele dia.

— Está bem, — eu continuei respondendo.

Ele sempre sacudia a cabeça e murmurava mais desculpas por ter me esbofeteado. Por me ter dito o que disse. Depois me abraçou.

Sério, um monte de vezes nesse dia.

Quase meia noite, o acompanhei em seu ritual noturno de apagar as luzes. — Abelhinha, — ele disse quando apagou a luz da cozinha. — Quero que você agradeça ao seu amigo na próxima vez que o veja.

— Meu amigo?

— Sim. O garoto que estava contigo ontem à noite. Como se chama?

— Edward, — eu murmurei.

— Certo, — disse papai. — Bom, eu mereci. Ele foi valente para fazer o que fez. Não sei o que tem entre vocês, mas estou feliz que tenha um amigo que esteja disposto a te defender. Então por favor, agradeça a ele.

— Claro. — Dei a volta e subi as escadas para ir ao meu quarto, rogando para chegar rapidamente.

— Mas, Bella? — Ele fez uma careta e esfregou o queixo. — Na próxima vez diga que ele é livre para escrever uma carta me insultando primeiro. Tem um braço muito forte aquele garoto.

Sorri apesar de mim mesma. — Não haverá outra vez, — eu disse, dando os últimos passos para entrar no meu quarto.

Meus pais já estavam encarando a realidade, deixando atrás aquilo que os distraía. Agora era minha vez, e isso significava deixar o Edward. Desafortunadamente, não tinha reuniões semanais, não teria tutores, nem um programa de doze passos para o que eu tinha me viciado.

Hoje, infelizmente, não vou poder responder os reviews devido à falta de tempo, mas agradeço a MandaTaishoCullen, Nina Martins. 19, Jesstew, kiaraa por terem reservado um tempinho para escrever um review.

O capítulo de amanhã é sobre o encontro da Bella com uma certa pessoa que ela está de olho faz tempo. Não percam! Beijos e até amanhã.